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28 de janeiro de 2016

Contos de Gaea: Um prólogo perdido


É o seguinte, seus jovens. Esse é o início do meu próximo livro, e gostaria de saber a opinião de vocês. Não vou publicá-lo no blog como fiz com Conventionis (never again), mas de vez em quando posso pedir feedbacks assim.

Brigado, seus lindos.

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   A cela era escura e úmida, quatro paredes imundas que cercavam um pequeno piso desnivelado de rocha cinza. Entre os vãos das pedras rachadas, lodo verde e seco se espalhava como uma praga, avançando sobre as poças d'água formadas pelas inúmeras goteiras. A única luz do ambiente, pálida e azulada, vinha da janela prostrada na porta de madeira. Junto com a luz, ela deixava escapar por entre suas grades enferrujadas o som enlouquecedor de queda d'água, amplificada por ecos e mais ecos. No fundo da cela, uma figura jazia adormecida, inclinada para frente com correntes a prendendo à parede pelos pulsos, tornozelos e pescoço.

   Era uma garota, perto de seus vinte anos. Tinha o cabelo azul e desembaraçado caído na frente do rosto, cortado grosseiramente para ficar acima dos ombros. Seu corpo era magro, coberto por uma bata surrada e rasgada que revelava cicatrizes finas nos ombros da garota. Outros cortes, antigos e recentes, se espalhavam pelos braços e pernas em menor quantidade. Na mão direita, havia uma marca de queimadura que formava um Y. 

   Estava adormecida, franzindo o rosto conforme sonhava. Subitamente acordou, arfando. A corrente chacoalhou com um som metálico enquanto ela recompunha a respiração, tentando se livrar da imagem de fogo que ardia em sua mente. Com os olhos arregalados, ela rangeu os dentes enquanto repetia seu mantra interno. Sasha. Meu nome é Sasha. Era tudo que restava de si mesma, do tempo antes da prisão, de antes das torturas.

   Assim que se acalmou, ela levantou a cabeça. A luz que vinha da porta era azulada, indicando que era o meio da noite. Fechou os olhos, imaginando o que ocorreria no dia seguinte. Talvez os carrascos a deixassem em paz durante a semana. O último que viera se divertir com o chicote havia ganho uma mordida na mão dois antes, e não havia aparecido desde então. Talvez esteja preparando uma vingança, pensou a garota sem emoção.

   Ou talvez me entregue à sala escura, concluiu Sasha com um arrepio. Só tinha ido à sala escura três vezes, e a dor foi tamanha que não conseguia focar as memórias. Lembrava de seringas e uma mesa de madeira, mas era tudo que conseguia reviver acordada. Os outros prisioneiros, que nunca havia encontrado, já haviam parado de gritar pelas torturas cotidianas há muito tempo, mas nunca se mantinham calados na sala escura, onde quer que ela ficasse no complexo.

   Olhou para a janela da porta, fitando a cachoeira. Lembrou de uma época em que sonhava em salvação, em um cavaleiro branco quebrando a madeira puída para salvá-la. Devaneios. Desde então, aquela porta só se abria para a dor.

   Estava pensando nisso quando o rosto de uma garota apareceu entre as grades.

Atos Finais