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27 de maio de 2016

Um pouco de mundo real nos quadrinhos



Histórias em quadrinhos mexem com a nossa imaginação. Junto com nossos personagens preferidos, podemos voar, viajar, enfrentar grandes desafios. Podemos investigar o obscuro e nos colocar no lugar de diversos heróis. Mas as melhores histórias são aquelas que fincam nossos pés no chão.


Heartland é uma pequena pérola perdida dentro do encadernado Hellblazer Infernal 7. A história não tem nada a ver com Constantine e nem deveria estar ali, se não fosse por uma personagem: Kit (aqui Kathy, como a família a chama), talvez a mulher mais forte apresentada em toda a passagem de Garth Ennis pelo título. E a ligação para por ali.

Kit, que foi namorada de Constantine por um tempo e abandonou o mago picareta porque não queria conviver com toda a merda sobrenatural ligada a ele, volta para sua cidade natal – Belfast, na Irlanda do Norte – depois que eles se separam. É justamente lá que se passa a história, desenhada pelo chapa de Ennis, Steve Dillon.

Publicada em março de 1997 sob o selo da Vertigo, Heartland é uma história simples. Não tem magia, não tem um vilão maniqueísta, mas traz temas muito importantes, como o racismo e relações abusivas. Há outro assunto, porém, que me tocou pessoalmente e é sobre ele que eu gostaria de tratar. Não vou fazer uma tese, pois não tenho conhecimento (ou tempo) para isso, mas gostaria de mostrar porque essa obra é tão interessante.

Apesar de publicada em 1997, a história foi escrita em 1994, como o próprio autor explica em uma posfácio da edição. A situação da Irlanda do Norte naquela época era muito complicada. Havia uma tensão entre católicos e protestantes que se arrastava há décadas e o cenário era marcado pela forte presença de militares nas ruas e pelos constantes atentados terroristas do IRA (Exército Republicano Irlandês). Não quero me alongar nisso, mas você pode pesquisar mais aqui.

Em determinado momento da história, Kit, dois de seus irmãos e um amigo estão andando pelas ruas de Belfast e passam por um tanque e alguns soldados. Esse amigo – que não era de lá – se mostra muito incomodado com a situação, mas Kit deixa claro que a presença intensa de militares nas ruas não a abala tanto. Ela, e os demais cidadãos, já estão acostumados com a situação.


Pode parecer mera ficção ou algo muito distante da nossa realidade, mas não é. Quando estava na faculdade, uma professora apresentou uma matéria para a turma. Era a primeira reportagem do escritório da TV Globo em Jerusalém e tratava justamente da tensão e da violência na região. Ao final, ela (que provavelmente era adepta de teorias da conspiração) disse que havia uma montagem na edição e exibiu novamente o vídeo. Em determinada cena, era mostrada uma rua ao som de tiros e um senhor permanecia sentado em sua cadeira. Segundo ela, numa situação extrema como aquela, todos estariam em pânico.

Baseado em minha experiência pessoal, aquilo era, sim, possível. Nasci e cresci em uma área do Rio de Janeiro cercada por três favelas muito violentas. Os tiroteios eram muito frequentes, mas, de certa maneira, não afetavam muito a nossa vida. Às vezes, não era possível sair por conta de um conflito entre traficantes e policiais, mas era algo corriqueiro. Como se fosse apenas uma chuva mais forte ou algo assim. A professora disse que aquilo era ridículo, mas, para fortalecer meu argumento, uma nota publicada num jornal na semana seguinte comentava um caso no mesmo bairro em que alguém entrava em uma banca de jornais para se esconder do barulho que ouvia e o jornaleiro respondia que não havia com o que se preocupar. “É só um tiroteio.”


Voltando aos quadrinhos, já ouvi muita gente perguntar o que leva os moradores de Gotham a permanecer ali se aquela é aparentemente a cidade mais corrupta e violenta do mundo. A questão é a mesma: as pessoas se acostumam. Um crime choca, dois crimes preocupam. Uma onda de crimes se torna estatística, se torna cotidiano.

Em Heartland, Kit disse que estava acostumada com a situação de sua cidade, mas depois completa que nem por isso gosta do que acontece ali. Ninguém gosta, Kit.

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