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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Mais uma luta



 O rapaz estava sentado, suas costas curvadas e a cabeça abaixada, o cabelo castanho e desgrenhado tapando o rosto. Seu corpo estava coberto de escoriações e roxos, e o sangue secava em diversos locais. Ele estava em um simples banco de madeira em um quarto de pedras, ouvindo a multidão lá fora rugir e clamar por mais. O cheiro de sangue e areia era nauseante, assim como a visão do portão que levava à arena. A luz era forte, cegante, contrastando com o quarto escuro que o rapaz se encontrava. Ele não se mexeu, apenas ficou sentindo cada ferimento que havia ganho na última luta pulsar e arder.

 Do nada, uma porta lateral, de madeira, se abriu.

 - Olha, foi uma luta pesada, não é? - Disse um velho em voz alta, parecendo se divertir. Tinha o rosto comprido, com barba e cabelos brancos acompanhados por um bigode grosso da mesma cor. Ele carregava consigo uma caixa, e sentou ao lado do rapaz. - Você apanhou que nem um cachorro cego!

  O rapaz não respondeu, apenas desviou seu olhar azul para o outro lado da sala. O velho abriu sua caixa, recolhendo algumas pomadas e elixires coloridos, e começou a passá-los nos ferimentos do mais jovem. - Acho que alguns cortes aqui não vão se curar a tempo, então reze para que eles se fechem durante a próxima luta!

 - Próxima luta? - Disse finalmente o garoto, ainda com o rosto fitando o vazio. - Pra quê uma próxima luta? Qual o sentido de tudo isso?

 O velho o olhou e sorriu, parecendo acostumado àquele tipo de questionamento. - Entendo você ficar meio desolado depois de uma pancada dessas. - Começou, concentrado em seu trabalho. - Só que você sobreviveu, e agora tem que ir para a próxima exibição. É assim que a banda toca, rapaz, desde antes de meu avô cutucar o saco do pai dele. Apenas agradeça que está vivo, pois haverá uma luta em que isso não irá acontecer.

 Lá fora, a multidão continuava rugindo. Parecia ansiosa, mas tal sentimento não era compartilhado pelo idoso, que trabalhava em seu próprio ritmo. O garoto suspirou, sem emoção. 

 - Você vai realmente ficar nessa só porque teve uma luta ruim? - Riu o idoso, puxando uma atadura suja. - Já vi gente pior que você, acredite. Pelo menos manteve os membros inteiros.

 - Que sorte a minha. - Resmungou sarcasticamente o rapaz, o que fez o velho parar o que estava fazendo.

 - Tire esse olhar de cachorro morto, guri. - Disse ele, transparecendo um quê de irritação. - Você não sabe o que vem na próxima luta.

 - E isso importa? - Soltou o garoto, virando-se para encarar o outro. - Você mesmo disse que eu não vou entrar na batalha completamente curado!

 - Bem-vindo à vida dos guerreiros, criança. Nunca é tão fácil quanto parece. - Ele recomeçou a trabalhar, pingando um unguento verde e fedorento em uma ferida aberta no ombro do jovem, que sibilou e soltou um filete de fumaça.

 O rapaz suspirou pesadamente, abaixando a cabeça. Fitou sua própria poça de sangue, escura naquela iluminação. - Você sabe quem vou enfrentar na próxima luta?

 - Só uma pessoa sabe, e ele não costuma dar respostas assim. - Disse o idoso, distraído.

 - Pode ser um monstro bem pior do que eu enfrentei agora. - Refletiu o outro, arregalando as sobrancelhas. 

 - Ou não. Pode ser algo que você tire de letra. - O rapaz foi obrigado a rir.

 - É meio ingênuo achar isso. - O velho sorriu.

 - Em frente ao desconhecido, a ingenuidade é uma saída aceitável. Só que não importa o que venha pela frente, o que importa é você.

 - Eu? - O velho se levantou, parando em frente ao garoto com os braços cruzados.

 - Você pode entrar naquela arena com a cabeça baixa e derrotada, ou com ela levantada e pronta pro que der e vier. - Soltou, erguendo minimamente o queixo. - Sua escolha. E, acredite, ela importa mais do que qualquer outra coisa.

 O rapaz abaixou a cabeça mais uma vez, incapaz de manter o olhar. - Eu achava que importava quando a última luta começou. - Disse baixinho.

 - Ainda importa. - O velho soltou o ar preso, olhando ao redor. - Pense nessa sala como uma parada restauradora, guri, e pense na próxima luta como um recomeço. - O rapaz ergueu a cabeça para dizer algo, mas foi interrompido antes mesmo de formular uma palavra. - Sim, é um recomeço. Deixe de ser cínico. Você vai enfrentar uma nova luta, e qualquer criatura do inferno pode estar no seu caminho, mas você tem que fazer isso. A única saída é a morte. - Ele sorriu, encarando o mais jovem. - Pode ser uma mosca ou o próprio senhor do caos, mas a única maneira de ter alguma chance de vencer é acreditando que pode. E o início é a parte mais importante da luta.

 O rapaz ficou encarando o velho por alguns segundos, até que o bongo soou do lado de fora, convocando-o para a próxima luta. Ele se levantou, experimentando os curativos, e andou em silêncio até o portão. Chegou no portal e apoiou o braço nas pedras, sua figura destacada contra a luz. 

 - Não adiantou muito. - Disse, antes de continuar relutante. - Mas obrigado.

 O velho sorriu abertamente. - Você que acha, guri. - O rapaz se desencostou da parede e seguiu, ouvindo o rugido da multidão se identificar e o narrador gritar para ser ouvido acima daquele som. 

 - RECOMECEM A LUTA!

Atos Finais