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20 de outubro de 2015

CONTOS DOS LEITORES - ROUBO DE CARGA (POR DONCAS MURRO) PARTE 05




Parte 5 - Agenda Secreta


Há dois minutos, eles eram cinco. Maxine Moon encabeçava a equipe, Carmanguia Batista era o perito em roubo, Didier McKenzy garantiria a fuga, o Camareiro 32 facilitaria tudo a bordo do Expresso Luckywinds e D’Oris era o objeto a ser resgatado. Agora, o camareiro havia ficado pelo caminho e o piloto jazia inerte no chão. A líder rebelde se escondia atrás do assaltante, enquanto a assassina de olhos heterocrômicos limpava o sangue de McKenzy das mãos.

“O que está acontecendo aqui, Maxine?”, gritou Carmanguia, sem saber bem se valia a pena dialogar com a mulher. Ela não era de falar e, naquele momento, estava ainda mais calada. Ela tirou do bolso uma pequena corda, que tratou de enrolar nas mãos, deixando apenas um pedaço de uns trinta centímetros livre. Era o suficiente para enforcar alguém.

Carmanguia ordenou que D’Oris fosse para dentro da nave auxiliar. Ele não sabia pilotar, mas preferia se arriscar no espaço do que em uma briga corpo a corpo com a mulher que havia matado algumas dezenas de guardas na última hora e sequer estava suada. D’Oris, porém, não obedeceu. Enquanto Maxine Moon avançava contra o assaltante, ela contornou a nave e voltou para perto da entrada do módulo.

Aquele módulo era bem diferente dos demais. Em vez de estar dividido em pequenas cabines, era como um enorme galpão, com a nave auxiliar no meio. O módulo abria-se como um sanduíche para deixar o veículo sair para explorar o espaço próximo, permitindo pequenos reparos ou contato direto com outras naves. O chão tinha uma característica especial. Era extremamente áspero e grudento, permitindo que, em caso de alguém estar no local quando a nave fosse sair, ainda restasse alguma esperança de segurar-se e não ser tragado pelo vácuo do espaço.

Por conta do chão, Maxine andava devagar até Carmanguia, que também não conseguia fugir. Como numa corrida rústica, um seguia o outro pelo módulo, até que um apito soou. Era o módulo se abrindo. Já perto da entrada da nave, o assaltante não viu alternativa senão correr para o veículo. Já a senhorita Moon, que poderia escapar facilmente por ali, preferiu voltar sua atenção para a líder rebelde. Saltou sobre uma das asas da nave, correu sem elegância e mergulhou na direção da entrada do módulo. D’Oris, nesse momento, já olhava tudo de dentro do vagão seguinte do trem.

Mais um apito e as enormes pinças que seguravam a nave no solo se abriram, deixando que ela se soltasse no ar. Vendo o veículo ser engolido pelo espaço negro, Maxine se agarrava a uma balaústra. “Não posso ter vindo de tão longe para terminar assim”, ela pensava. Logo lhe vinha à mente aquela manhã, vinte dias atrás, quando ela acordou de ressaca em uma cama de hotel na CH20. Não havia ninguém ao seu lado. O homem com quem passara a noite, o albino conhecido como Hassan, falava ao telefone na varanda do quarto.

“Tudo pode estar muito perto de acabar”, disse ele, ao voltar para perto da senhorita Moon. “Meus planos, meu dinheiro, meu poder. Tudo pelo ralo porque aquela rebeldezinha imbecil tomou uma decisão sem me consultar.” Ele falava de D’Oris, que acabara de ser presa tentando escapar do planeta. Um amigo influente no governo avisara ao albino que ela não ficaria na CH20 para não ter contato com outros rebeldes. Seria, então, mandada para a CH19. “E é exatamente aí que está o problema!”, esbravejou Hassan.

A Colônia Humana 19 era conhecida por muitos motivos. Corria pela galáxia histórias sobre sua culinária excepcional, sobre seus resorts e balneários e sobre seu modelo prisional. Na CH19, tinha sido criada a drenoprisão: os detentos tinham todas as suas memórias removidas a fim de serem usadas contra eles no julgamento. Evitava interrogatórios e investigações. E, se isso acontecesse, os governos das duas colônias – e, consequentemente, a Luckywinds – saberiam de todos os planos de Hassan e D’Oris. Não demoraria até que ele também estivesse na cadeia.

“Para evitar esse destino, vou precisar da sua ajuda, minha Maxine”, explicou Hassan, segurando o corpo da assassina contra o seu. “Vou montar uma equipe para invadir o transporte que levará a rebelde até a CH19. Uma equipe simples, com você e outras três pessoas. Algumas nem chegarão a cumprir o papel para as quais serão contratadas. Assim que você tiver resgatado D’Oris e estiver em um local que permita a sua fuga, mate todos. Não deixe um de pé. E que os meus segredos morram com essa rebelde!”


Atos Finais