Novidades

4 de novembro de 2016

Metalhead

Olá queridos leitores (isso mesmo, vocês 4 aí no fundo), embora tenha dado minhas costumeiras sumidas, resolvi aparecer hoje pra falar de algo que não escrevo muito, mas acabei animando em postar sobre depois de reassistir um filme que conheci recentemente mas já figura entre meus favoritos: Metalhead (ou Málmhaus, se você tiver a mínima ideia de como se pronuncia isso).

Metalhead é um filme islandês de 2013, dirigido por Ragnar Bragason, e lançado ao grande público no Festival Internacional de Cinema de Toronto do mesmo ano e…

… CARALHO ACABEI DE DESCOBRIR FUÇANDO NO IMDB QUE O TÍTULO BRASILEIRO FICOU “MUDANDO O DESTINO”, PUTA MERDA!! (mas voltando…)
O enredo gira em torno de Hera, filha de agricultores em uma região rural da Islândia, que logo nos primeiros minutos é marcada por presenciar uma tragédia que acaba resultando na morte de seu irmão Baldur. A garota passa então a utilizar as roupas do irmão, e, ouvindo seus discos, encontra na música um refúgio. A trama acontece anos após o incidente, mostrando as consequências disso nas personagens, e como cada uma delas aprendeu a lidar com a dor.

Conheci a obra através de uma indicação do João e do Mordente em uma das leituras de e-mail do Decrépitos e devo ter tido a mesma reação que muitos: “um filme sobre metal trevoso do mal? Bora ver qual é”. Foi apenas depois de ver o trailer que percebi que algo bem maior me esperava, e essa é uma das qualidades de Metalhead: ele não é diretamente sobre a música, mas sim sobre como pessoas aprendem a lidar com traumas, e como a música pode ser o canalisador para uma série de sentimentos que parecem não ter lugar em nossa vida social.

E é claro que um filme desses teria que caprichar na sua trilha sonora, contando com uma seleção de clássico escolhidos a dedo, indo de Judas Priest a Diamond Head. Mas o que surpreende mesmo é a trilha original, composta por Pétur Ben. Sinistra, sufocante e magistralmente editada de forma a dar dimensão ainda mais profunda às cenas, em um misto de teclados, cânticos e sons ambientais capazes de arrepiar qualquer fã de black metal. Existem ainda músicas originais muito bem executadas, e dá aquela vontade de ouvir um pouquinho mais ao fim da película.

Ainda que não tenha um grande orçamento, Metalhead também impressiona na parte visual. As locações rurais são belas, o clima frio e iluminação escassa ajudam a expressar a situação vivida pelas personagens, tudo isso potencializado por uma ótima fotografia.
A jornada destrutiva de Hera enquanto protagonista é repleta de momentos marcantes. O diretor apresenta um ângulo diferente do estereótipo padrão do fã de metal, e realça isso através das relações adjacentes com outras personagens, especialmente seus pais, seu amigo de infância, e o novo padre, recém-instalado no vilarejo. 

Existe grande sensibilidade ao tocar em assuntos complicados, inclusive não virando a cara para tabus como a natureza sombria das letras e até mesmo a queima de igrejas que ocorreu em países nórdicos na década de 90. Tudo isso se concretiza em uma figura trágica, porém dotada de uma força latente e desconhecida por aqueles a sua volta, em sua busca por identidade e reconhecimento. A tarefa de representar todos esses conflitos ficou a cargo de Thora Bjorg Helga, que entrega um ótima atuação no papel principal.
E mesmo quando nos momentos finais a personagem parece seguir um rumo um pouco arrastado e não tão interessante, Metalhead conseguiu me surpreender mais uma vez, e em uma virada brusca, consegue entregar seu espetacular encerramento. A cena final é de uma catarse tão anárquica, mas que sincretiza uma mensagem bela e inesperada que deixará até o mais bruto espectador com um sorrisinho bobo no rosto.

Metalhead é um filme único em seu nicho. Ilustrando com mente tão aberta temas negligenciados pelo cinema, mas ainda assim com grande potencial narrativo. Recomendo ele para qualquer fã de metal extremo disposto a apreciar esse olhar diferenciado sobre o gênero, e para qualquer um que esteja apenas afim de curtir um bom filme; afinal, a maior lição é que também é possível encontrar beleza e paz nas trevas.

Atos Finais