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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 25 - Sobre os tambores de guerra




 E esse é o fim.


 Dalan encarou as folhas de seu diário com o rosto franzido. Palavras aleatórias, escritas por seu próprio punho, apareciam esporadicamente, o fazendo lembrar de de sua jornada até ali. Ao seu redor, pessoas corriam e conversavam, mas não conseguia prestar atenção nelas. Estava só, absorto em suas memórias.

 E, com um gesto rápido, jogou as páginas no lixo à sua frente.

 - Ah! Yulliano! - Chamou uma voz atrás de si. Se virou para avistar um guarda se aproximando, o rosto vermelho e inchado e um uniforme azul-petróleo cobrindo o corpo roliço. - Fico feliz que tenha ficado para nos ajudar! Só os deuses sabem como um yulliano é importante nesses perrengues.

 - É minha cidade, afinal de contas. - Respondeu o rapaz, dando as costas para o lixo.

 - Espero que continue assim depois da guerra. - Começou o homem, mantendo o sorriso. - Nossos batedores não responderam ainda hoje, mas sabemos que os orcs desembarcaram em Golvin. Devem estar aqui em dois dias. - Ele olhou ao redor, colocando as mãos nos quadris. - Agora, yulliano...

 - O nome é Dalan. - Se adiantou o rapaz, sorrindo irritado, o que fez o outro hesitar.

 - Não se preocupe, garoto. - Soltou ele, tentando tranquilizá-lo. - Agora, nós temos algumas tarefas para você, se não se importa. Acho que-- No fundo do corredor, Diana entrou por uma porta e começou a conversar com uma mulher, o que fez Dalan se empertigar.

 - Se não se incomoda, senhor... - Começou, com os olhos na garota. - Gostaria de trabalhar com ela.

 O guarda se virou, acompanhando seu olhar, e fez um estalo com a língua. - Normalmente não teríamos problema, yulliano, mas... - Ele encarou o rapaz, incerto. - Ela pediu explicitamente para não trabalhar com você.

 Dalan não respondeu, mantendo o olhar na garota. Passou pelo homem e andou com passos firmes para Diana, que o viu se aproximando e dispensou a mulher com quem conversava.

 - Estou te incomodando? - Perguntou o rapaz, abrindo os braços.

 - Dalan, não começa. - Respondeu a outra, cansada.

 - Escuta, a gente pode até ter nossos problemas, mas não atravessei um território de guerra para ser tratado desse jeito. - Disse o outro, nervoso. A garota hesitou, desviando o olhar.

 - Acredite no que estou dizendo. - Começou ela, o fitando com o canto do olho. - Vai ser melhor para você se nos afastarmos por enquanto. Você está--

 - Isso sou em quem vai dizer. - Interrompeu Dalan, e Diana suspirou, mantendo um olhar firme.

 - Tudo bem. - Disse finalmente, e entrou em um quarto adjacente. - Faça o que achar melhor. - O rapaz, irritado, a seguiu.

 Enquanto isso, nos arredores da cidade, Sophie se apoiava nos joelhos e ofegava, a boca aberta e o suor escorrendo por cada centímetro da pele. Amanda a alcançou, também exaurida, e limpou o suor da testa com o antebraço.

 - Acho que estourei alguma coisa. - Disse, fazendo uma careta. - Eu não sei o que é, nem o que faz, mas isso não pode ser bom. - Sophie, por sua vez, levantou um pouco o rosto para enxergar Steamunk através de seu cabelo molhado. Não parecia diferente de quando saíram.

 - Eles ainda não sabem que os orcs estão vindo. - Concluiu, arfando com força. - Ainda temos tempo para avisá-los. Temos que-- Antes que pudesse completar, um som de estouro surgiu das colinas atrás. As duas se viraram, e acompanharam a trajetória de um projétil escuro cruzando os céus e caindo até a cidade. Acho que estou errada, pensou Sophie, apavorada. Não temos tempo para nada.

 Enquanto isso, Dalan e Diana discutiam. - Não são essas caixas! - Reclamou a garota, colocando a mão na cabeça. - Quantas vezes já disse?

 - Estou seguindo exatamente o que você diz! - Reclamou Dalan, largando as caixas no chão e se virando para a outra. - E não precisa agir assim comigo. - Diana lhe deu as costas, se afastando, o que enfureceu o rapaz. - Sabe, acho inacreditável que você esteja puta comigo, porque deveria ser o contrário!

 - E é por isso que te disse para ficar longe de mim por enquanto! - Ralhou a garota. Os outros funcionários começaram a descer as escadas, deixando-os à sós.

 - Desculpe, estou te deixando irritada? Deve ser, afinal você está cheia de motivos. - Soltou Dalan, sua voz pingando de sarcasmo. - Afinal, eu me arrisquei diversas vezes apenas para voltar pra você e provar o quanto te amo. Devo ser mesmo um monstro!

 - E eu sou um monstro? - Se estressou Diana, largando o que estava fazendo e encarando o outro com raiva. - É isso o que você quer dizer? Acha mesmo que eu não gostaria de sentir a mesma coisa que você?

 - Eu disse que te culpo? - Perguntou o rapaz com a voz baixa, estreitando os olhos.

 - Parece que sim! - Berrou a garota. - Acho que você é-- Dalan nunca soube o que era, pois um estrondo surgiu do outro lado da cidade. Os dois se entreolharam, assustados, e foram até a janela. Era possível ouvir a gritaria, mas não conseguiam ver nada. - O que está acontecendo? - Perguntou Diana, e Dalan avistou um objeto cruzar os ares na direção deles.

 - CUIDADO! - Gritou instintivamente, e agarrou a garota para pular para longe. O projétil acertou o prédio, dois andares abaixo de onde estavam, e rapidamente o edifício começou a ruir. Tábuas de madeira estalaram e pessoas berraram, mas Dalan continuava agarrado à Diana. Olhou para cima para ver o teto ruir, e seus olhos faiscaram em azul-claro. Estendeu a mão e uma coluna de gelo os envolveu, protegendo-os da demolição apocalíptica ao redor.

 Se encolheram enquanto o caos gritava ao redor deles e o chão vibrava ameaçadoramente, até que os únicos sons que conseguiam ouvir pareciam distantes e abafados. Diana se levantou hesitante, observando o monolito de gelo rachado em que estava.

 - Você não conseguia fazer isso antes. - Disse assombrada enquanto Dalan se levantava, segurando a cabeça. Rapidamente o gelo se despedaçou, caindo ao redor deles e revelando os destroços que o prédio havia se tornado.

 - Precisamos sair daqui. - Ofegou o rapaz, mas a exaustão tirou a força de suas pernas. Diana se adiantou para segurá-lo, impedindo-o de cair.

 - As evacuações já devem estar acontecendo, mas estamos bem longe das garagens. - Ela olhou ao redor, como se a resposta estivesse perto. O que não era exatamente uma inverdade. - Sua casa é aqui do lado. Podemos pegar o carro dos seus pais.

 - Eles não recolheram o carro? - Estranhou o rapaz, mas Diana retirou um molho do bolso.

 - Não acharam a chave. - Dalan ficou alguns momentos atônito, mas não conseguiu evitar o sorriso. Contudo, novas explosões ao longe o acordaram.

 - Temos que correr. - Ficou em pé com dificuldades, e os dois começaram a pular os destroços para sair de onde se encontravam. Os projéteis orcs continuavam a cair, chovendo em cima da cidade como uma tempestade mortal. Sophie e Amanda permaneciam nos arredores de Steamunk, observando a destruição se espalhar.

 - Deuses... - Disse baixinho Sophie com os olhos vidrados. Um projétil caiu em um prédio a trezentos metros dela, e conseguiram ouvir os gritos dos condenados.

 - Temos que fazer alguma coisa. - Conseguiu dizer Amanda, se agitando e esquecendo do cansaço. Se aproximou da companheira, ainda assustada, e segurou seu pulso. - Vamos! - Disparou, arrastando a outra enquanto desciam o morro gramado na direção de Steamunk. A chuva de morte parecia as evitar, preferindo acertar as regiões mais afastadas, o que lhes deu um caminho livre até alcançarem as ruas asfaltadas. Começaram a correr pelas calçadas vazias, até que um trompete tocou atrás delas.

 Quando se viraram, o mundo pareceu parar de girar. Havia uma multidão de orcs nas colinas, tão volumosa que parecia uma manta colorida por cima da grama verde. Bandeiras tremulavam e tambores urravam, enquanto que os projéteis continuavam a ser disparados mais atrás. As garotas não conseguiram se mover, hipnotizadas pelas batidas dos tambores, cujo ritmo acelerava e acompanhava seus corações.

 Tum.

 Tum. Tum.

 Tum. Tum. Tum.

 TUM TUM TUM TUM TUM TUM.

 E, na pulsação do caos, os orcs começaram a disparar morro abaixo para tomar Steamunk.

  - Sophie, vamos. - Pediu Amanda, puxando fracamente o braço da companheira, que não se movia. - SOPHIE, AGORA! - Imprimiu mais força no puxão, fazendo com que a garota se virasse. Amanda estancou, vendo a expressão de pavor horrorizado no rosto da outra. - Sophie? - Soltou quase sem voz.

 Não conseguiu dizer mais nada, pois naquele momento um dos projéteis acertou o prédio ao lado. A construção gemeu e desabou, envolvendo-as em uma nuvem de poeira e destroços que suplantaram seus gritos. Amanda foi derrubada por um objeto inidentificável, e permaneceu no chão até o caos se acalmar, seus braços cobrindo a cabeça.

 Quando o ruído de destruição se acalmou, se levantou temerosa. A nuvem de poeira continuava no ar, mascarando as ruas ao redor com a sensação de solidão. Não havia sinal de Sophie. Pensou em chamar a companheira, mas ouviu passos na direção do prédio caído. Correu naquela direção, reparando em um vulto próximo. Estava prestes a gritar quando notou que aquele vulto era grande demais. Grande demais.

 Saltou para o lado no momento em que o orc se virou, ficando atrás de um pedaço de parede solto. Respirou fundo para se acalmar e inclinou a cabeça para observar o recém-chegado. Ele tinha um machado gigantesco na mão direita, e conforme se aproximava, sua pele verde-escura se destacava entre os destroços em tons de cinza e marrom. Não vestia armadura completa, como era de praxe para a espécie, mas tinha um casaco de pele grossa e avermelhada que cobria os lados do corpo.

 Amanda se encolheu enquanto o orc passava em procura de presas. Contudo, a rua estava aparentemente vazia, o que o fez se virar e correr atrás os gritos distantes. Mesmo depois dele ter sumido, a garota permaneceu escondida até ter certeza de que estava segura. Se levantou, e notou que Sophie não estava por perto.

 - Sophie? - Sibilou, sentindo o desespero crescer. - Sophie! - Um grito a fez se sobressaltar. Se virou assustada, demorando para perceber que não era a voz da companheira. Contudo, isso não a acalmou. Ainda não sabia onde estava Sophie, os orcs estavam tomando a cidade e estava sozinha. Não posso ficar sozinha, dizia a voz mais forte em sua cabeça. A ansiedade a fazia hiperventilar, tornando os outros pensamentos desconexos. Os sons de batalha ao longe a faziam se encolher, até que sua mente se iluminou. Dalan.

 Ele já me ajudou a achar Sophie antes, pensou a garota, engolindo em seco e disparando pelas ruas. Sequer se lembrou que estava irritada com ele, apenas correu em busca da única esperança que possuía. Um som familiar alcançou seus ouvidos, e sem pensar, ela o seguiu.

 Alguns metros distante, Sophie estava sentada no chão, invisível. Respirava fundo, deixando a cabeça encostar na mesa destroçada que servia como proteção. A cicatriz no braço coçava, lembrando-a do perigo que corria.

 Não estou segura aqui, concluiu. Ficou de pé e correu cidade adentro, sem sequer pensar no que estava fazendo.

 Enquanto ela se embrenhava nas ruas de Steamunk, Dalan e Diana finalmente chegavam à casa do garoto. Haviam se demorado para sair do edifício em ruínas e desviado da multidão desesperada que se atropelava para chegar a um dos postos de evacuação, mas agora encontravam uma rua vazia e calma, mesmo com os sons de batalha já pipocando à distância.

 - O abrigo fica ao norte. Se pegarmos a estrada, devemos chegar lá em dois dias. - Disse Diana, se apoiando na porta do carro. Estavam no meio da rua, onde o veículo dos pais de Dalan juntava poeira depois dos militares terem desistido de movê-lo. O rapaz estava sentado no banco do motorista, com a chave enfiada na ignição.

 - Espero que isso ainda funcione. - Rezou, e girou a chave com os olhos fechados. O som do motor subiu alto, e os garotos não conseguiram resistir a suspiros e risadas aliviadas. Os orcs não haviam os alcançado, e logo estariam seguros.

 Enquanto ria, Dalan olhou para Diana, e seu coração esquentou. É tudo que eu preciso, pensou enquanto ela ajeitava o cabelo e circundava o carro. Vou reconquistá-la. Não importa o que aconteça, vou reconquistá-la.

 - DALAN! - Ele se sobressaltou. Olhou para o fim da rua, e avistou Amanda correndo em sua direção. Confuso, saiu do carro, deixando Diana esperando.

 - Amanda, o que aconteceu? - Perguntou. - Onde está Sophie?

 - Sophie... Sophie ficou para trás. - Dobrou o corpo para recompor o fôlego e apontou para trás, mirando a cidade em guerra. - Ela está sozinha no meio do exército daquelas coisas! Temos que salvá-la! - Pediu, levantando a cabeça para o companheiro. Dalan hesitou, se virando para olhar Diana.

 Quando ele voltou a se virar, a mão de Amanda já estava lhe dando um tapa. Ele recuou e quase caiu pelo golpe, e segurou indignado o rosto vermelho. - Pra quê isso? - Perguntou irritado, mas parou ao ver que a garota se esforçava para controlar as lágrimas.

 - Talvez você esteja certo. - Disse ela finalmente, com as mãos cerradas. - Talvez meus pais estejam... estejam mortos. É o que faz sentido, não é? - Agora a garota abria os braços, se aproximando do outro.

 - Amanda, eu... - Tentou se desculpar, mas não havia espaço para falar. Amanda parou em sua frente, o rosto contorcido pelo esforço de conter o choro.

 - Só que eu não queria pensar nisso. N-não tinha nada que eu pudesse fazer sobre isso, e-e pensar no pior... só ia me fazer me sentir sozinha. - Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha, e ela abaixou a cabeça. Fungou, e, frustrada, deu um soco no ombro do rapaz, deixando sua mão lá. - E eu odeio isso. Odeio me sentir sozinha. Odeio perder as pessoas importantes para mim. - No final da frase, sua voz já estava embargada, e Dalan sentiu que ela tremia.

 - E você é uma delas! - Continuou Amanda, e suas lágrimas agora pingavam no chão. - Você e Sophie são minha família, a-as pessoas mais importantes para mim agora! - Fez uma careta e bateu no companheiro com a outra mão. - E é por isso que você tem que me ajudar a encontrar Sophie! Para de ser egoísta e pensar só nas pessoas que são importam para você! Pensa que tem gente que te considera importante também, e elas precisam da sua ajuda!

 Dalan ficou calado, a fisionomia sombria enquanto pensava. Toda a sua jornada passou diante dos seus olhos, lembrando de todas as vezes que Sophie ou Amanda haviam o ajudado, e todas as vezes que tentou fugir delas. Sentiu o rosto ficar vermelho, independente da marca de tapa que já esvanecia no rosto. Se sentia um idiota. Era claro o que deveria fazer.

 Contudo, assim que se virou para Diana, seu coração fraquejou. Fizera tudo até ali por ela, e agora, quando tinha sua melhor chance, iria abandoná-la? Afastou-se de Amanda e voltou até a outra, sua cabeça girando. Tem gente que te considera importante também, repetia sua mente.

 Quando se deu por conta, estava ao lado do carro. Cerrou os punhos. - Diana, você sabe dirigir, não é? - Perguntou de forma truncada, e levantou a cabeça, recebendo um aceno positivo como resposta. - Vá na frente. Não pare até chegar ao abrigo. Prometo que te encontro em um dia, no máximo.

 - O que você vai fazer? - Perguntou ela, e o rapaz se virou para Amanda, que o encarava com os olhos brilhantes.

 - Salvar uma amiga. - Ainda hesitante, caminhou até a companheira. Não olhe pra trás, tentou se dizer. Parou em frente à Amanda, que fungou e lhe deu outro tapa, desta vez do outro lado. Dalan desta vez caiu, assustado e furioso.

 - PARA COM ISSO! - Gritou, se levantando quase que imediatamente.

 - Você ainda é um idiota até que se prove o contrário. - Disse a garota antes de limpar as lágrimas. - Só que ganhou uma chance de provar isso. - Ela riu, e o companheiro coçou o pescoço.

 - Vamos parar com isso e buscar Sophie. Tem alguma ideia de onde começar? - Perguntou. Amanda  se virou para a cidade, ouvindo o familiar som de guizos.

 - Acho que tenho. - Respondeu, tomando a frente. Dalan respirou fundo e fitou a cidade antes de acompanhá-la. Conseguia ouvir os sons de batalha, ver os fios de fumaça escura cruzando os céus no lugar do vapor de outrora. O rapaz tremia, sabendo que Diana ainda não havia saído. Ainda podia voltar.

 E, nisso, provavelmente Sophie acabaria morta. A mesma Sophie que havia feito com que ele chegasse ali, mesmo não precisando. Se a deixasse abandonada, seria um monstro. Encarou as costas de Amanda, a mesma garota que havia dito que não o deixaria se tornar um monstro em sua busca por Diana. E continuava não deixando. Dalan cerrou os punhos. Mesmo com dúvidas, seguiu em frente para acompanhá-la.

Atos Finais