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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 23 - Sobre coisas quebradas



E é no fim que nos quebramos.

 Dalan, Sophie, Amanda e Diana estavam no acabado carro, atravessando as ruas de Steamunk. Poucas pessoas andavam pelas calçadas frias ou se abrigavam nos baixos prédios metálicos, já que, segundo Diana, a cidade já havia começado a evacuar para o oeste, restando apenas uma força voluntária de ajuda, um minúsculo esquadrão do exército e os azarados civis que haviam sido deixados por último. Até mesmo a característica fumaça que cobria a cidade havia diminuído, já que as fábricas estavam às moscas.

 Sophie estava no banco de trás, recebendo os primeiros-socorros de Diana. Amanda permanecia na frente, abalada, e Dalan dirigia sem pensar. A ideia de que o amor de sua vida estaria finalmente a poucos centímetros de si era quase que paralisante, especialmente porque tinham que cuidar de Sophie, mas isso bastava para deixá-lo catatônico. Contudo, dirigia apressado até o hospital.

 Chegaram alguns minutos depois. O edifício era largo, com três andares cobertos por vidro escuro. Diana foi a primeira a sair, recrutando Amanda para ajudá-la com uma maca para Sophie. Ela em seguida agarrou a padiola e disparou através do hospital vazio, onde os poucos funcionários se assustaram com seu surgimento repentino.

 - Fiquem aqui enquanto cuidamos dela! - Disse para os outros dois, entregando a maca para um enfermeiro nervoso. Hesitou e voltou a Dalan, dando-lhe um abraço apertado. - Já conversamos, tudo bem? Deixa só eu cuidar da sua amiga. - Sussurrou apressada em seu ouvido.

 - Desde quando você é médica? - Perguntou atônito o rapaz, mas a outra já havia lhe dado as costas para sumir atrás de uma porta dupla no fim do corredor. Dalan e Amanda permaneceram parados por alguns segundos antes da garota desabar em um banco, colocando as mãos na cabeça.

 - Deuses... - Conseguiu dizer, parecendo à beira das lágrimas, e recomeçou agitada. - Por que ela foi querer enfrentar aquele monstro sozinha? Poderíamos ter ajudado, mas ela quis fugir e agora está lá quase sem um braço e sei lá o que pode acontecer e deuses, deuses, deuses! - Passou a mão frustrada pelos cabelos, agarrando-os no fim com o rosto contorcido. 

 - Respira. - Pediu Dalan, e cumpriu a própria ordem. - Vai dar tudo certo. - Não sabia para quem dizia aquilo e nem quantas coisas iriam dar certo, mas se aproximou da companheira, apoiando as costas na parede branca.

 - Eu não vou aguentar perder Sophie... - Disse a garota, e o rapaz a encarou, parando por um instante para checar as portas duplas no fim do corredor.

 - Ela é uma yulliana. - Lembrou, colocando a mão no ombro da amiga. - Eu passei por coisa pior e sobrevivi, lembra? - A cicatriz em seu estômago coçou, mas ele parecia ter alcançado Amanda. Ela largou os cabelos e apoiou os braços nos joelhos, encolhendo os ombros.

 - Acho que sim. - Riu nervosa, e limpou as lágrimas com as costas das mãos. - Sabe, depois dessa não vou deixar Sophie sair da minha vista nem por um segundo. - Disse, apoiada para frente. - Vou fazer a mesma coisa com meus pais quando encontrá-los. 

 Dalan se remexeu inquieto. O otimismo de Amanda em encontrar os pais não parecia ter sido abalado durante toda a jornada, mesmo que ele próprio duvidasse que estivessem vivos. Preferiu não dizer nada, mas a companheira continuou.

 - E quem é essa garota misteriosa que cuidou de Sophie? Ela parece te conhecer. - Perguntou. O rapaz ficou branco, e gaguejou em busca de uma mentira. Como não encontrou nenhuma, hesitante, decidiu dizer a verdade.

 - É a pessoa mais especial que já conheci. - Admitiu, e sentiu o peito apertar ao proferir aquelas palavras. - Voltei a Steamunk só para encontrá-la novamente.

 Amanda arregalou os olhos, mas acabou sorrindo e o cutucando com o cotovelo. - Então quer dizer que sua jornada acabou, não é?

 - Imagino que sim. - Ofegou Dalan, sentindo o peso daquelas palavras. Realmente, minha jornada terminou, pensou. Estou aqui com ela de novo. Contudo, não estavam juntos. Ela havia terminado o namoro antes dele sair da cidade, e não sabia em que pé estavam.

 Ficou considerando nervosamente aquilo quando as portas duplas se abriram. Diana saiu de lá, cansada e com as roupas amarrotadas, mas mantinha a voz firme. - Ela está bem. - Anunciou, se aproximando. - Não deve conseguir usar o braço esquerdo perfeitamente por alguns meses, mas depois disso, só vai ficar com a cicatriz. - Parou em frente a Amanda, que baixava a cabeça pelo alívio. - Vocês podiam ter nos dito que ela era uma yulliana. Seria bem mais fácil.

 - Desculpa, desculpa. - Repetiu a garota, sem conseguir conter o sorriso. Diana em seguida se virou para Dalan, que se empertigou imediatamente.

 - Por aqui. - Pediu, indicando com a cabeça uma sala ao lado. Os dois entraram e ela fechou a porta, se apoiando na maçaneta e encarando o chão. Quando levantou a cabeça, correu e abraçou fortemente o garoto. - Pensei que nunca mais ia te ver. - Disse, e sua voz estava chorosa. - Deuses, Dalan, achei que estava morto. Muito obrigada por voltar, muito obrigada mesmo.

 O rapaz levantou o braço para retribuir o abraço, e lágrimas também desceram pelo seu rosto enquanto ele a apertava com força. As palavras ficaram emboladas em sua garganta, e ele apenas a abraçou com mais força, o máximo que conseguia juntar através do alívio.

 - Seus pais estão bem. - Começou Diana, se afastando com os braços esticados. - Quase esqueço deles. Eles saíram na primeira evacuação da cidade. - Dalan não respondeu, atônito demais. - O resto de nós aprendeu alguns primeiro-socorros para cuidar dos feridos, e estamos esperando para-- Não conseguiu completar, pois o rapaz se adiantou e a beijou com intensidade. Diana apenas arregalou os olhos e deu um passo para trás, assustada. - O que foi isso?

 - Eu... - O rapaz estancou, parecendo acordar de um transe. - Eu...

 - Dalan... - Começou a garota, hesitando por alguns instantes. - Eu estou muito feliz em te ver, de verdade, mas... você se lembra como estávamos, não é?

 Era como se o mundo estivesse se estilhaçando para Dalan. - Eu... - Repetiu mais uma vez, tentando desesperadamente buscar palavras que corrigissem aquela situação incompreensível. Tinha lutado tanto por uma segunda chance, e sequer havia imaginado naquilo. - Eu sei, mas... eu atravessei meio mundo para voltar! Pra você!

 - E eu ainda mantenho minha decisão. - Afirmou a outra, o rosto firme e os olhos marejados. - Pensei muito sobre isso, Dalan, e não teria terminado as coisas entre nós se não estivesse completamente certa.

 - Mas você não entende. - O coração do rapaz parecia querer ser arrancado, e queimava em agonia em seu peito. Era tudo tão irreal que parecia um pesadelo. - Não entende o que eu passei. Atravessei florestas, rios, lutei contra... contra orcs, goolas, monstros, criaturas, tudo por você! - Agarrou os ombros de Diana, seu rosto contorcido com a incredulidade. - Fiz tudo por você, Diana! Para voltarmos!

 - Dalan, não torne isso mais difícil do que já foi. - Pediu a garota, afastando delicadamente a mão do rapaz. - É exatamente por isso que não podia continuar. Eu não posso ser uma pessoa tão importante na vida de outro. Não aguento ser a sua base, Dalan.

 - Ah, então foi esse o motivo de ter terminado comigo? - Se irritou o garoto. - Porque eu passei semanas procurando a razão de tudo aquilo, e tive que parar para não ficar insano! - Gritou, apontando para a cabeça. - E que tipo de desculpa é essa? Eu te amo, Diana, amo mais, muito mais do que a mim mesmo! Qualquer pessoa ficaria feliz com isso, cacete!

 - Não ficariam! - Retrucou a outra, tentando manter a voz controlada. - Não no nível que você me tratava, Dalan! Eu sei que posso não ter resolvido da melhor maneira, mas ninguém pode aguentar essa responsabilidade! Você não pode me amar mais do que ama a si mesmo.

 - Eu só fiz tudo o que fiz por sua causa. - Sussurrou o rapaz, se aproximando. - Não conseguiria ter lutado as batalhas que enfrentei se estivesse lutando por mim mesmo. Eu funciono melhor com você, Diana! Não consegue perceber isso?

 A garota manteve um olhar firme, e o quarto se encheu de silêncio por algumas batidas do coração. - Não, não consigo. - Disse ela, finalmente, balançando minimamente a cabeça. - Você consegue ser mais do que isso, Dalan. Se não conseguiu ver isso sozinho, não vai ser comigo que as coisas vão mudar. - Ela abaixou o queixo, mordendo o lábio. - Escuta... não é a melhor hora, pelo visto. Eu... te encontro depois. - E sem esperar resposta, deu meia-volta e saiu pela porta, deixando Dalan sozinho.

 Dalan ficou parado no quarto escuro, sem mover um músculo. A incredulidade o impedia de pensar em qualquer coisa, mas a raiva foi aumentando a cada segundo. Quando finalmente se moveu, estava com os dentes rilhados e lágrimas se formando nos olhos. Abriu a porta com violência, e encontrou Amanda do lado de fora. 

 A garota deu um passo inconsciente para trás. - Dalan? - Perguntou, mas o companheiro se virou para o outro lado, andando pelo corredor por onde Sophie havia sido levada. - Dalan, aconteceu alguma coisa? - Perguntou, correndo atrás dele.

 - Não é a hora, Amanda. - Grunhiu, sabendo que a garota era a última pessoa que queria ver naquela hora.

 - Ei. - Ela tentou segurar seu braço, mas foi afastada com truculência. - Ei! - Disse com ultraje, fazendo com que o outro parasse. - O que diabos aconteceu com você?

 - Já disse que não quero conversar. - Retrucou Dalan por entre os dentes, pontuando cada palavra. Amanda olhou para trás, se lembrando de Diana.

 - Aconteceu alguma coisa entre vocês? - Perguntou inocente, e o outro sentiu o sangue ferver. - Não trate isso como o fim do mundo. Meus pais às vezes brigavam, mas--

 - SEUS PAIS ESTÃO MORTOS! - Berrou Dalan, e a companheira se calou, pasma. - Pare... pare de viver nesse mundinho de criança e admita que eles devem ter sido alcançados pelos orcs! Você viu a destruição que eles fizeram em todos os lugares que encontramos, acha mesmo que deixariam dois viajantes em paz? - A garota não respondeu, ainda estupefata, seus olhos grandes vidrados. - Não sei pra quê você quer aquela esmeralda, mas é melhor admitir a verdade antes que--

 PAF.

 Dalan tropeçou para o lado, os olhos bem abertos. Em sua bochecha direita, havia a marca vermelha de uma mão. Amanda estava com lágrimas jorrando pelo rosto, e o encarava como se não conseguisse acreditar no que havia ouvido. O rapaz passou a ponta dos dedos pelo ferimento, subitamente calmo.

 - Amanda, eu... - Tentou dizer, mas a garota o agarrou pela camisa e o empurrou contra a parede, segurando o tecido com força. Agora seus rostos estavam extremamente próximos, o suficiente para o rapaz se ver refletido nos olhos castanhos e lacrimejantes.

 - Não fala mais comigo. - Sussurrou Amanda, tremendo. - Não olhe mais para mim, não... não... - Ela se afastou com truculência, tentando recuperar a compostura. Olhou para Dalan e soltou um som nervoso, acabando por correr para fora do hospital. O garoto ficou parado onde estava, tentando absorver o que havia acontecido. O machucado ainda pulsava e ardia.

 Sem dizer nada, ele seguiu pelo corredor vazio. Arrastando os pés, passou os olhos através de cada janela suja que decoravam as portas, encontrando camas vazias e móveis empilhados. Finalmente, acabou por achar uma ocupada. Sophie estava lá dentro, sendo tratada por dois médicos. Dalan encarou a companheira ferida e desacordada, sem saber o que fazer e por qual motivo havia se dirigido até ali. 

 Após um tempo indistinguível entre segundos, minutos ou horas, ele se afastou, apoiando as costas ao lado da porta. Sem forças, deslizou pela parede e sentou no chão, passando a mão pelos cabelos e contorcendo o rosto. Começou a chorar.

 E continuou chorando por muito mais tempo.

Atos Finais