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5 de outubro de 2015

Conventionis: Capítulo 19 - Sobre abandono



 Dirigimos até o sol voltar a nascer no leste, sempre acompanhando a cordilheira. Quando estávamos chegando ao fim, conseguimos ver alguns destroços na margem do rio. Não paramos para ver do que eram, muito porque a frota de orcs continuava na nossa cola, mas era o primeiro sinal de morte que nos depararíamos.

 Até então, não havíamos encontrado fugitivos como nós em nossa viagem. Houve o ataque a Durandar e o massacre em Gowking, mas éramos os únicos viajantes rumo ao oeste.

 Depois de chegarmos à dobra da cordilheira, percebi que era melhor ter continuado assim até Steamunk.

 O carro avançava sobre a grama em ritmo constante, sempre mantendo as montanhas à esquerda. Contudo, dessa vez elas apontavam para o sul enquanto o rio Lor marcava o norte. Os viajantes haviam alcançado o ponto em que a cordilheira de Alda fazia a curva há algum tempo, seguindo um novo caminho para o oeste. Ali a faixa de terra vazia que separava as montanhas e o rio era bem maior, os protegendo dos ataques de navios. Infelizmente, isso não servia para todos.

 Houve uma batalha no Lor, aparentemente alguns dias antes dos garotos chegarem. A fumaça ainda exalava dos destroços à margem, formando pilares negros que subiam até cortarem o céu. O cheiro de sangue e morte soprava para o sul, os impedindo de esquecer dos corpos que se destacavam ao longe. E, apesar de tudo, continuavam sozinhos. Não havia mais nenhuma alma viva na região para cortar o silêncio, e mesmo o rio parecia mudo. Havia apenas o som do motor roncando e os pensamentos na cabeça de cada um.

 Dalan dirigia tenso, com os nós dos dedos brancos por cima do volante. Sua mente fervilhava. Se houve uma batalha tão próxima de Steamunk, eles já devem ter evacuado a cidade. Rangeu os dentes. Nunca vou encontrar Diana se ela já tiver atravessado a linha de defesa. A menos que ela esteja me procurando, talvez. Seus braços tremiam, o que refletia na movimentação do carro. Será que ela vai querer me procurar?

 - Dalan. - Chamou Sophie, hesitante.

 - Estou bem. - Respondeu imediatamente, e as garotas se entreolharam nervosas.

 - Dá pra ver. - Retrucou Amanda baixinho, mas a loira se adiantou com o mapa em mãos.

 - Que bom, mas... queria falar sobre outra coisa. Já devemos estar chegando em Duofort. - O vapor que alimentava o carro já estava no fim, e precisariam reabastecer se quisessem manter a esperança de chegar a Steamunk antes dos orcs. A cidade mais próxima era Duofort, que ficava colada às montanhas de Alda.

 - Já estou vendo. - Respondeu Dalan. Havia uma forma escura à frente, que ficava mais definida conforme se aproximavam. A cordilheira ali recuava, gerando uma espécie de meia lua que possuía uma pequena fortaleza circular no centro. As muralhas altas eram feitas de rocha cinza, e uma alta torre se elevava por entre os telhados escuros. Da fortaleza saía uma ponte de madeira que levava até o alto das montanhas, onde uma aglomeração de torres e casebres tingidos de cinza se destacava entre os cumes marrons. Era Duofort, a cidade que se dividia em duas.

  Pararam o carro em frente a um grande portão enferrujado, esperando ver alguma espécie de guarda. Contudo, a cidade estava silenciosa como um cemitério. - Eles já devem ter evacuado. Teve uma batalha aqui perto. - Supôs Amanda. Dalan se aproximou do portão e o chutou com força. Para surpresa de todos, ele se abriu com um rangido. 

 Devem ter corrido, pensou. Algo chamou sua atenção e ele se agachou, pegando uma boneca de pano no chão. A aproximou de si, encarando sua face eternamente sorridente através da poeira que cobria o material. - Vamos. - Chamou o rapaz, voltando a abrir os portões para o carro passar. Deixou a boneca apoiada em uma mesa de fiscalização próxima, e seus olhos de vidro refletiram os garotos fechando os portões após o veículo ter entrado em Duofort. Em seguida, a cidade voltou a mergulhar no silêncio. 

 - Procurem por cilindros de vapor. - Ordenou o rapaz, se afastando. - Comida e roupas também são bem-vindas, mas não sairemos daqui sem combustível. E não demorem. - Seguiu em frente sem esperar resposta, deixando as companheiras desconcertadas. Dalan entrou na primeira casa à sua frente, uma construção baixa de telhado cônico. A porta estava entreaberta, dando para um cômodo completamente revirado. Alguém havia retirado tudo de importante ali, deixando apenas cômodos vazios e tombados.

 O rapaz balançou a cabeça e seguiu para a próxima casa, enquanto que as garotas também se espalhavam. Contudo, meia hora depois, nada havia mudado. Duofort havia sido evacuada com extrema eficiência, deixando apenas pequenos objetos espalhados pelas ruas. Dalan, depois do décimo edifício vazio, rangeu os dentes e socou a porta mais próxima, gritando. Jamais vamos encontrar combustível aqui, pensou com a mão dolorida. E jamais vamos chegar em Steamunk a tempo.

 Sophie, na porta de um açougue abandonado, desviou o olhar com pesar. Porém, Amanda segurou seu braço e a arrastou na direção do companheiro, que esfregava a mão machucada.

 - Ei. - Chamou a morena ao se aproximar. - Não vamos conseguir nada agindo assim. - Dalan não respondeu de imediato, preferindo encarar a palma. Imaginara ter visto traços de gelo na pele, e procurou se controlar.

 - Não adianta. - Suspirou, apoiando as costas na parede de rochas e deslizando até o chão. - Não tem mais nada aqui, nem mesmo uma peça de roupa esquecida, que dirá um tanque de vapor. - Passou os dedos pelo cabelo, longo e embaraçado pela viagem. - Nunca chegaremos em Steamunk.

 - Vamos dar um jeito. - Começou Sophie, mordendo o lábio inferior. - A cidade é grande. Tem que ter algum lugar que--

 - Pode ter algo ali em cima também. - Interrompeu Amanda, apontando para cima. Os outros dois se viraram e encararam o forte superior de Duofort, encrustado entre os cumes da cordilheira e com a ponte de madeira formando um risco negro que ligava as duas fortalezas. Dalan arregalou os olhos, sentindo a esperança reacender em seu peito.

 - Eles não devem ter evacuado tudo, não por uma ponte tão estreita. - Disse, se levantando.

 - Mas aquela fortaleza é bem na beira de Edheren. Se eles abandonaram o lugar, não vai ter mais ninguém guardando as bestas do território selvagem. - Apontou Sophie. - E de qualquer jeito, não podemos arriscar deixar o carro sozinho.

 Amanda se intrometeu mais uma vez. - Podemos nos dividir. - Sugeriu, e o rapaz ao seu lado segurou o queixo enquanto considerava. - Eu e Dalan vamos lá caso tenha alguma criatura à solta e você fica aqui cuidando do carro e vendo se sobrou alguma coisa.

 A loira abriu a boca para dizer algo, mas Dalan se adiantou. - Concordo com esse plano. E é melhor irmos agora. - Com isso, Sophie ficou calada. Os outros dois se despediram e seguiram até o portão sul da fortaleza, encontrando o início da ponte.

 Conforme seguiam pela calçada de madeira velha e os parapeitos baixos, uma ventania fria surgia do norte, trazendo consigo cheiro de chuva. Amanda sentiu as costas geladas e se virou, vendo que nuvens pesadas já tomavam conta do céu. Voltou-se para o companheiro para alertá-lo, mas viu que ele se mantinha calado e centrado. Fez um muxoxo.

 - Então. - Começou, juntando as mãos atrás do quadril e se apressando para alcançar o rapaz. - O que você acha que vamos encontrar lá em cima?

 Dalan não respondeu de imediato, preferindo franzir o cerne. - Só espero que encontremos combustível. Não faz muito sentido guardarem tão longe dos carros, mas é nossa única esperança. - E com isso, voltou a se calar.

 Amanda suspirou, se lembrando do que Blevius, o elfo, havia lhe dito na noite passada. Não espere ficar sozinha para pensar no que deveria ter feito. Apenas faça o que achar melhor. Assim, ela abriu o braço e agarrou o companheiro, que arregalou os olhos.

 - Há quanto tempo estamos nessa jornada, Dalan? - Perguntou estendendo a mão livre. - Já perdi a conta. Quer dizer, se lembra que você não conseguia passar dois minutos comigo sem perder a paciência?

 - Você quer que eu volte a fazer isso? - Disse o outro, desconcertado e hesitante. - De onde veio essa nostalgia toda?

 - Ah, você sabe. Estamos chegando perto do fim. Só estou me lembrando de como era quando começamos. - Ela o soltou e lhe deu um sorriso. - Obrigada por ter ficado com a gente. Sei que você pensava em nos abandonar, mas fico feliz que tenha mudado de ideia.

 Dalan corou e ficou a observando enquanto que a garota caminhava mais à frente. - Maluca. - Soltou baixinho, mas teve que se controlar para não sorrir com o canto da boca. 

 As nuvens carregadas estavam os alcançando, criando pilares de luz solar que escapavam por entre os buracos. O som da chuva já conseguia ser ouvido, mas eles já estavam aos pés da segunda fortaleza de Duofort quando perceberam.

 O forte era semelhante ao primeiro, com as mesmas casas baixas de telhados cônicos e o mesmo muro circular que as circundava. Contudo, os muros deste eram mais altos, e pequenas torres se erguiam a cada quarenta passos. As montanhas completavam a murada ao sul, e o espaço entre elas era coberto por pilhas de rochas negras.

 Dalan se aproximou do portão, aliviado por estar aberto. Contudo, o alívio não foi nada comparado ao que sentiu quando o abriu e teve uma visão da praça da cidade. Haviam caixas e caixas de objetos pessoais ali, e mais ainda perto das casas ao longe. Não conseguiram evacuar a tempo, notou Dalan. Ainda havia esperança.

 - Graças aos deuses. - Soltou extasiado antes de se virar para a companheira. - Eles devem ter visto a batalha começando no rio Lor e correram. A cidade ainda não foi limpa. - Sorriu sem perceber. - Tem que ter um tanque de combustível em algum lugar aqui.

 Não esperou resposta de Amanda antes de começar a procurar, revirando os pertences abandonados. Eram em sua grande maioria objetos pessoais, e logo percebeu que não encontraria o que estava procurando ali. Agitado, adentrou a casa mais próxima, de olhos bem abertos para qualquer cilindro esquecido.

 - Você está bem? - Perguntou a garota, o acompanhando. - Está meio estranho desde ontem.

 - Apenas se concentre em achar o tanque de vapor, tudo bem? - Abriu os braços, vendo que não encontrariam nada ali. - Espero que voltemos à estrada antes do meio-dia.

 - Daaaalan. - Cantarolou Amanda, se posicionando ao seu lado. - Você está bem nervoso, e não é de agora.

 Ele a encarou momentaneamente antes de se levantar irritado. -  É o tempo, entendeu? Temos que chegar em Steamunk antes dos orcs e nem sabemos se a cidade foi evacuada. Qualquer segundo desperdiçado é precioso demais. - Com isso, saiu para fora da sala, e a garota deu um pique para acompanhá-lo.

 - Você sabe que tem algo a mais! - Disse enquanto o seguia na rua. - Está assim desde que Tom o atacou! - Correu para ficar na frente dele, o impedindo de entrar em uma casa. - O que realmente aconteceu enquanto estive desacordada?

 - Que parte dos segundos você não pegou? - Se irritou o rapaz, tentando contornar a outra. - Falo com você depois, ok?

 - Você não vai falar depois. Tem que ser agora. - Ela colocou a mão na maçaneta atrás de si, encarando o companheiro com o olhar sério. - Fala logo! 

 - EU ME DESCONTROLEI, ENTENDEU? - Gritou o outro, assustando a garota. - Perdi o controle dos meus poderes e nem sei mais se consigo usá-los! Agora sai da frente! - Amanda se afastou inconscientemente e Dalan adentrou o edifício, bufando. Começou a vasculhar os quartos escuros, enquanto que a morena permanecia parada na porta, seu vulto escuro destacado contra a luz. A chuva começou a cair.

 - Como assim? - Perguntou, adentrando o quarto. O garoto desviou o rosto, arrependido de ter falado algo, mas a torneira já estava aberta. Levantou a mão contra o rosto, conseguindo imaginar as veias de gelo por cima da pele.

 - Na minha última luta, tive que romper os limites dos meus poderes, e agora não consigo mais voltar ao normal. - Começou, se esquecendo momentaneamente da procura. - Qualquer descontrole meu acaba afetando eles, agora. Sou uma bomba esperando para explodir. 

 Olhou ao redor e percebeu que não encontraria o que estava procurando ali. Deu meia-volta e saiu pela porta, passando por Amanda.

 - Ei! - Chamou ela, também saindo na chuva pesada. - Ei! Temos que conversar sobre isso! Se alguma coisa acontecer, vamos precisar da sua ajuda!

 - Acha que eu não sei disso? - Perguntou o outro, sem se virar. - Só que não adianta. Isso não é um problema que se resolve com conversa.

 - É claro que se resolve com conversa, Dalan! - A garota abriu os braços, nervosa. Quase escorregou no chão que rapidamente alagava. - É um problema emocional, e você sabe disso!

 - E de qualquer jeito não adianta! - Era preciso gritar para ser ouvido agora, e Dalan parou para se virar. - Eu sei que é um problema emocional, só que você não pode me ajudar!

 - E por que não? - Perguntou a outra, também se exaltando.

 - PORQUE NÃO IMPORTA! - Gritou, e sua voz ecoou pelas montanhas, abafada pela chuva. - Não importa porque eu preciso continuar fazendo isso! Não posso deixar de ter esse... poder porque preciso chegar a Steamunk! - Ele parou para recuperar a respiração, seu cabelo encharcado se grudando à testa. - Preciso me arriscar a ser um monstro.

 - Monstro? Do quê você está falando? - Perguntou a garota. - Você não é um monstro.

 - Você não faz ideia de como é perder o controle do seu corpo. De não saber seus próprios limites. - Disse o rapaz, dando um passo a frente. - É como se... é como se outra pessoa estivesse na sua cabeça. Alguém que faria tudo que fosse possível para conseguir seus objetivos. - Se lembrou da expressão de Sophie quando quase matara Tom, e abaixou a cabeça. - Alguém como Sperming.

 - Você não é como Tom. - Começou Amanda. - Sophie me contou o que aconteceu, e você não fez nada parecido!

 - E por quanto tempo vou continuar assim? - Questionou o outro, agitado. - Eu quase abandonei vocês no caminho para cá várias vezes. Quase matei um homem a sangue frio! 

 - E até agora você não fez nada disso! - Foi a vez da garota se aproximar. - Não abandonou ninguém, não matou ninguém, não... CUIDADO! - Gritou de repente, agarrando o companheiro e se jogando pro lado. Um vulto saltou no espaço onde eles estiveram e derrapou no chão molhado, se virando para encará-los.

 Era uma criatura hedionda, com um corpo de formiga de quase um metro de comprimento, escuro como a noite e gosmento até enojar. Sua cabeça, no entanto, era o que chamava a atenção. Era semelhante a de um bebê humano, com gigantescos olhos cobertos de cinza. A criatura sibilou para os garotos, e eles conseguiram enxergar outros seres se aproximando pela chuva.

 - O que são essas coisas? - Perguntou Amanda, se levantando trôpega. Um sussurro gentil chegou aos seus ouvidos, antes imperceptível pelo barulho da tempestade.

 - Faces inocentes. - Sussurrou Dalan, se amaldiçoando. - Eles devem ter invadido a cidade depois que a guarnição foi embora. Sophie estava certa.

 A Face Inocente mais próxima abriu a boca, revelando uma miríade de dentes finos e afiados para gritar em tom rouco. Amanda aproveitou e esticou a mão, e uma lufada de vento dobrou as gotas de chuva e disparou na direção da criatura, que engasgou.

 - Não é hora de pensarmos nisso. - Começou a garota, puxando o companheiro para rua acima. As Faces Inocentes gritaram, se agitando para atacar, e Amanda sacou a pistola da cintura e atirou. O som reverberou pelo forte e uma criatura caiu morta. Dalan encarou a companheira com assombro, que retribuiu com um sorriso. - É só apontar e atirar, não é? Sophie me ensinou enquanto você estava no seu mundinho. Não é tão difícil.

 Os outros monstros sibilaram, cortando o cantarolar. Amanda afastou os mais próximos com tiros enquanto tateava para trás. Encontrou o parapeito de uma janela e a abriu com o cotovelo. Empurrou o rapaz para dentro e o acompanhou, fechando a abertura. O aposento estava escuro e pingava, e por entre as frestas a luz fraca escapava em feixes finos.

 -  Também aprendi que tenho pouca munição, então é melhor você tomar o controle. - Sugeriu, mas parou ao ver que Dalan estava paralisado. - O que foi?

 O garoto arfava, e encarou a própria mão com incredulidade. O medo de perder o controle dos poderes o tomou, impedindo-o de reagir. - Um monstro... eu não vou... - A lembrança de suas ameaças a Tom estavam em sua mente, intercaladas pela lembrança de Diana. Pensei que faria tudo para encontrá-la, disse uma voz em sua cabeça. Que decepção. As palavras o deixaram mais nervoso, e trincou os dentes com os olhos arregalados.

 - Não é hora pra isso. - Se agitou Amanda, caminhando em sua direção. Ouviu as criaturas martelando o lado de fora,assim como o rangido da madeira se quebrando. - DALAN!

 O garoto agora via o rosto das Faces Inocentes em sua mente, o questionando quando iria acompanhá-las. - Não posso virar um monstro! Não posso... - Se lembrou de Diana, e encarou Amanda com o rosto em dor. - Não sei o que fazer.

 - Presta atenção. Descarrega tudo que você tiver contra aquelas coisas. - Ordenou ela, apontando para as portas. - Senão não vou nem ter tempo de te dar uma surra!

 - E se eu perder o controle? E se eu me tornar que nem Tom? - Suas íris já eram pequenos pontos escuros, e a companheira o agarrou pelo colarinho. 

 - Você ainda não perdeu o controle!

 - Isso não quer dizer nada! - Guinchou o outro. - É só uma questão de tempo!

 - Não, não é! - A garota segurou seu rosto enquanto que uma perna fina e escura abria um buraco pela janela fechada. - Você não vai se tornar que nem Tom! Nós não vamos deixar!

 - Nós...? - Hesitou.

 - Eu e Sophie estamos com você há muito tempo nessa. Sabemos que você é chato pra cacete, mas é uma boa pessoa. - O cenho de Amanda estava franzido como nunca enquanto ela encarava o outro sem piscar. - Sabemos também que você precisa chegar a Steamunk, e estamos te ajudando nessa como se esse desejo fosse nosso. Somos parceiros, e nós duas nos preocupamos demais com você. Faremos tudo para te ajudar. - Pressionou inconscientemente o rosto do rapaz com os dedões. - Só que você também precisa entrar nessa. Precisa confiar na gente. - Engoliu em seco. - Somos um time. Há muito tempo somos um time. Só você não percebeu.

 Dalan a encarou, alheio ao ataque das Faces. Havia uma barreira em torno dele, uma barreira que poucas vezes havia sido aberta em sua vida, sempre de fora para dentro. No entanto, dessa vez havia algo dentro dele que queria sair. Encarou Amanda e conseguiu ver o rosto de Sophie ao seu lado. Confie na gente. Hesitou, como sempre fizera, mas sabia que não conseguiria mais segurar suas dores sozinho. Relaxou, e um peso saiu de seus ombros.

 - Se proteja. - Pediu, e empurrou a companheira para o lado. Faces Inocentes começavam a abrir caminho para dentro do aposento, sibilando com seus dentes finos. Dalan por sua vez afrouxou o peso em seu cérebro. A sensação era truculenta e incontrolável, e as veias de gelo voltaram a tomar conta do seu corpo. De uma vez, disse uma voz em sua cabeça. Girou o corpo e preparou o braço, que foi tomado pelas camadas gélidas. De uma só vez.

 Gritou e jogou o braço para frente, conjurando uma gigantesca forma disforme de gelo do punho. O gelo era tão grande que acertou toda a parede da casa, acertando várias Faces Inocentes em suas pontas afiadas, matando-as na hora. As sobreviventes guincharam e fugiram, temendo por suas vidas e voltando às montanhas. Rapidamente, a fortaleza superior de Duofort voltou a ficar vazia.

 Chuva martelava as formas de gelo que haviam escapado para o lado de fora, assim como se misturava ao sangue verde das criaturas mortas, correndo pela calçada de pedra abaixo. Dalan estava curvado, tentando controlar a respiração. As veias azuladas em seu braço começavam a esvanecer e se quebrar, se partindo ao atingir o chão. Amanda se aproximou e ficou ao seu lado, parecendo satisfeita.

 - Não foi tão difícil, foi? - Perguntou ao companheiro, que levantou os olhos.

 - Espero não me arrepender disso. - Disse ao se levantar, e a garota o deu uma cotovelada nas costelas.

 - Você é um pé no saco. - Disse sorrindo. - E também muito marrento. Quer dizer, nem quando é para salvar o dia você faz as coisas direito. - Apontou para a parede, completamente tomada pela figura disforme de gelo. - Agora estamos presos.

 - Você podia fazer alguma coisa e abrir caminho. É só gelo. - Mandou o garoto, voltando a se apoiar nos joelhos enquanto se recuperava.

 - Eu já faço muita coisa, acredite. - Mesmo assim, ela sorriu uma última vez e se dirigiu para tentar abrir um caminho na porta, aproveitando para dar um tapa leve na cabeça de Dalan, que quase caiu.

 Encarou as costas da outra, passando a mão pela nuca molhada, mas não estava irritado. Pelo contrário, se sentia tranquilo. Não sabia exatamente o que o fazia se sentir daquele jeito, mas assim que percebeu isso, corou.

 - Temos que achar o cilindro de vapor. - Começou, se aproximando de Amanda. - E de munição para sua pistola. Aliás, você podia me dizer que tinha uma arma dessas antes de subirmos.

 - Olha quem fala. - Disse a garota, refletida pelo gelo que escapava de uma fresta na porta. - Sério, acho que você deveria ficar quietinho no seu canto antes de falar mais alguma besteira.

 - Besteira? Do que está falando? - Perguntou, começando a discutir com a companheira. Suas vozes se abafavam rapidamente no lado de fora, bloqueadas pelo gelo e pela chuva. Mesmo assim conseguiam ser vistos por entre as rachaduras, se agitando cada vez mais.

 Lá embaixo, na fortaleza ao nível do chão, Sophie sorriu inconscientemente.

Atos Finais