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3 de setembro de 2015

CONTOS DOS LEITORES - ROUBO DE CARGA (POR DONCAS MURRO) - Parte 2.



Parte 2 – A joia mais valiosa

A composição deixou o espaçoporto pouco antes de anoitecer. Um rebocador, uma nave pequena com um motor extremamente potente, puxou o Expresso Luckywinds até deixar a atmosfera da CH20. A partir daquele ponto, o trem já tinha capacidade de seguir seu curso sozinho. O comandante anunciou pelo sistema de comunicação interna que seria uma viagem de cinquenta dias até a CH19. Nesse período, os passageiros poderiam circular livremente pela composição e toda a equipe estaria à disposição para ajudar no que fosse preciso.

Durante a decolagem, o camareiro ficou fora da cabine. Precisou cumprir suas funções no Expresso para não chamar atenção. Mas, assim que teve uma brecha, voltou para junto da equipe. Todos já estavam prontos para a ação. O piloto Didier McKenzy já havia calçado suas luvas e abotoado toda a jaqueta. Segundo ele, era um ritual que realizava sempre antes de guiar qualquer nave. Maxine Moon, a assassina com heterocromia, estalava as juntas dos dedos e do pescoço, alongando-se para a ação. E o assaltante Carmanguia Batista retirava do seu jogo de facas duas pequenas lâminas, que usaria para abrir qualquer tranca. Além disso, discretamente, guardou em sua bota uma faca um pouco maior, pois não estava confortável com a proximidade da senhorita Moon.

Sem que qualquer palavra fosse proferida, os quatro deixaram a cabine. Sabiam que já estava na hora de começar o roubo ou não haveria maneria de voltar para a Colônia Humana 20. Até o módulo de alimentação e entretenimento, não houve dificuldade. A partir daquele ponto, porém, a segurança era mais intensa e o volume de pessoas circulando era menor. A cada passo, eles chamavam mais atenção da tripulação do trem.

Esse, então, foi o momento do camareiro ficar à frente do grupo. Logo no primeiro módulo de carga geral, o homem ia abrindo os compartimentos de bagagem um a um. Por mais que a ação fosse demorada, fazia com que as pessoas que passassem não desconfiassem de nada. “Cavalheiros”, dizia ele, um pouco mais alto do que o normal, para ser escutado, “peço perdão por toda essa situação do desaparecimento de suas malas. Tenho certeza que, se procurarmos com calma, vamos achar.”

Seguiram assim até chegar à porta que dava acesso ao módulo de cargas de alto valor. Outro funcionário questionou a presença deles naquela área mais restrita, no que o camareiro explicou: “Um erro gravíssimo aconteceu e pode custar nossos empregos. As bagagens de todos os ocupantes de uma cabine não foram encontradas. Imagina chegar a uma nova Colônia Humana sem seus documentos e roupas. Sem falar na viagem em si. Minha esperança é que, por algum motivo, tenham deixado as bagagens neste módulo.” O outro funcionário, preocupado, não impediu a passagem dos quatro, que seguiram investigando cada compartimento.

“A carga que procuramos está aqui”, disse Maxine Moon, mais uma vez sem contar exatamente o que era. “É a carga mais valiosa desta composição. Pelas informações que recebemos, está em um compartimento hermeticamente trancado e sem identificação. Se acharem algo com características semelhantes, avisem imediatamente.”

Dividiram-se. Carmanguia seguiu por um corredor que tinha compartimentos bem pequenos, de cerca de um palmo. Provavelmente, o objeto do roubo seria uma joia ou algo do tipo. Algo que pudesse ser transportado através do trem até a nave auxiliar sem chamar atenção dos tripulantes e passageiros. Ao lado da porta de cada compartimento, havia um pequeno monitor, onde constava o número de inscrição da carga e o nome do proprietário. Como todos ali estavam identificados, o assaltante percebeu que julgou mal o plano elaborado por Hassan.

“Eu encontrei!”, gritou Maxine. Ela estava em um corredor em que as portas dos compartimentos eram bastante semelhantes às portas das cabines. Internamente, contudo, o compartimento não deveria ter mais de um metro quadrado. Talvez contivesse uma obra de arte ou sacolas de dinheiro. E, como indicado pela líder da equipe, o monitor não continha registro sobre a carga.

Carmanguia agachou-se sobre um dos joelhos em frente ao compartimento. Havia quatro trancas tradicionais, que qualquer trombadinha de mercado saberia abrir, e uma outra um pouco maior. Esta, sim, justificava sua presença no trem. E foi nesta que ele perdeu mais tempo. Com as duas lâminas, ele forçava a fechadura, enquanto, com o ouvido, averiguava se estava perto de conseguir colocar as mãos no objeto.

Alguns passos ecoavam e ficavam mais altos, denunciando que um par de pessoas se aproximava do local. Maxine ordenou que o assaltante não parasse enquanto não conseguisse destrancar o compartimento. O piloto McKenzy, que observava o corredor, avisou para a líder que tratavam-se de seguranças. “Fiquem aqui”, ela sussurrou. E partiu.

Mesmo com o ouvido colado na porta, Carmanguia escutou a ação da senhorita Moon. Ele caminhou vagarosamente, até que deu uma pequena corrida e um salto. Seguiu-se, então, um gemido de homem e um barulho seco que correspondia ao peso de um corpo batendo no chão. Depois, um estalo, como um osso de galinha quebrando, e mais um corpo foi para o chão. “Ela é boa!”, o camareiro deixou escapar. McKenzy assentiu com a cabeça.

Dentro da porta do compartimento de carga, a tranca fez um clique no exato momento em que Maxine Moon voltou para junto da equipe. A porta se abriu, liberando por suas frestas uma névoa branca espessa e gelada, que escapou com um assobio. Todos se afastaram com um susto, que chegou a derrubar o camareiro no chão. A porta continuou abrindo até que foi possível ver a carga que eles foram roubar. E Carmanguia estava certo. Era, de fato, uma joia. Uma joia de pele morena, cabelos longos muito lisos e olhos verdes tão belos que ofuscavam o brilho das estrelas mais próximas à CH20.

Atos Finais