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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Contos de Gaea: O cosmonauta



  Flashes passavam pela visão de Mikael, traços vermelhos que sumiam no fundo escuro. Ele demorou até perceber que estava gritando. – GRAAAAH! – Berrou, tentando afastar a cabeça para trás. Por alguns instantes sentiu o rosto molhado e gelatinoso, mas voltou à explosão de cores em segundos. Gritou ainda mais e usou inconscientemente as mãos para se apoiar. Sentiu os controles do manche e usou-os para se empurrar para trás, saindo definitivamente do ambiente de controle. Sua audição estalou como se tivesse acabado de submergir, e o cheiro da gosma que grudava em seu rosto tomou seus sentidos. 

  – CACETE! ARGH! – Gritou, jogando o corpo para trás com os olhos fechados. Errou a cadeira e caiu no chão, o que fez sua cabeça explodir. Conseguia ouvir no fundo um alarme tocar, e aquilo lhe deu adrenalina o suficiente para ignorar as dores e se levantar cambaleante. – Tech! Tech! – Chamou. 

  – SENHOR. – Chamou uma voz robótica. Mikael abriu os olhos, avistando sua sala de comando. Os painéis grudados na parede e no teto piscavam e clamavam por atenção, banhados na rubra luz de emergência. Na frente do homem, havia uma bola de tentáculos metálicos com um olho verde no centro, flutuando em pleno ar. Era Tech, o computador de bordo. – O. SENHOR. ESTÁ. BEM? 

  Mikael colocou a mão na cabeça, limpando a gosma amarela. Olhou para trás, na direção de seus equipamentos de controle. O capacete de imersão virtual vazava a mesma substância que sujava o cosmonauta, que também estava espalhada pelo manche e pela poltrona. – Eu acho que sim, eu... – O som do alarme parecia martelar sua cabeça já dolorida. – Desligue o alarme. – Pediu, de olho nos painéis. Parou ao ver que a inteligência artificial o limpava. – O que aconteceu com a nave? 

  Tech ficou em silêncio por alguns segundos. – EU. RECOMENDO. QUE. O. SENHOR. DESCANSE. CAPITÃO. MIKAEL. – Aconselhou o robô, terminando de limpar o homem. – DEIXE. A. NAVE. EM. MINHAS. MÃOS. 

  – Tech. – Começou Mikael, sentindo um nó na garganta se apertar. – O que aconteceu com a nave? – Repetiu. 

  O olho do robô o encarou, e seus tentáculos tentaram gentilmente conduzi-lo à poltrona. – SEM. SOFRIMENTO. 

  Era o bastante para o cosmonauta. Ele se afastou de Tech e correu até os painéis. Checou a infraestrutura da nave e gelou. Conferiu mais alguns dados e levantou a cabeça, enxergando seu reflexo no vidro negro. O rosto quadrado e barbado o encarou apavorado de volta, seus olhos azuis se destacando na pele pálida e no cabelo ruivo. Engoliu em seco. – O que nos atingiu? 

  – ESTIMO. QUE. FOI. LIXO. ESPACIAL. – A bola de tentáculos se aproximou, também aparecendo no reflexo. – NOSSOS. SENSORES. NÃO. CAPTARAM. PEÇO. PERDÃO. SENHOR. 

  Mikael suspirou fundo, tentando se acalmar. – Quanto da nave foi perdida? – Percebeu que o computador não respondia, e não conseguiu manter o controle. – TECH! 

  – OITENTA. E. QUATRO. POR. CENTO. – A voz metálica pareceu ecoar na sala de comando, e a bola de tentáculos se movimentou. – CONTUDO. JÁ. ESTOU, COMBATENDO. O. FOGO. PARA. PROTEGER. O. RESTANTE. 

  – Fogo. – Riu o cosmonauta, esfregando os dedos no painel enquanto pensava. – O que restou? Alimentos, bebidas? O suporte de vida está estável? 

  – SEM. SOFRIMENTO. – Disse enigmaticamente Tech, e Mikael percebeu que não queria aquela resposta. Se afastou da parede e fitou outro painel com a mão no queixo. Na tela de LCD, um ponto vermelho se afastava de uma rota branca. 

  – Estamos saindo do curso. – Disse o homem para si mesmo. – Os motores foram danificados, Tech? 

  – SIM. 

  – Então estamos nos afastando da BB-2187 e entrando no campo gravitacional da Velix-12. – Fitou a estrela no canto da tela, preferindo não fazer a conta de quanto tempo levaria para a nave arder na heliosfera.  – Temos como chamar por ajuda?

  – OS. COMUNICADORES. FORAM. DANIFICADOS. FISICAMENTE. – O robô girou no ar, ficando ao lado do homem, parecendo agitado. – CONTUDO. O. ACIDENTE. OCORREU. NO. CORREDOR. FORA. DESTA. SALA.

– Então quer dizer que há esperança? – Não havia resposta para aquela pergunta subjetiva, mas Mikael sorriu. Era o suficiente. Deu as costas para o computador e se dirigiu à porta da sala. – É seguro andar pelos corredores?

  – POSSO. FECHAR. AS. COMPORTAS. MAS. TEREI. QUE. COMPROMETER. AS. SALAS. QUEIMADAS.

  – Faça isso então. – Pediu o cosmonauta, com remorso. Sabia que a nave estava perdida, mas ainda assim era difícil tomar uma decisão daquelas. Havia passado anos entre aquelas paredes, navegando entre as rotas estelares em entrega de encomendas. Por sorte, não estava carregando nada naquela viagem, livrando-o de um problema futuro.

  Esperou Tech terminar de comprometer as salas queimadas antes de sair cauteloso pela porta. Não havia luz nos corredores escuros, com exceção de um painel brilhante à distância. Mikael andou até ele, atravessando a parede de ar quente que aguardava no corredor. Sentou na frente do painel e recebeu do robô sua caixa de ferramentas. Desparafusou magneticamente a tampa e começou a mexer nos fios danificados para consertá-los.

  Percebeu imediatamente que o trabalho o acalmava. Era fácil deixar a ansiedade de lado quando se esforçava no trabalho, deixando que sua mente o levasse para ambientes mais calmos. Recordou da filha, que estaria fazendo dezoito anos em breve. Faria mais algumas missões antes de voltar para casa. Considerou abandonar tudo o emprego depois da comemoração. Não era a primeira vez que se metia numa furada daquelas, mas esperava que fosse a última.

  Suor pingava de sua testa. Olhou de soslaio para as comportas que o separavam das salas em chamas, e voltou ao trabalho mais apressado. Falta pouco, disse a si mesmo. Continuou no conserto, pensando na filha. Ela tinha o mesmo cabelo ruivo que ele, mas possuía os olhos verdes da mãe.

  Estava se relembrando da falecida esposa quando terminou de consertar o painel. – TECH! – Berrou, ficando em pé com um pulo. Correu até a sala de comando, encontrando o robô mexendo no painel.

  – MENSAGEM. DE. SOCORRO. ENVIADA. – Declarou o computador, e Mikael também se aproximou do painel. Suspirou aliviado, levantando a cabeça para ver a proximidade da nave com Velix-12. Tinha pouco tempo, mas agora a situação estava fora de suas mãos.

  – Cuide da resposta, Tech. – Pediu o cosmonauta, sentindo-se exausto. Sentou na poltrona ainda suja e jogou a cabeça para trás, fechando os olhos. 

  Tech, por sua vez, permaneceu aguardando. Entrou em modo de espera, tornando seu olho amarelo, e continuou assim até o painel piscar. Acordou, encaminhando-se até a tela. O pedido de socorro havia sido atendido, e uma nave de resgate estava vindo diretamente da rota BB-2187. Pedia pela localização da nave de Mikael.

  Tech estava prestes a responder, mas parou ao fazer as contas. Dada a localização da nave de resgate e a proximidade que estavam de Velix-12, jamais seriam resgatados a tempo. Não havia motores rápidos o suficiente para alcança-los. Estavam condenados.

  Virou-se para seu capitão. Havia apenas uma resposta lógica a ser tomada. Mikael acordaria antes de chegarem à estrela, e, pelo seu histórico psicológico, iria se desesperar antes do fim. E isso era inaceitável. O robô se aproximou do homem, e seus tentáculos agarram um cortador de plasma da caixa de ferramentas.

  SEM. SOFRIMENTO.

  Enfiou a arma improvisada na cabeça do capitão. Sangue espirrou na sala de comando, mas não houve luta. Ele sequer acordou. Tech afastou-se do corpo. Seu comandante estava morto, e não tinha mais um propósito. Desligou-se, e os tentáculos penderam sem energia.

  Do lado de fora, a nave se aproximava da estrela.

Atos Finais