Novidades

28 de agosto de 2015

Conventionis: Capítulo 15 - Sobre estar preso



 Dalan estava grogue, sem saber até onde iam seus sentidos e até onde estava sonhando. Só se via enrolado em um pano áspero, sem espaço para mover os braços e pernas. Talvez estivesse de cabeça para baixo, mas precisava saber onde era cima e onde era embaixo primeiro para descobrir. 

 De repente, no meio do vazio que eram seus pensamentos, brotou uma lembrança. Estava em um sofá com Sophie e Amanda, e Tom Sperming aparecia para atacá-los. Sperming, repetiu o garoto em sua mente, sentindo a raiva crescer dentro de si. Ele estava certo no fim das contas, realmente tinha um motivo para suspeitar do homem e de sua estalagem.

 A ira em seu sangue foi suficiente para acordá-lo em partes, e o rapaz começou a se debater para se soltar. Imediatamente veio um soco em sua cabeça, levando-o de novo à terra dos sonhos e à escuridão.

 Quando acordou novamente, estava tão escuro que não teve certeza se realmente havia aberto as pálpebras. Preferiu se ater aos outros sentidos. Um piso de pedras estava abaixo de si, levemente úmido e bem frio. Sentia o cheiro de mofo no ar parado, e tinha um pouco de sangue seco ao redor da boca. Fechou os olhos novamente enquanto se levantava, sentindo a cabeça doer. O que houve, se perguntou, mas não conseguiu formular uma resposta.

 Tropeçou ao se levantar, batendo em uma parede do mesmo material do chão. Conforme se acostumava à escuridão, percebia o brilho fraco à sua frente. Tateou naquela direção e sentiu suas mãos baterem em barras de ferro geladas. Foi o suficiente para sua mente compreender a situação.

 - Ei... - Começou meio fraco enquanto recuperava as forças, apoiado no ferro frio. - Ei. EI! - Gritou para o vazio, agora fracamente identificável. Conseguia enxergar as bordas de uma sala com três outras celas à vista, e a fresta de uma porta no outro canto. - SPERMING! VENHA ATÉ AQUI AGORA! - O garoto bateu no ferro, deslizando pelo metal até se segurar com as mãos trêmulas. Precisava estar em Steamunk, precisava voltar a Diane, mas agora estava preso. 

 - Ele ainda não apareceu. - Disse uma voz feminina na escuridão. O rapaz levantou a cabeça, identificando um vulto atrás das grades, em uma cela à sua direita. - Estamos sozinhos aqui.

 - Sophie? - Perguntou Dalan, ficando de pé. - Onde está Amanda? O que está acontecendo?

 - Amanda acordou algum tempo atrás, mas voltou a dormir. - Disse o vulto cabisbaixo, também se apoiando nas barras de ferro. - E eu não sei o que está rolando também. Ainda não apareceu ninguém para vir falar conosco.

 De onde estava, Dalan conseguiu notar que a companheira estava trêmula. Ele abaixou a cabeça e encarou o chão escuro, se condenando. - Eu sabia que tinha algo errado. Sabia que aquela estalagem era uma armadilha. Sabia que--

 - Você não sabia de nada. - Disse uma nova voz, abrindo a porta. A luz repentina cegou momentaneamente os garotos, que se encolheram. Quando conseguiram se recuperar, viram Tom Sperming se aproximando da cela de Dalan, carregando três pratos. - A estalagem não é uma armadilha. Deixe de ser idiota.

 - Você! - Rugiu o rapaz, se jogando contra as portas de sua cela. Tom parou de andar, encarando o braço estendido do outro na direção de seu pescoço. - Você nos enganou, seu covarde! 

 O homem permaneceu o observando com uma expressão calma, até que se abaixou e colocou o prato no chão, empurrando-o para a cela com o pé. - Acalme-se. Vocês não vão ficar muito tempo presos aqui. - Dalan e Sophie se entreolharam, confusos. - Só o suficiente para eu tirar o carro daqui.

 - O quê? - Perguntou a garota, sem reagir ao prato que lhe era oferecido. - Você não pode fazer isso! Wally nos deu aquele carro para chegarmos em Steamunk!

 - E agora vocês vão pelo caminho que queriam antes. Por Edheren. - Respondeu Tom tranquilamente, deixando a comida no chão. - Apenas irão sem o veículo. - Sophie encostou a testa na barra de ferro e olhou pro chão, abismada. Nunca chegaremos a tempo, concluiu. Se os orcs estavam realmente correndo na direção do oeste e para Steamunk, eles já teriam arrasado a cidade quando os garotos chegassem. O destino parecia tê-los mandado para Steamunk, mas agora tudo estava dando errado. Ela levantou a cabeça e fitou Dalan, que tremia.

 - Onde estamos? - Questionou Sophie, procurando ganhar tempo.

 - Uma fortaleza de uma guerra qualquer do passado. Talvez seja a Guerra da Fronteira, talvez seja a da Reconquista, tanto faz. - Ele deixou o prato de Amanda na porta da cela, distraído. - Usamos esse lugar apenas como depósito, mas nunca me esqueci das celas. Sempre achei que seriam úteis. - Um brilho branco chamou sua atenção, e ele se virou para a Dalan. O rapaz tentava congelar as barras de ferro, mas conseguia apenas gelar a superfície. Tom sorriu e se aproximou.

 - Vai precisar mais do que isso. - Dalan, suado, apenas o encarou momentaneamente antes de continuar. - Considerando que vai atravessar Edheren sozinho, talvez fosse melhor se esforçar um pouco mais.

 - Cala a boca. - Resmungou o outro, se frustrando com o gelo fino. Tom passou a mão pelo pescoço e lhe deu as costas, se aproximando da porta.

 - Preste atenção nesse conselho: trate de aprender a usar seus poderes. - Começou o homem, sem se virar. - Você é um yulliano, tem muito mais capacidade de se virar nesse mundo do que nós, pessoas normais. Se quiser andar pelo território selvagem sozinho, passe a aproveitar seu potencial - E com isso ele abriu a porta, parando mais uma vez contra a luz. - Irei tirar o carro daqui. Volto para soltá-los amanhã.

 Silêncio preencheu o ar parado da prisão, que voltava à escuridão. Sophie ergueu os olhos para Dalan, que permanecia de cabeça baixa. - Temos que dar um jeito de sair daqui. Agora. - Só que o garoto não estava a escutando. Ele continuava com as mãos no gelo que cobria as barras de ferro, mergulhado em seus pensamentos.

 Tenho que congelar essa coisa, ordenou a si mesmo, arregalando os olhos. Não podemos deixar Sperming fugir com o carro. É nossa única esperança de chegar em Steamunk a tempo. E para isso tenho que sair desa cela. Ele agarrou as barras com força, se concentrando. Para um yulliano, parecia que sempre havia uma mão segurando parte de seu cérebro, uma sensação que logo se tornava natural. Para liberar os poderes, essas pessoas tinham que tentar desfrouxar o aperto, regulando a pressão para controlar suas habilidades. E, naquele momento, Dalan teria que superar os seus limites.

 Apoiou a cabeça no ferro e fechou os olhos com força, se concentrando no aperto em seu cérebro e procurando diminui-lo. Energia branca começou a sair de suas mãos, mas ele precisava de mais. Se lembrou de seus pais, do cheiro de fumaça de Steamunk, da visão dos morros verdes ao redor da cidade. O aperto diminuiu um pouco, mas ainda precisava de mais. Muito mais. Rangeu os dentes com o esforço, sentindo o suor pingar de sua têmpora. Sua casa agora aparecia em sua mente, sua cama, as paredes tão familiares. Nem reparou que estava tremendo, apenas mergulhou ainda mais em seu estado de concentração.

 Diana.

Tinha que reencontrá-la.

 Diana. 

 E tinha que fazer isso antes dos exércitos de Zemopheus. 

 Diana, Diana, Diana.

O rosto dela estava em sua mente, seus olhos estavam em sua mente, seu corpo quente estava em sua mente. Tinha que voltar. Tinha que sair dali. Tinha que congelar a maldita grade. 

 DIANA!

 E, em um mísero instante de segundo, uma faísca azul-clara brotou de seus olhos.

 - DALAN! - Gritou Sophie, e o garoto levantou a cabeça. Havia congelado quase todo o portão da cela, e a energia continuava saindo de suas mãos. Reparou em uma rachadura na barra de ferro mais próxima, e enquanto arfava, percebeu que ela era profunda. Profunda demais. Compreendeu e, ainda com as mãos envoltas no metal, se jogou para trás. As barras, agora congeladas por completo, se desfizeram como madeira podre. - DALAN! - Repetiu a garota, e o rapaz se arremessou contra a grade, atravessando-a sem esforço. Gelo caiu para se espatifar no chão atrás dele, e Dalan estava livre.

 Sophie estava com os olhos arregalados, e Dalan fitou suas mãos. Energia continuava saindo delas, virando um mar de névoa que gelava a prisão. Quase não sentia mais o aperto em seu cérebro, e ele temeu que a sensação fosse terminar. Correu para a companheira loira, passando a mão pelas barras da cela de Amanda, e segurou o ferro que a prendia. A garota se afastou, ligeiramente assustada, mas o rapaz deu um chute no metal para a libertar.

 - Vamos! - Gritou ela, mas o garoto continuou onde estava, tremendo e olhando para suas mãos. A loira aproveitou o espaço congelado da última cela e quebrou um caminho até Amanda, que continuava dormindo. Colocou-a em seu ombro e se virou para o companheiro. - Precisamos ir! Tom deve estar... - Parou de falar assustada.

 Dalan estava de joelhos, tremendo brutalmente com as mãos ainda abertas. Uma camada grossa de gelo havia se formado em suas palmas, e conforme crescia, pequenos pedaços se descolavam e caíam no chão de pedra para se espatifar. Ele tentou recompor o aperto em seu cérebro, como sempre acontecera naturalmente, mas não havia como. Tinha perdido o controle.

 - Não chegue perto! - Gritou ele, afastando Sophie, que havia se aproximado. Virou o rosto assustado para ela, os pedaços de gelo caindo em sinfonia. - Vão atrás de Sperming! Ele não pode escapar! - A garota hesitou, ainda segurando Amanda, mas um olhar desesperado do outro a fez correr para a porta. Dalan permaneceu onde estava, aterrorizado.

 Enquanto isso, Sophie saia tropeçando da sala, cambaleante com o peso de Amanda. Começou a subir uma série de escadas, seguindo por um corredor em espiral com pequenos candelabros recém-acesos para iluminar o caminho. O esforço, especialmente para alguém que havia acabado de acordar de um desmaio, a fez chegar no topo arfando e suando. 

 Abriu uma porta de madeira e se viu em um um grande salão de madeira escura, onde uma escadaria ocupava grande parte da sala. Diversas portas saíam dos dois andares, e um candelabro enferrujado pairava no teto. Algumas estátuas partidas pipocavam pelo cenário, e móveis em estado lamentável se empilhavam nos cantos. A garota olhou ao redor, fascinada pelo luxo abandonado que exalava daquelas paredes. Foi apenas quando um som de motor brotou de um dos corredores adjacentes que ela estancou, o coração martelando seu peito.

 Correu para a origem do som, parando na esquina do corredor com Amanda ao seu lado. Conseguia enxergar Tom Sterling no fim dele, sentado em um veículo estranho. Suas quatro pequenas rodas estavam embaixo de uma armação que parecia um pequeno barco de cabeça para baixo, composto de metal pintado de negro e pequenos detalhes na cor de bronze cobrindo as bordas. Duas enormes estruturas cilíndricas brotavam da parte de trás, e um vapor esvoaçante se remexia dentro delas, cercadas por apetrechos cobreados que ela não conseguia compreender. Havia um buraco no meio do transporte, onde três assentos de couro claro se ajeitavam, um grande no fundo e dois menores na frente. Duas estruturas espelhadas saíam da ponta frontal, assim como uma placa de metal furada. 

 Era a primeira vez que Sophie via um carro, e tal visão a fez estancar mais uma vez. - Praga! - Disse Tom, batendo no que parecia um disco à sua frente. A garota se escondeu atrás da esquina, agitada. Parecia que Tom estava com dificuldades para tirar o carro dali, o que lhes dava tempo para impedi-lo. Sophie colocou Amanda no chão, se preparando para acordá-la. Dalan não estava ali, portanto precisariam se unir para derrotar Sperming. Estava quase a encostando quando sua mão parou no meio do ar.

 Um membro da Guarda deve aprender a resolver seus problemas sozinho, ou vai ser a mesma coisa que um inútil. As palavras do comandante Leon brotaram repentinamente em sua cabeça, e fizeram com que Sophie refletisse. Não havia conseguido fazer nada sozinha desde que saíra de Durandar, e agora estava lutando por Clara também. Como esperava derrotar Lordred? Um membro da Guarda deve aprender a resolver seus problemas sozinho.

 Assim, a garota se levantou e encarou a desacordada Amanda. Fechou os punhos, controlando seus medos. Se não conseguisse derrotar Sterling, não teria nenhuma chance com um orc marcado pela guerra. Voltou ao corredor e encarou o homem do outro lado, ainda ocupado com o carro. Respirou fundo, sabendo muito bem que estaria enfrentando alguém experiente desarmada. O medo quase a fez recuar, mas não conseguia mais. Tinha que continuar, sem Dalan, Amanda, ou qualquer outra pessoa. E tinha que vencer.

 Em um piscar de olhos, se tornou invisível.

Atos Finais