Novidades

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Contos de Gaea: A Vila de Mármore




Certa vez, havia um artesão chamado Betzalel. Ele morava em um vilarejo cujo nome se perdera com o passar dos anos, incrustado no topo achatado de um morro ao leste da Fronteira.

 Betzalel se aproximava dos trinta anos quando esta história se inicia, de posse apenas de um casebre no centro da vila e uma barba desgrenhada. Nunca havia construído nada de importante, apenas obras incompletas. 

 Certa vez, contudo, os deuses o iluminaram, e o bloco de mármore em que trabalhava se transformou em uma figura feminina, a mais bela das mulheres. Betzalel recuou diante de sua magnum opus, tão abismado que beirou a loucura. Se apaixonou pelas curvas do mármore, tal qual um adolescente em seu primeiro amor.

 A mulher, presumivelmente, fez seu justo sucesso entre os habitantes da vila. Todos ficaram embasbacados perante a estátua, e parabenizavam o artesão por seu trabalho magnífico. Betzalel, contudo, não escutava os elogios. Tinha a atenção somente na mulher de rocha. Naquela noite, sozinho em seus lençóis, ele pediu inocentemente aos mesmos deuses que o haviam agraciado antes mais um pedido. Que a escultura pudesse responder aos seus toques, sentir o que sentia, amá-lo como ele a amava. Pedira pela vida.

 Até hoje, não se sabe qual deus exilado o ouviu, mas, no dia seguinte, Betzalel encontrou a escultura ao seu lado na cama. A mulher não piscava, mas estendeu seu braço frio para acariciá-lo no rosto. O artesão chorou, ao ponto em que, na face de mármore, não havia expressão. 

 Fora o bastante. Betzalel se tornou obcecado com sua obra, a ponto de parar de trabalhar. Se tornou recluso, vivendo de suas sobras, sem nem perceber que definhava a cada dia. Seus amigos ficaram preocupados. Certa vez, foram até sua casa, onde o encontraram dormindo. A escultura, por um acaso, não foi vista. Betzalel acordou e expulsou os companheiro de sua casa, temendo que descobrissem seu segredo. Ofegante, foi até a mulher e lhe deu uma ordem. Se proteja, ele disse. Caso alguém venha buscá-la além de mim, se proteja.

 Os meses se passaram sem mais nenhum incidente, até que dois rapazes, saindo de uma noite de vinhos, decidiram passar na casa do excêntrico do vilarejo. Não havia lua no céu quando eles se infiltraram no casebre, encontrando a escultura na cama ao lado do artesão. Riram, e decidiram mover a obra. A mulher se defendeu, como fora ordenada, e os dois infelizes rapazes encontraram sua morte. Sangue vermelho manchava o mármore branco, e um pedaço do perfeito braço da escultura se encontrava partido no chão.

 Betzalel, quando viu aquilo, se desesperou. Olhou para sua obra-prima, agora imperfeita, e temeu que a perdesse para sempre. Reuniu tudo que lhe restava, cobrando de todos os amigos que conhecia, e comprou blocos e blocos de mármore.

 Voltou a trabalhar, criando cópias de sua amada figura. Eram cópias imperfeitas, por mais que os erros fossem mínimos, mas se espalharam rapidamente, a ponto em que não conseguiam sequer ser contidas dentro do casebre. Foram colocadas no jardim, e todas receberam a mesma ordem de se proteger. Betzalel permaneceu entre suas quatro paredes, sempre carregando o braço quebrado da original, de modo a guardá-la perto de si, independente do que ocorresse.

 Ora, era apenas uma questão de tempo para que as ondas do caos inundassem o vilarejo. Seria um garoto perdido que sem querer caiu em cima de uma das estátuas? Ou dois amantes, ansiosos em perpetuar seu amor no mármore amaldiçoado? Não se sabe o que propagou o metafórico incêndio, mas bastara apenas uma das estátuas se movendo para que toda a vila soubesse. E, com o conhecimento, veio o terror. Os desesperados puxaram as armas que conseguiram recolher, temendo a rocha branca, que se defendeu. A batalha estourou, enchendo de branco e vermelho as ruas estreitas.

 No meio da confusão, o artesão temeu pela original. Procurou-a, desesperado, e a encontrou entre dois homens armados com espada. Pôs-se diante deles, e seu próprio braço pagou o preço pela bravata. Betzalel desmaiou com o sangue perdido, caído entre os destroços de sua original.

 Quando voltou a acordar, o vilarejo estava silencioso. Apenas as estátuas estavam de pé, muitas com feridas e membros faltando, mas eram as vitoriosas. Contudo, nem todas conseguiam se levantar. A original, a única que um dia fora perfeita, estava em pedaços. Betzalel viu aquilo e se desesperou, esquecendo momentaneamente de suas próprias perdas até que a dor do braço perdido o acordasse. Olhou para o cotoco, e uma ideia veio em sua mente.

 Recolheu os maiores pedaços da original e voltou ao casebre onde tudo começara. Fitou os membros brancos que havia conseguido recolher, e olhou para seu corpo de carne. Seremos um, pensara para si próprio antes de enfiar o braço despedaçado em seu próprio cotoco. Dizem que os gritos foram ouvidos pelos refugiados, e se estenderam pela noite até que o silêncio preencheu o que agora é conhecido como Vila de Mármore.

 E nenhum dos habitantes jamais voltou para reclamar o nome original.

Atos Finais