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4 de setembro de 2015

Conventionis: Capítulo 16 - Sobre obsessão e perdição



 Naquela noite, nenhum de nós agiu com a cabeça. Havíamos sido sequestrados pela manhã e passado o dia desacordados, e nossa chance de escapar para Steamunk estava sendo sabotada. Talvez isso justifique parcialmente nossos atos, mas nem eu nem Sophie conversamos muito sobre o ocorrido.

 Talvez porque saibamos que o cansaço não teve nada a ver com nossas ações.

 Sophie estava se esgueirando pelo corredor, de olho no que Tom Sperming fazia. O homem, no banco do carro, estava remexendo no veículo aparentemente frustrado, o que o impedia de ouvir as batidas ensurdecedoras do coração da garota. Ele não é um orc ou um goola, tentou dizer a si mesma. É só uma pessoa. Ainda assim, estaria armado, enquanto que ela só possuía seus punhos. Precisava de algo mais.

 Adentrou a sala, se lembrando de Wally dizer que usava aquele lugar como depósito. O aposento deveria ter vinte metros quadrados, mas estava tão entulhado de cacarecos que parecia quatro vezes menor. A garota se viu entre caixas e mais caixas, cada uma mais cheia que a outra.

 Deve ter algo aqui para eu usar, pensou enquanto mantinha Tom em seu campo de visão. O homem agora havia abandonado o banco e se dirigido à parte de trás do carro, mexendo nos cilindros de vapor. Sophie passou pela frente do veículo, ainda procurando. Passou por copos, baús aparentemente trancados e até pela cabeça de um animal empalhada, até que se deparou com o que procurava.

 Uma bela espada estava pendurada na parede, enfiada no único canto livre entre dezenas de caixas. A arma possuía um longo cabo negro sem enfeites, e o guarda-mão era uma peça triangular de aço, com um rubi losangular encrustado no meio, envolto por fios dourados. A lâmina era do tamanho de seu braço, e possuía pequenas mossas no gume, indicando o uso constante em seu passado. 

 A garota, quase que hipnotizada, puxou a espada, que também desapareceu ao seu toque. Testou ligeiramente seu peso, se satisfazendo com o que havia encontrado. Ouviu um barulho atrás de si e se virou assustada. Tom Sperming estava saindo detrás do carro, batendo as mãos satisfeito. Ele estava se encaminhando de volta para o assento quando uma lâmina se materializou à sua frente, a ponta tremendo levemente. Sophie havia se rematerializado e apontava a arma em sua direção, nervosa.

 - Você tem algo que é nosso. - Acusou ela. O homem ergueu lentamente as mãos, dando alguns passos para trás.

 - Todos vocês são yullianos? - Perguntou. Se estava nervoso, havia feito um trabalho magnífico para disfarçar. - Como conseguiram sair das celas? - Não houve resposta para essa pergunta também. Ele se aproximou dos cilindros, ainda acuado.

 - Você vai sair daqui e voltar à estalagem. Entendeu? - Perguntou a garota. Tom a encarou de soslaio e jogou o corpo para a direita, parecendo ir na direção das caixas. Sophie atacou com a espada, mas caíra na armadilha. Tom se inclinou para trás para desviar da lâmina e girou, dando um passo na direção da outra e acertando-a no rosto com um soco.

 Sophie se desequilibrou, o que foi o suficiente para o homem agir. Ele agarrou seu pulso e o torceu, fazendo com que ela soltasse a espada. O som do aço tilintando no chão ainda ecoava na sala quando a garota desferiu uma cotovelada no oponente, se libertando. Olhou para sua arma e correu para recolhê-la, mas um chute no rosto a jogou para trás para bater a coluna no carro, escorregando em seguida. 

 - Eu me aventuro pelas bordas de um território selvagem desde que você usava fraldas. Acha mesmo que vai me mandar fazer alguma coisa?- Perguntou Tom, estalando o pescoço. A loira tentou socá-lo, mas o homem aparou o golpe e a puxou em sua direção, para em seguida agarrar seu rosto com a mão livre. Foi tão rápido que ela só entendeu o que havia acontecido quando Sperming arremessou sua cabeça contra o carro. Sangue pingou da palma dele em sua roupa, e ela demorou para perceber que era o sangue que havia jorrado de sua boca.

 - Eu não quero fazer isso, mas você não deixa escolha. - Disse o outro calmamente, descendo a mão para agarrar seu pescoço. Sophie, sentindo que estava ficando sem ar, fechou o punho direito e o soltou no rosto de Tom, fazendo-o soltá-la por reflexo. Aproveitou e o chutou com as duas pernas, pondo uma distância entre eles. 

 A garota deslizou pelo veículo para se levantar, tentando voltar à ofensiva. Entretanto, o adversário havia caído perto das caixas. A loira mal havia ficado invisível quando Tom surgiu com um candelabro das mãos, brandindo-o contra o rosto da outra.

 Sangue manchou as pedras do chão antes da garota cair, visível mais uma vez. Fez uma careta de dor e levantou o braço para se apoiar nas rodas do carro, mas o adversário já estava em cima dela, desta vez com uma corrente grossa. Sentiu o pescoço ser laçado e puxado para trás, suas costas se arqueando excruciantemente.

 - Apenas desista de uma vez! - Ordenou Tom, e a garota sentiu um pé entre suas omoplatas forçá-la na direção da corrente. Arfou, suas mãos queimando enquanto procuravam puxar os elos para baixo e os dentes ainda cheios de sangue.

 Por pura sorte, os elos mais enferrujados da corrente se arrebentaram, e Sophie caiu no chão com força. Tossiu e segurou o pescoço ferido e manchado pelo sangue antigo, perdendo a noção da situação por alguns instantes. Levantou cambaleante, mas antes que pudesse se firmar, algo duro acertou a parte de trás de suas pernas, fazendo-a cair de joelhos. 

 - Desista! - Ordenou o homem mais uma vez, a acertando dessa vez no ombro esquerdo. Ela gritou e caiu, rolando no chão. - Eu sei que você é uma Yulliana, e sei que pode aguentar muito mais do que isso, mas não quer dizer que eu planeje continuar com isso por muito tempo. - Sophie abriu os olhos lacrimejantes para ver o cano que Tom segurava nas mãos, alguns instantes antes dele descer a arma novamente no ombro.

 Soltou um novo grito, girando o corpo e apoiando a testa na pedra úmida por seu próprio sangue. Ofegou sem controle, a dor funda e excruciante mascarando o resto dos sentidos enquanto ela se via sem forças. Uma cena surgiu em sua cabeça, a fatídica noite em que fora expulsa da Guarda Reluzente. Também estava no chão, derrotada pelo feroz Igprum. Naquela ocasião, Dalan e Amanda vieram ao seu resgate. Uma parte de si mesma, a parte que fazia as lágrimas se juntarem ao redor de seus olhos, se viu esperando por outro milagre, sabendo que não tinha chances de vencer Sperming.

 Um membro da Guarda deve aprender a resolver seus problemas sozinho, ou vai ser a mesma coisa que um inútil.

 As palavras do comandante Leon atravessaram seu cérebro como uma bala, levando-a a arregalar os olhos. Outros ensinamentos começaram a brotar em sua cabeça. Um membro da Guarda Reluzente dará sua vida por Durandar. Não existe derrota para um membro da Guarda Reluzente, apenas a vitória e a morte. Ela começou a se levantar, trêmula e trôpega, ao ponto que Tom a encarava fascinado e assustado.

 Você teve chances demais de se provar, Sophie. Hoje lhe darei a última. Eram as palavras que Leon havia dito na arena de Durandar, um pouco antes de expulsá-la. E elas refletiam adequadamente naquele momento. A garota sabia que era sua última chance. Sabia que, se Tom fugisse com o carro, quando chegassem em Steamunk somente encontrariam ruínas, e perderiam o rastro de Lordred e o restante dos orcs. Dalan contava com ela, Amanda contava com ela, Clara contava com ela.

 E eu conto comigo mesma. Precisava voltar à Guarda Reluzente. Havia sonhado a vida inteira para aquilo, e sentia um vazio no coração desde que fora expulsa. Tinha que provar seu valor, e já havia passado a hora de fazer isso. Tinha sua última chance. 

 Última chance.

 - Quer apanhar mais? - Provocou Tom, mas havia medo em sua voz e em seu rosto ao encarar a garota que havia acabado de se colocar em pé. Sophie tinha a expressão dos desesperados, um brilho no olhar que apenas os acuados possuíam. Estava apostando tudo naquela batalha, e o adversário notava.

 O homem rangeu os dentes e se aproximou com o cano, mas Sophie se jogou em cima de seu braço para impedi-lo de desferir o golpe. Os dois se digladiaram em uma disputa de força por alguns segundos, até que Tom girou o corpo e ficou atrás dela, prendendo o pescoço da garota com o cano. Eles tropeçaram enquanto continuavam a brigar, acabando por bater no carro.

 A loira aproveitou o choque para empurrar o cano para baixo, tirando-o das mãos de Sterling. Caiu no chão, o cano tilintando ao seu lado, e desferiu um chute no adversário. Tom se desequilibrou, mas conseguiu cair em cima dela, prensando seu rosto com a mão e gritando. - Se controle! - A garota o ouviu, mas não estava disposta a obedecer. Afinal, era sua última chance. 

 Rugiu e se debateu, conseguindo soltar o cotovelo no rosto do homem. Sentiu a cartilagem dele se quebrar e o sangue quente em sua pele, e o aperto diminuiu imediatamente. Sophie aproveitou para se virar e começar a socar o adversário desorientado, lhe dando dois socos antes dele se jogar para trás. 

 - Sua... - Começou com a voz grogue, mas a garota já estava num frenesi desesperado. Ela disparou em sua direção, e o homem se afastou ainda mais, se levantando e ficando perto das caixas. O erro mudaria o rumo da luta. - Eu estou me controlando para não te aleijar, mas se continuar forçando a barra vou mudar de ideia! - Sophie não respondeu, o encarando com um olhar frio e determinado, apoiada em um de seus joelhos. - Entendeu? Desista agora, ou eu--

 Não conseguiu completar a frase, pois a garota havia se tornado invisível em uma fração de instante. Tom arregalou os olhos e estancou, percebendo a armadilha em que havia caído. Desde o início da luta ele havia mantido a adversária próxima de seus golpes para o caso dela usar seus poderes, mas a própria loira havia o forçado a se afastar. E tudo isso numa ferocidade aparentemente inconsequente.

 Ouviu o som de aço à distância. Correu às caixas e tateou em busca de uma arma, desesperado. Havia conseguido puxar uma pistola, mas Sophie ressurgiu e empurrou a arma longe, indo parar no banco do carro. Ela estava com a ponta da espada a milímetros do nariz do adversário, e seu rosto estava terrivelmente concentrado.

 Tom rangeu os dentes e arfou, seus olhos encarando a lâmina. - Agora você se rende? - Perguntou Sophie com a voz rouca. A tensão começava a abandoná-la, mas seus olhos continuavam firmes e decididos. Sangue começava a secar em sua face, mas ela não fez questão de limpar. - Você vai voltar para sua estalagem e nos deixar com o carro, como Wally combinou conosco.

 - Você não entende, não é? - Grunhiu o homem, desviando o olhar da espada. - Eu não vou deixar vocês tirarem nossa única chance de sair daquele lugar! Não importa o que Wally diga!

 - Como assim sair dali? - Perguntou Sophie, controlando a espada para não acabar acertando o homem em seu estouro. - Ele disse que estava feliz na estalagem! Deu até um discurso sobre como aquele lugar era importante para ele! 

 - E isso não é motivo para cortarmos nossa única chance de escapar! - Agora Tom estava com os olhos arregalados, parecendo não se importar com o aço em seu rosto. - Eu não vou deixar que ele se arrependa no futuro! Não posso deixá-lo cortar as chances de ter um futuro tranquilo!

 - E isso é motivo para nos emboscar? - Disse uma nova voz, vinda dos fundos da sala. Sophie e Tom se viraram para o recém-chegado, e prenderam a respiração ao encará-lo. Era Dalan, só que um Dalan imóvel e aterrorizador.

 A pele do rapaz estava marcada por diversas veias de gelo, refletindo à luz fraca por todo o seu corpo. Suas mãos encontravam-se completamente congeladas e enormes faixas gélidas subiam seu pescoço e rosto, manchando a pele assustadoramente pálida. O garoto apenas encarava os outros, ameaçador em seu silêncio.

 - Dalan? - Se assustou Sophie, mas ele a ignorou. Deu passos travados e pesados até os outros dois, sem mudar a expressão. Parou em frente a Sperming, que recuou minimamente.

 - O que você fez é imperdoável. Nos derrubou e nos prendeu, quase comprometendo tudo que lutamos até hoje. - Deu apenas um passo a mais, as riscas de gelo em seu rosto brilhando. - Sabe muito bem que não tem como defender o que fez.

 Tom trincou os dentes, arfando. - O que você faria por alguém que ama, Dalan? - Soltou finalmente, nervoso. O garoto ficou calado por alguns segundos, encarando o outro homem.

 - Tudo. - Admitiu, e Sophie o olhou de relance, ainda prestando atenção no adversário. - Faria tudo por ela. E por isso estou aqui. - Ele agarrou Sperming pelo cachecol e o jogou para trás, batendo seu corpo contra a parede.

 - Dalan! - Se assustou Sophie, tentando o segurar pelo ombro. Recolheu a mão imediatamente, trazendo-a contra seu corpo. O gelo que cobria Dalan estava tão frio que queimava ao menor toque. Tom parecia perceber isso, seu cachecol já completamente congelado.

 - Você... você tentou forçar seus poderes, não foi? - Grunhiu o homem, assustado e nervoso. - Eu sei que os Yullianos possuem níveis em que avançam com o tempo, mas-- Não conseguiu falar mais nada, pois fios de gelo se espalhavam por sua garganta.

 - DALAN! - Gritou a outra garota, assustada. O rapaz não respondeu.

 - Esse carro é minha única chance de voltar a Steamunk. - Começou por entre os dentes. - E você quase arruinou isso. - Tom começava a engasgar, sua pele se tornando pálida de forma assustadoramente rápida.

 - DALAN! - Dalan arregalou os olhos e soltou imediatamente o adversário, como se tivesse saído de um transe. Sperming desabou no chão, arfando fracamente. Sophie se ajoelhou ao seu lado e olhou para o companheiro acima, que por sua vez deu alguns passos trêmulos para trás, batendo no carro. Respirou fundo, o gelo que cobria seu corpo começando a cair e despedaçar no chão.

 - Traga Amanda para cá. - Disse com a voz fraca. - Vamos embora daqui. - Sophie olhou mais uma vez para Tom, que já estava desacordado no chão, e correu para buscar a companheira. Dalan por sua vez se arrastou até o banco do carro. Se sentia exausto como nunca havia se sentido antes. 

 Apenas ouviu Sophie chegar e colocar delicadamente Amanda no banco de trás. Ela tateou um pouco antes de abrir a porta e sentar ao seu lado, parecendo nervosa. Sua espada estava entre seus pés, agora encapada por uma bainha negra. A loira o encarou, sem saber o que falar.

 Dalan olhou para sua mão. Gelo rachado refletia seu rosto, ainda pálido e marcado. Fechou o punho, quebrando a camada superior. - Vamos. - Disse finalmente, ligando o carro com a chave que Tom havia deixado no painel. O veículo começou a tremer. Sophie, também abalada, sequer se sentiu fascinada por aquela experiência nova. Preferiu virar o rosto, imersa em seus próprios pensamentos.

 O carro começou a andar. Lentamente se dirigiu até a estrada no meio das cordilheiras, e começou a serpentear seu trajeto. Tom Sperming, abandonado, humilhado e derrotado, apenas tossiu. O gelo ao seu redor começava a derreter.

Atos Finais