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12 de maio de 2016

O uivo da representatividade



“Faltava alguma coisa no que eu estava consumindo.” Palavras de Wes Lourenço, explicando o motivo de começar a escrever. O autor, que lançou nessa terça-feira, na Amazon, o livro Uivo de Todos os Lobos, era um consumidor voraz de literatura, mas não conseguia se ver nos livros que lia. E ele resolveu virar esse jogo. “Como fã de ficção científica, por exemplo, não via pessoas homossexuais, como eu, naquelas histórias. Entendo que a maioria dos clássicos desse gênero foi escrita nos anos 1950 e 1960, por exemplo, e temas homo eram um tabu; não julgo os autores, pois eram pessoas de sua época (mas a Ursula K. Le Guin soube abordar questões de gênero brilhantemente em A Mão Esquerda da Escuridão). Vendo essa falta de representatividade, entendi que eu podia fazer alguma coisa e então comecei a escrever minha primeira história”, conta Wes, em entrevista.


O resultado dessa determinação está nos cinco contos do livro. São histórias profundas de temas diversos, mas que têm um ponto em comum: o amor. E não só isso. É um amor que nasce sem clichês, de maneira natural, mas que calha de ser entre dois homens. “Procuro criar personagens que compreendam o que são, ou, caso não compreendam, que pelo menos não tenham medo de se sentir, de viver, de amar”, diz o autor.

Wes é, sem dúvida, fruto de um momento muito positivo da história da humanidade. A cada ano, com as facilidades da comunicação, mais pessoas conseguem verbalizar sua insatisfação. Um dos pontos mais discutidos recentemente é a representatividade. O jovem Wes não se via em seus livros favoritos. A menina negra não precisa ser obrigada a ter como “filha” uma boneca loira de olhos azuis. Um muçulmano quer ver super-heróis de sua religião. Nossa geração está quebrando paradigmas.

Me lembro do primeiro conto do Wes que eu li. Eu já o conhecia das internets da vida, como muitos de vocês devem conhecer também, mas nunca havia imaginado que sob aquele avatar de personagem de anime se escondia um vigoroso escritor. O nome do texto, bem curtinho, era Herói. Fui apresentado a um capitão da frota estelar preso em uma cadeira de rodas. Um sujeito comum, relembrando uma história do passado. Uma história de amor vivida com um piloto. Infelizmente, esse conto não está no livro, mas já passa uma boa ideia do que podemos encontrar nas páginas digitais de Uivo de Todos os Lobos. Histórias que representam pessoas que existem de verdade e que se relacionam e que se amam e que merecem ter seu espaço.

“Há alguns contos que levantam a questão do preconceito porque eu não tenho como fugir de um assunto tão sério e que prejudica tantas pessoas todos os dias. Mas quando eu coloco um personagem que é homossexual e está lá trabalhando, resolvendo problemas do cotidiano e tentando alcançar seu objetivo, sim, estou querendo mostrar como a sociedade deveria ser: cada um cuidando da sua vida. Um é piloto, outro é samurai, outro está cuidando dos filhos. Por mais que eu ache justo abordar o tema do ‘armário’, pois é algo que todos sob a sigla LGBT têm de encarar um dia (mesmo que seja pra continuar trancado dentro dele), de um tempo pra cá venho sentindo necessidade de histórias que contem algo além disso. Quero aventura, ação, suspense. Histórias que não girem em torno da sexualidade dos personagens, pois eles estão muito bem com isso – e toda a sociedade deveria estar também.”

Wes Lourenço é um escritor recente. Ele mesmo conta que começou a apresentar seus textos para o público apenas em 2015 e se surpreendeu com a repercussão. A escrita dele é forte e madura. Os narradores trazem reflexões profundas e a construção de mundo é riquíssima. Um dos contos, Rapina, apresenta uma raça híbrida de homem e pássaros (ou algo parecido) e é impossível chegar ao meio do texto sem estar completamente mergulhado naquele universo. Essa história, inclusive, pode ganhar uma expansão em breve, talvez como um romance.


Escrevo esse texto menos de 24h após a publicação do livro. Provavelmente, sou o primeiro jornalista a comentar sobre Wes e sua obra, mas tenho certeza que não serei o único. O autor tem um estilo contagiante e traz consigo uma bandeira que não pode parar de tremular. O futuro é incerto e o mercado editorial tem suas particularidades, mas há nas prateleiras (ainda que virtuais) um espaço para Wes Lourenço.

DIVERSIDADE IMPORTA!

No início deste ano, correu a internet a imagem do pequeno Matias Melquíades, um menino negro de quatro anos que abriu um amplo sorriso ao descobrir em uma loja um boneco do personagem Finn, de Star Wars – O Despertar da Força. “É pretinho igual a mim”, disse Matias na época, provavelmente alheio à repercussão que a foto postada por sua mãe numa rede social geraria.


A imagem teve mais de 35 mil curtidas e 9,5 mil compartilhamentos. Até o ator que interpreta o personagem retratado no brinquedo, John Boyega, se manifestou publicamente com um agradecimento: "Momento de ser grato. Do que você segura em sua mão ao potencial na sua mente, você é um jovem rei", escreveu ele, em uma mensagem direcionada ao pequeno Matias.

Jaciana, a mãe do menino, explicou o quanto aquele boneco representava – e não só para Matias. “Não havia bonecos negros à venda quando eu era criança. Eu comprava o que tinha e era um pouco frustrante. Parecia que tinha alguma coisa errada comigo, porque eu não era igual ao produto”, relatou em uma entrevista. Segundo ela, o menino se realizou ao encontrar um brinquedo de um herói com o seu tom de pele. "Meu filho consegue se ver nele assim como qualquer garotinho branco consegue se ver em outros personagens. Tem espaço para todo mundo".


Nos quadrinhos, nossa área de excelência e assunto mais constante, a representatividade vem ganhando muito espaço. O caminho pavimentado lá atrás por Pantera Negra, Luke Cage e John Stewart hoje segue em várias direções. Temos uma Batgirl lésbica e o X-Men Estrela Polar pôde finalmente se casar com seu antigo namorado Kyle. Na Image, o grupo Rat Queens conta até com uma ogra transgênero. Quando falamos de religião, temos hoje uma Ms Marvel muçulmana arrebatando elogios até da Casa Branca.

Tudo isso ainda é muito pouco perto do que deveria ser. Mas é ou não é uma época incrível para ser único, ser múltiplo, ser diferente?

Atos Finais