Novidades

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A queda de Paleah



 - Malditos. - Resmungou Levan, de braços cruzados e dentes trincados. Ele estava observando irritado as movimentações na estrada escura, apoiado na mureta da fortaleza. Tropas de humanos se apressavam enquanto organizavam a retirada, segurando tochas para iluminar a noite e seus trajes de couro e placas de ferro, e os elfos que continuavam em Paleah as observavam em silêncio.


 Levan se afastou da beirada, agitando seus longos cabelos dourados e suas vestes verdes, pisando forte e deixando sua companheira para trás. - Malditos sejam todos esses humanos. - Continuou, mas a garota não prestava mais atenção. Estava olhando para a agitação com uma de suas mãos pálidas apoiadas na mureta. Os olhos verdes, um deles semi-escondido por um dos vários fios vermelhos que cobriam o corpo e as vestes cinzas, exalavam sua vontade. Também queria sair dali. 

 Paleah era uma das centenas de fortalezas que marcavam as inconstantes linhas entre o território da Aliança e o dos exércitos de Zemopheus. O maior símbolo daquela guerra eterna, a colossal cadeia de montanhas que chamavam erroneamente de Fronteira, estava atrás deles a oeste, o que significava que aquela região havia sido conquistada em alguma batalha regressa. Tal posição não parecia vantajosa para o comando da Aliança, que estava sistematicamente reorganizando exércitos para defender os terrenos invadidos ao leste da fronteira.

 Contudo, o comando élfico havia se oposto a isso. Haviam sido tropas élficas que conquistaram Paleah e a região ao redor, praticamente sozinhas. O orgulho característico da raça havia mantido a guarnição onde estava, e agora o comando procurava formas rápidas de reforçar a fortaleza fragilizada.

 Malditos sejam eles e esse orgulho, pensou Ellaren enquanto segurava a rocha com mais força. Levantou a cabeça, observando o gigantesco lago ao leste, além da floresta conífera que o cercava. Era uma área perigosa, perto de várias tropas goolathi, e não tinham nem como vigiar a fortaleza direito, que dirá se defender. A elfa sentiu o sangue ferver. 

 - Ellaren! - Chamou Levan, e ela se virou contrariada. - Vá descansar. Precisamos de todo elfo disponível amanhã de manhã para nos reorganizarmos. - Ellaren seguiu irritada, mas seu comandante a parou. Encarou-a profundamente e ela estremeceu de leve, temendo a represália, mas não fora isso que aconteceu. - Também estou tão revoltado quanto você, mas precisamos nos controlar. É isso que nos difere dos demais. E o que somos?

 A garota o observou, procurando mascarar seus pensamentos. Era tudo o que ouvira desde que entrou no exército. Orgulho. Ser melhor do que os outros. Honrar o sangue. Sanguine laudat, e todos os dizeres antigos que era repetidos por cada recruta com sonhos de grandeza. E ela havia aprendido a odiá-los. Contudo, abaixou a cabeça para dizer o que o outro esperava. - Somos elfos. - Resmungou, e com isso foi em direção aos seus aposentos.

 Quando se deitou em sua cama, já vestida com os trajes de dormir, estava tão agitada que não conseguiu dormir de imediato. Preferiu encarar o teto de rocha, lembrando do seu exame de admissão do exército. Sempre havia se destacado nas habilidades físicas, e isso chamara a atenção do comando élfico, tão obstinado em levar apenas os melhores para a guerra, de forma a proliferar a ideia de que os elfos, os primeiros seres criados pelos deuses, eram superiores. Mesmo nos centros de treinamento da Aliança, criados para socializar as doze raças e quebrar preconceitos, esse pensamento era internamente incentivado.

 E isso queimava o sangue de Ellaren, especialmente agora que os humanos haviam ido embora. Tudo o que o orgulho élfico havia lhe trazido era pressão e dificuldade de se enturmar com as outras raças, além da convivência com pessoas que odiava profundamente. Não se sentia melhor que ninguém, mesmo depois de anos sendo incentivada a pensar assim. E agora estava fadada a permanecer anos com idiotas que pensavam isso.

 Permaneceu pensando nisso pelo que pareceram horas enquanto que as velas se extinguiam. O quarto havia imergido na escuridão quase que completa quando ela ouviu um forte baque na porta.

 - Silvia? - Perguntou irritada, esperando a resposta de sua companheira de quarto. Contudo, ela não veio. No lugar disso, outro baque na madeira. Ellaren suspirou e saiu dos lençóis, indo até a porta. - O que foi? Você não ia ficar na vigia hoje? - Perguntou, abraçando os braços nus para protegê-los do frio. Deu um passo adiante e sentiu eles derraparem em um líquido quente. Ela abaixou a cabeça, vendo que algo saía das frestas da porta à frente. A iluminação vermelha do fogo tornava a substância escura, ocultando sua identidade, mas a elfa sentiu um peso gélido descer o esôfago. Levantou a cabeça, e outro baque estremeceu a madeira.

 - Silvia? - Dessa vez a voz saiu seca. Estendeu a mão para a maçaneta, mas antes que conseguisse a porta se abriu violentamente. Ellaren conseguiu apenas enxergar brevemente uma figura esguia e gelatinosa antes de um tentáculo a acertar no rosto com força. A elfa foi catapultada para trás, batendo com força na parede antes de cair na cama. Com sangue vertendo da boca, ela observou sem reação o goolath tomar forma no quarto mal-iluminado. 

 Ele era alto, com quase dez metros, e tinha os membros longos e finos. Não possuía dedos, e sim uma massa disforma que se afunilava como uma garra. A cabeça possuía uma crina vermelha, e dezenas de dentes esguios se projetavam da bocarra. Estava coberto de sangue, e seus pequenos olhos vermelhos brilhavam.

 O estupor cessou quando gritos surgiram de toda Paleah. - SOCORRO! - Também berrou Ellaren, e saltou para fora da cama no momento em que o goolath destruía o colchão e o estrado com um golpe vertical. A garota caiu no chão frio, pensando em sua lança e sua espada. Antes que conseguisse se levantar, contudo, foi agarrada pelo pé e puxada, parando bem aos pés do adversário.

 Ele a pisoteou com o pé disforme, expulsando todo o ar dos pulmões. A elfa ainda tossia contra o sangue que enchia sua boca quando foi arremessada na direção dos móveis. A madeira se estilhaçou com um som alto, e Ellaren sentiu uma costela raspar contra a outra enquanto tentava respirar. As tábuas quebradas deslizaram pelo seu corpo enquanto ela era levantada e posta contra o rosto do goolath, de frente aos dentes tão grandes quanto sua cabeça. A garota tentou se recuperar, a visão embaçada pelo sangue que vertia da cabeça, mas parecia tarde. A criatura gritou.

 E recebeu uma maça diretamente nos dentes. O goolath guinchou e caiu, e Levan continuou o acertando no rosto, batendo uma, duas, três vezes no monstro caído. Quando terminou, o quarto entrou em silêncio, interrompido pelos gritos distantes.

 - Pegue sua arma e venha comigo. Eles quebraram nossa linha de vigia. - Pediu para Ellaren, saindo no corredor para verificar a área. A elfa demorou alguns instantes para reagir, levantando-se e correndo para buscar suas armas. Não havia tempo para procurar a bainha, portanto deixou a espada para trás e segurou a lança de madeira com as duas mãos trêmulas. A ponta de ferro reluzia antes às chamas, e a garota contornou cuidadosamente o goolath morto antes de sair.

 - Continue em frente. - Pediu Levan, empurrando-a para a esquerda, mas ela conseguiu ver a poça de sangue no chão. Silvia, pensou assustada, mas o comandante a segurou pelo braço e dispararam pelo corredor, chegando às escadas. Ellaren percebeu os entulhos que formavam uma barreira pífia nos degraus inferiores antes de ser levada para cima, subindo em espiral até chegar a uma sala ampla. Levan bateu na porta e dois soldados assustaram a abriram, recolhendo as armas ao reconhecerem quem vinha.

 - Fui o último a voltar? - Perguntou ele ao deixar Ellaren em um canto, e recebeu um murmúrio de concordância dos outros oficiais. A elfa olhou ao redor, assustada. Havia apenas quinze soldados ali dentro. E Paleah permanecia cheia dos guinchos dos goolathi.

 - Prestem atenção! - Gritou o elfo para seus subordinados, atraindo os olhares nervosos. - Precisamos defender essa fortaleza, entenderam? Em honra de nossos irmãos que conquistaram esse lugar, nós vamos mantê-lo sob controle da Aliança! Estão me ouvindo?

 O que ele está falando? Ellaren o observava assustada, sem conseguir proferir uma palavra de indignação. Eram só um punhado, muitos ainda usando pijamas e camisolas. A única esperança de sobreviverem estava em abandonar aquele lugar com os humanos, e aquele navio já havia zarpado. Levan continuou com o discurso motivacional, mas não conseguia alcançar a garota.

 - O QUE SOMOS? - Berrou ele, vermelho.

 - ELFOS! - Responderam os outros, e lágrimas desceram pelo rosto de Ellaren. Eles ainda continuam com isso. Vão levar essa superioridade idiota até o túmulo. O medo, a raiva e a incredulidade a fizeram abaixar a cabeça, encostando a testa no cabo da lança.

 - O QUE SOMOS?

 - ELFOS! - Vamos todos morrer. Esses idiotas acham que vão fazer um milagre, mas vamos morrer horrivelmente, e vou acompanhá-los. Deveria ter fugido quando tive a oportunidade. Deveria... A garota ouviu passos em sua direção. Aparentemente, haviam percebido que ela se mantinha em silêncio.

 - Quem você é? - Chamou o comandante, e ela levantou os olhos vermelhos para ele. Sentiu todos os anos de raiva crescerem dentro de si, incapaz de controlá-los.

 - Ellaren. - Disse baixinho.

 - QUEM VOCÊ É? - Berrou Levan, obstinado, e o sangue de Ellaren ferveu.

 - Meu nome é Ellaren. - Respondeu pausadamente. - Ellaren Nostroa, filha de Eva Nostroa e Allenar Nostroa. Uma elfa da Floresta Azul... - Aguardou para engolir em seco. - E não sou melhor do que ninguém.

 - Sim, você é. - Sibilou o comandante. - Você é uma elfa, e por causa disso vai defender essa fortaleza. Mesmo sem orgulho pelo seu sangue. - Ele se virou e começou a andar até o outro lado, mas a garota não ficou calada.

 - Eu tenho orgulho de quem eu sou. - Respondeu para as costas do outro, que parou. - Só que eu não preciso me sentir melhor do que outra pessoa porque tenho uma maldita orelha pontuda. Eu sou feliz com quem sou, muito feliz de pensar diferente de vocês, mas não é por causa disso que vou me colocar acima dos outros. - Bateu a lança no chão. - E esse orgulho é o que me faz manter a cabeça erguida, mas não vou empinar o nariz que nem vocês.

 Levan aguardou alguns segundos. - Vamos conversar sobre isso mais tarde. - Disse sem se virar, pegando sua maça. Ellaren seguiu até a porta mais próxima, apontando sua lança para a maçaneta. Conseguia ouvir os goolathi se aproximando, assim como sentir os olhares julgadores em sua direção, mas não se importava. Sentia-se satisfeita. Tinha dito o que estava preso antes de morrer. Agora poderia lutar sem pesares.

 Quem sabe até sair daqui viva. Talvez encontrasse os humanos. Seria bom.

 As portas do aposento rangeram, e alguns soldados gritaram enquanto começavam a lutar. Ellaren aguardou, sabendo de sua posição. O elfo ao seu lado tremia. A madeira da porta à frente se despedaçava, revelando os vultos do outro lado. As mãos de Ellaren seguraram a lança, A qualquer momento.

 Um goolath invadiu, e a elfa brandiu a arma enquanto gritava.

 E esses foram os últimos gritos que ecoaram em Paleah naquela noite. Demorou muito tempo até a Aliança reaver a fortaleza, e tal incidente causou complicações que perduraram por gerações. Contudo, isso não importava para os mortos, recuperados anos depois de suas últimas batalhas. O comando élfico os tratou como heróis, dizendo que os combatentes haviam permanecido de cabeça erguida até o fim.

 E, desta vez, estiveram certos.

Atos Finais