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19 de agosto de 2015

Conventionis: Capítulo 14 - Sobre um jantar



 Passei a tarde inteira procurando alguma coisa suspeita nessa estalagem. Nada. Alguns quartos estavam trancados, mas--

 - E isso aqui? - Perguntou Amanda, colocando uma luneta enferrujada no topo do diário de Dalan. O rapaz revirou os olhos e apanhou o objeto, devolvendo-o à garota.

 - É uma luneta. Servem para você enxergar as coisas de longe. - Amanda a colocou nos olhos e sorriu maravilhada, virando o rosto para todos os cantos do quarto. - Onde você arranjou isso? - Perguntou o rapaz, mas foi sumariamente ignorado. Respirando fundo, ele voltou à escrita.

 --mas nada que me incomodasse. Eu cheguei até o jardim de trás, no entanto. É um pouco estranho ver algo daquele tipo crescendo numa região, mas depois do Emaranhado de Stranville, não duvido mais de nada. Fui até lá e--

 - E esse trambolho? - Amanda colocou agora um saxofone por cima das páginas. Dalan girou o objeto em suas mãos e olhou para a companheira, imaginando o estrago sonoro que ela faria com um instrumento musical.

 - Não faço ideia. - Disse apressado. A garota fez um muxoxo e saiu do quarto. Dalan se revirou na cadeira para observar a porta, esperando ela retornar, mas rapidamente se desinteressou.

 --e procurei alguma coisa diferente, só que--

 - E isso? - Dessa vez foi um relógio gigantesco, composto por um disco de cobre de quase um metro de diâmetro. O garoto estreitou os olhos, notando o suporte partido.

 - Isso é um relógio, e deveria ficar pendurado na parede. - Se virou para a companheira. - Você tirou ele de onde?

 - Hããã... - Amanda olhou de relance para um prego rachado no corredor fora do quarto. - Nenhum lugar.

 Dalan suspirou, se reclinando na cadeira e estalando a língua. - Eu acho que você quebrou isso aqui.

 - Eu vou consertar, eu vou consertar! - Perguntou ela, estendendo as mãos. - Como essas coisas funcionam, afinal de contas?

 - As mais antigas usam primariamente vapor, mas recentemente começaram a usar eletricidade. - O rapaz notou a confusão no rosto da outra, e percebeu que gostava daquela sensação. Continuou. - A Aliança tem usado uns óleos fósseis em algumas máquinas, mas acho que só os ricaços estão usando.

 - Já entendi. - Disse Amanda, levantando as mãos. Ela recolheu o relógio e começou a averiguar o suporte quebrado, deixando o companheiro esfregando as têmporas. Naquele momento a porta do quarto se abriu, e Sophie adentrou o recinto.

 - Oi. - Disse ela, esfregando as mãos. - Eles disseram que o jantar já está servido. - Amanda desistiu de consertar o aparelho e saiu apressada, mas Dalan se demorou guardando o diário. A loira se aproximou dele, olhando para trás para ver se estavam sozinhos. - Tenho que falar com você.

 - Achou alguma coisa suspeita? - Perguntou ele de bate-pronto, confundindo a companheira.

 - O quê? Não... - Respondeu com uma careta antes de se sentar do lado dele. - Eu só... eu encontrei uma... uma pessoa que eu conhecia aqui na estalagem. - A garota desviou o olhar, sem saber como tocar no assunto. - Ela me falou que os orcs estão avançando em peso até aquela linha de defesa que você tinha falado.

 - A do rio Solomon? Sério? - Perguntou ele, arqueando as sobrancelhas enquanto fitava a mesa. - Bem, temos que nos manter escondidos, então. Acho que eles não vão nos seguir pelo meio de Edheren, mas...

 - Dalan. - Interrompeu Sophie, nervosa. - Eu olhei o mapa. Calculei por onde devem passar e, bem, eles... - O garoto a encarou com ligeiro temor, como se soubesse o que estava por vir. - Eles vão avançar sobre Steamunk.

 O rapaz arregalou os olhos, sentindo algo gelado descer pela garganta. Silêncio se formou entre eles, e a loira passou as mãos pela cabeça, desconfortável. - Escuta, talvez--

 - Jantar! - Gritou Wally, sua voz os alcançando. Dalan se levantou distraído, fitando o chão como se conseguisse os nós da madeira o fascinassem.

 - Temos que sair dessa estalagem o mais cedo possível. - Disse distante, se encaminhando para o salão. Permaneceu calado por todo o jantar, seus olhos desfocados enquanto ele pensava incessantemente. Os pratos já haviam sido recolhidos, e Sophie, duas cadeiras afastada, o encarava com a mão afundada nos cabelos.

 - Os cotovelos fora da mesa, por favor. - Avisou Wally, e a garota se assustou. Rapidamente se empertigou, afastada de seus pensamentos. - Ainda vamos servir a sobremesa. Espero que vocês sejam um pouco mais falantes do que no prato principal.

 - Estávamos morrendo de fome. - Disse Amanda, seu rosto ainda repleto do molho vermelho da macarronada. Realmente, estavam famintos, mas apenas ela tinha falado menos por causa disso. Dalan e Sophie se entreolharam enquanto Tom se levantava para servir a salada de frutas, e a garota pigarreou.

 - Senhor Tom, senhor Wally... - Começou ela, se ajeitando na cadeira. - Eu não sei se vocês souberam, mas tem uma guerra acontecendo lá fora.

 - Ah, nós sabemos. - Explicou Tom sombrio enquanto se sentava. - Eu costumo atravessar o rio para visitar os vilarejos mais próximos. Foi numa dessas viagens que encontrei sua amiga. - Ele apontou com a cabeça para Sophie, que desviou o olhar. Amanda a olhou curiosa, mas foi ignorada.

 - Tem uma linha de defesa sendo montada no oeste. - Comentou Dalan, a voz rouca pela falta de uso recente. - Se vocês passarem do rio--

 - Não estamos interessados em fugir, muito obrigado. - Interrompeu Wally, levantando calmamente a mão. O garoto o encarou sem entender, sentindo a raiva crescer.

 - Qual é o problema de vocês? - Perguntou, lembrando de Durandar. - Tem um exército vindo matar todos nós! Temos que evacuar para o oeste!

 Wally permaneceu tranquilo, mas Tom o olhou de soslaio. - Vou te contar uma história. - Disse, juntando as mãos por cima da mesa. - Quando Zemopheus invadiu os territórios da Aliança, ele usou uma tática que parece estar se repetindo: avançar com tudo e deixar as hordas seguintes conquistarem os territórios deixados para trás.

 - Há duzentos anos, tivemos que nos defender sozinhos. - Continuou ele. - Nossos ancestrais lutaram, derramaram sangue, se sacrificaram por estas terras. Anos depois, quando a Aliança finalmente deu o contra-ataque, ela estava tão desesperada de reaver os territórios perdidos que usou da mesma tática de Zemopheus. - O homem aproveitou para bebericar um copo d'água. - Seguiram na direção da Fronteira e nem sequer olharam para os lados. Deixou os lugares mais... complicados... se virarem por si mesmos. - Ele arqueou as sobrancelhas para Dalan, mantendo o sorriso. - Entendeu porque continuaremos aqui, não importando o que aconteça?

 O garoto rangeu os dentes, mas Sophie se adiantou. - Bem, independente disso, nós precisamos seguir em frente. O mais cedo possível.

 - Já? - Perguntou Amanda, mas foi mais uma vez ignorada.

 - E vocês pretendem ir por onde? - Questionou Tom, parecendo se divertir. Sophie franziu o cenho.

 - Por Edheren. - Disse ela, repentinamente insegura.

 Tom riu. - Vocês caíram em uma armadilha no primeiro passo que deram na borda de um território selvagem. - Dalan e Sophie coraram, nervosos. - Acham que vão sobreviver quantos dias em um inferno de verdade?

 - Isso não importa. - Retrucou a garota, vermelha como um rabanete. - Temos que chegar a Steamunk. Dalan precisa voltar para casa e eu e Amanda não podemos nos afastar dos orcs. Não são vocês que vão nos dizer o que fazer. - Amanda a encarou surpresa, mas Sophie estava fitando os outros com firme decisão no olhar. Tom se reclinou e sorriu, mas Wally permaneceu quieto. Ele pôs as mãos na frente da boca e olhou os três jovens com curiosidade.

 - Vocês não vão conseguir passar por Edheren. - Disse ele, e se adiantou antes que algum dos outros começasse a falar. - Sugiro darem meia-volta e seguirem pelo rio. Contornem as cordilheiras de Alas.

 - Seguir pelo rio? - Perguntou Sophie, tentando se lembrar da geografia do lugar. - Não conseguiremos passar. A cordilheira avança e faz uma espécie de muralha. E, de qualquer forma, seria um desvio muito grande para andarmos a pé.

 - Com o equipamento correto, vocês conseguirão resolver esses dois problemas. - Sugeriu Wally de um jeito enigmático. Tom o encarou com surpresa e indignação.

 - O que pensa que está fazendo? - Disse, parecendo esquecer dos outros três garotos. Wally fez a mesma coisa com ele, focando sua atenção em Sophie.

 - Há alguns anos, eu comprei um carro de um navio encalhado. - Começou ele, estalando casualmente os dedos. Olhou para baixo, dando um sorriso triste. - Não pretendo usá-lo tão cedo, então vocês podem ficar com ele.

 - O QUÊ? - Gritou Tom, e Dalan exclamou a mesma coisa. Sophie e Amanda se assustaram com a reação do outro homem, que havia se levantado. - Wally, você só pode estar de sacanagem!

 - Você pretende usar o carro em algum momento de nossas vidas? - Perguntou ele, calmo. - Foi para isso que o deixamos no depósito, não? Não há necessidade dele.

 Tom grunhiu os dentes, se virando para os três jovens, que se encolheram. - Vão dormir. Agora. - Sophie e Dalan se levantaram no mesmo instante, e o rapaz puxou Amanda pelo braço.

 - Ei, espera! - Disse ela, encarando os dois companheiros agitada. - Eu nem sei o que é um carro! - Gritou quando a porta se fechava, deixando Tom e Wally iniciarem uma discussão que pontuou a noite inteira. Suas vozes deixaram os garotos acordados por um tempo, até que o cansaço finalmente os venceu.

 No dia seguinte, o sol surgia através das nuvens, iluminando os picos de Alas. Amanda estava se espreguiçando ao sair do quarto, vestida com uma longa camisola que havia encontrado no armário. Se retorceu toda em um movimento aleatório, e quando abriu os olhos, avistou Sophie apoiada na parede mais ao fundo. Ela vestia um pijama listrado, e estava com os braços cruzados e expressão ansiosa.

 - Ei! - Exclamou a morena. A outra se assustou e a encarou de volta, dando um sorriso nervoso.

 - Ah. Bom dia. - Respondeu ela, se descolando da parede. Olhou de relance para a porta à sua frente enquanto a companheira se aproximava.

 - Então, pelo visto vamos atrás dos orcs, né? - Amanda passou a mão pelos cabelos desembaraçados, também fitando momentaneamente a porta que Sophie não parava de espiar. - Acha que eles vão estar com a minha esmeralda?

 A outra demorou um pouco para responder, ainda distraída. - Ah, sim. - Ela passou a mão pelo braço, parecendo desconfortável. - Espero que sim. - A morena a encarou desconfiada, estreitando os olhos,

 - Acontece-- Antes que pudesse responder, Dalan apareceu do outro lado do corredor, já vestido com a roupa para a viagem.

 - Estão chamando a gente e AH! - Ele colocou as mãos em frente ao rosto, completamente vermelho. - Vá vestir alguma coisa, Amanda!

 - Mas eu tô vestida! - Reclamou ela, segurando as bordas da camisola e olhando para baixo. Dalan tropeçou para trás, e a garota correu atrás dele. - Ei! Espera!

 Alheia à confusão ao longe, Sophie colocou a mão na porta do quarto de Clara, pensativa. Conseguia se lembrar do comandante Leon dando um esporro nela mesma por ter pedido ajuda para resolver uma missão. Um membro da Guarda deve aprender a resolver seus problemas sozinho, ou vai ser a mesma coisa que um inútil! Clara estava ao seu lado naquele dia. E agora, Sophie havia feito a amiga se tornar uma inútil. Se perguntou o que o comandante diria naquela situação.

 - Eu prometo que vou impedir que Lordred volte a Durandar. - Disse baixinho para a porta. Ficou aguardando alguns segundos, como se a madeira fosse responder, mas nada aconteceu. Com um suspiro, ela deu as costas ao quarto.

 Alguns minutos depois, estavam reunidos no saguão da estalagem, equipados com mochilas repletas de tendas, comida, mapas e pequenos utensílios para viagem. Wally havia até mesmo costurado de volta as roupas rasgadas dos garotos, desgastadas pelas aventuras até ali. Os três estavam no sofá, um pouco nervosos, esperando os anfitriões chegarem.

 Amanda, entediada, começou a mexer em sua mochila. - Uuuuh. - Disse ela com os olhos brilhando.

 - Tente não quebrar nada. - Comentou Dalan, cruzando os braços e se encostando no assento. A garota puxou uma bússola, girando-a em sua mão, fascinada. - Você vai quebrar isso.

 - Claro que-- Ela se virou para o companheiro, mas o movimento fez com que a bússola escorregasse de seu aperto e caísse no chão, se espatifando. Amanda encarou os destroços no chão, rapidamente corando com as mãos entre as pernas. - Desculpa. - O garoto suspirou, ao ponto em que Sophie ainda parecia distante.

 Naquele momento, Tom Sperming entrou na sala. Ele olhou para trás, na direção do corredor por onde tinha vindo, mas continuou parecendo um pouco nervoso. - Vejo que Wally preparou vocês para a viagem.

 - Sim, obrigada. - Respondeu Amanda, ainda vermelha. - Ele vem aqui para se despedir?

 - Não, afinal... - Começou Tom, remexendo em seu bolso traseiro. - Vocês já foram,

 Sophie e Dalan estreitaram os olhos, e o garoto sentiu a paranóia de antes crescer em seu peito. Infelizmente, ela não foi rápida o suficiente. O homem jogou uma esfera no chão, bem perto da bússola quebrada, e ela explodiu em uma nuvem de fumaça cinza. Os garotos se levantaram para tentar reagir, mas já haviam inalado o suficiente daquele gás. Sophie foi a primeira a tombar, caindo no sofá como se estivesse dormindo. Amanda ergueu a mão para tentar conjurar uma lufada de vento, mas havia desmaiado antes de conseguir se concentrar. Estavam sendo derrubados como moscas.

 Dalan conseguiu dar um passo, sentindo os olhos arderem. Através da fumaça, enxergou Tom com um pano roxo por cima da boca e do nariz. Não acredito, pensou o rapaz, lutando para se manter acordado. Eu estava certo em suspeitar todo esse tempo. Desgra... çado...

 Sua visão escureceu, e o garoto desfaleceu antes de cair no chão.

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E agora tivemos nosso artista da casa, senhor Mamiletes, da futura obra Atos Finais, fazendo uma arte sensacional da Sophie.


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Atos Finais