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23 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 24 - Sobre estilhaços



 Acho que não preciso mais desse diário. Não quero mais lembrar de tudo que fiz quando as coisas se despedaçaram miseravelmente.


 Só preciso... decidir o que vou fazer com a minha vida primeiro.


 Dalan estava no quarto de Sophie, sentado no chão e com as costas apoiadas na cama da companheira, também acordada e sentada, coberta pelos lençóis. Os dois se destacavam no quarto extremamente branco, a cor das paredes, das cortinas, da porta e dos móveis. Os dois não haviam trocado uma palavra desde que o rapaz entrou.

 O diário de Dalan estava ao seu lado, um chumaço de folhas desarrumadas. Ele tamborilava distraidamente os dedos nos papéis, enquanto que sua companheira esfregava o lençol com os dedos pálidos da mão direita, enquanto que a esquerda estava apoiada por cima do colchão. A cicatriz no braço estava vermelha e inchada, um lembrete de que aquele seria um membro imóvel por muito tempo. Era também um lembrete de outras coisas além disso, coisas que a deixavam com a expressão carrancuda e os olhos vermelhos. 

 - Eu não sei o que fazer. - Disse Dalan, quebrando o silêncio com a voz rouca. Olhou para os papéis ao seu lado, cerrando a mão e amassando alguns.

 Sophie inconscientemente tentou mover sua mão para o rapaz. Contudo, ele estava à sua esquerda, e uma dor excruciante brotou do braço. Lágrimas brotaram dos olhos da garota, mas ela as controlou mordendo o lábio, voltando a encarar o teto. Enquanto isso, o companheiro continuava a falar. -  Apostei todas as minhas fichas nessa única chance, e joguei ela no lixo. - Frustrado, jogou os papéis para longe. Algumas folhas subiram, e desceram suavemente até o chão.

 - Sei o que quer dizer. - Soltou a garota, deixando a cabeça abaixar. - Passei pela mesma coisa. - A cicatriz no braço pulsou, e ela se segurou para não cair em lágrimas.

 - E o que você vai fazer? - Perguntou o rapaz, apoiando o pescoço no colchão.

 - Também não sei. - Respondeu a outra. Novamente o silêncio se instaurou no quarto, enquanto os dois ponderavam sobre seus problemas, até Sophie voltar a falar. - Se lembra quando... a gente era otimista? Quando achávamos que conseguiríamos fazer o necessário? - Perguntou, levantando a cabeça com os olhos lacrimejantes.

 Dalan apoiou o braço sobre o joelho. - Lembro. - Disse simplesmente, carrancudo. - E não serviu para nada. Toda essa jornada não serviu para nada. - A companheira permaneceu calada diante daquilo, sem querer admitir que concordava.

 A porta do quarto se abriu, revelando Amanda. - Sophie, eu... - Começou, mas assim que enxergou Dalan, deu um passo para trás e voltou a fechar a porta. O rapaz suspirou.

 - Não serviu para nada. - Repetiu.

 Alguns dias depois, Sophie estava recuperada o suficiente para sair do hospital. Seu braço estava enrolado com faixas brancas e apertadas, e tinha Amanda ao seu lado enquanto atravessava as portas que a levavam para a rua. Os poucos funcionários a ignoraram rapidamente, mais preocupados com o fato de ainda estarem em Steamunk depois de tanto tempo.

 De qualquer forma, isso não duraria muito mais tempo. Depois que Dalan avisou sobre os orcs se aproximando, o processo final de evacuação havia acelerado, e as viajantes percebiam isso. Carros e caminhões dirigiam apressados pelas ruas, carregando os últimos pertences de uma cidade prestes a ser abandonada. Havia melancolia e agitação no ar, mas apenas a primeira pairava sobre as garotas.

 - Então, o que vamos fazer agora? - Perguntou Amanda, atravessando a rua. - A gente não tinha pensado no que fazer depois de chegar a Steamunk, não é mesmo?

 - Não, não pensamos... - Respondeu Sophie, atolada em outros pensamentos. - Mas vamos procurar sua esmeralda, Amanda. É o que nos resta. - É tudo o que nos resta, disse uma voz em sua cabeça. A garota desviou o rosto, como se temesse ter sido escutada, e avistou Dalan do outro lado da rua.

 Amanda também o percebeu, e deu meia-volta.

  - Já estão indo? - Perguntou o rapaz, coçando o pescoço com a outra mão no bolso. - Quase não encontrei vocês.

 - Uma sorte. - Respondeu Sophie, oferecendo um sorriso triste, que rapidamente esmoreceu. - Você nunca chegou a me dizer o que faria depois que alcançasse Steamunk.

 O garoto olhou ao redor, observando os caminhões e carros fazendo seus trabalhos, as duas mãos enfiadas no bolso enquanto um vento do sul os alcançava. - Vou ficar. - Disse. - Eu sei que as coisas parecem difíceis, mas não posso desistir de Diana assim. Não passei por tudo que passamos para desistir assim. Vou dar um jeito, tenho certeza.

 Sophie não respondeu de imediato, preferindo esfregar o braço, melancólica. - Então... - Começou, e levantou a cabeça para o companheiro. - É um adeus, não é? - Perguntou com os olhos brilhando. Dalan sentiu o coração se apertar, mas antes que dissesse algo, viu Amanda se afastar para a esquina.

 - É melhor você ir falar com ela. Não acho que Amanda... queira me ver. - Ele hesitou enquanto a garota olhava para trás, e quando ela se virou novamente, os dois ficaram sem saber o que fazer. Acabaram se abraçando sem jeito, e as palavras sumiram de suas gargantas.

 - Boa sorte. - Conseguiu dizer Dalan.

 - Você também. - Respondeu Sophie, e o abraçou com mais força. Não trocaram mais nenhuma frase quando se afastaram, mas os dois se entreolharam mais uma vez antes da garota partir atrás de Amanda. Ela virou a esquina, limpando os olhos, e avistou a companheira de costas, sentada na beira de um beco.

 - Amanda, você... - Tentou começar, mas percebeu que a outra estava chorando copiosamente, abraçada aos joelhos.

 - A-aquele idiota... - Balbuciou Amanda entre uma fungada e outra. - Aquele idiota... - Não conseguiu mais se controlar e desabou em lágrimas, se agarrando à amiga, que havia se ajoelhado ao lado. Sophie acariciou suas costas, sem saber o que dizer também. Sentia vontade de chorar junto, mas suas lágrimas já haviam secado. Sem opção, permaneceu como estava, procurando oferecer o mínimo de conforto.

 Horas mais tarde, quando o sol começava a descer, as duas percorriam uma estrada de asfalto que serpenteava as colinas verdejantes ao redor de Steamunk. De onde estavam, as garotas conseguiam ver a cidade ao oeste, vários metros abaixo da altura em que caminhavam. Sophie parou a caminhada silenciosa para se virar, encarando o amontoado de casas de madeira e ferro, que soltavas esparsas colinas de vapor.

 Dalan ficou para trás, pensou a garota, o peso daquele ato finalmente a atingindo. Tinham viajado juntos por quase um mês, mas agora jamais se encontrariam novamente. Contudo, aquilo não a fez entrar em desespero. Já estava acostumada à sensação. Ao invés disso, se apressou para alcançar Amanda.

 - Estamos indo direto para o acampamento dos orcs. Pelo menos, foi o que disseram aqueles guardas que tentaram nos fazer mudar de ideia. - Começou, com pouca emoção na voz. - É melhor desviarmos o trajeto daqui a pouco. Encontrar aquela ponte que atravessamos alguns dias atrás.

 - Pra onde nós vamos, no fim das contas? - Perguntou a outra garota, também desanimada. - Onde acha que vamos encontrar aquela esmeralda?

 Sophie mordeu o lábio, sem um plano certo na cabeça. - Acho melhor seguirmos o caminho que eles já percorreram. Voltamos a Gowking e tentamos achar uma rota que os orcs usaram. Eles não devem manter os espólios de guerra junto com o exército principal, então...

 - Então não temos nada? - Disparou a garota, abrindo os braços enquanto se agitava. - Colocamos na cabeça que todas as nossas respostas estariam em Steamunk, e agora estamos sem ter nem aonde ir?

 - Amanda, eu... - Sophie tentou a acalmar, mas a companheira já havia se afastado da estrada e começado a subir o morro mais próximo.

 - Não temos nada! Nem mesmo uma direção! - Ela escorregou na grama, mas continuou adiante, obstinada. - Quer saber para onde ir? - Alcançou o topo, e abriu os braços. - Olhe ao redor! Quem sabe isso te ajuda! - Sophie a alcançou, tendo o mar de colinas ao redor. Ao sul, a cordilheira de Alda os encarava, e mais morros brotavam ao norte. Já ao leste... - Anda! Achou o que precisava? - Gritou Amanda, se sentando frustrada no pico do morro. Após alguns segundos, reparou que Sophie não respondia, e levantou a cabeça para encará-la. - O que foi? - O rosto da outra estava vidrado, e ela apontou para o leste.

 - Olhe. - Disse com a voz fraca. Amanda a obedeceu, e também estancou. Um pequeno mar de vultos estava se movimentando, seguindo em bloco para o oeste. Algumas bandeiras eram vistas à distância, e um som abafado de tambor alcançava as garotas, que permaneciam vidradas. Estava claro o que estava acontecendo, mas ainda assim tinham dificuldade para processar tudo aquilo.

 Pois os orcs estavam em movimento. E chegariam em Steamunk ainda naquele dia.

Atos Finais