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terça-feira, 27 de outubro de 2015

CONTOS DOS LEITORES - ROUBO DE CARGA (POR DONCAS MURRO) PARTE 06




Parte 06 - À deriva



A nave auxiliar rodopiou no espaço aberto, até que o piloto automático foi acionado e o veículo se estabilizou. Pelo parabrisa, Carmanguia Batista via o Expresso Luckywinds se afastar cada vez mais, até se tornar um ponto na imensidão negra. O passadiço cheio de botões e alavancas piscava, chamando a atenção do assaltante. Letras, números e símbolos estavam espalhados pela cabine e nada daquilo fazia sentido para ele.

Carmanguia nascera na Terra, por volta do ano 350 após o início da exploração espacial – ou simplesmente 350 EA. Do planeta, ela lembrava pouca coisa. Saíra de lá ainda garoto, então sua memórias estavam muito ligadas ás brincadeiras com os vizinhos e ao cuidado da família. “Trate de sair do sol, Carmanguia! Você já está exposto há cinco minutos! Desse jeito, já vai estar com câncer antes que eu possa calçar meus chinelos!”, gritava a avó, sempre preocupada.

O pai dele, Rotary Batista, era um pequeno comerciante. Uma vez a cada ano terrestre, ele colocava a família em um cargueiro da Fu Lu Shou e ia até a Colônia Humana 1 para comprar suprimentos, que mais tarde eram vendidos em sua mercearia. Naquela época, a economia da Terra era extremamente dependente das colônias mais próximas. Isso foi antes de transformarem a zona tropical em uma área de captação de energia solar e eólica. Numa dessas viagens, Rotary sobre que, em um atentado terrorista, toda a sua família havia sido morta. Ele, sua mulher Juno e Carmanguia, então, passaram a adentrar pelo universo, cada vez mais distantes da Terra.

Na CH3, Carmanguia aprendeu a tocar sítara elétrica (e percebeu que tinha bastante talento com os dedos e um bom ouvido). Na CH4, ele deu o primeiro beijo em uma garota. Na CH7, ele enterrou os pais, após um acidente. Em Kabeiroi-1, ele tentou abrir um comércio, seguindo os passos do pai, mas não teve sucesso. E na CH13, ele investiu todo o dinheiro que restava matriculando-se na Academia. Lá, interessou-se por geobotânica e pretendia procurar um emprego na Fu Lu Shou ou na Luckywinds, mas o dinheiro acabou e ele não pôde terminar o curso. A única solução foi trabalhar como estivador no astroporto da CH20. E assim surgiu a oportunidade de mudar de carreira.

Ali, ele conheceu o albino Hassan. Uma carga de produtos ilegais estava para chegar e o homem precisava que alguém desviasse o conteúdo dos contêineres antes de passar pela alfândega. Como só os oficiais do astroporto podiam abrir recipientes, Hassan treinou Carmanguia na arte do arrombamento, o ensinou a ser furtivo, o transformou em um assaltante. O trabalho foi bem-feito. Dali em diante, ele continuou rodando a galáxia em busca de bons trabalhos.

Enquanto a nave rodopiava pelo espaço, Carmanguia Batista lembrava de sua trajetória. Todo o dinheiro que conseguiu não lhe ajudava em nada nesse momento. As habilidades que desenvolvera também não eram úteis. Se ao menos ele tivesse gastado alguns meses de sua vida aprendendo a pilotar…

“Maldito albino! Maldito trabalho! Maldita Maxine Moon!”, esbravejava o assaltante, sozinho no passadiço. “Se essa desgraça pelo menos tivesse um canhão eu poderia estourar o Expresso Luckywinds!” Nisso, uma iluminação azul tomou conta da cabine e uma voz metálica feminina soou do alto-falante: “Comando aceito. Retornar ao Expresso Luckywinds.” A nave parou de girar, estabilizou-se, e avançou no espaço rumo ao trem.

Em poucos minutos, o veículo já estava logo atrás da composição que seguia para a CH19. O último módulo abriu-se e, sem um piloto habilidoso, não foi possível pousar em seu interior. A pequena nave simplesmente se chocou contra o chão e Carmanguia pediu pelas benção do Hebreu, do Galileu e do Árabe para que o módulo se fechasse logo antes que o veículo fosse tragado novamente pelo vácuo.

E fechou-se. Carmanguia correu para fora da nave e rapidamente já estava em um dos módulos de passageiros. Todos a bordo do trem estavam trancados em suas cabines, protegendo-se de seja lá o que estivesse ocorrendo por ali. Exceto por um corpo aqui e outro ali, não havia nenhum segurança pelo caminho. E esse foi o cenário por toda a composição. Até chegar no vagão de alimentação e entretenimento.

Lá, o assaltante viu o que mais temia. D’Oris estava com o rosto muito vermelho e os olhos arregalados. Em seu pescoço, uma fina corda impedia sua respiração. E em cada uma das extremidades da corda, as mãos de Maxine Moon garantiam que a líder rebelde e seus segredos encontrassem um fim. Carmanguia congelou. Não sabia bem o que fazer. Só então, lembrou-se da pequena faca que havia escondido em sua bota. E, com toda a sua força, cravou a lâmina nas costas da assassina.

Atos Finais