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terça-feira, 3 de novembro de 2015

CONTOS DOS LEITORES - ROUBO DE CARGA (POR DONCAS MURRO) PARTE 07 - FINAL




Parte 7 – Corra!


Enquanto Carmanguia Batista e D’Oris corriam pelo módulo de cargas de baixo valor, Maxine, ainda no vagão de alimentação e entretenimento, retirava de suas costas o faca que o assaltante escondera na bota. A dor da lâmina se movendo em sua carne era lancinante, mas o sangue que escorria em gotas pelas costas e incomodava ainda mais. O salto de seu sapato havia quebrado, obrigando-a a seguir atrás de seu alvo descalça.


“Você está bem?”, perguntou Carmanguia à líder rebelde quando já julgava estarem em lugar mais seguro. Ela concordou com um grunhido rouco. Seu pescoço estava marcado pela corda que a senhorita Moon usou para tentar enforcá-la. “Não temos mais como fugir”, contou ele. “A nave auxiliar foi danificada. Mas tenho um plano. Vamos acabar presos, mas ao menos não seremos mortos por aquela louca dos olhos coloridos. Você está comigo?”


“Faça o que for possível. Eu só quero sobreviver”, disse D’Oris, com os olhos já cheios de lágrimas. Seguiram pelos módulos de cargas, saltando pelos corpos que se espalhavam pelos corredores. era impressionante a carnificina que havia tomado o Expresso Luckywinds nos últimos minutos.


O plano era simples. Na verdade, o avesso do plano original. Consistia em voltar para o compartimento de onde resgataram D’Oris e seguir em animação suspensa até a CH19. Lá, seriam presos e teriam suas memórias removidas, o que provavelmente levaria à detenção do albino Hassan e de todos os seus aliados, inclusive Maxine Moon. Com sorte, conseguiriam um acordo que garantisse uma pena alternativa. Ou não. valia tentar a sorte.


Com o plano em mente, chegaram ao cofre onde a joia rebelde estava escondida. Carmanguia voltou a se agachar e usar seus talentos para destrancar a porta. Mais uma vez, num assobio, o acesso ficou livre e a salvação dos dois parecia próxima. Mas Maxine também estava próxima, com a faca em mãos e mais sede de sangue do que nunca. Ela voou primeiro na direção de D’Oris, seu objetivo principal, mas aproveitou para arremeçar o assaltante para dentro do compartimento. A cabeça bateu contra a parede e Carmanguia estava ligeiramente tonto. Era o suficiente para que ele não pudesse impedir a porta de fechar. O ambiente foi ficando mais frio à medida que uma névoa branca tomou todo o lugar. O oxigênio diminuiu e ele estava mais fraco e mais fraco. Com seu último fôlego, colou a orelha na porta e ouviu o que não queria. Um estalo. Um gemido. E a rebelde estava morta. “D’Oris”, ele sussurrou.


D’Oris havia conhecido o albino que contratara Carmanguia muitos anos antes. E o encontro selou seu destino. Ele viu nela potencial para inspirar os demais herdeiros dos primeiros habitantes da Colônia Humana 20. Ele acreditou nela e, praticamente, a adotou como filha. Treinou a jovem de todas as maneiras possíveis. A ensinou a atirar, a lutar e a discursar. E, mais do que tudo, dividiu com ela todos os seus segredos.


“Precisamos conversar sobre uma coisa muito séria”, disse Hassan, no dia em que julgou que o treinamento estava concluído. “Você e eu somos praticamente um. Se você cair, eu caio. E eu não quero que isso aconteça. Por isso, acho importante que tenhamos um plano de contenção.”


A rebelde, de fato, já estava preparada para os desafios que viriam. Foi dela mesma o plano de fuga. “Eu já pensei bastante nisso, Hassan”, e contou suas ideias. A base de tudo era o boato. Como era de praxe que os rebeldes fossem levados para a CH19, no momento em que chegasse a notícia de que ela havia sido detida, o albino deveria espalhar que já estava articulando um plano de fuga. Isso faria com que o transporte escolhido fosse o trem da Luckywinds, para disfarçar. Uma vez dentro da composição, ela precisaria de alguém para destrancá-la, de alguém para dar suporte com a tripulação e de alguém para matar os seguranças enquanto ela se recuperava. Seria bom ter também um piloto, para que todos achassem que seria possível fugir. Mas, o mais importante, era que uma dessas pessoas pudesse assumir o lugar dela. Quando o trem chegasse ao seu destino, o compartimento deveria ter uma carga. hassan havia contratado Maxine para essa função, mas calhou de Carmanguia assumir esse trabalho. Com os registros apagados, não faria diferença se era homem ou mulher dentro do compartimento.


Do lado de fora, no corredor do vagão, D’Oris verificava se Maxine Moon estava realmente morta. E estava. A coluna fora partida em duas com uma joelhada. O golpe preferido de Hassan, que se garantia mais pela altura do que pela força. Aproveitando que os seguranças que restavam e os passageiros estavam escondidos, ela caminhou até uma cabine livre. Lá, puxou uma mata de baixo de um dos bancos. Trocou de roupa, ajeitou o cabelo e, com um lenço, escondeu as marcas no pescoço. Já lia um guia de viagens da CH19 quando um funcionário do trem bateu à porta. “Com licença, senhora. Eu sou o Camareiro 32 e estou à sua disposição no decorrer da viagem. Como já foi dito, teremos cinquenta dias de deslocamento até a Colônia Humana 19. Por conta de uma pequena confusão, o vagão de alimentação e entretenimento está fechado, então podemos trazer algo no quarto, se precisar”, disse ele. “A propósito, o senhor Hassan pediu que eu lhe entregasse isso”, e estendeu a mão com um envelope. “São os documentos que vai precisar na hora de desembarcar.”

Ela olhou para o passaporte. Ao lado da foto, estava escrito Hustle Hope. “Cafona”, pensou ela, “mas posso me acostumar”.


                                                                         Fim
                                                                    ~~~~~~~~


Gostaram? Agradecemos a excelente leitura proporcionada pelo leitor Doncas Murro e esperamos que vocês também tenham gostado.



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