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10 de agosto de 2016

Contos de Gaea: Rosa e Violeta



 - Ei, Violet! - Chamou uma voz distante. Violet levantou a cabeça, piscando os olhos verdes. Estava sentada em um banco sem encosto, suas asas translúcidas penduradas adormecidas e um casaco grosso cobrindo o resto do corpo naquele dia frio de inverno. A estação de trem ao redor estava quase vazia, sem nenhum colosso de metal cuspindo vapor processado por perto ou pedestre querendo saber como chegar a um dos hotéis de Beccit. Havia apenas uma fada de catorze anos, de curtos cabelos rosa que abraçavam a cabeça como um capacete.

 Quer dizer, ela e a amiga. - Anda logo! Tem um trem vindo lá longe! - Era Eva, uma outra fada que a acompanhava nas ruas, um pouco mais gordinha e um pouco mais velha. Violet suspirou e correu atrás dela, vendo o maquinário negro se aproximar à distância. As duas se posicionaram na plataforma de desembarque e aguardaram, ansiosas. Não trocaram palavras, mas mesmo se trocassem não seriam escutadas pelo som gritante dos vagões se deslocando.

 Assim que o trem parou, uma grande quantidade de pessoas saiu dele, se misturando em um turbilhão de ternos, cartolas e vestidos. Eva disparou à frente, mas Violet ficou esperando. Observou assustada os elfos e humanos se empurrando e caminhando apressados, até que viu uma fada com um belo vestido vermelho.

 - Moça! - Chamou desviando das pernas e se aproximando. - Moça! - Ela tinha um belo penteado curvilíneo e castanho, e encarava distraía e irritada a multidão ao redor. - Tem algum dinheiro, por favor? - Pediu Violet, estendendo a mão.

 A fada mais velha sequer a ouviu, passando por ela e se misturando novamente á multidão. Violet sentiu o estômago roncar, e pequenas lágrimas chegaram aos seus olhos. - Moça! - Gritou mais uma vez, sabendo que a melhor chance de esmola que tinha era com uma companheira de espécie. Correu para alcançá-la, se infiltrando entre os adultos. - Ei!

 - Não empurra! - Reclamou um elfo, dando-lhe um safanão sem a ver. Violet caiu com o tapa no rosto, e alguém pisou em sua asa.

 - Ai! - Gritou, rolando para ficar de barriga para cima e proteger os membros frágeis. - Por favor, minhas asas! Por favor! - Ninguém a escutava, e muitos acabavam tropeçando nela e a xingando. A pequena fada tentou se proteger da multidão que ameaçava a pisotear, todos altos o suficiente para cobrir a luz e mergulhá-la em um caos escuro, barulhento e doloroso. Violet tomou um chute na cabeça e chorou, mas o mundo continuou a esmurrando até que...

 Nada. Ela soluçou e continuou abraçada ao corpo, até que uma mão passou por seus cabelos. - Ei. - Abriu os olhos. Era Eva. - Tudo bem com você.

 Violet choramingou, fazendo que sim com a cabeça. Aceitou a ajuda para se levantar e passou a mão pelas asas. Uma delas estava amassada, mas viveria para contar a história outro dia. Contudo, isso não apagou o desespero que ainda a abraçava. A fada foi até o banco mais próximo e sentou-se, juntando as mãos entre as coxas e tentando esquecer do que havia acabado de acontecer.

 Estava concentrada nisso quando viu uma carteira de couro ser balançada em frente ao seu nariz. - Olha o que eu pegueeei. - Cantarolou Eva.

 - Eva! - Guinchou Violet, olhando incrédula para a companheira. - Você prometeu que não ia mais fazer isso! 

 - E daí? Foi de um elfo, tanto faz. - Comentou distraída a outra, vasculhando o interior da carteira. Tirou de lá três notas azuis e encarou-as fascinada. - Olha só! Vamos comer por semanas!

 - Eva, isso não é legal! - Adiantou-se Violet, estendendo a mão na direção da carteira. - Temos que devolver à polícia e rezar para que...

 - Ei, ei, ei! - Interviu Eva, puxando o objeto roubado para junto de si. - Vai se ferrar, tira a mão!

 - Mas... - Lágrimas voltaram aos olhos da fada enquanto ela olhava temerosa ao redor. - Não é certo!

 - Foda-se que não é certo! - Praguejou a companheira em um ato que contrastou completamente com sua fisionomia delicada. - Não tem ninguém fazendo o certo nessa cidade! Alguém te deu dinheiro? Te ajudou? As pessoas te atropelaram e não fizeram nada!

 - Eu sei, mas...

 - Vai cuidar da sua asa e sai daqui antes que eu te dê um soco! - Ameaçou Eva com a mão levantada, e Violet correu para se afastar. Saiu da plataforma e olhou para trás, vendo que a companheira já estava se deslocando para acompanhar o próximo trem que vinha chegando. Violet abaixou a cabeça e controlou o choro, caminhando cabisbaixa até alcançar um canto afastado da estação, próximo de um cano de vapor vazado que usava às vezes para se aquecer durante o sono. Sentou-se perto dele e puxou o casaco puído, pensando no que Eva tinha dito. Não tem ninguém fazendo o certo nessa cidade.

 Ela continuou nisso até ouvir um alvoroço. Levantou a cabeça esperando ver Eva, mas encontrou três reptilianos sendo acuados por um elfo. 

 - P-por favor, senhor. N-não fui... - Ele tomou um soco na boca de crocodilo, caindo no chão. As crianças atrás deles gritaram, e Violet levou as mãos à boca. 

 - Tudo bem, calango. Devolve minha carteira e seus filhos não precisam me ver te espancando. - Comentou o elfo, estalando os dedos do punho.

 - E-eu não te roubei, sen... - Um chute no estômago lhe tirou o ar, e as crianças gritaram de novo. Violet ficou paralisada assistindo à cena, seus grandes olhos verdes vidrados. Era uma espectadora invisível.

 - Vou acreditar mesmo que um calango como você passou a viagem inteiro ao meu lado e não tentou me assaltar. Boa sorte. - Ele se preparava para avançar de novo, mas uma das crianças se pôs entre o pai e o elfo, abrindo os braços. O pequeno reptiliano tremia, com os braços estendidos e a crina em tons de vermelho, amarelo e verde se agitando.

 O elfo estancou por um segundo, até que um sorriso veio aos lábios. - Ah, criança. Hoje você se meteu na frente do elfo errado. - Ele preparou o soco, e o reptiliano fechou os olhos. Violet se encolheu, esperando o som do murro, mas ele não veio. 

 Uma mão morena segurava o braço do elfo, pertencente à uma humana de cabelos curtos e ondulados e um uniforme azul de policial cobrindo o corpo. - O que está acontecendo aqui? - Perguntou, mas o elfo, sem nem a enxergar direito, desferiu uma cotovelada em seu rosto. Violet gritou e a humana cambaleou, cuspindo um jorro de sangue. Ela olhou com fúria para cima, e o outro percebeu o que havia feito.

 - Ah, não... - Antes que dissesse algo a mais, a policial puxou seu braço para perto de si e girou, jogando o elfo por cima do corpo e o derrubando de costas no chão. Imediatamente o girou, prendendo seus braços e puxando uma algema do bolso com a mão livre.

 - Você está preso por tantas coisas que eu nem tenho como começar a contá-las. - Riu a humana, com o sangue brilhante ainda manchando os lábios. Ela levantou a cabeça e avistou Violet do outro lado, que continuava observando a cena vidrada. A fada notou que ela era jovem, talvez recém-chegada à idade adulta. E não disse nada. 

 A humana fez um gesto rápido com a cabeça e se virou para o pequeno reptiliano, que continuava paralisado com os braços abertos, defendendo o pai. Sorriu, e passou a mão pela crina dele.

 - Normalmente eu te daria um esporro, criança, mas você defendeu seu pai. Não posso reclamar de alguém que estava tentando fazer o certo.

 Fazer o certo.

 Foi a vez de Violet ficar paralisada, e não reagiu quando a policial ajudou o reptiliano a se levantar e levar o elfo, e continuou sem reagir por alguns minutos. Uma chama começou a queimar em seu peito, e ela apoiou as costas no cano de vapor, com os olhos ainda no lugar onde o sangue da humana havia sido derramado.

 O certo, pensou ela enquanto se aninhava.

Atos Finais