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4 de novembro de 2015

Conventionis: Capítulo 21 - Sobre a calmaria antes da tempestade



 Não me lembro de ter ficado tão animado recentemente. Continuamos seguindo o rio Lor, mas chegaria a uma hora em que precisaríamos atravessá-lo e seguir a noroeste, passando pelas Colinas Verdes até chegar a Steamunk. Para isso, precisaríamos da ponte de Luvann, e conforme nos aproximávamos, eu temia que os orcs já tivessem chegado e a destruído para que seus navios passassem.

 Só que, graças aos doze deuses, a ponte estava em pé. 

 O carro seguia mais próximo do rio, o suficiente para que as águas claras do Lor brilhassem pelo sol que se punha. A sombra alongada do veículo corria atrás dele, escondendo a grama ultrapassada. Os viajantes estavam acordados, avistando com animação a ponte adiante. Era uma construção antiga e magnífica, formada por rochas que se amarelaram pelo tempo. 

 A ponte era formada por três andares. O inferior era composto de arcos grossos que mergulhavam no rio, envoltos por rochas brancas. Por cima desse caminho, havia um novo andar de arcos e um caminho ao lado, bastante amplo. O andar superior, por sua vez, se projetava por cima de inúmeros arcos menores e era bem estreito. Nos dois lados, a ponte de Luvann terminava assim que saía do rio, e naquela margem, resquícios de uma estrada conseguiam ser vistos na direção das montanhas. Por cima delas, uma estrada mais nova, de rochas negras, desviava para o oeste. Conseguiam enxergar maquinários pela construção, mas estavam muito longe para identificá-los.

 Dalan, ainda aliviado, se sentia animado o bastante para jogar conversa fora. - Essa é a ponte de Luvann. Foi construída centenas de anos atrás, antes mesmo da Guerra da Fronteira. Também era um aqueduto quando essa região era...

 - Élfica. - Interrompeu Amanda, jogando a cabeça para frente. O rapaz a encarou, suspeito. - Acertei?

 - Como sabe disso? - Perguntou, e a garota sorriu com uma expressão cheia de si.

 - Sabendo. - Disse simplesmente. Dalan bufou e se virou para frente, e Sophie deu uma risadinha.

 - De qualquer forma, o aqueduto se tornou inútil com o passar do tempo, e também demoliram a estrada antiga. Hoje em dia só... - Percebeu que nenhuma das duas estava realmente prestando atenção, e amarrou a cara.

 Seguiram silenciosos até a ponte, passando pelos arcos desgastados que formavam a entrada. O sol poente fazia o rio brilhar, e o vento fresco balançava seus cabelos. Abaixo, a ponte tremia com a passagem do carro, e o único som de fundo da viagem era composto pelo motor roncando. Dalan aproveitou para fechar os olhos, se deliciando com a sensação de calma.

 - Estamos quase lá. - Disse sorrindo, sem conseguir se controlar. - Quando chegarmos às Colinas Verdes, estaremos a duas horas de Steamunk. - Segurou com força o volante, tentando controlar a ansiedade. Quase lá. Diana, estou chegando.

 - Podemos parar então? Estou meio cansada. - Pediu Amanda, aproximando-se do banco. Sophie se virou, interessada.

 - Eu ia pedir isso. Passamos o dia inteiro no carro. - Dalan as encarou com incredulidade. 

 - Gente, estamos a duas horas do fim dessa viagem. Não vamos parar. - A loira torceu os lábios e se virou para o rio, conformada, mas a outra permaneceu encarando o rapaz com o rosto fechado. - O que foi? - Ela abaixou um pouco a cabeça, ainda o olhando, e ele se lembrou da conversa que tiveram em Duofort. Bufou, sabendo que era melhor obedecê-la. - Tá, vamos parar. Mas só uma hora.

 Amanda levantou os braços e comemorou, deixando o rapaz revirar os olhos, frustrado. Seguiram pelo fim da ponte e pararam à direita, a alguns metros de onde o rio se agitava. A morena saltou para fora do carro com os cantis em mão.

 - Vou encher as garrafas d'água. Tentem não se divertir sem mim! - Disse, deixando os outros com o trabalho de tirar a comida das mochilas. Dalan pegou uma e se sentou na frente do veículo, apoiando as costas no capô, e a observou se afastando. 

 - Se sairmos agora, ela nunca vai nos alcançar. - Sophie sorriu e se sentou ao lado do companheiro, colocando as mãos entre os joelhos. Suas sombras se alongavam conforme o sol descia, e a garota fitou o campo aberto à frente, onde colinas se espalhavam daquele lado do rio. O vento soprava.

 - Depois que chegarmos a Steamunk... - Começou, meio sem jeito. - O que você vai fazer? - Perguntou, passando uma mecha de cabelo para atrás da orelha. Dalan se reclinou, olhando para frente.

 - Na verdade, eu ia te perguntar isso. - Disse, virando o rosto. - Você ainda pretende voltar a Durandar depois de encontrarem a esmeralda dos pais da Amanda? É uma estrada bem longa.

 Sophie mordeu o lábio. - Eu sempre soube que teria que fazer o caminho de volta. - Sorriu com o canto de boca, e deu de ombros. - E, de qualquer jeito, preciso voltar à Guarda Reluzente. De verdade.

 - Se é o que você diz... - Dalan ergueu o queixo, vendo que Amanda já se aproximava do fim. - Bem, se precisar descansar alguns dias em Steamunk, é só me encontrar. - A garota corou e desviou o rosto.

 - Obrigada. - Respondeu apressadamente, e também encarou encarou a companheira perto do rio. - E quanto à ela? - Apontou com a cabeça. - Também pode vir comigo?

 - Não força. - Os dois riram. Um vento morno os alcançou, banhando-os em tranquilidade. Observaram o rio brilhar nas últimas luzes do dia, sozinhos e envoltos em silêncio. Sophie remexeu as mãos.

 - O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO, HEIN? - Gritou Amanda lá de longe. A loira se sobressaltou e corou quase que obscenamente, enquanto que Dalan gritava de volta.

 - VAI LOGO! - Ouviu uma risada e a companheira sumiu de seu campo de visão. Suspirou pesadamente. - Algumas horas para o fim disso.

 - Não fala assim. A gente não estaria aqui sem ela. - Começou Sophie, ajeitando as costas. - E ela também me ajudou pra caramba com uns problemas meus.

 - Que tipo de problemas? - A garota mordeu a boca por dentro, se lembrando que, possivelmente, tinha sonhado tudo aquilo. Mesmo assim, continuou.

 - Eu guardo muita coisa dentro de mim. - Admitiu, dando de ombros. - Muitos medos, muitas angústias, sabe? Amanda me ensinou a soltar esse tipo de coisa de vez em quando.

 - Ah. - Respondeu o outro, ficando alguns segundos calado enquanto olhava para a frente. Voltou a encarar a companheira. - Tem alguma coisa agora?

 Sophie suspirou, relaxando o corpo e girando os polegares. - Algumas. - Mordeu o lábio enquanto considerava falar ou não. - Por exemplo, eu estava pensando sobre como não conseguia fazer quase nada nessa viagem.

 - Do que você está falando? - Perguntou Dalan, se aproximando. - Você liderou a gente durante todo esse tempo. Até derrotou Sperming.

 - Você derrotou Sperming. - Retificou ela. - E, sei lá. Queria fazer mais. Preciso fazer mais.

 O garoto puxou os joelhos contra o corpo. - Você fez um bocado, Sophie. Não estaríamos aqui se não fosse por você também. Dê a si mesma um pouco de crédito. - A loira o encarou alguns segundos com os olhos arregalados até que sorriu, desviando o rosto.

 - Obrigada. - Disse baixinho. Dalan apoiou a cabeça no capô, pensativo.

 - Falando em guardar coisas... - Começou, incerto. - Se lembra da luta contra Sperming, não é? Sobre como eu... estava naquele dia. - A outra o fitou, mas apenas concordou com a cabeça. - Não paro de pensar sobre isso. 

 - Sobre o quê, exatamente? - O garoto suspirou.

 - Naquele dia, eu senti como se não tivesse controle sobre mim mesmo. - Olhou para as próprias mãos, imaginando o gelo as cobrindo. - Como se eu pudesse passar por cima de qualquer barreira para conseguir o que eu quisesse. Como Sperming fez. - Ele voltou a olhar para a companheira. - Não quero me tornar um vilão. Acha que consegue me ajudar com isso?

 - E-eu? - Perguntou Sophie, surpresa.

 - Amanda disse que vocês poderiam me segurar caso eu estivesse passando dos limites. - Sorriu de canto de boca. - Não é algo que eu faça toda hora, então ficaria mais tranquilo se ouvisse de você. - A outra corou, e desviou o rosto no tempo de algumas batidas de coração.

 - Claro que pode. - E com isso sorriu, o que foi retribuído pelo rapaz. Ela ajeitou uma mecha por trás do cabelo, encabulada. - Você deve estar realmente com saudades, para ter essa preocupação.

 - Então... - Começou Dalan, se esticando por cima da grama. As primeiras estrelas começavam a aparecer no céu, e junto com o vento fresco e o cheiro silvestre das colinas, davam-lhe uma sensação de tranquilidade que há muito tempo não sentia. - Tem alguém me esperando em casa.

 - Seus pais?

 - Não. Quero dizer, sim, eles também devem estar me esperando, claro. - Se embolou o rapaz, parando em seguida para ajeitar a postura e pigarrear. - Só que tem uma garota. O nome dela é Diana. 

 - Ah... - Soltou Sophie. - Você nunca falou dela. - Disse, aparentando surpresa. Dalan deu de ombros e estalou a língua.

 - Admito que eu não era... bem, aberto, nesse início de viagem. - Confessou, sorrindo de canto de boca. - Só que vocês conseguiram me quebrar, acho.

 - Que bom. - Disse a outra, sorrindo. Após isso, mordiscou brevemente o lábio inferior. - E ela... vocês dois... são alguma coisa?

O rapaz suspirou fundo. Sentiu um aperto no coração, impedindo-o de responder de imediato, mergulhado em decepções do passado. - Fomos namorados. Terminamos um pouco antes de me convocarem para o Exército. Achei que iria fazer meu nome e voltar como um herói, mas decidiram invadir a gente.

 - E... o que você pretende fazer quando encontrá-la, então?

 - Alguma coisa. Eu não sei... é complicado. - Disse, balançando as mãos enquanto se agitava. - Só sei que preciso encontrá-la de novo. Fazer as coisas funcionarem. Ela estava desgastada no nosso relacionamento, mas isso não significa que não goste de mim. - Virou-se para a companheira, sentindo as angústias voltarem enquanto o pescoço esquentava. - Não é?

 Sophie arregalou os olhos. - Ah... eu... - Gaguejou, ficando vermelha e procurando olhar para qualquer outro lugar. - Não sei. Talvez, não é? - Completou com a voz aguda. Viu o companheiro murchar, e acrescentou rapidamente. - Só que ela deve ter sentido sua falta. Talvez... tenha reconsiderado. 

 - Você acha mesmo? - Perguntou o rapaz, seu rosto se iluminando. Sophie sorriu, encolhendo um dos ombros.

 - Não sou a especialista nisso, mas... - Parou uns instantes para encarar o chão, a boca entreaberta. Quando voltou a encarar Dalan, ofereceu um sorriso. - Tudo pode acontecer.

 O garoto suspirou aliviado. - Realmente, Amanda estava certa. É bom se abrir de vez em quando. - Deitou na grama com os braços atrás da cabeça, encarando o céu tingido de violeta e azul. - Mas nunca diga a ela que essas palavras saíram da minha boca. - Ouviu uma risada abafada e passou a contemplar as tímidas estrelas. tentando adivinhar as constelações. Ainda tenho chance, considerou, e sorriu de orelha a orelha. A vontade de sair dali e terminar o trajeto até Steamunk era quase insuportável, e franziu o cenho. - Falando nela, ela está demorando, não está?

 - Gente... - Interrompeu a voz urgente de Amanda. Seus dois companheiros se viraram, vendo que ela havia esgueirado até eles, suada e arfando. - Precisamos sair daqui. Agora.

 - O que houve? - Perguntou Dalan enquanto se levantava. Avistou o terror nos olhos da outra, e o sentimento também desceu por sua espinha.

 - Orcs. Orcs e goolaths, todos desembarcando e vindo para cá. - Apontou trêmula para o sul, e era realmente possível ver pequenos pontos de luz através das colinas. - Ainda estão longe, mas é melhor irmos agora.

 - De onde eles vieram? - Indagou o rapaz enquanto recolhia as mochilas. Sophie permanecia parada, seu rosto vidrado. - Como não vimos os barcos chegando?

 - Devem ter pego um desvio pelo interior, eu não sei! - Guinchou, agitada. - Só sei que ainda estão desembarcando, então temos tempo para fugir. Talvez... Sophie, o que você está fazendo? - Perguntou ao ver a companheira correndo até o veículo, puxando a espada.

 A loira parou em frente ao carro, de olhos nas colinas ao sul. Ergueu Valor, apontando naquela direção. - Você disse que eles estão desembarcando, não é? - Perguntou.

 - S-sim, mas...

 - Lordred está entre eles? - Questionou Sophie, seus olhos brilhando. Dalan estancou, sentindo a mudança de postura da companheira. Amanda por sua vez gaguejou, nervosa.

 - A-acho que sim, mas aonde quer chegar? - A outra garota voltou a olhar para o sul, respirando fundo.

 - Eu preciso derrotá-lo. - Sussurrou para si mesma antes de repetir para os outros. - Eu preciso derrotá-lo. - Repetiu, mais alto. Dalan e Amanda se entreolharam brevemente, assustados.

 - Você só pode estar de sacanagem. - Disse Dalan, se adiantando. - Tem um exército desembarcando a poucos quilômetros daqui! Temos que sair agora!

 - Eu tenho que fazer isso! - Retrucou a outra, em um misto de determinação e nervosismo. - Prometi a Carla que iria matar aquele monstro! Não posso deixar essa promessa passar em vão!

 - Escuta. Você não vai invadir um acampamento desses sozinha. - Começou Amanda, tentando se manter calma. - Não tem nenhuma chance de um de nós sair de lá vivo. - Sophie se virou para Dalan, que recuou com a intensidade de seu olhar. A mão pálida da garota quase esmagou o punho de sua arma, e ela mordeu o lábio inferior.

 - Tudo pode acontecer, não é? - Perguntou, mas não esperou resposta do rapaz desconcertado. - Não é isso que você está fazendo? Arriscando tudo em troca de uma só chance?

 - E-eu... - Tentou responder o rapaz, sem saber o que pensar. Realmente, Sophie estava com a mesma cabeça que ele, mas...

  - Mas Dalan sabe que não pode ficar obstinado com isso! - Se adiantou Amanda. - Já conversamos sobre isso! Não deixe esse tipo de coisa te controlar assim!

 - Amanda tem razão. - Conseguiu dizer o garoto. - Desculpa, mas... você não vai conseguir fazer isso.

 Sophie olhou de um companheiro para o outro, parecendo à beira das lágrimas. - Já ouvi muitas vezes que não conseguiria fazer alguma coisa, mas eu realmente não esperava isso de vocês. - Disse com a voz embargada.

 - Sophie... - Tentou começar Dalan.

 - Não. - Interrompeu a loira, respirando forte antes de continuar. - Eu me abri pra vocês. Vocês sabem como isso é importante pra mim. Sabem que eu preciso derrotar Lordred para me sentir digna de novo. - Colocou a mão no peito. - Eu já tenho muito para carregar nas costas. Prometi ajudar Dalan a chegar em Steamunk, prometi a Amanda que acharia a esmeralda dos pais dela, prometi a Carla que mataria o orc que a arruinou. - Seus olhos estavam vermelhos. - E se eu der as costas para isso, talvez eu nunca o ache de novo.

 O silêncio os envolveu, interrompido apenas pela canção do vento. - Sophie... pense mais um pouco sobre isso. - Começou Amanda, também à beira das lágrimas. - Às vezes temos que aceitar que certas coisas estão além de nós.

 - Não posso deixar Lordred escapar. - Disse a loira, e encarou os outros dois com pesar. - Desculpa.

 E com isso, desapareceu.

 Dalan e Amanda demoraram meio segundo para reagir, estancados em incredulidade. - SOPHIE! - Gritou o rapaz, olhando para todos os lados. O sol já estava quase se pondo, escondendo qualquer borrão ou pegada da garota. - SOPHIE! - Berrou ele novamente, seu coração martelando o peito.

 - Sophie! - Amanda correu para frente, mas não sabia nem mesmo por onde começar. O companheiro, por sua vez, correu de volta até o carro e saltou no banco, ligando-o. O motor roncou e o farol acendeu, fazendo com que a morena colocasse os braços na frente do rosto.

 - Entra. - Rugiu o rapaz, esfregando o volante.

 - Vamos acabar passando por cima dela, Dalan! - Disse a garota, colocando as mãos em cima do capô. Sentiu um aperto no peito e se virou para trás, como se pudesse enxergar a companheira. - SOPHIE!

 Enquanto isso, Sophie se aproximava da colina ao sul, segurando Valor firmemente enquanto caminhava.

Atos Finais