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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 22 - Sobre a tempestade



Me lembro que, naquela fuga de Sophie para procurar Lordred, tudo que construímos foi condenado.

 Sophie terminou de subir a colina relvada, parando no topo para descansar. Tornou a ficar visível, conservando suas forças, e recompôs a respiração. O vento frio da noite recém-chegada a acertou, e ela apertou a manta contra o corpo. Segurou seus cabelos esvoaçantes e fitou o sul, onde outras colinas se espalhavam. Não havia nenhuma fogueira ou alarido, mas a figura sombria de uma embarcação ao longe entregava que os orcs estavam perto.

 Soltou o ar preso com pesar. O nervosismo fazia seu coração martelar dolorosamente o peito, o que a levou a segurar o punho da espada na tentativa de se acalmar. Teve alguns instantes de hesitação, mas voltou a caminhar, escorregando na grama úmida. 

 Tenho que achar Lordred, pensou. Era ali que sua jornada chegaria ao fim. Se o derrotasse, poderia vingar Carla e retornar com ela até Durandar, onde com certeza seria aceita de volta à Guarda Reluzente. Tremeu levemente com o pensamento, imaginando o comandante Leon a aceitando de volta. Teria cumprido sua missão, e ainda sozinha na reta final. Tudo que havia passado dependia dos próximos minutos.

 Enquanto isso, Dalan dirigia o carro pelas colinas, passando por instantes de pavor cada vez que alcançava o topo de uma elevação e esperava por centenas de orcs abaixo. Contudo, até agora não haviam encontrado nada. Nem mesmo a garota que procuravam,

 - Saco. - Se irritou o rapaz, batendo no volante. Amanda estava ao seu lado, com a parte superior do corpo do lado de fora enquanto procurava desesperadamente a companheira. Dalan, frustrado, rangeu os dentes. Haviam gastado um precioso minuto discutindo se usariam o carro para procurar Sophie e aqueles segundos foram o suficiente para perdê-la.

 - Nós vamos achá-la, não é? - Perguntou a garota mais uma vez. Vinha repetindo aquela frase desde que saíram, e não sabia se estava perguntando ao amigo ou a si mesma. - Temos que achá-la.

 - Os orcs não devem estar muito longe. - Sussurrou Dalan, de olhos atentos a cada pedaço de grama iluminada pelo farol alto. - E se tivesse alguma briga, nós iriamos ter visto. - Espero, pensou com seus botões.

 Vários metros ao sudeste, Sophie caminhava perto do rio, delimitando onde poderia esperar por companhia. O som constante de água corrente a acompanhava pela esquerda, sobrepondo as batidas frenéticas de seu coração. Tais batidas, contudo, se intensificaram assim que a garota notou os distantes focos de luz.

 São eles, concluiu assustada. Seu primeiro pensamento foi dar meia-volta e fugir, mas se forçou a continuar. Tenho que achar Lordred. Não esperava enfrentar todo um exército sozinha, portanto deveria achar um jeito de separar o orc do restante. Forçou-se a caminhar na direção das luzes, tomando o cuidado de se manter invisível. 

 Conforme avançava, conseguia ver o estado do desembarque do exército. Pequenos grupos de batedores começavam a se espalhar pelas colinas, formando um círculo ao redor do navio. Mais perto, começava a montagem de pequenas barreiras de madeira e ferro, que delimitariam uma área de proteção. Lordred não estava em nenhuma dessas divisões. A garota se esgueirou nervosa em áreas cada vez mais populosas, e quando estava prestes a desistir de encontrá-lo, lá estava ele.

 Achara que não se lembraria de Lordred, mas não havia como confundi-lo. O orc de meia-idade estava descarregando caixas entulhadas, indo e voltando de um navio metálico e negro. Sua pequena cicatriz que ocupava o lugar do ausente olho esquerdo o tornava inconfundível, mesmo entre companheiros bem mais marcados. Sophie o observou de longe, tomando cuidado para não estar em nenhuma rota de desembarque. 

 Agora tenho que tirá-lo daí, pensou ela. Uma ideia maluca brotou em sua mente, ocupando um tamanho tão grande que impossibilitava qualquer outra coisa. Olhou ao redor, tendo a certeza de que ninguém estaria a vendo, e esperou. No segundo em que Lordred olhou distraído em sua direção, ela se tornou visível.

 Durou menos de um segundo, mas conseguiu ter todos os temores que rondavam sua cabeça aflorando de uma só vez. Temeu que Lordred não a percebesse, que ele fizesse uma algazarra, que qualquer outro orc a visse, temeu até estar morta antes mesmo de fazer seu movimento. Contudo, os deuses pareciam estar a seu favor. Lordred a encarou e permaneceu calado, embora seu único olho se arregalasse. Sophie sentiu como se o ambiente ao redor estivesse desfocado, como se estivesse submersa.

 Silenciosa e concentrada, ela levantou o braço e apontou para o norte, na direção das colinas. O gesto durou menos de um segundo, e logo depois a garota havia se tornado invisível novamente. Os sons do desembarque orc voltaram, mas ela não estava mais pensando nisso. Apenas esperava que Lordred tivesse entendido o sinal. Deu meia-volta e correu para o lugar que havia apontado, sentindo o medo voltar a assombra-la.

 Algumas colinas depois, ela se apoiou nos joelhos para recuperar a respiração. Espero que funcione, pensou, olhando de relance para o sul. Esperava que Lordred ficasse curioso com seu surgimento e fosse investigar, e rezava que seu ódio pela Guarda Reluzente o fizesse vir sozinho. A garota segurou a manta, sentindo o coração bater por debaixo dela. Agora, deveria esperar.

 Não precisou aguardar muito. Alguns minutos depois, o orc de dois metros de altura surgiu do topo de uma colina ao sul, parecendo em busca de algo. Em suas mãos havia uma espada serrilhada, sua lâmina vermelha como o céu ao fim do dia, aparentemente conquistada desde a última vez em que tinham se visto. Sophie viu aquela arma e sentiu algo gelado pousar no estômago. Contudo, se levantou. Precisava apenas derrota-lo e tudo se ajeitaria.

 Ficou visível no momento em que Lordred terminava de descer a colina. Ele se assustou novamente, mas dessa vez respondeu com um sorriso malicioso. Sacou a espada serrilhada e a usou para cortar o ar com um movimento bruto. A grama ao redor se agitou com aquele movimento, mas uma lufada de vento vinda do oeste a jogou para o outro lado. Sophie e Lordred se encararam, e apenas o som do rio correndo os acompanhava. A noite estrelada servia de fundo, e suas sombras escondiam o rosto dos adversários. A garota apertou o punho de Valor, e ouviu o orc esfregar o couro que cobria o punho de sua arma. Não havia bravatas ou provocações naqueles segundos antes do embate, muito porque eles falavam línguas diferentes. Havia apenas a tensão.

 O orc foi o primeiro a quebrá-la, urrando com força. Sophie rangeu os dentes e disparou à frente, correndo com a espada protegendo o corpo. A arma do adversário girou para acertá-la na cabeça, mas a garota se ajoelhou no chão para desviar. Sentiu o ar rugindo acima de sua cabeça e girou o corpo enquanto deslizava, acertando a ponta de Valor no joelho de Lordred. Sangue escuro espirrou, e ele cambaleou.

 Sophie se apoiou com um joelho no chão, mantendo o adversário em seu campo de visão. Ele olhou de relance para o ferimento e bateu com a perna no chão, parecendo querer mostrar que não era nada. A garota sentiu a vontade de se tornar invisível, mas a voz de Leon surgiu em sua cabeça. Sinta-se à vontade de usar suas... muletas.

 Com isso, se levantou, empunhando Valor à sua frente. Derrotaria Lordred como uma verdadeira membro da Guarda Reluzente. Rangeu os dentes e avançou, brandindo a arma. As lâminas se beijaram e se afastaram, para em instantes voltarem a se encontrar. As farpas da espada do orc prenderam Valor, e ele aproveitou para puxá-la para baixo. Sophie quase caiu com o movimento, mas conseguiu ficar em pé e defletir desesperadamente o ataque repentino do adversário.

 Cambaleou para o lado com a força do ataque, mas não conseguiu se recompor pois Lordred continuava em cima. Viu o sorriso dele e tentou contra-atacar, mas ele quebrou sua guarda com um gesto violento da arma, e aproveitou que estava indefesa para soltar um forte soco em seu rosto.

 Sophie perdeu os sentidos por alguns instantes, e acordou com grama e sangue no rosto. Notou que havia caído e instintivamente rolou para o lado. A espada do orc se fincou na grama, jogando torrões de terra para o alto. A garota puxou Valor e se levantou desajeitada, Fitou o sorriso zombeteiro do outro e sentiu o sangue ferver. Anos e anos de frustração estavam diante dela, a questionando uma vez mais sobre sua capacidade. 

 Eu vou conseguir, pensou ela, apertando a espada. Se adiantou, de olho nos movimentos do adversário. Ele brandiu a espada e a garota saltou para a direita, na direção de onde vinha o golpe, e sentiu o braço do orc passar a centímetros de seu rosto. É agora. Estava entre Lordred e a espada serrilhada, e vislumbrou o olhar assustado dele. Rangiu os dentes, levantando Valor.

 - AAAARGH! - Gritou enquanto atacava, penetrando a lâmina no flanco do orc. Aço encontrou gordura e músculos, avançando entre as entranhas e saindo em um jorro de sangue escuro do outro lado. Sophie terminou de aplicar a força e arfou, seus cabelos loiros por cima dos olhos. Acabou

 Levantou a cabeça, esperando ver o rosto verde atônito. Contudo, encontrou apenas um sorriso. Gelou, sem saber porque gelava, até que uma voz cresceu em sua cabeça. SAI DAÍ AGORA! O braço do orc se moveu, e ela se virou para ver a espada serrilhada correndo para trás.Tentou pular para trás, mas já era tarde.

 As farpas rubras da arma dilaceraram o que encontraram pela frente, seja pele, músculo, vasos e até o osso, atravessando-os como manteiga. A garota viu a cachoeira de sangue que saía do braço esquerdo pelo canto do olho, mas não conseguiu reagir. Abriu a boca, mas não encontrou a voz. Não percebeu que havia caído, nem a extensão de seus ferimentos, nem nada. Estava apenas de olhos abertos, paralisada em dor lancinante.

 Sua espada caiu ao seu lado, a lâmina manchada se fincando na grama. Sentiu o braço direito tremer, como se quisesse segurar sua arma, enquanto o esquerdo não respondia a nada. Eu vou conseguir, dizia uma voz em sua cabeça, perdendo rapidamente a intensidade. Estou indefesa. Preciso de minha arma. Através da dor quase que irreal, ela tentou se levantar.

 Antes disso, o pé de Lordred quebrou Valor ao meio.

 Os olhos vidrados da garota enxergaram aquilo sem reação enquanto que seu corpo parava de se mover. Os pedaços da espada caíram no meio da grama, se perdendo. Sophie apenas encarava catatônica, seu corpo de repente abandonando a luta. Nem sequer um pensamento de revolta passava em sua cabeça. Havia acabado.

 Lordred apenas sorriu diante de sua presa derrotada. A garota estava em uma poça de sangue, que se originava de um corte extremamente profundo no braço, que dividia o membro em dois. Sua arma estava em pedaços, e sua vontade havia a abandonado. Olhou para a manta verde e manchada que cobria o corpo da adversária, e seu peito começou a arder de fúria.

 Antes que pudesse se mover, no entanto, uma luz veio das colinas. O orc levantou a cabeça e avistou um carro se aproximando, tão rápido que parecia sem controle. Lordred rugiu e deu um passo para trás, Os batedores não haviam soado o alarme, e ele não podia deixar o exército ser ameaçado. Fincou os pés no chão, preparado para enfrentar os recém-chegados. 

 Enquanto isso, o motorista do veículo rangia os dentes. - Dalan, é Sophie! - Berrou Amanda, seu cabelo longo castigado pelo vento. - O que vamos-- O carro imediatamente girou, e ela se segurou para não cair. Dalan ficou de pé no banco, sentindo as rodas derraparem abaixo de si enquanto o veículo desacelerava. Estavam perigosamente próximos de capotar, mas ele não se importava. Tinha apenas a visão da companheira caída e do orc triunfante, e aquilo queimava seu sangue.

 - Se segura. - Disse para a companheira, e saltou do carro em movimento. O tempo no ar desacelerou, e rapidamente seus olhos faiscaram e as veias se cobriram de gelo. Os dentes estavam rilhados, e ele expulsou toda a ira que sentia dentro do peito. - AAAAARGH! - Gritou, e uma enorme e disforme figura de gelo saiu de suas mãos, atingindo Lordred em cheio. O orc foi catapultado para longe, girando e batendo na grama, e o garoto caiu com força.

 - Dalan? DALAN! - Gritou Amanda. O carro parou de derrapar e ela saiu pela porta, correndo até os companheiros. Segurou o rapaz pelo braço e o levantou, correndo até Sophie. A garota ofegou e quase vomitou ao ver o estado da amiga, mas conseguiu ficar em pé. - Dalan, me ajuda aqui por favor. - Pediu com a voz fraca. O garoto conseguiu se segurar sozinho, enquanto que Amanda levava cuidadosamente a outra garota para o carro.

 Dalan havia perdido ligeiramente a noção dos acontecimentos, subitamente exausto pelo esforço repentino. Seus olhos se dirigiram até o monolito de gelo que o separava de Lordred, e conseguiu avistar o orc se movendo atrás dele.

 - DALAN! - Pediu desesperadamente Amanda, e o rapaz saiu de seu transe. Ainda de olho em Lordred, correu de lado até o carro, onde saltou a porta para cair no banco. Suas companheiras estavam no banco de trás, e ele conseguia sentir o cheiro de sangue misturado à adrenalina que saía de seu próprio sangue. 

 Deu a partida com as mãos trêmulas, disparando pelas colinas na direção de Steamunk. O pedal do acelerador estava colado ao suporte, e o carro ziguezagueava para manter a estabilidade. Após alguns minutos, Dalan notou a estrada escura à direita. Fez uma curva fechada e mudou a direção do veículo, que seguiu até derrapar novamente no asfalto rachado. O carro disparou pela estrada, e luzes distantes começavam a serem vistas no horizonte. O rapaz olhou para trás, vendo uma aflita Amanda cuidar de Sophie em seu celo. Voltou para frente, imprimindo ainda mais velocidade.

 Naquele momento, avistou um bloqueio humano no caminho. O garoto pisou fundo no freio e eles derraparam, quase capotando, e parando a centímetros do homem alto e barbado que formava o centro da barreira.

  - Se identifiquem! - Pediu o homem, estoicamente parado em frente ao carro que quase havia ceifado sua vida. - Agora mesmo! - Cuspiu.

 - O que cacetes está acontecendo aqui? - Perguntou Dalan, se agitando e apontando para o banco de trás. - Temos que levá-la para um hospital, agora!

 - Céus. - Se assustou o homem, se aproximando com o restante de sua guarda. - O que houve com essa garota?

 - Orcs, agora saia da frente. - Ordenou o rapaz.

 - Por favor. - Implorou Amanda, ao ponto em que o homem balançou a cabeça para sair do estupor.

 - Orcs? Eles estão aqui? Onde isso aconteceu? 

 - A gente pode conversar no hospital? - Se desesperou Dalan. - Minha amiga está com o braço arrebentado, e se não fizermos nada ela--

 - Dalan?

 Foi como se o mundo do garoto tivesse mergulhado embaixo d´água. Em um ínfimo instante, havia se esquecido dos guardas, de Sophie, de Amanda, dos orcs, até mesmo de si. Tudo que havia na existência era a voz que havia se manifestado. Conhecia aquela voz, talvez até mesmo mais do que a de seus pais. Virou a cabeça em busca da dona da voz, e a encontrou como se ela tivesse se destacado do restante da existência.

 Possuía cabelos claros e castanhos, que desciam encaracolados por cima do rosto da cor do cobre. Seu rosto era quadrado, com lábios finos e nariz pontudo. Os olhos eram negros, e brilhavam. A garota vestia um uniforme negro, e encarava Dalan com incredulidade, o que era respondido pelo rapaz, incapaz de acreditar no que estava vendo. Depois de tantas semanas, ela estava lá. A razão de sua volta.

 Diana.

Atos Finais