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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Segundo Capítulo de CRÔNICAS GU´UN VOLUME I – OS SENHORES DA DESGRAÇA - Viagem ao desconhecido


E ai Galera, preparados para segundo capítulo?




 Viagem ao desconhecido
   Jas Vastoo inspecionava seus homens nos preparativos de suas cinco embarcações, conhecidas pelos norávios como drabas, para a expedição que se aproximava. Eram os primeiros raios da aurora, do quarto dia do outono.
   As drabas eram embarcações preparadas para viagens perigosas. Incorporavam os avanços técnicos dos grandes navegantes das ilhas Ayrialy, de Bongauth e de Frayfh, povos que, havia cinco anos, Jas mantinha estreita ligação. Ligação que era derivada ao negócio que havia escolhido como forma de acumular riquezas; o transporte de recém-nascidos imperfeitos, de U´Saugauth e Tra´Ray, rumo ao seu destino final, como oferenda aos deuses, nas inóspitas terras de Bruávia.
   Não eram somente as embarcações que ostentavam a técnica dos grandes navegantes, também a própria tripulação era composta por alguns dos homens mais experientes dos reinos dos grandes navegantes. Eram as drabas, cada uma, capazes de levar cinquenta homens e mil tonéis cheios. Seus nomes eram Jahlya, Nahny, Sor, Katum e Pahlom; como as cinco divindades dos filhos de Norávia. Curiosas divindades, diferentes das que eu estou acostumado, posto terem abandonado, há muito tempo, os antigos ensinamentos dos três profetas, pois, ao longo de sua trajetória, rumo às terras que se tornaram sua morada definitiva, conceberam divindades conforme sua própria vivência e ganância.
   Era Jahlya a deusa concubina de Onitt, o Supremo, protegia os navegantes, pois, estes, quando longe de casa, buscavam amantes para aplacar seus desejos carnais, motivo pelo qual Jas deu esse nome para sua draba. Nahny era a esposa legítima de Onitt, protegia a família dos viajantes. Sor o filho do Supremo com Jahlya, o que carregava o dom da sabedoria, pois, ao saber de sua existência como bastardo, precisou ser sábio para não deixar que as más línguas do firmamento o tirassem da paz que pregava desde sempre. Katum e Pahlom são os filhos legítimos do Supremo com Nahny, eram gêmeos, carregando a dual característica maldade e bondade, tal é a semelhança entre ambos que ninguém sabe distinguir quem carrega qual adjetivo, a não ser Sor com sua grande sabedoria.
   Mas, além da mitológica origem dos nomes, as embarcações carregavam duzentos e cinquenta homens, sendo cinquenta especialistas dos reinos dos grandes navegadores, e cinco mil tonéis cheios de produtos do norte.
   Os comandantes das drabas, fiéis amigos de Jas, eram Jago Billium, Bask Gam, Bartion Diann e Lago Tardium. Todos experimentados homens do mar. E era realmente preciso ter experiência, pois, desta vez, a missão era diferente. Era algo tentado em tempos remotos, mas nunca com relatos de sucesso. Jas Vastoo queria esta missão, vinda direto do novo Rei Trakot, Taboo, coroado naquele mesmo ano de mil quatrocentos e cinquenta e sete, do exílio de Galimah.
   Era vontade real, obter novas terras e obter mais fontes de riquezas. Desde a subida do primeiro Rei da dinastia Trakot ao trono, a paz havia sido estabelecida entre as duas principais casas do reino, a Trakot e a Vastoo. Também fora um momento onde os reinos norávios encerravam ou diminuíam suas guerras.
   A pilhagem em Norávia ficara impossível e o reino precisava buscar novas alternativas para manter os padrões de consumo da nobreza e alimentar, mesmo que parcamente, o povo, para evitar as revoltas populares.
   Além do esvaziamento dos cofres do reino, a guerra entre os Trakot e os Vastoo havia deixado um saldo de desolação nas terras cultiváveis. A consequência imediata, como sempre, era a fome e a proliferação de doenças, especialmente entre os mais necessitados.
   Os grandes senhores de terras lutavam entre si, piorando o quadro com um grande fratricídio. O pior castigo que os homens do norte já viram veio depois, lançado por Onitt, quando tivemos, em todo o continente, um ano de más colheitas e a grande peste.
   Depois de duas horas de preparativos, no porto da cidade que levava o nome de Vastoo, tudo estava pronto para zarparem. O plano era descer o rio Kaalium, até sua foz, em delta, para ganhar o Mar de Saugauth. Lá, os navegantes encontrariam outras cinco embarcações, comandadas por Lano Pagotra. A união, nunca antes vista, a não ser em tempos de guerra, de uma frota tão numerosa era justificada, pois, foram milhares de missões, antes enviadas aos mares mais ao sul, e nenhuma retornou; nenhuma embarcação.
   A necessidade de encontrar uma saída para a crise de produção que se abatia sobre o continente fazia da missão algo mais que urgente. O perigo era o de menos, dever a um prestamista era pior que encarar a ira de Onitt. Se fossem outros tempos era somente mandar um punhado de soldados e invadir as casas de crédito, mas hoje eles possuem o reino de U´Ubaly e um exército que, embora não seja o mais poderoso de Norávia, é forte o suficiente para leva-los à falência antes da vitória final. Além disso, possuem o dinheiro para comprar inimigos em outros reinos ou dentro de U´Saugauth.
   Quando chegaram à foz do rio, Jas e os outros comandantes, cada um de sua embarcação, puderam avistar as naus de Pagotra, ancoradas em alto mar. E com as tradicionais bandeiras alviverdes com a aysh-aysh vermelha em seu centro, o símbolo de saudação marítimo usado em Norávia. Esse tipo de bandeira sempre era utilizado para conversas de paz e amizade e nunca eram usados de outra forma, era algo muito respeitado, mesmo em tempos de guerras e escaramuças.
   Com as naus próximas o suficiente para uma breve troca de palavras, Jas Vastoo saudou o comandante da outra metade da frota.
   - Pagotra – disse Jas às gargalhadas – seu grande filho de uma rameira! Não poderia esperar outro comandante para esta missão tão perigosa.
   - Ora, vejam se não é o senhor de Vastoo, meu bom e velho amigo dos mares. – Disse Pagotra, com aquele ar de velhos amigos, daqueles que a grande afinidade não evapora com o tempo, reconhecendo e relembrando, quase no mesmo instante, sem palavras, as velhas aventuras que tiveram nos mares.
   Pagotra tinha quatro anos a mais em relação à Jas. Quando este começou sua vida no mar, na idade de treze anos, aquele já tinha seus dezessete e alguma experiência. Havia adotado Jas como um aprendiz e o protegia dos demais marujos, sedentos em seus desejos carnais. Naqueles tempos Jas era aprendiz, hoje ele é o comandante máximo dessa frota, pois ostenta o nome de uma das casas nobres de U´Saugauth, ainda que abaixo das demais casas.
   A grandeza no nome era coisa que Lano Pagotra, um homem de origem humilde, filho de mãe solteira, que outrora praticara a profissão mais degradante que uma mulher pode se submeter, ou ser obrigada a praticá-la - este último era o caso da senhora Yartah Pagotra, que hoje, idosa, é amparada pelos seis filhos, dos quinze que tivera. Especialmente Lano que era o mais abastado. Quanto ao pai, este lhe era desconhecido!
   - Pois é meu bom amigo, serei seu comandante, – disse Jas a Pagotra, como quem quer dar menos importância ao fato, pensando em não causar no amigo um sentimento de inferioridade. Este tipo de atitude Jas só reservava a poucos homens e são contados nos dedos de apenas uma mão – e um comandante feliz em ter os melhores homens dor mar para esta missão. E você, meu amigo, é o melhor entre os melhores!
   Com seu amigo de longa data, Jas Vastoo poderia voltar a ser o que era; aquele menino de doze anos, feliz com seu pai, sem a muralha que criara nos anos que vivera como escudeiro dos Trakot. Essa muralha o tornava um homem cruel, como deveria ser qualquer um que vivesse sob as ordens de um senhor Trakot, mas em seu coração guardava a brandura e em sua mente a perspicácia do clã Vastoo.
   - Então, meu comandante, – disse Pagotra, com toda a pompa que sabia guardar, mesmo com um amigo de longa data, pois, a lealdade e a obediência à hierarquia e às ordens era algo que guardava dos longos anos em que ele estivera como aprendiz-marinheiro – quais são seus planos para a nossa ida sem volta?
   - Não, meu bom Pagoo, – Pagoo era como Jas chamava seu amigo, este era um apelido que Lano recebera nos seus primeiros anos no mar, mesmo antes da chegada de Jas a draba em que serviram juntos, e que era, normalmente, um nome dado aos cães – não pretendo falhar, portanto, corrigindo sua pergunta, para poder respondê-la, meus planos para nossa viagem de ida e volta – desse Jas, procurando ressaltar a expressão “ida e volta” – é seguir o caminho corriqueiro dos pescadores, até o Estreito de Balin.
   Seguir margeando a costa sul de U´Saugauth até as Ilhas Parch, e por ali ficar, ou, por dentro do Mar de Gaurrom, até o Estreito de Balin era a prática comum aos navegantes de Norávia. Alguns pescadores se aventuravam um pouco mais além e cruzavam o estreito. Mas esses mais corajosos nunca deixavam escapar da vista a costa da ilha dos vulcões, a Ilha Stichk. Que, exatamente por causa de seus vulcões, sempre em estágio iminente de erupção, instáveis, dizimavam as embarcações na maioria das vezes. Nunca tinham chegado a conhecer toda a extensão da costa sul dessa ilha.
   - Sim, sim – disse Pagotra, sem muita surpresa – mas e depois de cruzá-lo para alcançar o sul da Ilha Stichk? Iremos cruzar o restante de sua costa sul desconhecida? Ou iremos ao sul e tentar achar ventos no Mar da Calmaria?
   A inexistência de qualquer corrente de ar na região do Mar da Calmaria era conhecida desde os tempos de Galimah. Realmente não corriam ventos nessa região, as muitas cordilheiras ao leste, no Grande Continente, formavam um paredão que impedia o vento leste de chegar a este local. E ao norte, a outra corrente que circulava, perdia força conforme cruzava com a cadeia de vulcões da Ilha Stichk. Somente algumas brisas corriam próximo à costa sul dessa ilha, mas logo perdiam força, deixando navegantes a mercê dos inconstantes vulcões. De qualquer forma, o resultado era o mesmo. A morte!
   - Nem a primeira, nem a segunda. Nenhuma das duas opções que tu me indagaste, meu bom Pagoo. Iremos continuar pela costa norte da ilha até alcançarmos as Rochas Infernais.
   - Se me permite falar livremente, meu senhor. – solicitou Pagotra, demonstrando apreensão com a rota escolhida. Nesse momento Jas deixava escapar um leve sorriso de canto de boca, com ar de quem já esperava a surpresa para a qual já tem a resposta.
   - Lhe concedo a livre palavra, mas, antes que fale, permita-me inteirar-lhe a respeito de minha experiência no último inverno. Nesse momento estamos no décimo dia do outono, até chegarmos à região das malditas rochas, teremos despendido mais outros trinta dias. Teremos, então, transcorridos quarenta dias do outono.
   - Não estou compreendendo onde queres chegar.
   - Já compreenderás, basta deixar-me seguir com a pequena história de minha aventura. – tendo Pagotra consentido o prosseguimento da história com um leve sinal de cabeça, Jas continuou – Pois bem, era exatamente o quadragésimo dia do último outono, estava comandando uma missão exploratória com dois navios. Nunca havia navegado nesse período, pois eu sabia que os ventos do norte são mais violentos e as velas, certamente não aguentariam como as experiências acumuladas de outras missões parecidas confirmavam. No entanto era uma missão imposta pelo Rei e não poderia negar-me a cumpri-la. Nesse caminho fomos pegos de surpresa por outro vento, vindo do nordeste, das Ilhas Parch, fomos empurrados diretamente para a região das Rochas Infernais.
   Seguia Pagotra ouvindo atentamente, pois era de seu caráter não interromper uma história. Qualidade que falta aos ditos homens nobres de Norávia, mas que, por ironia das más línguas e das tintas dos escribas, aprendera com sua tão mal falada mãe.
   - Chegando lá, dei ordens para que meus homens içassem as velas quadradas deixando como propulsora somente a vela triangular que havia recentemente desenvolvido com meus engenheiros. A outra nau não tinha essa novidade, somente as convencionais velas quadradas, seu comandante, como de praxe, mandou içá-la, mas, para seu azar, sua embarcação ficou a mercê das correntezas do Mar das Rochas Infernais e foi direto de encontro às rochas. A maioria dos homens foi lançada ao mar, o restante buscava flutuar nas peças de madeira que restara da nau.
   Jas fez uma breve pausa. Esperava algum questionamento de seu amigo e comandado. Vendo não haver interrupção, seguiu com sua aventura.
   - A morte foi chegando aos poucos para aqueles homens, naquelas águas congeladas, repletas de Ajarr dos mares. Suas carnes eram devolvidas para as entranhas de Dout. Mas, enquanto observava esse espetáculo – Jas contava sua experiência ao ver a morte de companheiros de mar sem demonstrar compaixão, não por ser parte da fachada da muralha que criara em sua alma, mas por já ser de sua essência a indiferença perante a morte de quem quer que fosse e seguia dizendo que – observava também a embarcação, ou o que sobrara dela – nessa altura da história, o olhar de Jas, brilhando, perdia-se no infinito como se tudo o que vivera estivesse ali, acontecendo novamente – pude perceber que ela passara um caminho, estreito, único, entre as malditas rochas e ganhara o alto mar.
   E, assim falando, os sons de seus lábios deram lugar ao silêncio.
   - Terminaste a história, amigo Jas?
   - Sim. Ou melhor, não! – disse Jas direcionando seu olhar do infinito espaço da memória, para a finitude dos olhos de seu amigo impaciente. E, com um sorriso resplandecente completou – Cruzaram as malditas rochas, os homens, o comandante e o que restara da nau, mas não estavam vivos – dissera “vivos” e iniciara a gargalhada para depois finalizar – malditos sejam, avisei que minha vela triangular seria de utilidade.
   – Pois bem, seguiremos seu plano. Mas continuo acreditando ser uma jornada sem volta – disse Pagotra em tom de galhofa – daquelas que me fazem sentir o sangue correr.
   Durante os trinta dias que levaram – sempre próximos à região costeira do sul de U´Saugauth – da foz do rio Kaalium até a primeira das nove ilhas Parch, a viagem cobrou seus, tradicionais, defuntos. Foram trinta e sete ao todo; sendo jogados, devidamente embalados, e suas almas encomendadas à Onitt. Em nenhuma dessas cerimonias Jas demonstrou alguma fragilidade em seus sentimentos, era sempre o mesmo: impávido. Mas, para não dizer que era como uma rocha, às vezes deixava transparecer certa impaciência, não com a perda de marujos, até porque, nenhuma das trinta e sete almas era de seus inestimáveis especialistas, mas com a perda de tempo que poderia ocasionar. Em todo caso, chegaram no tempo exato.
   Era o trigésimo sétimo dia do outono de mil quatrocentos e cinquenta e sete do exílio de Galimah, as dez drabas se aproximavam da costa norte da Ilha Stichk. Não fariam, como planejado, a tradicional e perigosa, passagem do Estreito de Balin, mas, seguiriam a todo vento rumo às Rochas Infernais.
   Mais três dias foram necessários para que chegassem à temível zona de perigo, no caminho sem volta. No que acreditavam ser o lar das criaturas nefastas da obra terrível de Onitt, conforme as histórias da mitologia noraviana.
   – Vejam, vejam – disse em pânico o gajeiro do posto de observação da gávea – estamos muito próximos das rochas.
   – Içar velas quadradas, navegar à bolina – Disse, apressadamente, Jas Vastoo, ao seu imediato na Jahlya, Patuny Galomar, conforme exigia de suas emoções o momento, mas com a altivez que se é de esperar de um almirante de sua estirpe – dar os sinais de comando aos demais.
   – Içar velas quadradas, navegar a bolina, dar os sinais de comando à frota. Repetiu o imediato.
Todas as drabas içavam seus velames quadrados, a sincronia da ordem dada e cumprida era admirável, algo só possível em tripulações experimentadas. Não por acaso, Jas havia escolhidos os cinquenta homens para serem os mestres e contramestres das embarcações. Eram perfeitos nas técnicas náuticas.
   Todas as drabas navegavam, agora, tão somente com a vela triangular, a bolina. Tentando manobrar por entre as rochas, com estrema dificuldade, que vinha, não somente da tempestade aumentando a periculosidade dos ventos, mas, também, da correnteza, dos rodamoinhos, que tornavam essa tarefa ainda mais difícil.
   – A Nahny está indo contra as rochas – dizia aos berros, Patuny Galomar, o imediato, ao observar que a nau, comandada por Bask Gam, perdia sua luta contra a natureza do lugar – não sei se conseguiremos comandante.
   – Afirme isso mais uma vez e terá o mesmo fim de seu antecessor. Disse Jas Vastoo, ao seu imediato, relembrando-o sobre o que acontecera com Jas Blingolinn, quando o questionara a respeito de algumas ordens. Jas detestava que seus subalternos questionassem qualquer de suas ordens. Tinha, em seu intimo, a convicção de que estava sempre certo, não como alguém que, com base na ciência, defende seu ponto de vista, mas, pelo contrário, como um sofista, que, quer impor sua visão como a verdade, recorrendo ou a retórica ou a brutalidade.
   Não tendo como ser salva, a draba, de nome Nahny, chocou-se contra as rochas, muitas vezes, ficando em milhares de pedaços. Homens ao mar e podia-se ver, pois, apesar da tempestade, ainda era dia, seu capitão, Bask Gam, boiando, batendo os braços como podia e pedindo socorro. Com um sinal de cabeça, para o besteiro de popa, Jas deu um ponto final, com a flecha do besteiro, ao sinal de fraqueza de um capitão de draba, que nunca admitira no passado, e, mesmo hoje, não admitiria.
   Os primeiros duzentos pés foram, com relação a missões anteriores, um sucesso. Perderam somente a draba de Gam e seguiram com as outras nove. Mas ainda tinham que navegar, nas difíceis condições que vinham enfrentando, vinte vezes essa distância. E, como se o caminho já não fosse impossível, a noite chegava.
   – Amainar a traquete, dar o comando à frota. Ordenou Jas, ao seu imediato.
   – Amainar a traquete, dar o sinal à frota.
   Todas as drabas, agora, seguiam navegando com mais velocidade, porém com a devida cautela, já que seguiam com a quadrada da gávea içada. O objetivo do comandante da frota era vencer o tempo, chegar, antes do anoitecer, ao ponto crítico das Rochas Infernais. O ponto onde havia avistado, no outono anterior, a nau que seguia, sem vida, rumo ao ponto de águas menos traiçoeiras do Mar das Rochas Infernais.
   Por mais que tenha tentado equilibrar velocidade e cautela, não pôde impedir, para o mal de seus pecados, que o tempo vencesse e fizesse cair a noite. E não foi qualquer noite, mas a noite sem luz, o pior breu que já vivenciara. Não somente Jas, mas todos os marinheiros.
   Seguiu até o ponto crítico, dando ordem de amainar todo o velame. Desistiu da cautela e seguiu com o arrojo. Não importando as perdas que pudesse ter.
   – Rumar à boreste, virar a bombordo. Repetiam, incessantemente, os observadores de proa das embarcações. Na difícil missão, com suas precárias lanternas, de observar, naquela velocidade suicida, as rochas – que, no breu da noite, não podiam ser diferenciadas umas das outras, se grandes ou pequenas – malditas. Nesse vai e vem, nessa alucinante velocidade, perderam-se mais três drabas, até que se chegasse ao ponto crítico.
   – Chegamos, chegamos ao ponto – dizia esperançoso, o observador de proa da Jahlya – não vejo mais tantas rochas quanto antes.
   Ao mesmo tempo em que dizia o observador de proa, em regozijo que o pior já havia passado o vento, subitamente, mudou a rota da draba de Pagotra. Esta vinha de encontro às drabas Sor e Katum. Desesperados, os capitães das duas drabas tentavam manobrar em meio ao perigo.
   – Veja comandante, a Labila está fora de controle. Disse o imediato, percebendo que a draba de Pagotra ia se perdendo. E Jas, que olhava, sem demonstrar, mas, em seu intimo sentindo calafrios ao perceber que...
   – À boreste, à boreste – comentavam, em torcida, os marinheiros da Jahlya – vai bater!
   O choque de proa entre as drabas Labila e Sor foi de tal monta que, jogou os observadores que ali estavam a quatro pés de distância no mar, ambos perdidos para sempre. As proas entravam uma na outra, estilhaçando as tábuas e matando quem ali estivesse. A água entrava em abundância, alguns marinheiros atiravam-se ao mar. Jas demonstrava preocupação agora, debruçava-se no parapeito do castelo de popa, tentando avistar seu amigo. Tendo-o visto nada fez, apenas olhou fixamente em seus olhos, enquanto a velocidade da Jahlya o distanciava e, logo, o breu da noite impediu que as lanternas da draba continuassem a iluminar os perdidos no mar.
   Agora restavam somente sete drabas, a Jahlya, a Katum que escapara por pouco, e a Pahlom que pertenciam à sua frota e as quatro embarcações do, agora desaparecido, Lano Pagotra (Patoma, Kabilo, Zarroma e Nibaom).
   Enquanto o imediato explicava a respeito dos mantimentos que ainda restavam, das condições das drabas e o Et Cetera da administração da frota, Jas ouvia, mas não absorvia, estava a relembrar do olhar de Lano Pagotra.
   Em seu intimo, Jas Vastoo dizia – eu nada fiz para salvar meu amigo. Mas o que poderia, eu, ter feito naquelas condições? Se bem que, Pagotra me salvara em condições muito piores no Mar de Bruavia, sem, nem ao menos, titubear. Bah! Fez isso como amigo, mas também como um vassalo deve fazer para seu senhor. Teria feito diferente se estivesse em uma posição social superior, como alguém que tem muito a perder?
   Jas era homem que não gostava de questionamentos, tanto de terceiros quanto de seu próprio intimo, fato que lhe fazia afugentar indagações inquietantes, com sofismas. Em todo caso, a missão era mais importante que, quaisquer, sentimentos e lhe valia, visto ser notório a todos os marinheiros da missão a amizade e a predileção de Jas por Pagotra, a atitude – ou falta – de não ter enviado o resgate de seu amigo.
   Valia-lhe a impavidez que demonstrara nesse momento para ter com os marinheiros e, muito mais, para com os outros capitães, o respeito e o temor. Jas pareceria assim, não ter predileções e todos seguiriam sem questionar seus métodos – ao menos pensava ser assim.
   – Estamos chegando ao ponto que havia planejado – disse Jas a seu imediato – virar à boreste, amainar todo o velame, dar o sinal à frota.
   Todas as drabas agora seguiam a boreste, rumavam ao norte a toda a velocidade, distanciando das Rochas Infernais e ganhando o mar de mesmo nome. Seria rumo ao norte somente o suficiente para aproveitar a corrente e, depois, voltar ao sul. Onde Jas acreditava estar Ostravia.
   A jornada pelo desconhecido Mar das Rochas Infernais seria difícil? Obteriam sucesso? Haveria mais perdas?
   Perguntas sem respostas prévias?! Jas preferia viver o dia.
   Que as drabas ganhassem o mar e que os homens conhecessem o que lhes reservava o destino. Assim seria o desbravamento dessas novas águas.

Atos Finais