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14 de agosto de 2015

Conventionis: Capítulo 13 - Sobre assumir papéis



 O nome dele era Tom Sperming. Um defensor dos oprimidos, segundo o próprio. Ele e um companheiro cuidavam de uma pequena estalagem nas montanhas, onde invariavelmente resgatavam viajantes dos Fantasmas Rubros, aquelas criaturas que tentaram nos atacar. Eu pessoalmente ainda não engoli essa conversa, até porque não imagino ninguém alugando um quarto em uma estalagem tão perto de um território selvagem como Edheren, mas ele salvou a todos nós. Não tenho exatamente como argumentar contra isso.

 De qualquer forma, ele nos levou até essa tal estalagem, uma choupana de dois andares na encosta de um pico ao oeste. Não é o lugar mais aconchegante (ou acessível), mas pelo menos parece mais tecnologicamente avançado que Durandar, por exemplo. Estou no saguão e já tem um aquecedor e um grande relógio movido a vapor. Não há energia elétrica, mas pelo menos já é mais do que eu vi em semanas.

 Sperming deixou Sophie e Amanda em um sofá para buscar o companheiro, um suposto médico. Fiquei com elas. Não vou deixá-las sozinhas nesse lugar. Também já estou preparado para qualquer--

 - Então são esses os garotos? - Dalan se assustou e levantou a cabeça para avistar um homem adentrando o saguão, sentado em uma cadeira de rodas. Ele tinha o rosto oval, com olhos azuis e curto cabelo revoltado do mesmo castanho claro que a barba por fazer. Vestia um casaco azul escuro por cima de uma camisa de tom mais claro e era empurrado por Tom Sperming, que continuava trajando suas vestes de exploração.

 - Sim. O garoto teve sorte, mas as meninas caíram na armadilha dos rubros. - Respondeu Tom enquanto Dalan estreitava as sobrancelhas para a cadeira de rodas, distraído. A estalagem ficava no topo de uma montanha, acessível apenas por uma estrada acidentada. Como ele conseguia sair daqui, se perguntou. O homem, alheio, continuou até Amanda e Sophie.

 - Meu nome é Wally Zero, aliás. - Disse para o garoto, parando bem em frente de Amanda. - Prazer.

 - Ah, Dalan Kault... - Comentou o rapaz, se esticando para frente. - O que você vai fazer com elas? - Perguntou, notando que Wally havia tirado um frasco de um dos bolsos do casaco.

 - Nada de mais, apenas tirá-las do que chamamos de transe vermelho. - Tom se adiantou para levantar Amanda, colocando-a sentada. - Os rubros fazem com que a vítima tenha uma visão daquilo que mais deseja, e a usam para distraí-la antes de deixá-las inconscientes. Se não fizermos nada, é capaz das vítimas ficarem semanas sem acordar. - Dalan desviou momentaneamente o olhar, se lembrando da figura de Diana naquela estrada.

 - Não é nada físico, então não se preocupe. - Completou Tom, segurando Amanda bem firme. O rapaz se levantou, mas não fez nenhuma menção de impedi-lo enquanto se aproximava.

 Wally abriu o frasco perto do nariz da garota, que contorceu o rosto. Imediatamente ela tentou saltar para trás em um espasmo violento. Dalan se adiantou para fazer alguma coisa, mas, tão rápido quanto começou, Amanda se acalmou, ficando arfando pesadamente com os olhos bem abertos. Tom a soltou com cuidado e levantou Sophie.

 - O que... o que... - Tentou dizer a morena, mas não tinha fôlego para uma frase mais longa. Enquanto ela se recuperava, Wally fitou por alguns segundos o uniforme de Sophie antes de acordá-la. A garota também se convulsionou descontroladamente antes de perder as forças em um piscar de olhos. Virou o rosto para todos os cantos do saguão, com uma expressão parecida à de um bebê assustado.

 - Onde estamos? - Conseguiu dizer com o ar que lhe restava. Dalan suspirou aliviado, e Tom tratou de respondê-la.

 - Numa estalagem. Salvamos vocês de uma emboscada de umas criaturas e as trouxemos para cá. - Sophie o encarou sem fôlego antes de se voltar para Dalan, que confirmou a história com a cabeça. A garota se pôs a encarar o chão enquanto se recuperava, mas Wally continuava de olho em seu casaco.

 - Me perdoe a indelicadeza, mas... - Começou ele, passando a mão pelo queixo barbado. - Onde conseguiu essas roupas? - Sophie demorou um pouco para responder, encarando o homem com uma expressão confusa.

 - Isso é um... - Respirou bem fundo. - Um uniforme. - Wally olhou de relance para a porta atrás de si, estreitando ainda mais as sobrancelhas.

 - Tom, me ajude a levá-las para os quartos, por favor. - Dalan se adiantou preocupado, mas o homem apenas sorriu. - Acalme-se, rapazinho. Acho que já fizemos por merecer sua confiança.

 - Se você diz... - Respondeu o garoto, mas não tinha argumentos. De qualquer forma, apoiou Sophie num ombro para levá-la ao interior da estalagem, mantendo Tom, que carregava Amanda, em seu campo de visão o tempo todo.

 Alguns minutos depois, estava deitando Amanda em uma cama fina. As paredes de madeira naquele quarto formavam um cubículo apertado e esquentado por um aquecedor barulhento. Um relógio de parede movido a vapor tique-taqueava do outro lado, preenchendo o silêncio. Dalan olhou com nostalgia para aquelas máquinas, se lembrando sorridente de Steamunk. O sorriso desapareceu assim que recordou de Diane, e o rapaz desviou o rosto. Tom também estava ali, encarando a encosta da montanha através de uma janela fechada. Assim que o garoto se aproximou, fitou seu rosto pensativo e sorriu.

 - Nunca é fácil encontrar um fantasma rubro. - Disse condescendente, voltando seu olhar para a encosta. - Não se preocupe. Vai passar.

 Dalan cruzou os braços e se apoiou no batente da janela, observando a estrada acidentada. Olhou desconfiado para a porta, lembrando que Sophie estava em um quarto adjacente. - Como vocês conseguem manter tudo isso? - Perguntou finalmente, e Tom arqueou as sobrancelhas. - As máquinas, os remédios, a comida... Isso tudo tem que vir de algum lugar.

 O homem sorriu. - Temos nossos meios. Temos uma plantação no jardim dos fundos, e eu costumo atravessar o rio Lor para comercializar com os vilarejos. E de vez em quando salvamos um viajante perdido e o extorquimos, então não tem problema. - Dalan não gostou do tom jocoso daquela frase, e apertou seus braços.

 - E é isso que você faz no seu tempo livre? Procura esses viajantes para levar a uma estalagem afastada? - Tom apoiou as mãos no batente, fechando os olhos mas mantendo o sorriso.

 - Considerando que eu acabei de salvar sua vida e de suas companheiras, você é bem chato, sabia? - Perguntou, abaixando o queixo.

 - Ah, ele é... - Resmungou a voz fraca de Amanda, ainda na cama. - Muuuito chato...

 Dalan corou ao mesmo tempo em que Tom lhe dava as costas, se encaminhando para sair do quarto apertado. - Vamos servir o jantar daqui a algumas horas. - Disse com a mão na maçaneta. - Fique à vontade para explorar a estalagem em busca de alguma coisa suspeita.

 Tom saiu, deixando o rapaz envergonhado em silêncio. Amanda, por sua vez, se mexeu na cama para voltar a dormir.

 Alguns minutos depois, Sophie estava se revirando em seus lençóis, fazendo caretas enquanto dormia. A visão do comandante Leon naquela estrada continuava a assombrá-la, que segurava as bordas da cama com os dedos magros. Em sua mente, estava se aproximando do homem, sentindo em seu coração que ele estava a convidando para reintegrar a Guarda Reluzente. Ela estendeu a mão para retribuir o convite, feliz e aliviada como nunca antes.

 E então, tudo ficou vermelho.

 - AH! - Gritou, acordando com um pulo. Ofegou desesperadamente, o suor pingando por seu corpo inteiro. Se viu em quarto escuro, onde apenas uma resga de luz se infiltrava por debaixo da porta. A garota esperou uns instantes para apoiar a cabeça na mão direita, passando os dedos pelo cabelo molhado. Suspirou pesadamente.

 A porta se abriu, e uma figura em uma cadeira de rodas se destacou contra a luz. - Sono difícil? - Sophie o encarou, fazendo que sim com a cabeça.

 - Sinto muito. - Continuou Wally, colocando suas mãos sobre as rodas da cadeira. - Não temos muitos remédios para tratar da memória. No entanto... - Se aproximou dela. - Há algo que quero te mostrar. Se não se importar, claro. - Ela olhou para sua cama, sabendo que não iria conseguir dormir tão cedo. Mais uma vez, acenou positivamente.

 Caminhou por um corredor apertado, passando por um mapa e um quadro escuro antes de alcançar um quarto afastado, onde o homem a convidou a entrar. Sophie, distraída e cansada, adentrou o aposento, mas percebeu que Wally havia permanecido perto da porta. Virou a cabeça, sem entender direito o que estava acontecendo. - Creio que tem alguém que você queira ver. - Disse ele, acenando com a cabeça para o interior do recinto.

 A garota se voltou para frente, notando uma cama ocupada. Havia uma mulher deitada ali, e Sophie se aproximou indecisa. Conhecia aquele rosto, mas não era possível.

 - Clara? - Perguntou com a voz seca. Ficou ao lado dela, e qualquer dúvida sobre a identidade da outra se extinguiu. Reconheceria aquele rosto oval, os cabelos extremamente curtos e encaracolados e a pele morena de longe, ainda mais vestida com o mesmo uniforme que a garota usava, apenas em tons amarelos ao invés dos verdes. Era Clara Aleenis, uma membro da Guarda Reluzente e uma das únicas pessoas que a tratava bem em seus tempos de Durandar.

 A mulher abriu lentamente os olhos, sem conseguir identificar Sophie através da visão desfocada. No entanto, havia reconhecido a voz. - Sophie? - Disse fraquinho. Agora mais perto, a garota notou o suor que escorria pelo rosto da ex-companheira. Acompanhou-o descer pelo pescoço e parar em uma gaze perto do ombro direito. Com um pressentimento horrível, ela recolheu os lençóis e congelou.

 Uma trilha de curativos cobria o corpo da mulher, saindo do ombro e descendo até a coxa do outro lado, pifiamente coberta por roupas brancas e curtas. Sophie encarou a extensão daquele ferimento sem respirar, seus olhos tão arregalados que pareciam prestes a sair das órbitas. Sentiu vontade de vomitar, e puxou rapidamente o lençol de volta antes de virar o rosto.

 - O que... - Tentou dizer, mas colocou a mão na boca antes de continuar. - Clara, o que aconteceu?

 A mulher fitou o teto de madeira do quarto, parecendo que iria voltar a adormecer. - Eu não esperava te ver de novo. - Disse baixinho. - Pensei que estivesse morta. Nunca fiquei tão feliz em estar errada.

 - Clara, o que aconteceu com você? - Repetiu Sophie, sendo mais incisiva. Clara fechou os olhos com força, como se as lembranças provocassem dor.

 - Se lembra do... ataque a Durandar? - Começou, e a outra acenou positivamente. - Bem, conseguimos matar a maior parte dos orcs que nos invadiram, mas teve um que conseguiu escapar. Leon me mandou atrás dele, e... - Ela começou a tossir, e a garota sentiu o coração apertar.

 - Eu persegui ele até um acampamento orc um pouco depois de Gowking. - Continuou Clara com a voz embargada. - Seu nome era Lordred. - A loira abriu a boca, sem saber o que dizer.

 - Lordred? - Repetiu, se aproximando da mulher. - Um orc bem grande e meio velho, com uma cicatriz no olho? - Clara fez que sim, e a garota torceu seus dedos. - E ele fez isso com você? - Outro aceno positivo, e Sophie passou a mão pelos cabelos curtos, desesperada. - Deuses...

 - Acho que você também o encontrou... - Sorriu a outra, mas Sophie não enxergou a graça.

 - Clara, você perdeu a noção? Tentou lutar contra ele sozinha? - Perguntou agitada, mas Clara manteve a expressão.

 - Um membro da Guarda Reluzente jamais retrocede. - Sophie estancou. Encarou a companheira, observando mais uma vez o estado deplorável em que ela se encontrava, e lágrimas começaram a cair de seus olhos. Juntou as mãos no rosto para se controlar. - E de qualquer forma, eu não esperava atacá-lo naquele momento. Fui emboscada, e me deparei com a fúria mais assustadora que enxerguei na minha vida.

 A garota abaixou as mãos, notando que a outra também tinha os olhos lacrimejantes. - Eu nunca encontrei algo parecido, Sophie. Ele nos odeia, odeia a Guarda Reluzente, mais do que somos capazes de imaginar. - Clara desviou o olhar, voltando a encarar as telhas do teto. - Eu estava o observando quando chegou no acampamento. Lordred foi humilhado pelos outros orcs, e tenho certeza que foi por causa do fracasso em Durandar. - Ela estendeu a mão, segurando o joelho da garota mais nova. - Se eu não tivesse fugido até o rio, teria sido despedaçada.

 Sophie sentiu a outra tremendo em seu joelho, e se apressou para segurar a mão dela com força. Mordeu o lábio, procurando alguma coisa para dizer enquanto que a mulher se afundava em suas memórias. Clara era uma das mulheres mais fortes que a garota havia conhecido, e fora completamente derrotada, tanto física quanto mentalmente. A loira tremeu também, sentindo um calafrio passar pelo corpo.

 - E agora? - Perguntou, limpando uma lágrima rebelde com os dedos. - O que você vai fazer?

 - Ele me pegou de jeito. - Sorriu Clara, sem nenhuma alegria nos lábios. - Se aquele tal de... Tom alguma coisa não estivesse por perto, já estaria morta. Não que faça muita diferença agora... - Ela olhou para baixo, fitando as faixas de linho branco que traçavam um risco em seu corpo. - Não sou uma Yulliana, Sophie. Vou ter sorte se conseguir sair dessa cama, que dirá ver Durandar outra vez. Acho que acabou para mim.

 Sophie contorceu o rosto, tentando barrar a nova torrente de lágrimas. Desde antes de entrar na Guarda Reluzente, Clara fora uma das pessoas que mais admirava. Não importa o trabalho pedido, a mulher sempre dava um jeito de cumpri-lo. Vê-la daquele jeito, derrotada, era insuportável. Clara sempre havia lhe dado forças quando falhava, e agora era ela quem não tinha como realizar sua missão. Eu sei o que ela está passando, pensou a garota. O sentimento de derrota, de dor, de auto-piedade. Não desejaria aquilo para ninguém, especialmente para alguém que sempre a ajudou. Não poderia deixá-la daquele jeito. Rangeu os dentes.

 Não iria deixá-la daquele jeito.

 - Eu vou atrás de Lordred. - Disse finalmente, e apertou a mão da outra com força. A mulher a encarou, ainda sem entender o que havia dito. - Eu vou cumprir sua missão.

 - Não... - Começou Clara. - Você não viu o que ele fez comigo? Ele vai te matar! - Sophie sentiu o medo voltar a crescer dentro de si, o mesmo medo que esteve presente em Gowking, no acampamento orc, até mesmo em Durandar. Tremeu, sabendo que aquilo não poderia mais paralisá-la.

 - Não importa! - Gritou, se levantando em um salto. - Eu tenho que fazer isso! Tenho que provar meu valor, e estou cheia de ficar me escondendo! - Clara não tinha palavras, apenas observava em choque. - Eu vou acabar com Lordred por você! Eu vou achar a esmeralda de Amanda! E eu vou levar Dalan até Steamunk! - A cada frase ela batia o dedão no peito, sentindo algo quente crescer por baixo da pele. - E chega de ter medo de falhar!

 A mulher morena permaneceu sem palavras, procurando alguma coisa para argumentar com a outra. Acabou abaixando a cabeça e mordendo o lábio inferior com força, sabendo que não conseguiria impedi-la. - Faça o que achar melhor. - Disse finalmente. - Mas tenha cuidado. Por favor.

 - Não se preocupe. - Respondeu, mais para si mesma do que para a outra. - Agora... você sabe onde encontrar Lordred? - Clara relutou um pouco em responder, mas acabou admitindo a derrota.

 - Pelo que eu entendi, eles estão seguindo para o oeste o mais rápido possível, levando todos os tesouros que encontraram no caminho. Provavelmente querem derrubar a linha de defesa da Aliança antes que ela esteja forte. - Não encarou Sophie enquanto falava, preferindo focar em seus lençóis. - Vai ter uma batalha terrível, querida, e você quer correr no caminho do furacão. Tem certeza do que está fazendo?

 A garota acenou com a cabeça, fazendo com que Clara lhe desse as costas e resmungasse: - Bem, espero que isso tenha sido proveitoso. Agora preciso descansar.

 Sophie a encarou com pesar, mas não fez menção de retomar a conversa. Se levantou, mais cansada do que nunca, e saiu do quarto. Wally não disse uma palavra, apenas seguiu para deixar a garota em seus aposentos. No caminho eles passaram pelo mapa pendurado na parede, e Sophie parou para observá-lo.

 Se Clara estivesse certa, os orcs seguiriam a oeste. Se eles saíssem do acampamento em que haviam confrontado o pequeno exército da Aliança, encontrariam a cordilheira de Alas como obstáculo. Sophie não acreditava que eles tentariam passar pelas montanhas, e ao invés disso seguiriam o rio Lor. Como o sul dele desembocava em uma corredeira, imaginou que eles iriam pelo norte.

 Acompanhou o trajeto do Lor com o olhar, notando sua curva para o oeste. Alguns nomes pipocavam em ambas as margens, mas havia um que se destacou, um bocado distante de onde estavam. A garota se aproximou do mapa, sabendo muito bem onde o avanço sanguinário dos orcs iria levá-los.

 Encontrariam Steamunk em seu caminho.

Atos Finais