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22 de setembro de 2015

Que Horas ela Volta? (Resenha)



Resolvi fazer essa resenha a pedido dos meus nobres colegas de site, afinal pouco se fala de filmes tupiniquins aqui...

O povo brasileiro é especialista em muitas coisas: na cordialidade, na alegria, na energia que deposita em tudo que lhe aparece a frente, e, acima de tudo, na arte do negacionismo. Afinal, pra nós o inferno são os outros. Não somos corruptos, preconceituosos e segregacionistas... Ou será que somos? Essa e muitas outras questões aparecem no aclamado filme Que Horas ela Volta?, da diretora Anna Muylaert (Durval Discos).


Acompanhamos a história de Val (Regina Casé, a musa do Bigode), uma pernambucana que veio de sua terra trabalhar em São Paulo para uma família de classe média, deixando sua filha, Jéssica (Camila Márdila), aos cuidados de uma conhecida. Os anos passam e a empregada é surpreendida com a notícia de que a menina está vindo prestar vestibular na mesma faculdade do filho de seus patrões, o que é visto com uma certa surpresa por eles. Dali em diante, o que percebemos é a relação entre a jovem nordestina com sua mãe e a família, que se desenrola de forma um tanto constrangedora. 


Apesar do filme ter uma certa leveza em alguns instantes, não se engane: a mensagem subliminar dele é um soco no estômago. Ele vai muito além das comédias globais pasteurizadas sobre empregado-patrão (tipo Crô, O Filme). Ali estão embutidas também certas relações de abuso que nos remetem ao período de escravidão e seus resquícios, como o quartinho abafado dos fundos e o fato da "serviçal saber onde é seu devido lugar". Claro que isto não fica explícito na história, mas as atitudes e as feições da patroa Bárbara (interpretada por Karina Teles) nos levam a essa conclusão. Não é preciso que ela pronuncie uma palavra sequer pra sabermos que está sempre tentando pormenorizar o trabalho de Val e a presença de sua filha naquela casa, apesar de sua aparente hospitalidade.


Há ali toda uma relação de domínio sem agressão física e verbal, apenas nas suas atitudes, que parecem nítidas apenas pra nós e pra Jessica. Outro destaque é o patriarca da família, Carlos (Lourenço Mutarelli), um homem preguiçoso e que provavelmente não tem maturidade alguma, como podemos perceber em certas cenas com a filha da Val. Ali vemos uma pessoa que provavelmente foi criada a vida toda em berço de ouro e que nunca teve um grande desafio na vida. Um homem que nunca fracassou porque nunca se arriscou.
Outro grande destaque vai para a montagem do filme, que mostra em certos recursos visuais elementos que remetem tanto a superioridade pressuposta pelos patrões quanto a apatia total deles, até num simples gesto de tomar uma água ou fazer um suco...


Por fim, Que Horas ela Volta? é um filme cativante, que nos faz refletir se de fato estamos valorizando o trabalho daqueles estão bem perto de nós e mostra toda a transformação que a sociedade passou nos últimos 12 anos. Será que somos realmente um povo cordial, sem preconceitos e acolhedor que aparentamos ser? Ou ainda temos certas chagas que insistem em não cicatrizarem? Recomendadíssimo!!!

9,000001 Panquecas.

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