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26 de outubro de 2016

Doutor Estranho - A resenha

 Magia, da forma que conhecemos e nos foi apresentada após anos e anos de fantasia na cultura pop, sempre se caracterizou pela transformação. Ela altera a realidade como conhecemos, torcendo nossas regras a seu bel-prazer e tornando as propriedades do mundo em seus opostos em um piscar de olhos.

 E, o mais surpreendente até agora, ela fez um filme como Doutor Estranho começar muito bem, mexeu sua varinha para virar um filme esquecível e, no metafórico toque de mágica, fez ele voltar aos trilhos em um piscar de olhos.


 Antes de mais nada, gostaria de dizer que, sim, Doutor Estranho é um filme muito bom. Ele começa muito melhor do que é, inclusive, com a apresentação de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) interpretando o filho bastardo de Tony Stark e o Doutor House. Ele age como um belo exemplar de cirurgião egocêntrico com sua ex-amante, Christine Palmer (Rachel McAdams) até que acaba envolvido num acidente de carro, perdendo a habilidade com as mãos. Sua busca por um tratamento o leva para o oriente, onde será treinado por Mordo (Chiwetel Ejiofor) e pela Anciã (Tilda Swinton) para aprender as artes místicas e talvez se recuperar, enquanto que Kaecilius (Mads Mikeelsen), um ex-estudante rebelde da Anciã, age nas sombras para ameaçar a Terra e blá blá blá.

 Durante toda essa parte inicial, vemos um filme soturno e sarcástico, com poucas piadas e mais pé-no-chão que a maior parte dos filmes da Marvel, evitando clichês e trabalhando bem a psiquê dos seus personagens. Claro, temos os erros de inconsistência que infelizmente estão se tornando padrão nos filmes de heróis (alguém desaprendeu a editar?), mas ele é extremamente interessante nessa primeira hora. Ele foge da fórmula que o estúdio já bebeu incontáveis vezes, tanto que parece até desconexo do restante do universo Marvel.

 E de repente Thor 2 é invocado. O filme lentamente vai dando sinais de uma Marvelização de sua estrutura, e isso estoura numa cena de luta de 20 minutos, repleta de gags visuais, piadas no meio das batalhas e uma capa que parece irmã do tapete mágico do Alladin. Ele não é necessariamente ruim nisso, mas é tão destoante do restante da obra que causa desconforto, como se outro diretor tivesse tomado o controle enquanto Scott Derrickson tomava um café. 

 E, mais surpreendente ainda, após o fim da luta o filme volta a seu clima original. É bizarro, e pior, isso quebra um pouco do encanto, pois cada piada a partir dali parece forçada, fora do lugar. Pensei numa maneira de descrever isso, e consegui vir com um carro dirigindo numa auto-estrada. Ele está indo muito bem, obrigado, até que sai da pista para um atalho de terra. O motorista percebe que aquilo não faz muito sentido e coloca o carro de volta em seu rumo, mas a cada virada do volante para um dos lados, os passageiros ficam temendo que ele volte ao atalho.


 Já uma coisa que sabe usar muito bem seu ritmo é a magia. Eu achava que nunca mais seria surpreendido com computação gráfica em filmes, mas fico feliz em estar errado. A magia em Doutor Estranho é uma viagem de LSD sem freios, com mãozinhas crescendo em mãozinhas que crescem em mãozinhas até olhos abertos e descascados para entrarem no vazio e continuar o clipe do Pink Floyd. Por mais que as batalhas normalmente envolvam os mesmos efeitos do início ao fim, o ambiente ao redor se altera em caleidoscópios de todas as camadas, se despedaçando e se unindo sem regras.

 A magia é tão surpreendente que tira até mesmo o brilho dos atores, embora eles não estejam de maneira nenhuma ruins. Quer dizer, Mikeelsen é qualquer coisa com seu Kaelicius, mas Tilda Swinton trabalha muito bem com as cenas que possuem, e Rachel McAdams é uma coadjuvante adorável, mesmo que seu papel na história não seja relevante. Já Cumberbatch está bem confortável no papel de Estranho, mas sofre na já mencionada parte Marvel do filme, onde até ele não parece entender o que está acontecendo.

 Contudo, o desenvolvimento de Strange é interessante, pois foge algumas vezes do lugar comum e das armadilhas dos clichês, resolvendo pendências batidas de maneira ágil e unindo o papel de herói ao papel de médico, recusando-se a tomar vidas em batalha (embora meio que tenha matado Kaelicius). Já Mordo merece um destaque, pois ele parece um Sinestro que deu certo. Suas convicções são apresentadas durante o filme, sua virada faz sentido e, acima de tudo, ele não parece um conspirador nazista até a segunda cena pós-crédito. Ele poderia ter sido mais explorado, mas também não pareceu jogado como o Wong.


 Por fim, Doutor Estranho é um excelente filme quando foge do estilo Marvel, justamente por adotar uma postura que destoa quando o filme cai momentaneamente em sua barriga. Unido com efeitos especiais de primeira e atores carismáticos, ele não vai revolucionar a roda ou algo parecido, mas apresentar uma faceta diferente de um universo que, agora mais do que nunca, precisa de alternativas à sua fórmula.

 Sorte que ele cai no estilo Marvel por pouco tempo.


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