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18 de setembro de 2015

Conventionis: Capítulo 17 - Sobre uma viagem



 Por algum motivo, eu só conseguia me lembrar da primeira vez em que havia andado de carro. Carros eram, e ainda são, muito caros, e não tinha a chance de ganhar permissão de usar o do meu pai. Foi Diana quem me deu coragem para surrupiá-lo e dar uma volta pelas estrada que circundavam Steamunk. Acabamos fazendo isso várias vezes depois, mas a primeira foi a mais especial. Dirigimos até não enxergarmos mais a cidade, e passamos a noite numa colina. Prometemos que jamais esqueceríamos aquele dia.

 Nunca esqueci, e me dói demais pensar que ela possa ter esquecido. Especialmente porque foram dias como aquele que me ensinaram a dirigir, e sem isso jamais voltaria a Steamunk a tempo. Lembranças assim também me impeliam a voltar para casa e para ela.

 A vida é engraçada. Pena que minha cabeça não conseguia entender isso enquanto saímos da prisão de Sperming.

 A lua estava cheia naquela noite, brilhando no céu estrelado quase tanto quanto o sol fazia no diurno. Sua luz batia nas montanhas nuas da cordilheira de Alda e descia para iluminar o trecho relvado que separava os picos e a margem do agitado rio Lor. Também refletia em um carro estacionado no meio da grama, onde Amanda continuava dormindo no banco de trás.

 Dalan e Sophie, por sua vez, estavam sentados a alguns metros do veículo, ambos imersos em seus próprios pensamentos. Haviam combinado que iriam fazer aquela parada para descansar e se alimentar, mas não haviam feito nenhum dos dois. Preferiam ficar calados, absorvendo os acontecimentos da manhã.

 Dalan tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas na frente do rosto, pensativo. Sabia mais ou menos o que tinha acontecido consigo mesmo. Para os yullianos, seus poderes possuíam limites, que convencionalmente eram chamados de esferas. Cada pessoa tinha até três esferas, e para atingir a próxima elas precisariam de treinamento longo e árduo. No entanto, certos eventos emocionais poderiam afetar esse desenvolvimento, acelerando-o. E o garoto sentia que havia passado por isso, no entanto, não sabia o que era.

 Havia o conceito dos Devayana, os "caminhos de Deus" na antiga língua dos deuses, que eram transes em que o yulliano ultrapassava temporariamente seus limites. Contudo, quando eles retornavam ao estado normal, não haviam muitas alterações no controle de seus poderes. Não era o que Dalan estava sentindo. Tinha a sensação de estar mais forte, sem saber quais eram seus limites. E isso o apavorava.

 Sophie por sua vez também estava aterrorizada consigo mesma. Havia perdido completamente o controle na luta contra Sperming. Não sabia que conseguia chegar a esse ponto, e temia qual situação a faria agir assim novamente. Se perguntou o que aconteceria quando encontrasse Lordred e tremeu levemente.

 Dalan foi o primeiro a se levantar, espanando os pedaços de grama em sua roupa. Começou a andar até o carro, e Sophie o acompanhou. - Dalan. - Chamou ela, e os dois se encararam. A garota abaixou um pouco o queixo, fitando a relva iluminada pela lua. - Nós, não... não somos como Sperming, não é? - Perguntou com os olhos marejados.

 O rapaz não soube responder de primeira, sentindo um aperto no coração. Não posso ser, pensou, mas não teve a certeza o suficiente para proferir aquelas palavras. - Eu não... - Sua voz vacilou pela primeira vez, e ele engoliu em seco. - O que você viu hoje, eu não vou... - Segunda vez. Sophie mordeu o lábio, sabendo da indecisão que passava pela cabeça do outro, que se recuperava para uma terceira tentativa. - Eu preciso chegar a Steamunk. - Disse finalmente. - E só vou saber o que sou capaz no fim dessa viagem.

 - Certo... - Disse a garota, passando a mão pelos cabelos. Se sentia deprimida e exausta. - Quando vamos chegar lá?

 - Dois dias de viagem. - Respondeu o rapaz, abrindo a porta do carro. - Só que não temos combustível para isso. Precisamos achar uma cidade no meio do caminho para reabastecer.

 - Tá. - Sophie se sentou no banco da frente, apoiando o cotovelo na lateral do carro. Para Dalan, Steamunk seria o fim da jornada, mas para ela era apenas o começo. Pensou em Lordred e novamente calafrios passaram pelo seu corpo. - Vamos logo, por favor. - O companheiro ligou o veículo e eles continuaram o trajeto.

 Ficaram uma hora em silêncio, ainda em seus próprios pensamentos. O rio os acompanhava pela direita, e as montanhas pela esquerda. Os faróis do carro iluminavam a grama verde, e a lua cuidava do restante. Continuariam assim eternamente se Amanda não tivesse acordado. Ela se remexeu no banco, gemeu alto e se espreguiçou ainda deitada, fazendo barulho o suficiente no tecido de couro para acordar as pessoas em Durandar. Nem Dalan nem Sophie reagiram a aquilo, nem olharam para trás quando ela se sentou, esfregando os olhos.

 Amanda estalou a língua enquanto olhava ao redor, suas pálpebras lentamente se arregalando enquanto ela percebia que não fazia ideia de onde estava. - O que aconteceu? Onde estamos? Cadê o Tom? - Percebeu que estava em um veículo, fato inédito em sua vida, - O que é isso!? - Sophie olhou de relance para Dalan, que suspirou.

 - É um carro, Amanda. Uma carroça que anda sem cavalos. Estamos a usando para chegar em Steamunk. - A lembrança de Diana brotou em sua mente, e a falta dela se tornou ainda mais expressiva. - Daqui a dois dias estaremos lá. - Completou, mais para si mesmo do que para a companheira. 

 A garota notou o tom de voz e se esticou para encará-lo, mas o rapaz desviou o rosto. Ela se virou então para Sophie, mas a garota estava ocupada demais com seus próprios pensamentos. - Gente, tudo bem com vocês? - Não houve resposta, a não ser por murmúrios. A garota morena se apoiou no banco, o vento agitando seus cabelos. Conseguia sentir a tensão no ar, e aquilo a incomodava de forma terrível, o suficiente para ela sequer se importar em como havia parado ali. 

 Voltou a se esticar para frente, determinada a desanuviar o clima. - Você já tinha visto um carro antes, Sophie?

 - Ah. - Soltou a outra, saindo do transe. - Não, nunca. Só tinha ouvido falar.

 - Meus pais já tinham visto alguns na estrada. Eles estavam falando disso na última vez que nos vimos. Disse Amanda. Dalan e Sophie se entreolharam, sem perceber que a garota morena se beliscava com força, mantendo um sorriso tranquilo.

 - Faz muito tempo que eles... - Tentou começar Sophie.

 - Viajaram? Uns dois meses. - O rosto de Amanda era o retrato da alegria descompromissada, mas seus olhos estavam fechados. Entrem na conversa, caramba, pensava com seus botões. - Mas tudo bem, eu estava acostumada a ficar esse tempo sozinha.

 - Nós vamos encontrar a esmeralda deles, Amanda. - Prometeu Sophie, a encarando nos olhos. - Os orcs estão levando o saque com eles para o oeste.

 - Eu sei que a gente vai conseguir. - Respondeu a outra, apoiando os cotovelos nos assentos e começando a brincar com os dedos. - Já teve alguma coisa dos seus pais que você perdeu, Dalan?

 A pergunta foi feita de forma bastante descompromissada, demorando para tirar o rapaz de seu silêncio. O vento batia em seus cabelos desembaraçados pela viagem, e ele olhou ao redor para tentar refrescar a memória. - Ah... tinha alguma coisa no carro dele que eu acabei perdendo em minhas escapadas noturnas. Não lembro o que era.

 - Uuuuh, escapadas noturnas? - Zombou ela, se aproximando com um sorrisinho. Dalan virou o rosto, vermelho. - E você, Sophie? - Perguntou ao ver que a outra continuava em silêncio, mas se manteve perto do rapaz.

 - Eu não... nunca conheci meus pais, então não sei o que posso dizer. - O olhar ansioso de Amanda a fez ficar nervosa. - M-mas teve um dia que perdi os brincos da minha colega de quarto. Acho que ela continua furiosa comigo.

 - Não me lembro de ter usado muitos brincos na minha vida. - Disse a morena, revirando os olhos enquanto vasculhava a memória. - Nem anéis ou até maquiagem. Quando eu era criança eu costumava andar cheia deles, mas acabei achando muito desconfortável na adolescência.

 - Eu até usava um pouco de maquiagem, mas a Guarda Reluzente tinha várias regras sobre esse tipo de coisa. - Sophie deu de ombros enquanto virava o rosto para acompanhar o rio. - Brincos e anéis também entraram nessa. Não que eu tenha ficado muito incomodada. 

 - E você, Dalan? - Perguntou Amanda, jogando a cabeça para trás para encará-lo.

 - Nunca usei maquiagem, se é isso que você perguntou. - Disse com os olhos para frente.

 - Não, seu coisa. As garotas que você conhecia usavam esses adereços? 

 - Você tem cara de conhecer muita gente assim. - Soltou Sophie, e Dalan a encarou com um olhar desconfiado e irritado. - Digo, não superficial. Espera... - Ela juntou os lábios e desviou o olhar, vermelha. - Rica? - Arriscou, encolhendo os ombros.

 - Não tenho cara de rico. - Se ultrajou o outro.

 - Só de fresco. - Comentou Amanda, encarando o céu.

 - Ei! - Reclamou ele, tirando os olhos do caminho à frente. - Se realmente querem saber, demorou muito tempo para meus pais arranjarem dinheiro. 

 - E isso foi antes ou depois de você nascer? - Perguntou Amanda, e Dalan se calou vermelho. Sophie deu uma risadinha e se ajeitou no assento, e a espada embainhada aos seus pés fez um barulho.

 A garota morena viu aquilo e se esticou para frente. - O que é isso? 

 - Ah, uma espada. - Respondeu a outra, ajeitando a arma. Seu olhar ficou pesado por alguns segundos, mas Amanda a cutucou, fazendo-a levantar a cabeça. - Que foi?

 - Meu pai disse uma vez que toda espada tem um nome. - Ela se aproximou. - Já pensou em um?

 Sophie abaixou a cabeça enquanto pensava. - Valor. Foi o primeiro nome que passou pela minha cabeça.

 - Valor? - Questionou Dalan, fazendo uma careta. - Você tem uma espada boa e chama de Valor? Esse não é um nome bom para uma arma dessas.

 - Alguma sugestão? - Perguntou a loira.

 - Eu tinha uma espadinha de brinquedo quando era criança. Eu chamava ela de... - Ele esperou uns segundos, determinado a criar tensão. - Espada do Dragão. - As duas o encararam, seu silêncio sendo interrompido apenas pelo vento que soprava em seus cabelos.

 - Então, Valor é um bom nome. - Disse Amanda, ignorando o outro, que ficou carrancudo.

 - Vocês que sabem. - Reclamou ele, voltando a se concentrar no carro. Sophie sorriu e voltou seu olhar para o rio, apoiando o rosto na mão. Amanda ficou entre eles, um pouco ansiosa. O clima ruim de antes havia desanuviado, mas eles voltaram aos seus próprios pensamentos. A garota suspirou e voltou ao banco de trás, passando o pé no chão e sentindo um objeto encostar em seu pé.

 Se abaixou e puxou uma pistola elegante, com um cabo levemente curvado que acompanhava a forma do cano. Não era decorada como a espada de Sophie, mas possuía um belo misto de cobre e prateado em suas cores. A garota girou ela nas mãos e voltou a se inclinar para frente, ficando entre os outros dois companheiros.

 - Alguém sabe de onde veio isso? - Perguntou inocentemente. Dalan se virou distraído e viu o cano da pistola a milímetros de seu rosto.

- CACETE! - Gritou, se jogando para trás. Bateu no volante e o carro girou, derrapando na grana. Os três berraram e se seguraram, até que o veículo cessou seu movimento. Dalan estava caído de costas e Sophie tinha se agarrado às portas como se sua vida dependesse disso. Os dois encararam assustados Amadna, que se encolheu até sumir atrás dos bancos.

 - Desculpa.

Atos Finais