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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Conventionis: Capítulo 20 - Sobre demônios internos





 Dalan me emprestou algumas folhas do diário dele. Eu disse que não precisava, mas ele respondeu que já estávamos chegando perto de Steamunk, e não usaria todo o papel. Então, estou começando o meu diário. 

 Não sei muito bem o que escrever. Estou agora no carro, tentando segurar todas essas folhas, enquanto que Dalan e Amanda brigam um com o outro. Não é algo sério, mas eles voltaram parecendo... parecendo bem. Encontraram o tanque de combustível que estávamos procurando e munição para a pistola de Amanda, e parecem bem agitados. Fico feliz, de verdade. Só que... queria entrar nessa animação.

 Não que eu esteja com inveja ou algo assim (por que estou me desculpando para um diário?), mas eu não consigo mais tirar essa angústia dentro de mim desde que encontrei Carla. Eu sinto como se não estivesse fazendo nem um pouco do que deveria fazer. Tenho que derrotar Lordred por ela, e também achar a esmeralda de Amanda, e seguir tudo que o senhor Leon disse para eu ser, e depois voltar a Durandar para ser membro da Guarda de novo... é muito. Demais.

 Fico me dizendo que, quando chegarmos a Steamunk, tudo ficará certo. Lordred estará lá, descobriremos onde a esmeralda foi parar, e conseguirei lutar bem. Só que as dúvidas não saem da minha cabeça. Será que os orcs já terão tomado a cidade? E se a pedra de Amanda tiver sido perdida? Será mesmo que conseguirei lutar contra aquele... monstro? E se a cidade já tiver sido evacuada? Dalan ficará arrasado, e eu...

 É muito. Quero muito que a gente chegue em Steamunk o mais rápido possível, mas não sei... Será que tudo vai se resolver lá?

 Sophie parou de escrever, sentindo um aperto no coração. Virou o rosto e encarou o rio à sua direita, agora limpo e sem sinal de destruição. Colinas verdejantes ao norte se espalhavam pelo terreno, e nenhuma alma habitava entre elas. 

 Virou-se para a direita, tendo uma breve visão das altas montanhas antes de Amanda se colocar à sua frente.

 - Deixa eu dirigir! Não tem nada por perto para eu bater! - Pediu a garota, colocando as mãos nos ombros de Dalan, que tentou se desvencilhar.

 - Não! Décima vez, não! - Se agitou o rapaz. - Você vai achar alguma coisa para bater, acredite. Não sei como, mas vai! - Amanda bufou e se jogou no banco de trás, frustrada. Sophie sorriu para os dois, mas o sorriso esmoreceu em seus lábios conforme ela desviava o rosto. Voltou a encarar o rio, o vento agitando seus curtos cabelos loiros.

 Havia uma grande árvore morta à direita, com uma gigantesca abertura negra em seu tronco seco e com os ramos espinhosos apontando para o céu claro. Se destacava solitariamente no mar de grama, e a garpta a acompanhou com os olhos até que o veículo a deixasse para trás. Encostou a cabeça no braço, imersa em seus próprios pensamentos.

 Alguns minutos depois, outra árvore morta apareceu. Franziu o cenho para ela, observando-a sumir, e voltou desconfiada à sua posição.

 Na terceira vez, não havia como ignorar.

 - Dalan, estamos andando em círculos? - Perguntou assustada, e o companheiro virou o rosto em sua direção.

 - Não... - Soltou desconfiado, e segurou o volante com firmeza.

 - Acho que ela tem razão, Dalan. Já vi aquela árvore antes. - Apontou Amanda, vendo o tronco morto se afastar.

 - Gente, o rio sempre esteve à nossa direita e as montanhas sempre estiveram à esquerda. Não tem como termos mudado de direção. - Explicou o rapaz, sua voz nervosa nervoso. - Estamos na direção certa. Acreditem, estou tomando o máximo de cuidado nessa viagem. Se acontecesse alguma coisa estranha, eu--

 Não conseguiu terminar, pois algo estourou debaixo abaixo deles. Os garotos gritaram e Dalan lutou para manter o controle, girando o carro. O veículo derrapou na grama e deu duas voltas até parar, quase tirando dois pneus da estrada. Fumaça escura saía entre as frestas do painel, e os três viajantes imediatamente abriram as portas para fugir.

 - O que... o quê? - Se desesperou o rapaz, dando alguns passos para trás. Aguardou alguns segundos antes de se aproximar cauteloso do veículo, que continuava cuspindo fumaça. Olhou para o lado, vendo as marcas do pneu manchando a grama. - Passamos por cima de alguma coisa?

 - Não vi nada! - Respondeu a loira, também alarmada. Abriram o capô e foram recompensados com uma baforada negra que os envolveu completamente. Enquanto isso, Amanda permanecia parada, encarando a solitária árvore morta. - Amanda, vem cá ajudar a gente! - Pediu Sophie com a mão nos olhos. Saiu da fumaça para respirar e tossiu, apoiando-se no retrovisor. - Amanda? - Chamou novamente com a voz fraca, e levantou a cabeça para enxergar a outra garota se afastando na direção do tronco.

 Olhou de relance para Dalan, que continuava ocupado tentando ver o que havia de errado no carro, e correu para seguir a companheira. - Amanda! - Chamou de novo, mas também foi ignorada. Se aproximou da árvore, notando que haviam dois buracos no topo que formavam um rosto em agonia quando vistos com o buraco maior. Desacelerou inconscientemente.

 - De onde ela veio? - Perguntou Amanda, apoiada nos joelhos enquanto investigava a madeira. Sophie deu passos lentos à frente, ainda encarando as órbitas vazias. Engoliu em seco, sentindo o pescoço formigar.

 - Dalan precisa da nossa ajuda. Temos que consertar o carro. - Disse, só que a companheira estava hipnotizada. A morena sorriu, apoiando as mãos perto do rombo maior.

 - Consegue ouvir as risadinhas? - Perguntou, e a loira gelou.

 - Você está me assustando. - Amanda virou o rosto para ela, parecendo achar tudo aquilo engraçado.

 - Calma, não tem nada de mais. - Colocou a mão na abertura, e o membro imediatamente desapareceu na escuridão. - É só uma árvore morta. Só queria saber o que ela IIH! - Guinchou, sendo puxada por uma força invisível para o interior do tronco.

 - AMANDA! - Gritou Sophie, mas a companheira já havia sumido. Olhou rapidamente para Dalan, ainda ocupado com a coluna de fumaça, e se abaixou para tentar encontrá-la. O medo era forte demais para se mover, mas as sombras se moveram e a englobaram em um piscar de olhos.

 A garota gritou, mas já era tarde. Se viu mergulhada voando, sem saber onde era em cima e onde era embaixo, cercada apenas pelo escuro. Não ouviu sua própria voz, e berrou com mais força, mas seus sentidos pareciam tê-la abandonado.

 De repente, um vento quente e forte soprou para levá-la para frente, e ela caiu em um rio gelado. Ficou sem fôlego e emergiu à tona, aspirando um ar viscoso e fétido. A correnteza estava levando-a, sem lhe dar controle, até que ela se chocou contra uma superfície rochosa. Olhou para os lados e viu que era a mão de um gigantesco golem cinzento, cuja cabeça estava faltando. O golem a segurou e a arremessou para longe, e a garota caiu em uma rocha flutuante. Respirou fundo, tentando se recuperar do caos que havia lhe sequestrado, e abriu os olhos.

 Viu-se diante de uma miríade de estrelas, algumas tão pequenas quanto o furo de um alfinete e outras tão grandes quanto sua própria mão. Havia outros corpos ali também, flutuando sem compromisso. Eram esferas de diversas cores e tamanhos, vagando sem fim.

 Sophie inspirou fundo, temendo ter ficado insana. Olhou para os lados e quase se jogou para trás quando viu o vulto à sua direita. Sua cabeça era redonda, e possuía apenas um gigantesco olho no centro, de pupila vermelha, visível através de uma abertura em forma de uma curvilínea estrela de quatro pontas na pele azul-escura. Vestia um longo robe que parecia feito de uma névoa cinza, que cobria quase todos os seus membros. Apenas as mãos eram visíveis, e uma segurava uma pena longa e branca, com a qual escrevia em um livro grosso e sem decorações.

 A criatura encarava Sophie sem piscar e sem parar de escrever, deixando a garota completamente aterrorizada. Engoliu em seco, percebendo que estava suando, e ser de um olho encarou o céu acima de sua cabeça.

 - Tá, tá, eu vou. - Ecoou uma voz naquele espaço, aguda e onipotente. A viajante teve agora certeza de que estava enlouquecendo, e tremeu. - Vocês vigias são muito chatos.- Após isso, um som de palmas ecoou, e o chão desapareceu.

 Sophie caiu mais uma vez, uma queda agora brusca e curta. Procurou se levantar com dificuldades, sentindo um piso liso em suas mãos. Arfava desesperadamente, e levantou a cabeça. Havia mais alguém com ela naquele chão roxo e pálido, e esse alguém era Amanda.

 - Graças a todos os deuses. - Sussurrou a loira, aliviada por uma visão reconfortante. Engatinhou até a companheira, que acordava. - Amanda, acorda. Não sei o que aconteceu, mas... - Olhou ao redor, percebendo que também não sabia onde estava.

 Era apenas um piso, cujas bordas não eram visíveis pela parede de trevas que cercava o lugar. A luz parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum, sem provocar nenhuma sombra. O céu possuía apenas um gigantesca lua cheia, que pairava acima de um tablado, única estrutura diferente naquele lugar. Era composto por três plataformas empilhadas, e no topo havia um trono de madeira simples. Sentado nele havia um arlequim pálido, com roupas de todas as cores.

 - Bem-vindas! - Anunciou com a voz fina, ficando de pé em um salto. Os guizos em seu chapéu ecoaram, e o som se manteve presente por vários segundos. - Este é o Palácio Lunar, e fico contente em receber visitas. - Fez uma reverência espalhafatosa, e os guizos voltaram a chacoalhar.

 As garotas se entreolharam, temerosas, e a loira se adiantou. - Quem é você? - Perguntou. O arlequim levantou a cabeça para ela e sorriu, fazendo com que um arrepio passasse por todo o seu corpo. Os guizos chacoalharam mais uma vez.

 - Tenho vários nomes. - Declarou, ainda curvado. - Mas hoje pode me chamar de andarilho. É o que tenho feito desde que vocês, seres desesperados, começaram a recorrer às divindades para salvar suas peles. - Levantou-se, arqueando o corpo de forma brusca e ao mesmo tempo suave.

 - Você é um deus? - Sussurrou Sophie. Colocou a mão em sua espada. Não havia a usado desde a luta contra Sperming, mas seu toque era reconfortante. O andarilho balançou a cabeça e sorriu.

 - O que são deuses para vocês, seres menores? - Perguntou, e a malícia pintou seu rosto. - Apenas o que não conseguem entender. Sou um habitante do oculto, convocado por vocês mesmos quando Zemopheus retornou. - Deu um passo para a frente e abriu os braços, e as garotas imediatamente recuaram. Mais uma vez, os guizos ecoaram naquele lugar. - Não me reconhecem nessa forma? Ela remete à época em que cheguei a esse plano, Me oferece... nostalgia.

 Amanda olhou de soslaio para a companheira. - É assim que fico quando falo sem parar? - Voltou a olhar para frente, e o arlequim estava a centímetros de seu rosto. Guinchou e caiu para trás, ficando aos pés do outro, que a encarava com a cabeça inclinada para o lado.

 - Você vai ter que esperar até termos nossa vez de brincar. - Estalou os dedos, e o som ecoou solitário através do Palácio Lunar. De início, nada aconteceu, e a garota apenas encarou o andarilho destacado pela lua redonda. Sophie estava prestes a se mover quando o chão pareceu estourar, subindo uma tempestade de poeira roxa. A garota gritou e colocou os braços à frente do rosto, e quando abaixou viu que Amanda estava presa em faixas da cor da lua, tal qual um túmulo. Apenas seu rosto apavorado era visível, e o andarilho estava de costas para a loira, admirando seu trabalho.

 Virou o rosto para trás, e Sophie viu o brilho em seu olhar. Guizos novamente sacudiram. - Não que eu tenha algum problema com você, jovem Amanda. - Começou, se aproximando de Sophie, que recuava com a mão na espada. Cada passo fazia os chocalhos se agitarem, trazendo o forte de volta à tona. - Existem coisas em você que me excitam, mas essa aqui... - Ele abaixou minimamente o rosto, e seus olhos brilharam momentaneamente em vermelho. - Essa aqui faz meu sangue borbulhar. Não é mesmo, Sophie?

 A garota alcançou a parede de trevas, e temeu dar mais um passo. O arlequim continuava se aproximando, e ela puxou Valor da bainha, segurando-a à sua frente. Ainda não havia sombras ali, mas a lâmina brilhou à luz do luar. Os guizos pararam. - O que quer de mim? - Perguntou a loira em tom agudo, suas mãos tremendo. - Como sabe nossos nomes?

 O outro sorriu, encolhendo um ombro. - Pode ficar com a ideia de divindade. Assim não preciso me explicar toda hora. - Ele recomeçou a andar, e Sophie trincou os dentes. Estava paralisada. - Agora, o que eu quero de você é simples. - Tocou na ponta da espada e deu um passo para o lado. Uma substância preta e gasosa saiu da lâmina, formando rapidamente uma cópia espelhada da garota, com apenas os olhos vermelhos se destacando no corpo negro. - Quero apenas seu desespero.

 A cópia atacou, e Sophie se defendeu por reflexo. Aço se beijou audivelmente e elas se afastaram, girando em torno uma da outra. - O que é isso? - Gritou a loira, enxergando o andarilho atrás do vulto sombrio.

 Ele não respondeu, mas a cópia atacou. Se adiantou e estocou com a espada, e a garota a desviou apressada. A lâmina acabou cortando seu ombro, e sangue espirrou. Recuou com a mão livre no ferimento ardente, levantando Valor para se defender de um novo ataque.

 Jamais voltará à Guarda Reluzente.

 A garota olhou ao redor, tentando identificar de onde vinha aquela voz. Avistou o arlequim sorridente. - Ouviu alguma coisa? - Perguntou, e o clone voltou a atacar. Desta vez Sophie conseguiu se defender, mas caiu no chão com o impacto do golpe.

 - São tantas ânsias em sua alma... - Disse o andarilho, subitamente atrás dela. A loira rolou para longe, ficando à mercê do vulto. Percebeu a ameaça tarde demais e tentou se afastar, mas a arma de sombras cortou sua canela.

 Nunca derrotará Lordred.

 - SOPHIE! - Gritou Amanda, ainda presa. A garota tropeçou na direção da companheira, apoiando suas costas nas faixas que a envolviam. Do outro lado, o andarilho se aproximou da figura sombria, colocando a mão em seu ombro.

 - Esta é a representação de todas as suas angústias. Creio que já estejam familiarizadas. - Disse ele, sorrindo. - Também já deve ter percebido o que acontece quando ela te atinge.

 - O que acontece? Sophie, que angústias são essas? - Perguntou Amanda, mas não foi respondida. O andarilho, por sua vez, levantou um dedo.

- Eu sei que isso parece muito ruim, mas pense pelo lado bom. - Começou ele, franzindo o cenho. - Estou te dando a oportunidade de se livrar para sempre delas. - Se moveu, ficando atrás do vulto e segurando seus ombros. - É só derrotá-la.

 A garota arregalou o olhar. Ouviu Amanda dizendo alguma coisa ao seu lado, mas estava completamente imersa na proposta do arlequim. Conseguia sentir uma aura de ansiedade ao redor de seu clone, a mesma que exalava de seus próprios ferimentos. Tinha enfim a chance de encerrar aquilo de uma vez por todas.

 Empunhou Valor e correu para atacar, sem sequer pensar nas consequências. A espada dançou com a outra, encontrando-a no ar uma, duas, três vezes antes de se afastarem. Os olhos verdes de Sophie iam da adversária para sua arma, tentando prever o que as duas fariam. Girou sua própria lâmina para a direita e viu a empunhadura do outro lado se mover em resposta. Estancou e tentou um ataque repentino, mas a figura sombria reagiu rápido e desviou o ataque, fazendo a espada da loira apontar para cima.

 Sophie se viu completamente indefesa, sua espada inutilmente no alto. O clone girou sua arma em um arco horizontal e ela tentou saltar para trás, desajeitada, mas a ponta da lâmina cortou seu abdômen em um esguicho de sangue.

 Além de fracassar em sua própria missão, vai fracassar na de Carla também.

 Caiu gritando, o antebraço pressionando a ferida. Ficou em pé rapidamente, mas o vulto já estava em cima dela, brandindo sua espada. Sophie se levantou trôpega e procurou escapar para o lado, mas sofreu um corte fundo no rosto.

 E se não chegarem em Steamunk a tempo? Toda a jornada terá sido em vão.

 Trincou os dentes e atacou de volta, mas o clone segurou sua mão e a puxou, transpassando seu cotovelo com a espada.

 O que é pior? Decepcionar todos de novo ou decepcionar a si mesma pela última vez?

 Gritou, e Valor caiu tilintando no chão. O adversário puxou a arma do braço inutilizado e atacou mais uma vez, fazendo um corte do ombro até as costelas do outro lado.

 Ele nunca vai te olhar do mesmo jeito.

 Sophie vomitou sangue, tropeçando para frente. Se obrigou a não cair, tremendo violentamente, e encarou o vulto negro. Ele não esboçava nenhuma reação, e seus olhos vermelhos estavam sem uma gota de emoção. A aura de ansiedade a esmagava, mas trincou os dentes e tentou um soco desesperado. Contudo, o vulto sumiu. Sophie ainda estava tentando entender o que acontecera quando o adversário reapareceu abaixo dela, a espada apontada contra seu corpo.

 - Engraçado como na ansiedade a gente esquece até mesmo do que pode fazer. - Disse a voz do andarilho no momento em que a arma perfurou o estômago da garota.

 Você não é digna.

 - SOPHIIIIE! - Berrou Amanda, tentando se livrar. Uma cachoeira de sangue espirrou das costas da companheira, que tossiu, seu rosto pálido e os olhos arregalados. Tremendo, não esboçou reação quando a figura sombria puxou a arma de volta em um som asqueroso, e a garota caiu de joelhos no chão.

 - Uma pena, realmente. - Disse o arlequim, se aproximando. - Contudo, não vou dizer que é inesperado. Poucas vezes vi alguém com tamanha angústia. Creio que-- Ele parou de falar ao ver que Sophie se levantava com a ajuda de Valor. Seu braço ferido pendia inutilmente, e as roupas estavam encharcadas de sangue, mas ela estava de pé. Trêmula e fraca, mas de pé. O andarilho arregalou os olhos, parecendo agradavelmente surpreso. - Olhem só. Já vi homens maiores que você morrerem por ferimentos mais leves. Seu amigo Dalan passou por isso, não é?

 A garota não respondeu, mas se levantou a espada. A falta de apoio quase a derrubou, e ela deu um passo para trás para se reequilibrar. - Sophie, para com isso! - Pediu Amanda, angustiada. - Você vai morrer!

 - Eu não posso desistir. - Disse ela em voz baixa. Encarou seu clone, que também levantava a arma. - Eu vou derrotar essa coisa e acabar com meus demônios internos. Custe o que custar.

 - Demônios internos? - Repetiu Amanda, agitada, e encarou as duas combatentes. - Sophie, eu conversei com o Dalan mais cedo! Ajudei ele com os problemas dele! Deixa eu fazer a mesma coisa com você!

 - Não vai funcionar. - Disse a loira, limpando o sangue da boca com o ombro. Começou a circundar a figura sombria, e cada passo era uma agonia para o corte no estômago. Olhou de relance para a companheira. - Eu não sou que nem você e Dalan. Meus problemas não vão se solucionar com conversa. Eu tenho que agir! - Deu uma estocada desesperada no vulto, que defletiu o ataque com facilidade e a acertou no ombro.

 Eles são melhores que você.

 Sophie caiu no chão gritando. Amanda, por sua vez, tentou se livrar das faixas com empenho redobrado. - E daí? Você acha realmente que não podemos te ajudar?

 - São coisas que tenho que fazer por mim mesma. - Respondeu entre um arfada e outra. O clone se aproximou, e a garota se arrastou para longe, o rosto contorcido pela dor.

 - E ISSO TE IMPEDE DE FALAR COM A GENTE? - Berrou sua companheira. - Eu não sei se posso te ajudar! Não sei quais são seus problemas, mas só vou saber se você PARAR COM ESSA DROGA E CONTAR OS SEUS PROBLEMAS!

 Sophie mordeu o lábio, sentindo o gosto de sangue. A figura negra se aproximava, e não parecia ter muita opção. - Essa coisa... - Começou, inspirando fundo. - Toda vez que me ataca, eu sinto minhas dúvidas. Minhas fraquezas. - A espada da adversária veio pela direita, e a garota se defendeu desajeitadamente. - Todas as coisas que me afligem!

 - Por que não falou com a gente? - Perguntou a morena.

 - Porque eu quero ser forte! - Respondeu a garota, e as espadas se morderam em um som metálico. - Desde que eu saí de Durandar, eu quero fazer o meu melhor! E essa coisa sempre me puxa para baixo! - Atacou furiosamente o vulto, que deu um passo para trás.

 - Oh! - Exclamou o arlequim, sorridente.

 - Você já é forte! - Gritava Amanda. - Eu e Dalan sabemos disso! Não tem que se provar pra gente!

 - Eu preciso me provar para mim mesma! - A adrenalina suplantou as dores, e Sophie passou à ofensiva. - Para Carla! Para Leon! Para a Guarda Reluzente!

 - Então olha para os lados e vê que a gente já te considera assim! - O vulto se defendia como dava, e seus olhos vermelhos se revelaram amedrontados. - Você não tem que aguentar tudo isso sozinha!

 - AAAAARGH! - Sophie estancou, e Valor perfurou o ombro do clone. Sombras saíram dos ferimentos, e o bobo bateu as palmas. Em um instante, a figura negra desapareceu. Guizos chacoalharam.

 - Ora, ora, ora, meus sinceros parabéns! - Começou o arlequim, sorrindo. - Há décadas não tenho tamanha diversão! - A loira caiu, exaurida pelos ferimentos e pela queda da adrenalina.

 - EI! - Gritou Amanda enquanto o bobo se aproximava da companheira, os chocalhos se agitando a cada passo.

 - Não se preocupe. Vocês ganharam hoje. - Sophie o enxergou através das pálpebras semi-abertas, envolto na escuridão que cercava seus olhos. - Mas lembrem-se. - Acrescentou ele, erguendo a mão. - Eu estou sempre por aí.

 Estalou os dedos.

 Sophie ofegou, suada. Estava no carro novamente, cruzando os campos verdes. Demorou alguns instantes para se localizar, ainda enxergando o Palácio Lunar em sua mente. Passou a mão pelos cabelos molhados, e uma dor fantasma correu pelo cotovelo. Ergueu o braço esperando ver o ferimento, mas não havia nada lá. Ergueu a camisa, e não avistou sequer uma cicatriz.

 - Hã... aconteceu alguma coisa? - Perguntou Dalan. Vermelha, a garota abaixou a camisa com firmeza e o encarou. Ele também corava. e desviou rapidamente o olhar para a estrada.

 - Não... nada. - Disse ela ainda confusa, e se virou para o banco de trás. Amanda estava novamente dormindo. Suspirou fundo, se ajeitando na cadeira. O que aconteceu, se perguntou. Sua cabeça doía, e ela se apoiou em cima da porta para que o vento soprasse em seu rosto.

 Notou um alívio estranho em seu peito. Passou o dedo pela região, e olhou novamente para Amanda, que dormia. Sorriu.

 E, na estrada, não havia nenhum sinal de árvores.

Atos Finais