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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 26 - Sobre guizos



 A batalha por Steamunk ardia nas ruas destruídas, onde cada centímetro era defendido e atacado com empenho igual. Os desesperados habitantes tentavam conter a horda de orcs por tempo o suficiente para que a evacuação do restante da cidade ocorresse e o reforço da Aliança chegasse, mas era apenas uma questão de atrasar os ponteiros dos relógios. O exército de Zemopheus atacava sem piedade, encontrando pouca resistência da histérica e inexperiente guarda humana. Os projéteis agora caíam na zona leste, deixando a infantaria retalhar e saquear o centro enquanto o oeste da cidade ardia em chamas. Não era uma questão de conquista de território. Era um massacre, um aviso para a Aliança de que nem mesmo os territórios próximos à primeira linha de defesa estavam seguros. E esse plano corria sem erros.

 E, se havia um som que simbolizava a cidade em agonia, era o de seus defensores morrendo. Um homem de meia-idade berrou enquanto uma lança transpassava seu ombro e o jogava contra uma parede de tijolos escuros. Foi silenciado pelo orc que o atacava logo em seguida. Uma mulher arfava com violência no meio da praça central, segurando o braço decepado enquanto dois adversários a cercavam com machados brilhantes. Pouco a pouco, a situação se desesperava, sem sinal de esperança no horizonte. E, no meio de tudo isso, Sophie se escondia.


 Estava nos resquícios de uma casa abandonada, sentada no chão do saguão sem janelas. Tinha as costas apoiadas na parede, e seus olhos arregalados eram visíveis na fresta de luz que a iluminava. Se encolhia a cada grito ou som mais forte que vinha do lado de fora, mas não saía do lugar.



 É como a invasão de Durandar, pensou no momento em que algo batia do lado de fora da parede. O mesmo cheiro de fogo e morte e a mesma sensação de desespero no ar. Daquela vez, só sobrevivemos por causa da Guarda Reluzente, se lembrou a garota. E agora, o que tinha?



 Olhou para baixo, fitando a manta verde que a envolvia. Era o símbolo da Guarda, que ela mantinha mesmo tendo sido expulsa. Por toda aquela jornada, aquela roupa fora um símbolo de esperança, da crença de que iria retornar à organização. Mas agora? Agora era um símbolo de tudo que ela falhara em conseguir. Sentiu a frustração e a vergonha a queimarem por dentro, e bruscamente arrancou a manta de si, a jogando para longe. Sentiu as lágrimas descerem pelo rosto e abraçou os joelhos, afundando o rosto entre eles.



 Deixou-se afundar na auto-piedade, enquanto que a batalha perdia o foco e sua mente mergulhava na escuridão. Ao mesmo tempo, uma mão pálida buscou sua manta, erguendo-a do chão empoeirado. - Isso significa que você desistiu? - Sophie imediatamente acordou, abrindo os olhos e levantando a cabeça. Incrédula, fitou uma figura que sequer sabia se era real até então. O andarilho estava a encarando, ainda com as roupas espalhafatosas de arlequim.



 - O que você está fazendo aqui? - Perguntou a garota, pondo-se rapidamente de pé e colando na parede, procurando manter distância.



 O andarilho fez uma cara de desentendido, permanecendo em silêncio enquanto homens davam seus últimos gritos e a outra respirava nervosa. - A guerra é como uma droga para mim. - Disse casualmente. - Muitas emoções estourando, muitos conflitos internos se intensificando. É como... ah, esqueça. - Ele sorriu, parecendo extasiado. - E devo tudo isso a você.



 - Como assim? - Questionou Sophie, arregalando os olhos.



 - Eu te segui! - Anunciou o outro, abrindo os braços. - Digo, não havia muito a se fazer naquele pedaço de terra abandonada que me meti, mas fiquei extremamente interessado em você depois de nosso confronto. - Ele passou a mão pelo queixo liso, sorrindo. - Quis ver até onde ia, e, bem, você não me decepcionou! Descobri que tinha até mesmo um próprio demônio para servir no lugar dos meus.



 Inicialmente, a garota não entendeu, mas sua cicatriz coçou. - Lordred. - Soltou em um sussurro, e o arlequim ergueu as sobrancelhas em concordância. - E você veio até mim pra eu lutar contra ele de novo, é isso? - Se agitou.



 - Está com medo? - Indagou o andarilho, mantendo as sobrancelhas no alto. Sophie não respondeu, mas rilhou nervosamente os dentes. - E se eu disser que posso arranjar uma luta entre vocês dois, sem mais nenhum orc?



 Sophie o observou, engolindo em seco. - Não tenho arma. - Disse simplesmente. O arlequim sorriu e colocou a mão na jaqueta. Seus guizos chacoalharam, e dela ele tirou uma espada de cabo longo e negro. Sophie ofegou e estendeu inconsciente a mão à arma, girando-a diante de seus olhos. Não estava enganada. Aquela era realmente Valor, quebrada e abandonada na luta contra Lordred. Encarou o outro, como se esperasse algum truque.



 - Oh, não. É realmente sua arma! - Tranquilizou-a de forma espalhafatosa. - Só não pergunte como a recuperei, são perguntas complicadas demais para sua cabecinha mortal. - Acrescentou ele rapidamente antes de erguer uma sobrancelha. - E agora, o que me diz?



 A garota mordeu o lábio, sentindo o coração martelar o peito. O pavor da derrota ainda estava fresco em sua mente, e lembrar daquela cena a fazia tremer, mas ter sua espada de volta lhe dava forças para pelo menos não desistir tão fácil. Sua indecisão fez um ligeiro tremor de irritação passar pela testa do andarilho, que se adiantou.



 - E se eu disser que, caso a atração principal não apareça no palco... teremos seu elenco de apoio para segurar as pontas? - Sophie se assustou, de alguma forma entendendo o que o arlequino queria dizer. Caso ela não lutasse contra Lordred, Amanda e Dalan ainda estavam na cidade. A garota apertou o punho de Valor. Não podia ver seus companheiros da mesma forma que vira Carla. Não podia deixá-los serem derrotados que nem ela mesma. Ergueu a cabeça e aceitou a manta estendida, prendendo-a no pescoço com uma mão.



 - Tenho que te agradecer? - Perguntou em voz baixa, e o arlequim sorriu.



 - Não há necessidade. - Disse simplesmente enquanto a outra abria a porta do saguão. - Ainda espero sua morte. Apenas... tente sentir alguma coisa em seus momentos finais. Será minha recompensa. 



 Sophie o ignorou e saiu do edifício. Encontrou uma rua incrivelmente vazia, o que sabia que era obra do andarilho. Seguiu adiante, ainda nervosa, tendo o som de guizos para indicar o caminho. Passou por prédios caídos e corpos ensanguentados, até que encontrou o que buscava. Estava em uma elevação que dava para uma praça circular de pedras claras, várias manchadas por sangue fresco. Lordred estava do outro lado, parecendo inquieto. No entanto, de alguma forma ele continuava lá, sozinho.



 Sophie permaneceu alguns segundos o observando, tomando coragem para uma segunda investida. A lembrança da primeira se manifestava no incômodo que sentia no braço esquerdo, ameaçando lhe tirar a coragem. Contudo, antes que se decidisse, sentiu duas pessoas surgirem à direita e à esquerda. Virou o rosto, vendo Dalan e Amanda também encarando o orc.



 - Imaginei que você ia enfrentar ele de novo. - Começou o rapaz, suspirando profundamente. - Nada é exatamente fácil, não?



 - Só que dessa vez você não vai precisar enfrentar ele sozinho. - Piscou a outra garota. Sophie sentiu o coração se aquecer e quase sorriu, mas as palavras do comandante Leon voltaram a surgir em sua cabeça. Um membro da Guarda deve aprender a resolver seus problemas sozinho, ou vai ser a mesma coisa que um inútil.

 - Vocês não precisam fazer isso. - Disse ela. - É a minha luta.



 Amanda sorriu. - Então é nossa luta também. - Com isso, Sophie corou, desta vez sorrindo com o canto da boca. Dalan, por sua vez, se mexeu. Lordred não parecia tê-los visto, o que dava tempo para as últimas palavras.



 - Desculpa eu ter sido um idiota. Depois de tudo que passamos, o mínimo que eu podia fazer era me despedir de uma forma decente. - Confessou o rapaz, virando o rosto para as outras duas. Amanda estalou a língua. 



 - Não vamos falar de despedidas agora... - Disse ela, apontando com a cabeça para Lordred. - Se demorarmos muito, ele vai nos achar.



 Os outros dois concordaram com a cabeça, e Sophie deu um passo à frente. - Que nem Durandar, não é? Com aquele iróbil?



 - Mais ou menos. - Disse Dalan. Amanda sorriu, e os três reservaram alguns momentos para juntarem a coragem necessário para saltarem até a praça. O vento soprou, mas nenhum deles percebeu, até que Lordred os observou e brandiu sua espada serrilhada.



 - AGORA! - Berrou Sophie, e os garotos dispararam para a frente.

Atos Finais