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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

CRÔNICAS GU´UN VOLUME I – OS SENHORES DA DESGRAÇA

Prólogo
   


- Os batalhões de ostrávios e norávios estranham-se, Jandy, meu senhor - disse o soldado osiávio ao comandante dos cavaleiros de Taky.
   - É preciso acalmá-los, nossa missão não é simples, pelo contrário, está longe de ser algo corriqueiro - respondeu Jandy sem olhar para o osiávio, percebia que era a mim que estava se dirigindo. - Além disso, nossa marcha começa hoje!
   - Sim meu senhor, é preciso lembrá-los da importância de nossa missão - respondi serenamente. - Os últimos dias têm sido de tensão extrema, fruto desse nosso conturbado passado em comum.
   - É, meu amigo Donn Vingo, o passado é algo que nos segue como uma sombra.
   - Mas as sombras só causam temor àqueles que não têm certeza do seu caminho - respondi.
   - O que propões para dar a certeza que falta a esses homens? Creio que mais uma parábola mitológica não será o suficiente para esfriar os ânimos destes batalhões - perguntou-me meu mestre e senhor, com seu jovial ar de preocupação e dúvida. - É preciso algo mais concreto!
   - Não te preocupes, sei bem qual é o discurso que deve ser feito nesse momento - Jandy estava certo, poderia ser muito inexperiente, com apenas quatorze anos, ainda incompletos, mas os anos que passara sob minhas orientações e na convivência com sábios desses dois grupos fizeram com que amadurecesse antes do tempo, além de já apresentar o porte físico de um adulto e o espírito endurecido por ter passado pelo que passou. Sim, era preciso alguma coisa mais concreta.
   - Ouçam-me meus irmãos de batalha, nem sempre fomos tão perspicazes como hoje - comecei meu discurso dessa maneira: - nos tempos da idolatria tudo o que sabíamos era o que haviam deixado escrito, desde tempos remotos, os três profetas. Antes do exílio do terceiro deles, chamado Galimah.
   - Dizem os escritos que foi Un quem nos denominou gu´un e que ele era o que deveríamos usar como espelho tendo como intermediários a linhagem dos três profetas.
   "Nossa vida não era certa, mas foi nesse tempo, cem vezes mil gerações depois de termos chegado à vida, que o primeiro grande profeta, Gamogu, ouviu as histórias que aqui são contadas, diretamente das profundezas de Dout. Ele era o primogênito de Gamo, estava fazendo as tarefas que seu pai ordenara, quando ouviu no bosque de Taky a voz de Dout, que lhe contou sobre a criação e sobre Un. E passou a espalhar essas histórias para todos nós. Nossa estimativa de vida, nesses tempos, era de quarenta anos, estes eram os mais idosos, mas, Gamogu, abençoado com a sabedoria da criação, viveu por nove gerações".
   "O primeiro profeta, e toda a sua linhagem, representavam o centro de nossa devoção espiritual a Un e sua divina criação. O profeta teve trezentas esposas e sua prole foi de três milhares. Mas, dentre esses milhares, somente Ko-Lah foi agraciado com a vida estendida e, assim, pôde seguir os passos de seu pai e sagrar-se o segundo profeta, posto ser primogênito, quando já contava a idade de oitocentos e setenta anos. Viveu por mais trinta, até seu filho Galimah assumir seu lugar com a idade de quinhentos e vinte anos".
   "Quando Ko-Lah morreu, já havíamos aprendido, com sua sabedoria, a plantar, nos tornamos agricultores".
   "Com a sabedoria de Ko-Lah também aprendemos a domesticar os animais e passamos a criá-los como criamos nossos filhos. E deles nos alimentávamos. Morávamos em cavernas e depois aprendemos a construir casas. Assim começamos a construir cidades".
   "A primeira cidade foi estabelecida próximo ao Bosque de Taky e, por isso, a ela demos este nome".
   "Com Galimah aprendemos a harmonizar com os Pala´ain. Essa historia harmônica começou após a destruição que causavam ao andar. Eles são gigantes desajeitados, alheios ao que se passa abaixo de seus rochosos pés".
   "Quando Galimah viu sua cidade destruída por um Pala´ain, resolveu escala-la e tentar destruí-la. Mas chegando ao topo da criatura, pôde sentir uma voz poderosa, a voz de Un".
   "Un disse 'Galimah! Galimah! Tu, oh pobre criatura, minha pequena semente, não podes destruir o que por mim foi criado'".
   "Galimah assustou-se com o poder daquela voz que ecoava por todos os lados. No entanto respondeu com toda a humildade que cabe a uma criatura infinitamente menor que a mais infinita presença da essência de tudo 'mas poderosa voz, eles destroem nossos lares, muitos inocentes morrem a cada passo desse gigante de pedra'".
   "Após o lamento de Galimah, Un proferiu seu maior ensinamento até aqueles tempos 'você Galimah, sabe de toda a história da criação, pois Dout contou à seu avô. A maior amostra do meu poder é a vida. Ela surgiu do absoluto nada. Semeada pelos Pala´ain, e do nada, eles extraíram o que precisavam. Mas a vida por eles semeada é frágil, ela se perde com muita facilidade, ela volta a ser nada'".
   "Galimah sentia, por todo o seu corpo, o poder do universo. Estava certo, era o poder de Un. Não estava aflito, nem com medo, sentia somente paz. E seguia a ouvir as palavras de Un".
   "'Eu escolhi você, dentre todos, para guardar a verdade, sobre a vida e a verdade sobre o meu poder’. Dizia Un em som poderosamente audível, algo que nunca qualquer um de nós havia experimentado. 'É preciso harmonia entre todos os seres vivos, para que vocês possam desfrutar da alegria do maior sentimento que se possa ter'".
   "Seguia Galimah ouvindo calado, contemplando a presença de Un, e seus ensinamentos, como um aluno a ouvir seu mestre. 'O meu maior presente a todos vocês, é o amor, sem esse sentimento, nada tem sentido, sem esse sentimento, a vida volta a ser nada, não há paz'".
   "Un fez uma breve pausa antes de proferir suas ultimas palavras de ensinamento. Era somente uma voz, mas uma voz que se materializa ao fechar todos os sentidos, para que se pudesse ser escutada com o único sentido perfeito, o sentido da alma. 'Eu escolhi você e nunca se esqueça disso, você e os que o seguirem serão conhecidos de hoje em diante como os gu´un'. E assim, Galimah foi o primeiro a ouvir a voz de Un, tornando-se o maior de todos os profetas".
   A partir desse momento, segundo a lenda, os gu´un passaram a viver em harmonia com os Pala´ain. Construindo aldeias e cidades no topo dessas criaturas que passaram a controlar. Mas isso foi em tempos tão remotos que não há como comprovar a veracidade dessas histórias. Em Norávia, em Suávia, em Kaatávia ou na distante Osiávia não há Pala´ain. Somente cordilheiras, montanhas solitárias e colinas imóveis. Talvez existissem em Ostrávia, pois os filhos desse continente ficaram isolados dos demais. Mas essa é uma história que contaremos depois.
   - Existiam muitos indivíduos nos tempos dos profetas - interrompi a citação para passar a falar mais informalmente, interpretando as escrituras segundo a ocasião me pedia. - Todos viviam como uma só tribo e nem toda a sabedoria foi capaz de impedir a divisão em milhares de outras tribos.
   - Viver em harmonia, cultivar sua maior dádiva para nós, o amor, estas eram as ordens de Un. Desde esses tempos o que o povo de Kaatávia fez foi obrigar Galimah ao exílio - que ficou conhecido como o grande êxodo - e muitos o seguiram. Será mesmo que as dádivas de Un eram dádivas? Ou será que a forma como foram transmitidas aos outros não teria sido unilateral? Perguntas importantes que nós, em nossa busca pela luz, só pudemos responder depois de viver sob a imposição desses ensinamentos e depois desses mil quinhentos e setenta e dois anos do grande êxodo.
   - O povo da antiga cidade de Taky não aguentou o fundamentalismo que se instalou depois do suposto contato de Un com Galimah. E de lá diversos grupos rumaram para os outros quatro cantos, segundo a lenda montados nos Pala’ain - gigantes de pedra que rumavam por Dout, sem rumo, simplesmente fazendo o que deveriam fazer segundo sua natureza.
   - As escrituras sagradas também afirmam que as grandes cordilheiras foram formadas após a morte dos Pala´ain que não aguentaram a grande jornada e morreram no caminho rumo aos locais onde hoje estão as grandes culturas de Dout.
   - Mas não é a validade dos ensinamentos dos deuses aos profetas ou a validade da própria afirmação de que esses ensinamentos foram realmente transmitidos a nós, diretamente dos criadores, mas sim a luta entre mentes livres e mentes crédulas o que realmente importa contar.
   - A desunião que surgiu em Taky após os ensinamentos de Galimah criou, conforme as escrituras, cinco grupos distintos. O primeiro era liderado por Kalêm, o segundo por Balaô, o terceiro por Taloom, o quarto por To-Kah e o quinto por Jukunda.
   - O primeiro grupo era o grupo dominante na cidade de Taky. O membro mais influente era Kalêm. Sua voz era percebida por todos como a verdade. Não era questionado e, conforme sua eloquência subiu à cabeça, passou a não aceitar questionamentos. Era de sua natureza contrapor-se a qualquer liderança que lhe fizesse sombra. E, rapidamente, foi o primeiro a questionar os ensinamentos de Galimah.
   - Posto ser, Kalêm, muito influente, o povo de Taky, em sua grande maioria, o escolheu como líder da cidade. Sua primeira medida como líder, e logo Rei, da cidade, foi banir Galimah e todos os que pretendessem seguir seus ensinamentos. Isso ocorreu porque o profeta entendia que era preciso ser monogâmico para fazer o amor prosperar. Grande afronta a Kalêm, dono de muitas mulheres, fosse para seu próprio prazer, fosse para lucrar com prazeres alheios.
   - O grupo liderado por Jukunda, fiel seguidor de Galimah, escolheu apoiar o profeta em sua missão de levar a palavra de Un aos gu´un. Lutas foram iniciadas, destruindo muitos Pala´ain e dando origem as inúmeras cadeias montanhosas que caracterizam as terras de Kaatávia. Dos milhares de gigantes rochosos que possuíam esses dois grupos, sobraram somente algumas centenas.
   - Cansados das guerras, o grupo de Jukunda decidiu rumar para as terras inóspitas de Ostrávia, enfrentando o deserto até encontrar a verdes terras, e muitas florestas, dessa região. No entanto perdeu a maior parte de seus Pala´ain, dando origem a cadeia montanhosa que separa o deserto de Kaoom das terras ocidentais. Galimah seguiu com o grupo de Jukunda até a região onde a maioria dos gigantes rochosos deixou de caminhar e lá ficou. Exatos mil quinhentos e sessenta e sete anos atrás.
   - Do grupo que ficou em Kaatávia, liderado por Kalêm, surgiram novas dissidências. Primeiro To-Kah questionou o excessivo uso da força pelo Rei de Taky e, evitando confronto, levou seus seguidores para as terras de Osiávia, chegando lá, pelo sul, atravessando um pequeno deserto que seus Pala´ain transformaram em terras cultiváveis. No entanto, também esses gigantes deixaram de caminhar, dando origem a cadeia montanhosa de Kahaar.
   - Depois de To-Kah, foi o líder dos gu´un de pele escura como a noite o próximo a deixar Taky. Seu nome era Balaô, líder muito respeitado por todos. Especialmente pelos de pele escura que eram vistos como indivíduos de menor importância pelos que ficaram na cidade. Balaô não poderia aceitar tal pensamento e também não desejava mais mortes. Decidiu, então, rumar para as terras de Suávia, com apenas dois Pala´ain. Depois disso o contato entre os suávios e o restante dos gu´un, embora não extinto, como ocorrera com os ostrávios, deixou de ser frequente. Não desejavam ter contato com indivíduos que não estavam dispostos a enxergá-los como iguais.
   - Por fim restou ao Rei Kalêm seu grupo e o grupo de seu braço direito, Taloom. Mas Taloom, como viria a ser o caráter de seus seguidores, era ardiloso, frio e planejador. Em um determinado dia, quando seu grupo, assentado em uma centena de Pala´ain, levou o Rei pouco mais ao norte, para explorar novas terras para cultivo, Taloom armou uma emboscada. Kalêm encontrou-se sozinho, cercado por Taloom e sua guarda. O resultado foi uma centena de estocadas em seu corpo que, no final, não poderia ser reconhecido como um gu´un, mas, somente, um pedaço de carne, com as entranhas para fora, o rosto desfigurado e muito sangue jorrando.
   - Ao voltar para o grupo que fazia a patrulha, Taloom foi questionado por Gauth, Soli, Bel, Ayri, Fray, Tra e Gray, líderes menores do grupo de Taloom, sobre o paradeiro do Rei. Taloom disse que "agora o Rei está no lugar que deveria estar". Em um primeiro momento ninguém entendeu bem o que realmente significava "o lugar que deveria estar". Mas, ao lembrarem-se da crueldade que Taloom sempre demonstrara e das confidências deste sobre o que realmente pensava do Rei, logo eles se aperceberam que Taloom dera fim a vida de Kalêm.
   - O grupo de Taloom, até aquele momento, não usara da pena capital entre seus membros, mas não tiveram escolha, pois, eles eram minoria em Taky e seriam questionados pelos que ficaram na cidade, sobre o paradeiro de seu Rei. Sem opção, deram cabo da vida de seu líder e entregaram a cabeça de Taloom, que fora arrancada de seu corpo ainda vivo, na frente de seus filhos, ao novo Rei da cidade, Bigarssy.
   - Mesmo com o ato de extremo sacrifício de seu líder máximo, o grupo dos sete, como passou a ser conhecido o grupo de Taloom após sua morte, foi obrigado a abandonar a cidade de Taky. Rumaram então para as terras de Norávia, enfrentando o perigoso e grandioso Deserto de Balin, onde no caminho, também segundo a mitologia, perderam muitos Pala´ain, dando origem a Cordilheira Palain Barin. Depois encontraram um caminho de oásis entre o deserto e o Mar de Balin, ao qual deram o nome de Caminho Sanarthyn, na antiga língua dos sete: "Caminho da esperança".
   - O restante dos Pala´ain que montavam foi perdido na ocupação do norte, dando origem as cadeias montanhosas que dominam o interior desse frio continente do norte.
   - Mas o que nós, ostrávios, temos a aprender com a história dos bárbaros norávios? - questionou o forte e bravo Jauna, líder do batalhão de ostrávios.
   - Aparentemente nada, bravo Jauna - respondi com um leve sorriso ao olhar para o senhor dos cavaleiros de Taky. Jandy retribuiu o sorriso, esporeou seu cavalo que respondendo ao seu comando, girou-se, saindo do círculo de discussão.
   - Perceba Jauna, e perceba Gray, que, aquele que sai deste círculo de discussão, é o centro dessa história, mas o que quero contar é bem anterior ao seu nascimento, ele, assim como todos nós, nós não existimos do nada, temos pais, e é essa a história que preciso contar-vos - respondi assim à interrupção da história que contava para poder retornar, no que obtive êxito. Jandy, e tudo o que dizia respeito a sua vida era (e é) muito respeitado por todos os membros de nosso grupo de cavaleiros.
   - Eu sou Donn Vingo, membros da cavalaria de Taky, e falarei aos senhores como tudo começou, em Norávia, no ano de mil quatrocentos e vinte e cinco, quando um acordo entre os senhores de U´Saugauth foi quebrado:
   Meu senhor, ao qual fui servo fiel, era Jas, do clã Vastoo. Aqui estou honrado em relatar a dramaticidade dos fatos da vida do pobre homem que fez da sombra seu caminho e de sua alma fez a escuridão. Este foi meu mestre e senhor nestes tempos tenebrosos de incertezas. Ele vivia em Norávia, e é a partir de lá que o destino lhe trouxe glórias, e, na mesma medida, perdas irreparáveis.
   As terras de Norávia sempre foram as mais inóspitas de Dout, e os gu´un que nela habitam, logo perceberam que somente os mais fortes poderiam sobreviver. Posto que a vida seja difícil, o nascimento de um novo membro nesse continente é, outrossim, um grande acontecimento e, quando nascidos deformados, eles eram descartados nas terras congeladas de Bruávia , mais ao norte, ficando para morrer das condições terríveis do tempo ou devorados pelas criaturas que lá habitavam.
   Desde o grande êxodo para os quatro cantos de Dout, provocado pelo exílio de Galimah, até a formação dos onze reinos de Norávia, passaram-se mil quatrocentos e vinte e cinco anos.
   Os onze reinos de Norávia eram Tra´Ray e U´Saugauth no oeste, terra dos descendentes das tribos dos que viviam das riquezas do mar; Ayrialy, U´Ubaly, Nor´Bongauth e Frayfh ao norte eram a terra dos grandes comerciantes e exímios homens do mar; Suav´Bongauth, Gray e Wesongauth no centro eram as terras dos homens que viviam do amor ao saber e; Soliam e Belum no leste, onde da cultura e sociedade pouco sabemos.
   Meu senhor era filho do grande reino de U´Saugauth. Nesse reino, o poder dos reis sempre fora questionado pelos senhores das terras e dos homens. Por isso, sempre houvera o acordo entre todos os senhores do reino, escrito e assinado, revelado e juramentado diante de Un, para que todos se lembrassem. Este documento era conhecido como a Carta do Compromisso e lá, todos os senhores, inclusive o rei, juravam não intervir em assuntos internos nos domínios alheios. No entanto, nesse ano, o rei Pago Vasto, o quarto de seu nome, decidiu em favor de um camponês que lhe suplicara justiça diante do rapto de uma de suas filhas, virgem, por um senhor que era vassalo de Gaboo, senhor dos Trakot.
   Gaboo, mesmo senhor de um poderoso clã, era jovem, e, como tal, intrépido e voluntarioso, mas perspicaz e oportunista como um membro deste antigo clã deveria ser. Aproveitou como pôde a oportunidade para pressionar o rei Vastoo. A Rivalidade entre os Vastoo e os Trakot era tão antiga quanto as crônicas mais antigas.
   Uns diziam que nascera durante o percurso do grande êxodo que trouxera o grupo dos sete à Norávia, quando o líder Gauth dividiu suas terras entre U´Sau, Bon e Weson e o mais velho fundou o reino de U´Sau Ta-Gauth (U´Sau filho de Gauth), que com o tempo tornou-se U´Saugauth, lá doou excelentes terras para dois de seus fiéis senhores da guerra Vas-in-Too e Traky-Oty, os descendentes destes, Mas Ta-Vas-in-Too e Gabion Ta-Traky-Oty, uniram-se contra o descendente de U´Sau, Sigon Ta-U´Sau e tomaram o reino, no entanto Mas não aceitou dividir o reino em dois e tomou o trono para si, combatendo Gabion e o tornando vassalo.
   Outros diziam que nascera depois da tomada do reino por Mas que dizia ter a anuência de Gabion para tomar o trono para si, mas que, pouco depois, este mudou de ideia e resolveu rebelar-se contra seu senhor, perdendo uma guerra devastadora para os dois lados.
   Não obstante estas dúvidas de centenas de anos, todos os cronistas concordam que o equilíbrio de poderes de ambos os clãs permitiu uma convivência relativamente de paz, os dois lados odiavam-se e respeitavam-se na mesma intensidade. Mas as condições materiais de ambos os lados não fora a mesma sempre e o equilíbrio começara a se romper pouco antes do o ano de mil quatrocentos e vinte e cinco. E nesse reino, quatro anos depois, teve início uma grande guerra entre o clã do centro-oeste que detinha o trono nos últimos anos, os Vastoo, e um clã que vivia no nordeste do reino, os Trakot.
   Os Trakot eram um clã nobre, muito rico e poderoso, que vivia de suas incursões saqueadoras aos outros reinos de Norávia. De mil quatrocentos e vinte e nove a mil quatrocentos e trinta e dois, a guerra em U´Saugauth obrigou os Vastoo a substituírem o rei por duas vezes. Com a morte de Pago veio seu irmão Jas, o primeiro de seu nome, e depois seu filho Jatoo, também o primeiro desse nome. Jatoo tinha um pequeno filho, chamado Jas em homenagem ao avô, que morrera no mesmo ano de seu nascimento.
   O grande poder que seus tesouros traziam, possibilitou aos Trakot decisiva vitória diante dos Vastoo no ano de mil quatrocentos e quarenta e quatro. Nesse mesmo ano derrotaram Jatoo, na batalha de Pagovigo.
   Próximo aos campos de pasto da cidade de Pagovigo o exército de Jatoo fora decisivamente derrotado e o caminho para o Castelo de Yhterbell, na cidade de Vastoo, ficou livre.
   Jatoo e sua bela esposa Abalem, tiveram uma horrível morte, diante do pequeno filho do casal real e dos habitantes de Pagovigo. Na praça da cidade ambos foram amarrados em um poste, um de frente para o outro, em uma grande armação de madeira, ensopada com piche. Logo vieram as chamas e os dois foram queimados vivos, sofrendo lentamente. Os gritos de horror causavam aflição nos pagovianos que, no entanto, incentivados pelas espadas dos homens dos Trakot, gritavam palavras ofensivas contras seus antigos mestres e clamavam para que fossem diretamente para o inferno.
   O pequeno Jas Vastoo não foi morto com o restante de sua família. Seu futuro seria diferente. Viveu como um nobre degredado no reino de U´Saugauth e cresceu com a ideia fixa de tentar resgatar a honra de sua família a qualquer custo. A cena da terrível morte de seus pais marcou a mente daquele jovem de doze anos. A cada grito de agonia de seus pais um ano da infância dava lugar a um ano da vida adulta, de mancebo a homem com a morte dos pais, este era Jas Vastoo.
   O novo rei cuidou de Jas até a idade adulta. Talvez por piedade, talvez por ironia, provavelmente pelo gosto de humilhar e afirmar sua posição aos que dele estão abaixo. Em todo caso, Jas viveu sempre a sombra do filho do Rei Gaboo, o terceiro de seu nome, chamado Taboo. Foi por diversas vezes humilhado na Corte. Seu crescimento físico acontecia na mesma medida do de seu ódio ao clã Trakot.
   Decidido a recuperar a honra de seu clã. Assim ele cresceu.
   No entanto, mais que humilhar os antigos senhores do reino, era imprescindível aos Trakot que alguém de sua linhagem casasse com a linhagem real legítima, para que pudessem ser aceitos pelas casas nobres que eram leais aos Vastoo. O Rei Gaboo tinha uma filha ideal para essa necessidade, a bela donzela, de cabelos prateados, chamada Tybaa.
   Quando Jas completou a idade de vinte e um anos, voltara de seus aprendizados no mar um outro indivíduo ao Castelo Goliam, em Trakot. Cintilava a força física e a nobreza neste jovem homem da linhagem Vastoo. Mas, aliava a essas virtudes a malícia que aprendera nos seis anos sob a tutela dos Trakot, era um individuo que inspirava seus seguidores e arrebatava a paixão das mulheres que lhe miravam a face. Como acontecera com a bela Tybaa. Alheio ao mundo à sua volta, seus olhos eram tão cinza quanto os longos dias cinzentos nas terras dos norávios, tal qual sua alma seca pelo sentimento de vingança.
   E foi assim que quatro anos depois Jas lançou-se em uma perigosíssima missão. Uma aventura que lhe traria mais caminhos tortuosos.

Atos Finais