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11 de setembro de 2015

CONTOS DOS LEITORES - ROUBO DE CARGA (por Doncas Murro) PARTE 03


Parte 3 – Carga viva

A mulher estava nua. Uma espécie de secreção cobria seu corpo. O material era usado normalmente em câmaras de animação suspensa. “Onde estou?”, ela perguntou com a voz trêmula. Maxine não respondeu, limitando-se a jogar um vestido para a mulher. Coube ao camareiro dizer que estavam à bordo do Expresso Luckywinds, saindo da CH20 para a CH19. “Então eles me pegaram”, a mulher balbuciou para si mesma.

“Acho que agora seria um momento excelente para algumas explicações!”, disse Carmanguia à senhorita Moon. Ele sabia o risco que corria, afinal seu trabalho já estava concluído. Os olhos heterocrômicos de Maxine se contraíram, mas ela relaxou e decidiu responder ao questionamento do assaltante.

“O nome dela é D’Oris. Isso não é um roubo, é uma missão de resgate.” Carmanguia conhecia o nome, apesar de nunca ter visto a jovem de pele morena e cabelos longos ou sequer saber se tratava-se de uma mulher ou de um homem. D’Oris era a líder dos rebeldes da Colônia Humana 20. Era descendente dos primeiros exploradores que chegaram ao planeta e ali iniciaram o cultivo de tabaco. O objetivo deles era criar uma sociedade igualitária e livre, mas os planos duraram poucas gerações. A fama da colônia se espalhou pela galáxia e atraiu muitos interessados no estilo de vida local. E atraiu também gente que queria lucrar em cima daquele povo. Os habitantes eram pacíficos e não demonstraram resistência à criação de um governo centralizador para toda a CH20. O tabaco se tornou a principal fonte de economia, praticamente escravizando os antigos habitantes do planeta, que eram obrigados a manter o padrão do cultivo.

D’Oris já nasceu naquele regime. Seus pais contavam histórias de quando eram crianças e o planeta era um paraíso. A ela, foi negado o direito a estudar. Ela trabalhava quatorze horas por dia colhendo e embalando o tabaco que era levado para outras colônias e para a Terra. À noite, tentava se esconder em um galpão, com medo de ser estuprada pelos soldados do governo. Nem sempre ela conseguia. Um dia, cansada do medo e das privações, D’Oris fugiu das plantações. Conheceu um grupo de paramilitares e, com o apoio do albino Hassan, aprendeu a manejar armas e a lutar. Tornou-se perita também em tecnologias. Com esses conhecimentos, voltou para o campo e iniciou uma facção rebelde. Com o apoio de outros com origem semelhante, conseguiu dominar uma das fazendas. Como um recado para o governo, incendiou todo o estoque de tabaco, lançando a fumaça na atmosfera, o que causou um impacto imenso na economia da CH20. A partir desse momento, então, se tornou a principal inimiga do governo, que anunciou uma recompensa alta por sua cabeça.

“Ela foi presa há pouco mais de vinte dias”, explicou Maxine Moon. “Tentava sair da CH20 para conseguir mais armas para a rebelião, mas alguém informou ao governo. Hassan conseguiu descobrir que ela seria transportada para a CH19 para ser presa, evitando assim continuar a dar ordens para os rebeldes de dentro do prisão na colônia dela. E seria transportada assim, como carga, para não chamar atenção e evitar uma tentativa de resgate.”

McKenzy riu. “Pelo visto não deu muito certo!” Carmanguia e o camareiro ajudaram D’Oris a vestir-se. Com um pedaço de tecido que estava no compartimento, o piloto tirou o excesso de secreção que cobria a pele da mulher. “Precisamos sair rápido daqui se quisermos chegar à nave auxiliar a tempo”, alertou a líder.

D’Oris saiu com dificuldade do compartimento. Eram vinte dias sem usar seus músculos. Precisaria de algum tempo para voltar à forma. Mas surpreendeu a todos quando voltou-se para o monitor que identificava as cargas. “Está desligado”, alertou Carmanguia. Ela mostrou que só parecia desligado. Um pequeno botão mostrava o nome da rebelde e fotos suas. Após apertar algumas teclas, as informações foram desaparecendo até aparecer um aviso de que o compartimento estava vazio. “Agora eles não poderão provar que eu estive aqui”, a voz ainda falhava.

Foi então que um barulho cadenciado surgiu. E foi aumentando. Até estar insuportavelmente alto. Eram os seguranças do trem, alertados do arrombamento de um dos compartimentos pelo sistema de monitoramento interno. Eles ainda estavam fora da vista, mas era fácil supor que se tratavam de mais de duas dezenas, pelo menos. Maxine ficou à frente do grupo e, mais uma vez, estalou as juntas do pescoço. “Preparem-se, rapazes, a diversão vai começar!”

Atos Finais