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20 de maio de 2016

Uma Alice de cada lado do espelho



Lá pelos idos de 1998, a banda one-hit-wonder New Radicals lançou uma música chamada Someday we’ll know. Entre os muitos questionamentos sem resposta, a música perguntava o que aconteceu a Amelia Earhart, aviadora americana que desapareceu no Pacífico enquanto tentava cruzar o planeta; por que Sansão amava Dalila, a mulher que lhe traiu levando o herói bíblico a perder sua força descomunal; e se o capitão do Titanic chorou ao ver o navio afundando. Se eu fosse reescrever essa canção hoje, acrescentaria uma interrogação: por que diabos fizeram uma continuação de Alice no País das Maravilhas?



O primeiro filme dessa franquia, dirigido por Tim Burton e lançado em 2010, tinha um grande desequilíbrio entre forma e conteúdo. Se por um lado o design de produção era impressionante e o 3D era caprichado, por outro a história não empolgava. Era um filme corrido e sem emoção. Mas fez mais de US$ 1 bilhão em bilheteria ao redor do mundo.

Como é dinheiro o que move o mundo, não é estranho que Alice Através do Espelho chegue na próxima semana às salas de cinema. Tim Burton sede a cadeira de diretor para James Bobin e limita-se a atuar como produtor. Permaneciam nos papéis principais Mia Wasikowska (Alice), Johnny Depp (Chapeleiro Louco) e Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha), com a adição do sempre exagerado Sacha Baron Cohen (Tempo).


A trama parte mais ou menos de onde o último filme parou. Três anos depois de deixar o País das Maravilhas, Alice volta àquela realidade fantástica para ajudar seu amigão-do-peito-que-ela-só-viu-por-quinze-minutos Chapeleiro Louco. Para isso, ela precisa enfrentar a personificação do Tempo para reescrever a história. E é basicamente isso mesmo. Ao longo de seus 113 minutos, o filme vai e volta, vai e volta sem nunca, de fato, sair do lugar.

Se você é do tipo de nerd que reclama que a Marvel usa nomes de sagas dos quadrinhos para fazer filmes que não são adaptações dessas tramas, passe longe desse filme. O livro Alice Através do Espelho não está referenciado em nada desse longa-metragem homônimo. Se na história original ela se torna rainha daquele mundo, aqui parece que seu esforço é para voltar para sua vidinha mezzo-mundana mezzo-aventureira.

E se eu ficasse por aqui, minha nota seria:


Mas, ainda com o filme na tela, eu me perguntei: esse filme é para mim? E não é. É para crianças, em grande parte. Então me deixa avaliar pelos olhos de uma criança (ou de um adulto fingindo pensar como uma criança).

Alice Através do espalho tem personagens coloridos, caricatos e divertidos. Como não se encantar pela maldade inocente da Rainha Vermelha que tanto ladra e nada morde? Como não querer mergulhar em uma jornada impossível ao lado do louco Chapeleiro? Como não se deixar tocar por questões familiares (Alice, a mãe e a memória do pai; o Chapeleiro, seu pai e seus parentes; as duas rainhas irmãs)? Tem bichinhos, tem piadinhas, tem aventura, tem tensão. O eu de 10 anos adoraria.


E voltando ao foco de gente grande o filme tem um tremendo mérito: Alice é dona de seu nariz, não tem par romântico e é empoderada em pleno século XIX. Se isso não é um modelo para meninas em todo o mundo, eu não sei o que é.

No fim, Alice Através do Espelho é um filme fraco, mas de boas intenções. Eu não o assistiria novamente sozinho, mas se minha filha pedisse para gastar duas horas de seu tempo ao lado desses personagens eu sem dúvidas a encorajaria.


Ah, o Mamilos fez uma crítica bem bacana, que pode complementar essa. Vejam também!

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