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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Contos de Gaea: O Culto de Sangue



 - Que esse sangue seja teu sangue, que esse desejo seja teu desejo, que esse AAAAAAAARGH!

 Amelia se encolheu, apertando os braços contra o corpo. Estava em uma sala escura e apertada, aguardando do lado de fora de uma porta vermelha. Passou os dedos contra seu uniforme preto, cortado em forma de um vestido comprido, e afastou as longas mechas ruivas de seu ombro. Do outro lado, recomeçaram a gritar, e ela soltou um som nervoso.

 - Saia. - A garota levantou seus olhos verdes, encarando o restante do Culto de Sangue naquela sala. Havia uma outra elfa e uma ente do outro lado a observando, e uma humana à sua frente, encarando-a com frieza. Tinha cabelos curtos e loiros por cima de um rosto quadrado. - Saia.

 - Senhora Olivia, eu-- Tentou balbuciar Amelia, mas foi cortada pela superior.

 - Não está ajudando em nada aqui, e seu nervosismo vai acabar afetando o ritual. - A mulher apontou com a cabeça para a porta atrás de si. - Saia logo.

 Derrotada, Amelia suspirou fundo e saiu apressada. Viu-se em um corredor longo, coberto das mesmas tábuas negras que formavam a sala anterior. Nas paredes, espelhos sujos se estendiam, provocando uma sensação de infinito. Amelia parou perto de uma lamparina à óleo, encarando seu reflexo repetido um milhão de vezes. Sua expressão combalida se destacava no rosto sardento. A miríade de reflexos ajeitou o cabelo, destacando as orelhas pontudas. Após isso, seguiram até o fim da galeria para sair do edifício.

  A lua cheia a iluminou, cercada pela grama castigada pelo vento. O casarão em que havia estado ficava encrustado no topo de um alto morro, que fornecia uma visão limpa do restante da cidade de Crota. Amelia andou cabisbaixa até a ponta do morro e se sentou de pernas cruzadas, observando os prédios de tijolos e a fumaça que as poucas fábricas despejavam no céu. Suspirou.

 Que belo primeiro dia, pensou, deixando a melancolia abraçá-la tal qual uma amante. Havia finalmente sido promovida à posição de guarda de honra do Culto de Sangue, e não havia conseguido suportar nem mesmo um ritual. Passou a mão pela testa, deixando seu olhar vagar até o leste.

 Eles devem estar se aproximando, imaginou com uma pontada de terror. Na cidade, havia o rumor de que um destacamento do exército de Zemopheus estava vindo naquela direção. e por isso um ritual havia sido arrumado às pressas. Precisavam novamente da misericórdia do deus Sanod.

 Estava divagando sobre isso quando sentiu um beijo em sua orelha, o que a estremeceu. - Achei você. - Disse uma voz suave e feminina. Amelia sorriu, mas não se virou.

 - Laira. - Disse, e sentiu alguém se sentar ao seu lado. Braços pálidos se enrolaram por volta de seu pescoço, descansando em seu ombros. - Não deveria estar ajudando no ritual? Toda a cidade depende de nós.

 - Eu não me importo com a cidade. - Uma das mãos brancas delicadamente puxou a gola de seu vestido para baixo, e lábios quentes a beijaram demoradamente. Amelia suspirou. - Só me importo com você.

 - Deixe de ser boba. - Sussurrou a elfa, empertigando o corpo. - Temos nosso dever, lembra? E sabe que não podemos deixar que nos descubram. Você está... - Não conseguiu terminar sua frase, pois a mão de antes começava a passar por seu corpo.

 - Bem, eu te vi sozinha aqui e não consegui resistir. - Amelia sorriu e se virou, mas antes que pudesse beijar Laira, estancou.

 O rosto redondo da fada a encarou, com olhos grandes e azuis e cabelos loiros. Contudo, uma singular tiara estava presa em sua testa, um conjunto de fios prateados entrelaçados com um rubi em forma de losango no centro. A elfa olhou para baixo, temerosa, e reconheceu o vestido rubro que a outra usava. Arfou.

 - Não... - Soltou, e Laira lhe deu um olhar dolorido.

 - Shaka não sobreviveu ao ritual. - Confessou, e parecia à beira das lágrimas. - Fui escolhida para substituí-la. - Amelia balançou a cabeça em negação, sentindo que seu mundo estava desmoronando. Abriu a boca para dizer algo, mas a fada colocou um dedo em sua boca. - Eu preciso de você ao me lado nessa como profetiza. Por favor.

 A elfa contorceu o rosto, mas já conseguia enxergar as lágrimas se formando no rosto que vira tantas vezes iluminado de felicidade. Soltou o ar, lutando para não chorar também.

 - Eu... - Tentou dizer, abaixando a cabeça enquanto procurava tempo para pensar. Sabia que Laira teria que oferecer um sacrifício. Sacrifício de sangue. Voltou a encarar a outra, mordendo o lábio inferior.

 - Não vou te abandonar.

 A frase continuava na cabeça de Amelia enquanto os preparativos para o ritual se apressavam. Estavam em uma sala circular e extremamente simples, apenas com um monólito no centro. Essa estrutura era composta de ônix, e tinha ranhuras em sua superfície que formavam runas circulares. Ele tinha uma ponta afiada no centro, parecendo uma lâmina curva. Estava extremamente limpa, fazendo parecer que havia sido tratada recentemente. E Amelia sabia do motivo.

 Ela olhou ao redor. Laira estava perto da estrutura, segurando as duas mãos em frente ao corpo, seu cabelo loiro solto para cair até o quadril. Suas quatro asas translúcidas brilhavam. As outras oficiais estavam prostradas em círculo, cada uma segurando uma vela longa. Olivia estava lá daquela vez, e deu à elfa um rubi em forma de estrela.

 - Podem começar. - Laira e Amelia trocaram um olhar momentâneo. Olivia não sabia do relacionamento entre as duas. Ninguém poderia saber.

 Quando aquele momento se encerrou, a fada prendeu a respiração e estendeu a mão direita na direção da ponta afiada. Torceu o rosto e apoiou a palma na estrutura, avançando lentamente. A pedra laminada afundou em sua mão, penetrando a carne. Laira continuou, e uma ponta negra saiu do outro lado. Continuou se forçando, transpassando a própria mão.

 Sangue pingava.

 - Agora. - Ordenou Olivia. Amelia viu o rosto em dor de Laira e gaguejou, procurando as palavras. Estava ali como âncora, alguém que falaria com Sanod enquanto a companheira oferecia seu corpo. Respirou fundo.

 - Ó, Sanod, senhor vermelho. Pedimos sua clemência nessa noite de lua cheia, marcada pelo sangue de nossos ancestrais. Estamos reunidas aqui hoje para oferecer um sacrifício a ti, deus outonal. - Lembrou-se que o sacrifício seria a vida de Laira, e quase tropeçou na própria língua. - Mande-nos o sinal de tua compaixão.

 Silêncio. Um silêncio tenso. A fada havia encostado a palma perfurada no monólito, tremendo diante da estrutura que continuava enfincada em sua palma. Seu sangue percorria sua pele, pingando no chão.

 Até que começou a agir por conta própria.

 Lentamente, as gotas de sangue que saíam do ferimento foram até o ônix, se enfiando nas ranhuras. As runas negras começaram a se tingir de vermelho, que subia e se estendia.

 - Foi. - Ofegou aliviada Olivia. Laira encarou assustada Amelia, que desviou o rosto para o rubi em suas mãos.

 - Somos todas gratas a teu nome, Sanod. Agradecemos sua misericórdia, e queremos. - Laira gritou, um grito horroroso. Ela caiu de joelhos, e o sangue correu mais forte de sua ferida. A elfa perdeu o compasso de sua voz. - queremos, queremos honrar o compromisso que fizemos a ti pelas duas últimas gerações.

 Conseguia sentir seu próprio sangue se retorcendo, o que não a ajudava a se concentrar. Os gritos de Laira continuavam ecoando. Engoliu em seco. Que esse sangue seja teu sangue, que esse desejo seja teu desejo, que esse amor seja teu amor! - Agora sangue escorria dos olhos, do nariz e da boca da fada. Havia uma poça aos seus pés, e as runas se preencheram completamente de vermelho.

 - POR FAVOR, OUÇA O DESEJO DE TUA ACÓLITA. - Era agora. Amelia controlou as lágrimas e fitou Laira novamente, encontrando seu olhar azul. A fada a encarou com pesar e uma ponta de desespero. Ninguém falou nada.

 - P-POR FAVOR, OUÇA O DESEJO DE TUA ACÓLITA. - Ela repetiu, lutando bravamente pela barragem salgada de seus olhos. Laira choramingou, fechando os olhos. Sangue continuava pingando.

 - POR... - Sua voz falhou. A elfa apertou o rubi quente, pensando em todas as vidas da cidade. Em algum lugar, o exército de Zemopheus se aproximava. Olhou para Laira, o coração apertado, fitando a amada sofrendo. - Por favor. - Pediu. Laira abriu os olhos, encarando-a profundamente.

 - Que esta cidade seja protegida por tua graça. - Disse a fada, embolada com seu próprio sangue. Fechou imediatamente os olhos, esperando o destino. Amelia também fechou, sem conseguir encarar a cena que se formava. Sentia seu peito se rasgando.

 Fora esse seu último pensamento. Ela caiu no chão, os olhos semi-abertos em surpresa. Sangue jorrava de seu peito aberto, tingindo o chão negro.

 - NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! - Berrou Laira, desesperando-se. - NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! - Continuou repetindo, histérica, enquanto Olivia e suas guardas se agitavam. A líder tirou a mão da fada do suporte afiado, e segurou-a em seus braços. Encarava o corpo de Amelia.

 - A vida mais preciosa para nós. - Apertou com força Laira, que se debatia. - Por que acha que não permitimos relacionamentos entre as acólitas? Laira, sua... - Não conseguiu terminar, sentindo o pesar insano da garota em seus braços.

 Contudo, Crota estava escondida mais uma vez.

Atos Finais