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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Contos de Gaea: A batalha de Paleah I



PARTE I


 - Os humanos já foram. - Comentou Ellaren, apoiada de costas na mureta da fortaleza. Seu cabelo loiro e longo era balançado pelo vento, revelando suas orelhas pontudas que brotavam do rosto fino. Sentia a rocha fria e úmida abaixo dos cotovelos, e encarava o interior da construção. Paleah era uma gigantesca e belíssima obra de arte, composta de inúmeras torres quadradas e decorada de diversas estátuas detalhadas de uma forma que apenas fadas conseguiam fazer. E estava vazio.

 Se antigamente mil pessoas eram necessárias para cuidar de Paleah, naqueles dias apenas uma centena de elfos defendia a construção. A guerra pela Fronteira estava ficando cada vez mais desnivelada geograficamente, com grandes ataques em regiões específicas, e a Aliança estava correndo para realojar os exércitos para as áreas mais urgentes. Com isso, a guarnição de diversas raças foi dividida, deixando apenas um destacamento de elfos cuidar dos muros.

 - Nunca achei que você ficaria com saudades. - Afirmou Falael ao seu lado. Seu cabelo escuro era cortado curto e espetado, e ele observava a vista concedida pelos muros de Paleah. Estavam diante de um enorme lago, contornado ao oeste pelas gigantescas montanhas da fronteira e ao leste pela floresta de coníferas. Um riacho mirrado descia do lago, contornando fortaleza.

 - Não são exatamente saudades. - Disse Ellaren, encolhendo um dos ombros com uma expressão desconcertada no rosto. - Só que não temos como defender esse lugar sem a ajuda deles. - Falael sorriu.

 - Somos elfos. É claro que conseguimos. - Ele se afastou da mureta e começou a andar em direção ao interior da fortaleza. - Além disso, você soube do recado que deram para a gente. A guerra não está mais aqui.

 Ellaren suspirou, olhando por trás do ombro. O lago estava calmo, da mesma forma que estivera por tanto tempo. Calmo e entediante. Ela mordeu o interior da boca e acompanhou Falael para dentro da fortaleza.

 Algumas horas depois, acordou aterrorizada. Arfou agarrada aos lençóis brancos, seu cabelo loiro caindo por cima do rosto. Demorou alguns segundos para perceber que o pesadelo havia terminado. Deixou a cabeça pender para trás, tentando controlar a respiração. As lembranças do sonho se esvaíam como água por entre seus dedos, mas a sensação ruim continuou a acompanhando, mesmo após voltar a se enfiar na cama. Frustrada, saiu para tomar ar fresco, vestindo o roupão por cima da camisola.

 Voltou à sacada onde havia conversado com Falael mais cedo. O vento frio da noite a abraçou, e ela apertou os braços contra o corpo. Segurando o cabelo, percebeu que não estava sozinha.

 - Renna. - Chamou. A elfa mais frente se virou assustada. Tinha o cabelo ruivo preso por um arco preto, e o rosto era fino e branco como a lua mais acima. Vestia um casaco grosso que escondia suas curvas, ideal para a tarefa de vigia.

 - Oi. - Disse a outra, desviando rapidamente o olhar. Ellaren fez um muxoxo e continuou a andar até ficar ao lado da outra. Apoiou-se na mureta.

 - Algumas pessoas podem achar que sua timidez é falta de educação. - Alertou, fechando os olhos.

 - Desculpa, desculpa! - Apressou-se em dizer a outra.

 - Não se preocupe. Não sou uma dessas. - Ellaren ergueu os olhos, fitando as janelas apagadas. - Ficou meio vazio, não é?

 - Sim, eu... - Renna engoliu em seco. - Eu trabalhava com uma dupla. Não temos gente o suficiente para fazer isso, agora.

 - Ah, aquele humano gatinho? - Perguntou, virando o rosto para a companheira. A outra elfa corou instantaneamente, mas Ellaren apenas sorriu. - Talvez vocês consigam se encontrar novamente. Qual o nome dele?

 - Kevan. - Disse a voz miúda de Renna.

 - Quem sabe. - O vento frio voltou a soprar, e Ellaren puxou o roupão para proteger o pescoço. - Que noite é essa? - Perguntou, olhando para trás na direção do lago. Franziu as sobrancelhas. Havia pequenas ondas se agitando.

 - O quê-- Tentou dizer, até a flecha disparar e acertá-la entre os olhos.

 E com ela veio a escuridão.

Atos Finais