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8 de janeiro de 2016

Contos de Gaea: Essa tal de aventura



 Milla estava distraída, apoiando o rosto na mão enquanto desenhava em seu caderno. Seu comprido cabelo negro estava cobrindo um lado do rosto, tapando as bochechas rosadas, enquanto os olhos castanhos se escondiam por trás das pálpebras semiabertas e os longos cílios. Ela bocejou, levantando o queixo em seguida. Estava detrás de um balcão, encarando uma pequena loja de suprimentos para aventureiros, com armas, alimentos e poções dividas em três balcões. A luz vinha da grande janela à frente, que revelava a poeira dançando em pleno ar.

 O sino da porta tocou, e Milla imediatamente se empertigou para receber o recém-chegado, derrubando o caderno em que desenhava. O cliente estava com uma pilha bamba de caixas na frente do corpo, ocultando sua identidade.

 Seja bem-vindo! – Anunciou ela enquanto o visitante entrava. – Nossas maçãs acabaram de ser colhidas, e nós... ah, é você. – Completou, reconhecendo o rosto barbado de seu pai.

 – Continue, estava prestando atenção! – Zombou o homem, apoiando as caixas em um balcão. Milla suspirou e se levantou, circundando o balcão para pegar seu caderno enquanto o pai começava a descarregar armas diversas dos pacotes. Segurou uma espada decorada e olhou para a filha com um misto de orgulho e melancolia.

 – Ei. – Chamou, estendendo a arma. Milla levantou a cabeça, sem entender. – Comprei para você usar amanhã. Quero que se lembre de seu velho pai.

 – Pai... – Respondeu a garota, rindo pelo nariz. Sem jeito, aceitou o presente, segurando-o em frente ao rosto. Era uma bela lâmina, sem decorações, presa a uma bainha de cobre escovado. – Obrigada. – Sorriu.

 O homem continuou sorrindo, e pequenas lágrimas começaram a se formar ao redor de seus olhos. – Aproveite e leve isso para casa. – Disse ele, secando o rosto com as costas das mãos. – Já ajudou o suficiente por hoje. Vá descansar.

 Milla pensou em questionar, mas admitiu a si mesma que estava distraída demais para continuar trabalhando. Pegou sua espada, despediu-se e saiu da loja, encontrando a cidade banhada pelo pôr-do-sol. As ruas de pedra começavam a se esconder na escuridão, e pedestres se apressavam para terminar seus afazeres. A garota respirou fundo e partiu, sabendo que aquela caminhada para casa seria uma das últimas que faria.

Havia sido chamada para fazer parte de um comboio que iria viajar para Lot’Releth, uma cidade élfica que atraía aventureiros de todos os cantos da Aliança. Em suas ruas douradas, guildas eram formadas, expedições eram montadas e vidas eram mudadas para sempre. Milla se imaginou naquela cidade, sentindo uma mistura de sentimentos se remexer em sua alma. Havia animação, medo e ansiedade em seu âmago, e continuou assim até chegar em casa.

 Subiu as escadas até seu quarto. O sol poente acenou para ela da janela, banhando o restante da cidade. A garota guardou sua espada na escrivaninha e sentou no batente da janela, deixando seus pensamentos atravessarem o vidro e voarem perdidos. Memórias voltaram à tona, lembranças felizes de uma vida que agora parecia no fim. Havia amigos, familiares, até mesmo relacionamentos passados. Milla baixou a cabeça até tapar a boca com o braço, perguntando-se mais uma vez se estava fazendo a coisa certa.

 O vento entrou no quarto através da janela entreaberta, fazendo os papéis na escrivaninha voarem. A garota se levantou e recolheu o mais próximo. Era um desenho de sua infância, retratando ela mesma, lutando contra orcs, harpias e outras criaturas do outro lado da Fronteira.

Abaixou o papel, voltando a encarar a cidade pela janela.

 Na manhã do dia seguinte, estava com seu pai na mesa, saboreando seu último café-da-manhã em casa. Pão, frutas, linguiças e ovos fritos estavam espalhados em diversos pratos, mas nenhum dos dois estava com fome. O homem parou de brincar com sua maçã e levantou os olhos para a filha, que permanecia com o rosto baixo.

 – Milla. – Começou, meio incerto, e a garota levantou a cabeça. – Você sabe que eu te dei todo o suporte quando disse que iria fazer essa viagem, mas não posso te deixar ir antes de perguntar uma coisa.

 – Já imagino o que seja. – Respondeu ela, sorrindo de forma fraca.

 – Você teve um ano difícil. – Continuou o outro. – Terminou o namoro, saiu do emprego antigo, e só voltou a ficar animada de verdade quando soube da proposta de viagem. – Ele se ajeitou na cadeira, olhando fundo nos olhos da filha. – Eu tenho que te perguntar. Você não está fazendo isso para fugir dos seus problemas, está? Por que, se estiver, vai acabar se arrependendo.

 Milla ficou alguns segundos em silêncio, até limpar a boca com um guardanapo. – Eu refleti bastante sobre isso nesses meses. – Começou pensativa. – Eu realmente acredito que não, mas só vou ter certeza de verdade no futuro.

 – Só que eu sinto essa coisa dentro de mim! – Adiantou-se ela, percebendo o olhar incerto do pai. Colocou a mão no peito, procurando as palavras. – Toda vez que eu penso sobre ir ou não nessa jornada, tem uma, sei lá, uma bússola me apontando para esse caminho. Como se fosse a coisa certa a fazer, sabe? É difícil explicar, mas... é meu sonho. – Sentiu os olhos se marejarem, e voltou a abaixar a cabeça. – Sempre quis sair numa aventura. Desde que eu era pequena.

 O pai sorriu, conivente. – Pensei que tinha desistido desse sonho.

 – Eu meio que desisti. – Admitiu a garota, passando a mão pelo cabelo. – Eu tinha decidido meu futuro, você sabe. Me casar, arrumar um emprego seguro, ter uma vida calma. Só que eu perdi tudo em um ano. – Ela começou a brincar com o garfo, distraída. – Não adianta eu pensar que existe essa história de vida calma. Tudo é um risco. E, se for para me arriscar... – Ela levantou o queixo, e um brilho passou por seu olhar. – Que seja de cabeça.

 O homem voltou a sorrir. – Bom ver que esse espírito aventureiro ainda existe dentro de você. – Levantou-se, ficando ao lado da filha, e pôs a mão em seu ombro. – E, principalmente, que você ainda o escute.

 Milla sorriu, e se levantou para abraçar o pai. Entre os braços dele, fungou. – Obrigada.

 Permaneceram assim por muito tempo.

 Algumas horas depois, Milla saía de casa. Tinha uma mochila nas costas, e, com exceção das roupas no corpo, era tudo que possuía. Virou-se para dar uma última olhada no lugar que havia crescido, deixando as memórias fluírem. Ainda tinha dúvidas, isso não poderia esconder. Só que, ao mesmo tempo, tinha a determinação de continuar em frente. E não haviam correntes que a prendiam.

 Deu as costas, partindo para a aventura.


Atos Finais