Novidades

25 de setembro de 2015

Conventionis: Capítulo 18 - Sobre ser importante



 Amanda voltou a dormir antes de chegarmos ao tal bloqueio na estrada que Wally havia dito. Não usaria a palavra bloqueio para descrevê-lo, e sim labirinto. São pedras muito altas que fazem pequenas estradas entre elas, e o carro não vai passar por todas. Precisamos subir uma dessas pedras para traçar o melhor caminho, já que não temos combustível o suficiente para arriscar.

 Eu e Sophie tentamos subir uma delas, mas percebemos que estávamos exaustos. Quase nos acidentamos. Estamos um pouco relutantes de descansar um pouco no carro, mas é necessário. Só vamos dormir uma hora. Juro.

 Juro...

 O carro estava parado a poucos metros do paredão de rocha escura, destacado no meio da grama rebelde pela lua cheia. Os três viajantes estavam dormindo no veículo, embalados pelo som do rio agitado. Amanda estava esparramada no banco de trás e Dalan e Sophie descansavam nos da frente, suas cabeças inclinadas uma na direção da outra.

 E entre o labirinto de pedras, uma sombra se moveu.

 Amanda naquele momento começou a se espreguiçar, esticando os braços enquanto acordava. Abriu os olhos e fitou o céu estrelado acima, piscando para acordar. Demorou alguns segundos para estranhar o fato de que o veículo não estava se movendo. - Gente? - Chamou enquanto se sentava, mas percebeu que os outros estavam dormindo. Inflou as bochechas e voltou a se deitar, impaciente.

 Tentou voltar a dormir, mas rapidamente se viu entediada e começou a vasculhar o carro em busca de alguma coisa. Encontrou o diário de Dalan e uma voz parecida com a de Sophie brotou em sua mente. Não devemos ler o que está escrito aqui, é particular. A voz continuava falando enquanto Amanda dava de ombros e se reclinava no banco para começar a leitura. 

 Estava quase no fim quando ouviu uma batida metálica. Levantou a cabeça e olhou ao redor, mas não havia nada exceto o vento agitando a grama alta. - Tem alguém aí? - Perguntou, sem resposta. Esticou o braço para pegar a pistola e saiu lentamente do carro. Deu a volta no veículo com o coração batendo forte, e viu o que estava procurando.

 Havia um velho mexendo no painel do carro, sem parecer saber o que estava fazendo. Seu cabelo branco descia até o meio das costas e a pele se enrugava por cima dos ossos e por baixo dos trapos cinzas que usava como roupa. Amanda se aproximou cautelosa, mas mesmo assim o idoso a percebeu e se levantou com um pulo, gritando.

 - AAH! - Berrou, puxando uma adaga das roupas.

 - AAH! - Berrou de volta Amanda, sacando a arma. Os dois se encararam, arfantes, enquanto que Dalan e Sophie continuavam dormindo. - Quem é você? - Perguntou a garota, levantando a pistola.

 - Blevius! - Responde o velho, e seus olhos se arregalaram. - Agora, exijo que você se renda!

 Amanda o encarou, avaliando a situação. Ainda na mesma posição, levantou a mão livre e fez um gesto descompromissado, gerando uma lufada de vento que arrancou a adaga das mãos do idoso. Ele se assustou e caiu para trás, quebrando toda a tensão presente.

 - Tudo bem, isso foi bem menos interessante do que eu imaginava. - Disse a garota, apoiando as mãos nos joelhos após se aproximar. - O que você pretende fazer agora? - Blevius engatinhou para longe, assustado, e a garota suspirou. - Você podia deixar essa noite mais emocionante.

 - Você... poupou minha vida! - Disse o velho, claramente sem todas as faculdades mentais. - Farei tudo que desejar!

 - Ah, fica quieto. - Respondeu a garota, se sentando no capô do carro e voltando a ficar entediada. - Só volta para o lugar que você veio, tá? Seria bem pior se Dalan ou Sophie tivessem te pego.

 - Obrigado, obrigado! - Agradeceu Blevius, se virando para voltar ao labirinto de rochas. Amanda o encarou se afastando enquanto uma ideia brotava em sua mente, 

 - Ei! - Chamou, saltando do veículo. - Eu tenho uma proposta para você.

 - Pensei que tinha me libertado. - Se encolheu o velho, mas Amanda o ignorou.

 - Escuta, você conhece esse lugar, não é? - Perguntou, se lembrando do diário de Dalan. - Sabe o caminho mais fácil para aquele carro passar? - Blevius encarou o veículo e coçou o queixo barbado, parecendo pensativo.

  - De cabeça não, mas tem uma pedra mais alta que pode me ajudar. - Respondeu o homem, nervoso. Amanda estalou os dedos sorridente.

 - Ótimo! Vamos lá para eu resolver o problema antes daqueles dois! - Sorriu abertamente com a ideia, e Blevius a acompanhou. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, mantendo a expressão, até que o sorriso da garota murchou e ela se virou para o adormecido Dalan. - O.K, agora entendi por que você se estressa comigo.

 Os dois continuaram caminhando por entre o labirinto, passando pelas pequenas estradas de terra que circundavam as rochas. A grama não conseguia mais crescer naquele lugar, sendo substituída por teias de aranha e restos podres de pequenos animais. O cheiro era desagradável, mas nada que não pudesse ser ignorado. Blevius seguia em frente, tagarelando animadamente.

 - Sabe, todo esse território era élfico. - Disse o velho enquanto subia uma rocha angular, estendendo o braço para a cordilheira. -Tudo a oeste do rio Lor. Infelizmente, após a invasão de Zemopheus, nós elfos recuamos para o sul, e os humanos conquistaram essa área. Muito, muito triste.

 - Espera. - Parou Amanda, desconfiada. - O que quer dizer com nós, elfos?

 - Ah, sim. Nós custamos deixá-las aparecendo, mas não tive motivo para isso nos últimos anos. - O velho puxou uma mecha de cabelos brancos, mostrando a orelha pontuda. - Quase oitocentos anos de vida. Foi uma jornada e tanto.

 - Uau. - Disse a garota, se aproximando para enxergar melhor. - Nunca vi um elfo antes.

 - Já fomos mais populosos. - Respondeu Blevius, terminando de subir a pedra. Encarou o labirinto ao redor, fitando as pedras mais altas e o rio escuro que corria após elas. A floresta de Ampleridis crescia ao oeste, e ao norte colinas nuas se espalhavam. A lua cheia banhava toda aquela região, mas nenhuma alma viva era vista. - Todos nós já fomos mais populosos. Estávamos espalhados por todo os lugares de Gaea. Tudo isso antes de Zemopheus invadir.

 - Você... viu a invasão? - Perguntou Amanda, puxando o cabelo para trás da orelha.

 - Tinha apenas duzentos anos. - Respondeu o outro, voltando a caminhar. - Me lembro das colunas de fumaça no oeste nos dizendo que a invasão tinha começado. Éramos muito prepotentes, e por causa disso tudo foi tão rápido. - Suspirou, voltando às rotas do labirinto. - Alguns de nós fugiram para a cordilheira. Conseguimos viver lá por uns dois séculos, escondidos, até que quase todos morreram.

 Amanda ficou calada, fitando as costas de Blevius. Sentiu um aperto no peito. - E só sobrou você? 

 O elfo deu um sorriso. - Há um século e meio estou sozinho, sobrevivendo dos animais selvagens, da água do rio e dos outros viajantes. Nunca tive muita vontade de sair daqui. - Ele fitou uma outra pedra, esta bem maior do que a última. - Minha esposa morreu nas montanhas. Meus amigos faleceram perto do rio. E eu os acompanharei.

 A garota abaixou o olhar, pensativa. - Ficar sozinho deve ser... - Tentou dizer, mas pela primeira vez em muito tempo se viu sem palavras. Blevius notou a hesitação e se virou para trás, voltando a sorrir.

 - Aqueles garotos preguiçosos estão contigo, não é? - Ela fez que sim com a cabeça. - Aproveite todo o possível com eles. Acredite.

 - Eu sei disso! - Reclamou Amanda, agitando as mãos. - Eu tento fazer a gente ficar junto, mas eles sempre tem algum problema ou outra coisa que fazem eles se afastarem! - Cruzou os braços e desviou o olhar, nervosa.

 - Ora, então ajude-os com seus problemas. - Disse o elfo, dando de ombros como se fosse a coisa mais fácil do mundo. A garota colocou o dedão por cima dos lábios.

 - Não é tão fácil assim. - Afirmou enquanto o outro terminava de subir o rochedo. - Eles são muito fechados. Eu mal estou conseguindo lutar com eles, que dirá ajudá-los com seus problemas. - Ela ainda estava pensativa quando a mão enrugada de Blevius se estendeu diante de seu rosto. Olhou para cima, encarando o velho a ajudando a subir, destacado pelo céu estrelado.

 - Não tenha medo de tentar. - Disse. - Não espere ficar sozinha para pensar no que deveria ter feito. Apenas faça o que achar melhor. - Amanda sorriu e aceitou a ajuda, e os dois ficaram no topo do labirinto, de onde conseguiam ver a maioria das estradas. 

 - Consegue encontrar o caminho? - Perguntou, e a outra concordou com a cabeça. Amanda puxou o diário de Dalan que levara consigo e traçou uma rota no papel, saindo de onde o carro estava até o outro lado. Estava apenas apostando se o veículo passaria por certos trechos, mas não havia como ter certeza de onde estava.

 Enquanto anotava, Blevius voltou seu olhar para o sul, acompanhando o rio. Franziu o cenho e colocou a mão por cima dos olhos. - Hoje está sendo uma noite e tanto. Primeiro o carro de vocês, e agora essa frota. - Amanda concordou distraída enquanto terminava a rota. - Nunca vi esse barcos antes.

 A garota acompanhou seu olhar e congelou. Subindo o rio, refletido pela lua cheia, estava um pequeno grupo de navios grandes e grosseiros. E os navegando, haviam orcs. Dezenas de orcs alertas,concentrados em suas tarefas. Amanda olhou dos barcos até o carro, destacado.

 - Deuses. - Sussurrou antes de correr rocha abaixo. - Blevius, se esconde! São orcs! - Assim que chegou ao chão, se virou para ver se o elfo havia a obedecido. Conseguiu enxergar o vulto dele se afastando e hesitou, considerando segui-lo, mas a urgência martelava seu coração. Deu as costas e disparou até o carro, levantando a cabeça para ver a frota se aproximando.

 - Acorda, acorda, acorda! - Chamou, pulando no banco de trás. Dalan se mexeu, despertando aos poucos, mas a garota o segurou pelos ombros e sacudiu-o com força. - Sem tempo para isso, temos companhia!

 - Amanda, que que foi? - Reclamou grogue enquanto Sophie também acordava. O rapaz se virou para trás para encarar a outra, mas seu olhar captou a frota se aproximando.

 - Vai! - Gritou a garota. Dalan se virou e ligou o carro, cujo motor se agitou em um som mais alto do que desejavam. Amanda viu os orcs se virando para eles. - Anda, anda, anda!

 O carro disparou, adentrando desembestado o labirinto. - Se nos escondermos aqui, eles vão nos cercar. Temos que ficar a frente deles e contornar as cordilheiras, onde não vão nos alcançar. - Disse Dalan, agitado, enquanto que Sophie acordava abruptamente. Ele olhou ao redor, percebendo o problema. - Não sei por onde ir!

 - Direita! - Berrou Amanda, puxando o papel que havia anotado. O outro olhou para trás, desconfiado. 

 - Como sabe disso? - Perguntou. Uma bifurcação se aproximava, e a garota deu um tapa na cabeça do companheiro.

 - Direita, homem! - Sem muita escolha, Dalan girou o volante. O carro girou para a direita e derrapou, quase batendo na rocha. Sophie se agarrou à porta para se segurar e acabou olhando para cima, vendo uma esfera metálica cruzar o céu estrelado.

 - Cuidado! - Gritou ela, e a esfera acertou o rochedo mais próximo. Lascas de pedra caíram em cima deles, e Dalan quase perdeu o controle do veículo.

 - Esquerda e depois direita! - Mandou Amanda, se agarrando aos bancos. 

 - Como você sabe disso? - Repetiu Dalan, e Sophie apontou para um novo ataque vindo dos céus.

 A morena se adiantou e deu outro tapa na cabeça do rapaz. - FAZ O QUE ESTOU MANDANDO, CACETE! - Gritou com a voz aguda. O garoto rilhou os dentes mas a obedeceu, girando o volante mais uma vez.

 - CUIDADO! - Gritou Sophie, apontando para cima. Dalan viu aquilo e acelerou, quase perdendo o controle do carro. Uma esfera caiu no chão, acertando o espaço em que estavam há menos de um segundo.

 - Como eles conseguem nos acertar no meio desse labirinto? - Perguntou a loira, enjoada, ao mesmo tempo em que Amanda voltava a se levantar depois de ter caído no vão entre os bancos.

 - DIREITA! - As rodas do veículo gritaram enquanto ele derrapava, e alcançaram uma estrada reta. O ataque dos orcs continuava chovendo na cabeça deles, e Dalan manobrava o carro para desviar dos projéteis. 

 - E agora, Amanda? - Perguntou, vendo mais uma bifurcação à frente. A garota puxou o papel e arregalou os olhos, notando que não havia terminado a rota. Abriu e fechou a boca, sem saber o que dizer. - AMANDA!

 - DIREITA! - Gritou sem pensar, e Dalan a obedeceu. Fizeram mais uma curva e a morena fechou os olhos enquanto cruzava os dedos, mas os deuses a haviam agraciado momentaneamente com o dom da sorte, e o carro disparou para fora do labirinto. 

 - Perdemos eles de vista? - Perguntou Sophie, o vento da noite voltando a balançar seus cabelos. Os orcs estavam ocupados atacando a formação de rochas, e não pareciam ter notado que os garotos haviam escapado. Amanda jogou o corpo para trás e suspirou, rezando que Blevius tivesse alcançado um lugar seguro.

 - Acho que sim. - Respondeu o rapaz, olhando para o painel do carro. - Só que temos uma má notícia.

 - Qual? - Perguntou a loira. Dalan prendeu a respiração e olhou ao redor. Não havia nenhum resquício de alma viva ao redor deles, apenas a natureza. Montanhas, florestas, colinas, o rio... nada exceto a natureza. O que era terrível.

 - Estamos ficando sem combustível. - Atrás, os orcs continuavam a subir o rio.

Atos Finais