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quinta-feira, 2 de junho de 2016

O mundo heroico de Astro City

Os quadrinhos de super-herói são um gênero consolidado há quase um século de existência. Ainda assim, Kurt Busiek aceitou o desafio de mergulhar nesse mundo e buscar a resposta para a pergunta: o que mais existe dentro desse universo que ainda não foi explorado?



Depois das Eras de Ouro e Prata, a indústria de gibis viu-se em busca de novidade durante os anos 80. Seguindo a esteira dos clássicos Cavaleiro das Trevas e Watchmen, os criadores puseram-se a esmiuçar a figura do herói. Encontrar suas paranoias e obsessões, buscando o realismo das histórias.

Durante os anos 90 tivemos uma infeliz proliferação de personagens carrancudos e violentos; Moore e Miller viram suas dissecações do gênero apodrecerem enquanto a indústria se alimentava da carniça. Dentro desse panorama desanimador, Astro City resolveu seguir o caminho inverso.

“Estamos desmontando o super-herói há dez anos ou mais; é hora de remontá-lo e dar corda”, diz Kurt Busiek no prefácio da primeira edição.
A tarefa então deixa de ser trazer os heróis para o mundo e real e torna-se a de levar pessoas reais para esse universo onde a fantasia e o inimaginável são tão mundanos. É seguir aquele transeunte que apontou para cima e gritou “vejam lá no céu!”. Descobrir o que se passa na vida de alguém que ao pegar sua condução diária, presencia uma batalha entre o N-Força e o Escárgula logo acima de sua cabeça como algo corriqueiro.

Essa fábula tão ambiciosa surgiu das mentes de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross, além de toda uma equipe dedicada. Cito os três para além de suas funções como roteirista, desenhista e capista, respectivamente; pois fica claro no decorrer das edições o quanto esse universo é fruto de uma criação coletiva.

A cidade que dá nome a HQ é viva e orgânica, aos poucos vamos descobrindo mais sobre seus bairros, ruas e personagens que ali habitam. A maior parte das histórias são fechadas em apenas uma ou duas edições, portanto o leitor vai construindo aos poucos o quebra-cabeça de Astro City. Os super-heróis servem então como elemento de ligação, situando o tempo e local dos acontecimentos.
Todos os arquétipos que já conhecemos e estamos acostumados tem sua contraparte nesse mundo. O herói patriótico aqui é o Agente de Prata, temos a mitológica Vitória Alada, a Primeira Família que dispensa apresentações, o sombrio e calculista Confessor, e não poderia o semblante “superhomístico” do Samaritano. Esse correlacionamento imediato, aliado a narrativa de Busiek, estimula o leitor a completar as lacunas ainda não apresentadas. Nos pegamos a imaginar que aventuras essas figuras viveram durante sua jornada.

Vencedora de 12 Prêmios Eisner durante sua historiografia, toda edição reserva surpresas. Entre elas destaco propostas instigantes tais quais: "como o sistema jurídico seria afetado pelo simples fato de um transmorfo poder ter cometido o crime em seu lugar?" "O que acontece com um vilão ao finalmente executar o roubo perfeito?" "Como seria o serviço de atendimento telefônico dos super-heróis?" "Com o que sonha o herói mais poderoso do mundo ao deitar sua cabeça no travesseiro?"

Tudo isso e muito mais é respondido durante a leitura. A narrativa viaja do cidadão comum ao humano atrás de cada máscara, em uma fantástica jornada pelo dia-a-dia da cidade.
Publicada originalmente pela Image em 1995, já passou pelo selo Wildstorm e atualmente encontra-se na Vertigo, que lançou em 2013 a terceira série de Astro City (sem contar os spin-offs e mini-séries com nome diferenciado, como Local Heroes e The Dark Age).

No Brasil, já tivemos publicações de várias editoras, e desde o ano passado a Panini tem lançado os encadernados com boa regularidade. Até o momento foram publicados os 5 primeiros TPBs, e paralelamente, o atual da Vertigo, que corresponde ao 9º volume da série. Devido a não linearidade das histórias, estas são organizadas de forma que os volumes ímpares compilem edições mais avulsas e arcos curtos, enquanto os pares trazem um único arco maior focado em um personagem.

Além disso, a seção de extras é ótima. Podemos conferir o processo criativo do design dos heróis e vilões, das localidades e das belíssimas capas de Alex Ross. As edições possuem ainda prefácios de grandes nomes da indústria como Neil Gaiman, James Robinson e Frank Miller (que incrivelmente mostra-se caloroso e animado com a visão heroica de Kurt Busiek).

Esta obra é imperdível para qualquer fã de quadrinhos de super-herói. Um sopro de vida e novidade dentro de um gênero que aparentava desgaste, e se você ainda tem algum preconceito, vale a pena dar uma conferida; quem sabe você não mergulha junto nessas aventuras de gente comum da cidade grande?

BEM-VINDO A ASTRO CITY!

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