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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Conventionis: Capítulo 28 - Sobre aceitação




  O sol se levantava através das colinas, banhando uma estrada asfaltada que trilhava seu caminho serpentinoso entre os morros verdejantes. Ao longe, pequenos fios de fumaça conseguiam ser vistos quando se encarava o sul, mas as duas únicas viajantes naquela rota não pareciam interessadas em olhar para trás. Estavam solitárias e silenciosas, cobertas de bandagens novas. Eram sobreviventes, e como tais, preferiam não conversar sobre os horrores que haviam testemunhado.

 Haviam conseguido ver o fim da batalha por Steamunk, embora os oficiais da Aliança que vieram em resgate não tivessem entendido como três garotos haviam sido encontrados vivos no meio de uma área devastada. Eram os únicos, de fato. Haviam apenas mortos em dois terços da cidade, e se o reforço não tivesse chegado a tempo, a pilha de corpos seria ainda maior. Tinham conseguido derrotar os orcs e salvado o que agora era um vilarejo vazio de prédios quebrados.

 As duas garotas haviam recebido o tratamento adequado e saído das ruínas de Steamunk com o restante dos refugiados, embora tivessem tomado um caminho diferente da maioria, seguindo pela estrada vazia. Uma delas, morena, andava cabisbaixa, segurando a alça da mochila de suprimentos com uma das mãos.

 - Você vai voltar para a Guarda Reluzente? - Perguntou Amanda, parecendo ter guardado aquela frase por muito tempo. 

 Sophie levantou a cabeça, encarando o céu, cuja cor se alternava entre o azul e o apagado carmesim. - Não. - Respondeu simplesmente. - Não, não pretendo. Afinal, não consegui resolver as coisas sozinha, e o comandante Leon provavelmente reclamaria disso.

 - Ah... - Disse a companheira, mordendo o lábio e olhando incomodada para o outro lado. - Desculpa por isso. De verdade.

 - Você não precisa se desculpar! - Riu a garota, dando um raro sorriso tranquilo. Voltou a olhar para o céu de queixo erguido. - Eu... pensei muito sobre os últimos dias enquanto nos recuperávamos. Não consegui derrotar Lordred sozinha, e provavelmente também falharia na segunda vez, mas tinha vocês do meu lado. 

 Se virou para a outra, continuando a falar em um tom mais baixo. - Não tenho mais tanta pressa. Espero mesmo conseguir fazer esse tipo de coisa por mim mesma, só... não consigo agora. É um saco? É, mas... - Passou a mão pelos cabelos, o rosto ligeiramente vermelho. - É bom saber que alguém vai me segurar quando tropeçar. Demorei a me acostumar com isso. 

 Amanda sorriu aliviada, e passou a mão no rosto para limpar as lágrimas que teimosamente começavam a se formar. - Então, só pra confirmar... você não vai sair, não é? - Perguntou com a voz embargada.

 Sophie olhou para trás, na direção das tímidas colunas de fumaça do que, um dia, fora Steamunk. Sabia o motivo daquela insistência. Dalan havia sumido na noite anterior, e as duas assumiram que ele tinha ido em busca de Diana. Essa é a jornada dele, afinal, pensou a garota. Tivemos sorte de nossos caminhos serem os mesmos por tanto tempo, mas agora procuravam coisas diferentes. Mesmo assim, sentiu o aperto no coração e desviou o rosto para que Amanda não visse seu pesar.

 Sua companheira, no entanto, parecia saber o que a outra estava pensando. - Ele era um idiota, sabe? Provou isso a viagem inteira, mas, nossa, quando ele mandou eu aceitar que meus pais poderiam estar mortos... nunca senti tanta raiva de alguém na vida. - Ajeitou a mochila num movimento distraído. - Só que ele estava certo.

 Virou-se para Sophie, e suspirou pesadamente antes de continuar. - Não posso ficar fingindo que isso não pode acontecer. Dalan foi parte da minha família, e eu... agora eu realmente sei como é perder alguém tão próximo. - Sorriu numa tentativa de combater a vontade de chorar que crescia dentro de si. - É uma droga. É a pior coisa para mim, perder as pessoas importantes. Quando meus pais saíam para viajar quando eu era criança, eu contava os segundos todos os dias até eles voltarem.

 - Amanda... - Tentou interromper a outra, inutilmente. Amanda levantou a cabeça, seus olhos brilhantes refletindo o céu sem nuvens.

 - Só que eu não vou mais perder ninguém. Não vou mais fugir desse pensamento horrível. Vou lutar para que ele nunca se torne real. - Riu pelo nariz e abaixou a cabeça, deixando Sophie indecisa sobre o que fazer. Ela não precisou decidir, no entanto, pois a outra garota a encarou com o rosto choroso e sorridente. - Eu não vou deixar você se perder, tá?

 Sophie riu, e gaguejou uma sílaba antes de engolir em seco. - Tá. - As duas se viraram para o caminho à frente. Pássaros acordavam de seus ninhos e voavam baixo, passando pelas duas viajantes e seguindo para o norte. Uma das aves se destacou das outras, subindo mais alto, ultrapassando as colinas. Girou, seguindo por alguns segundos para o sul. De onde estava, conseguia enxergar a destruída Steamunk, o rio Lor, a grande cordilheira de Alas, e a longínqua floresta de Ampleridis, onde uma pequena mancha indicava o Emaranhado de Stranville e outro pequeno ponto parecia simbolizar Durandar.

 Contudo, o pássaro pareceu ter achado a corrente de ar que procurava, pois deu meia-volta e bateu as asas para o norte, se afastando mais e mais, até virar um pequeno ponto no horizonte limpo. Não era possível enxergá-lo, mas ele continuava reto, sem parar jamais de bater as asas.



































































 Vrruuuum.

 Amanda e Sophie levantaram a cabeça. Ao longe, do norte, havia um carro azul solitário se aproximando, seguindo seu lento trajeto pela estrada. As duas se entreolharam e sentiram o coração bater mais forte, mas esperaram o veículo se aproximar para tomar uma atitude. Contudo, suas expectativas se mostraram corretas. Era Dalan quem dirigia.

 - Dalan! - Chamaram as duas, correndo em sua direção. O rapaz, até então distraído e um pouco inconformado, se assustou ao perceber as companheiras e pôs o pé no freio para desligar o carro.

 - Ah. - Soltou, e suas companheiras o alcançaram, cada uma de um lado.

 - Não entendi. - Começou Amanda, ao seu lado, sorrindo e encarando a outra sem ainda entender direito. - Você não tinha ido atrás de Diana?

 Dalan suspirou, passando os polegares pelo volante. A mão esquerda estava enfaixada, recordação da luta contra Lordred. - Eu... - Tentou começar, e ganhou um tempo passando a mão pela testa. - Ela não vai voltar comigo, não é? - Perguntou com a voz um pouco embargada, a mão tapando os olhos.

 Amanda e Sophie se entreolharam, sem saber o que dizer. O rapaz continuou. - Eu estava pensando ontem à noite... tinha na cabeça que eu ia aparecer no abrigo e tudo se ajeitaria, mas... também pensei nisso que isso aconteceria quando voltasse a Steamunk. Se até isso não funcionou, não adianta pensar que vai acontecer se tentar de novo.

 Ele tremia. Sophie, com pena, se adiantou por cima da porta do carro. - Mas... isso não quer dizer que as coisas não vão dar certo entre vocês dois! Tem certeza que não é melhor insistir? Vocês tem muita história juntos.

 - Eu pensei nisso. - Confessou o garoto, abaixando a mão até a boca, revelando o olhar desolado e distante. - Só que... sabe o que eu sinto quando estou perto dela mas não estamos juntos? O que eu sinto quando penso nela desse jeito? - Perguntou, encarando a outra. - Miserável. Me sinto miserável como nunca me senti.

 - Fiquei pensando nisso a noite inteira. - Continuou ele, movendo novamente a mão para apoiar o queixo. - Não sabia o que fazer. Peguei um carro e saí pra dar uma volta. Estava voltando agora mesmo.

 - E veio direto para a gente. - Apontou Amanda, sentindo o coração se aquecer. Sophie, por sua vez, mordeu o lábio brevemente e abriu a porta do carro, se sentando no banco de carona. Estava um pouco vermelha, mas soltou o ar que prendia e continuou.

 - Eu sei que deve ser uma droga. De verdade. - Disse, mexendo minimamente o braço antes de desistir. - Só que... bem, você encontrou duas pessoas que ficaram extremamente felizes ao vê-lo de novo.

 Dalan corou e desviou o olhar. Tem gente que te considera importante também, havia dito Amanda em Steamunk. Suspirou, dando um sorriso hesitante.

 - Bem, eu estou meio que fugindo dos meus problemas. Talvez essas duas pessoas possam ficar por perto para me impedir de voltar. - Sugeriu, e Amanda aumentou o sorriso.

 - A gente pode te colocar na roda. - Assim que o rapaz se virou para ela, contudo, deu-lhe um forte tapa no rosto, jogando-o contra o volante.

 - O QUE... CACETA! - Gritou, ficando vermelho.

 - Você continua sendo um idiota. - Explicou a garota, abrindo a porta e se sentando no banco de trás. Colocou a cabeça entre os outros dois e sorriu abertamente. - Só que posso maneirar a partir de agora. O que acha?

 - Por que não foi a partir de antes? - Choramingou Dalan, esfregando o rosto dolorido. Sophie riu pelo nariz, se ajeitando na poltrona. Amanda abriu os abraços e abraçou os bancos, de olhos no horizonte.

 - Então, preparados para uma segunda jornada? - Perguntou, jogando o corpo pra frente. Antes que outra pessoa respondesse, ela se empertigou. - Aliás, pra onde vamos?

 - Bem, acho que está na hora de buscarmos a esmeralda dos seus pais, não é? - Perguntou Sophie, também sorrindo. Amanda arregalou os olhos, e Dalan deu partida no carro.

 - Só espero que essa segunda jornada seja mais tranquila que a primeira. - O motor roncou e o carro avançou, levando os três adiante.

Atos Finais