Novidades

5 de maio de 2016

Esse personagem não é seu. E isso não é um problema






Você assiste Doctor Who? Qual é o seu Doutor preferido? Aposto que é o David Tennant. O meu é o Matt Smith. Comecei a assistir a série quando ele passou a interpretar o Senhor do Tempo. Muito divertido, né? A TARDIS, as companions, a chave de fenda sônica, as viagens no tempo... Mas ele não é o William Hartnell, o primeiro Doutor, de mais de 50 anos atrás. O Daniel Craig, o Pierce Brosnan e o Roger Moore fizeram ótimos filmes na pele do espião James Bond, mas nenhum deles era o Sean Connery. E daí?



Isso aqui não nasceu como um artigo para falar de mudanças. Muito pelo contrário. Sentei para escrever uma resenha sobre o encadernado Constantine Hellblazer, lançado recentemente pela Panini. E resumo a crítica a uma frase: A história é boa, mas aquele não é o John Constantine. Só que é.


Meu primeiro contato com John Constantine foi em uma minissérie em 12 edições chamada Vertigo, lançada pela editora Abril em 1995. Só consegui comprar os dois primeiros números na época, que traziam o início da fase do Garth Ennis com o personagem. Para mim, aquele é o John Constantine. Mas aquela nem é a gênese dele. Não é o Constantine criado pelo Alan Moore. Não é o Constantine definido pelo Jamie Delano. É só o “meu” Constantine.

“Meu” Constantine vive em Londres. Está sempre meio ferrado, passa a perna em todos e tem raros amigos. Não tem nenhum glamour, nem uma palavra mágica escondida na manga para cada perrengue. “Meu” Constantine é um filhodaputa que resolve tudo na lábia e raramente termina uma história com a sensação de que ganhou.

O Constantine da DC não é mais assim – e ela, sim, é dona do personagem. Hoje em dia ele tem o cabelo bem cortado, usa roupas bonitas, troca um dono de bar bonitão por uma demônio esquisita, tem uma trupe de fantasminhas camaradas. Ele mudou muito, mas não deixou de ser o Constantine. A trapaça ainda está lá. O cigarro continua na boca. Ele ainda veste o sobretudo. E, para um grupo de jovens, essa poderá ser a versão definitiva.


De 1938 para cá, muita coisa mudou. E o filho mais ilustre daquele ano está em constante transformação. O Superman de Siegel e Shuster saltava prédios e arremessava bandidos comuns de alturas que eles não seriam capazes de sobreviver. A cada novo autor, o personagem ia ganhando novas características, novos vilões e aliados. Ele morreu, ele voltou de mullets, ficou elétrico, tirou as cuecas vermelhas, ganhou gola e armadura, calças jeans e cabelo raspado. E continuou sendo o Superman.


A principal crítica ao filme Homem de Aço, de 2013, era a descaracterização do herói. A reclamação voltou em Batman v Superman. Mas os Superman que você conheceu, sob a ótica de alguém, também estava descaracterizado. E continuava sendo o maior símbolo de heroísmo do mundo.

Personagens, assim como pessoas, envelhecem. O mundo muda, a mentalidade se transforma, as histórias são contadas de uma nova maneira. O Doutor mudou, James Bond mudou. Constantine não é mais o mesmo e o Superman que uma criança está conhecendo hoje não é o mesmo que voava com os Superamigos. Os X-Men não serão mais escritos pelo Claremont, pois nem o Claremont é mais o mesmo. Seu personagem favorito não está numa cápsula do tempo. E nem você.


Atos Finais