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24 de junho de 2016

A jornada do autor iniciante



Há uma jornada que separa o autor iniciante da tão sonhada publicação. Ela começa muitas vezes na infância, quando, sozinho, o menino cria suas próprias histórias, numa brincadeira. As primeiras pegadas no caminho são as tentativas de transpor as ideias para o papel. As pequenas trilhas viram estradas quando a produção se intensifica e, de repente, surge no horizonte aquele tão sonhado graal: o primeiro livro. O problema é que até ali você tem que passar pelo vale da conclusão do texto, pelo terreno pantanoso do feedback dos amigos, pelo deserto das críticas de estranhos e pela floresta sombria da rejeição. E, quando você acha que está quase chegando, se depara com o abismo da editora, que pode ou não ter uma ponte para atravessar. E mesmo quando há ponte ela pode ser feita de cordas puídas e romper sem que você chegue ao seu objetivo.



Matheus Forny, que lançou nesta sexta-feira (24 de junho) o seu primeiro romance Jornada – Estrada para Hopefall, conhece bem esses desafios. “Eu escrevia semanalmente Aurora no meu blog, mas nunca foi com um livro em mente. Era apenas uma aventura supostamente eterna, que eu usava para moldar o mundo que gostaria de escrever e reforçar meus hábitos literários. Quando eu decidi que escreveria um livro, fechei a história de Aurora e tentei vendê-la. Procurei por muito tempo uma editora, achei e fui rejeitado. Depois disso, decidi pensar em autopublicação”, conta ele.



A tal autopublicação nada mais é do que um deus ex-machina no meio da jornada. É um mago que aparece em qualquer ponto do caminho com a proposta: e se, em vez de andar tudo isso, eu te fizesse voar até seu objetivo? E, fala a verdade, essa jornada mudou muito nos últimos anos. O pântano foi aterrado, o deserto está arborizado e a floresta está melhor iluminada. O que não mudou foi o abismo, mas não precisamos tanto assim de sua ponte.


As editoras – essa tal ponte – têm um grande mérito. São empresas especializadas no mercado, que sabem dar o tratamento perfeito para os livros, fazer sua distribuição e divulgação. Mas nem todas as editoras. Algumas cobram pela publicação e simplesmente ignoram essa parte mais difícil que é fazer o livro chegar ao leitor e fazer com que o leitor saiba que o livro existe. E a maior parte dos autores sempre caiu nessa cilada e acabou com caixas de livros encalhadas em suas casas. A criação de novas ferramentas, contudo, fez esse jogo virar.


Hoje, o autor pode ser a própria editora. Seja com livros físicos ou digitais, ele pode se encarregar de editar, revisar, preparar capa, imprimir ou disponibilizar online e distribuir/divulgar sua obra. Os desafios são grandes, mas também é maior o controle que ele tem do processo. Esse é o meu caminho, é o caminho do Wes e também o caminho escolhido por Matheus Forny.


“Primeiro teve o baque de ‘estava quase lá mas as coisas deram errado’. Depois de um ano se esforçando, não é exatamente o tipo de coisa que se supera facilmente. Só que, como eu não acreditava que Aurora era meu melhor trabalho, especialmente enquanto tinha Jornada para efeito de comparação, pensar em fazer um trabalho melhor era quase um reconforto”, comenta Forny. “O maior problema foi ter que assumir grande parte das responsabilidades sozinho. Ou seja, entregar um livro sem um editor. Talvez por isso eu tenha pedido tanta ajuda durante o processo.”


Jornada – Estrada para Hopefall conta a história de três jovens: Dalan, Amanda e Sophie. Cada um por seu motivo – reconquistar a amada, recuperar uma relíquia de família, provar a si mesma que é capaz – eles entram em uma aventura com o objetivo de chegar à distante cidade de Hopefall. O problema é que o caminho reserva surpresas e perigos para os três. Como o próprio autor diz, é uma história sobre aceitação.


“Escrever este livro foi um porto seguro enquanto eu passava por muita merda. Jornada tem uma mensagem bastante importante, nem que seja apenas para mim. Foi um tratado de minha condição na época, e estou tão ligado a esse trabalho que sinto que dei o meu melhor. Tem bastante emoção em Jornada. Por causa disso, acho que foi a melhor coisa que já escrevi.”

 Arte do Mamilos


Realmente é possível ver que Forny se dedicou ao máximo para entregar uma obra de grande qualidade. A cada parágrafo, na escolha de palavras, fica claro o esmero do autor. O leitor é carregado por uma trama que mergulha nos sentimentos e no gestual dos três heróis e de seus coadjuvantes. Como não sofrer com seus dilemas? Como não se assustar com Lordred? Como não temer o Andarilho? Como não se contagiar com o espírito de grupo?


Jornada também é um livro frustrante – mas isso não é um ponto negativo. A cada capítulo, o narrador nos leva a criar expectativas. E quase todas são frustradas logo depois, tornando aquele caminho, aquela corrida contra o tempo, ainda mais aflitivo. Por mais que esteja mergulhado em clichês do gênero da fantasia (espere muitos orcs, elfos e pessoas com habilidades especiais) o livro foge de muitos lugares-comuns da trama.


E a história não acaba na última página. Segundo Forny, veremos muito mais desses personagens. “Como eu não sei esperar, já comecei a escrever a sequência de Estrada para Hopefall, chamada provisoriamente de As Profundezas do Labirinto. Após terminar a trilogia, já tenho um livro baseado no clima de Dark Souls e Bloodborne sendo trabalhado. Ou seja, podem esperar muito trabalho.”

Estamos esperando.

Atos Finais