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7 de agosto de 2015

Conventionis: Capítulo 12 - Sobre velhas e novas convicções



 Assim que aportamos na margem, deixamos o barco e seguimos para o norte, onde eu tinha visto a tal entrada para o território selvagem. Como não sabemos o que poderíamos encontrar, decidimos esperar que Dalan acordasse para que não tivéssemos mais o problema de carregá-lo.

 Já se passaram quase doze horas desde que chegamos aos pilares arrepiantes. O sol daqui a pouco vai se por, e eu e Amanda estamos alternando turnos para ficar em vigília e cuidar de Dalan. Decidi escrever no diário ao invés de encarar aqueles olhos no topo das colunas. Eu não sei para quê fizeram essas coisas, mas elas passam uma sensação terrível. Ainda não me acostumei com isso.

 Ah, acho que Dalan está acordando.

 O rapaz abriu os olhos, voltando lentamente à realidade borrada e silenciosa. O sol fraco era o suficiente para que ele colocasse a mão na frente do rosto, e tal gesto lançou uma fisgada dolorosa em seu abdômen. Fez uma careta e girou o corpo, arqueando a coluna.

 Passos apressados vieram em sua direção. - Você está bem? - Perguntou Sophie.

 - Não. - Grunhiu o outro. No entanto, estava melhorando. A dor recuou até um incômodo forte, mas o suficiente para que Dalan se apoiasse na companheira para se levantar. - O que aconteceu? Onde estamos? - Perguntou, olhando as montanhas ao redor.

 - Cordilheiras de Alas, alguns quilômetros e um rio de distância de onde você caiu. - A garota olhou para baixo e corou enquanto que o companheiro fitava hipnotizado os pilares negros. - Obrigada por... por ter nos salvado daquele orc.

 - O quê? - Perguntou distraído, até ver o rosto vermelho de Sophie. Também ficou embaraçado e desviou o rosto. - Ah, não foi... nada. Não foi nada. 

 Os dois se mantiveram envergonhados demais para se encararem até que Amanda acordou, esfregando os olhos. - Ah, finalmente. - Disse com um sorriso para o rapaz, que passou a mão pela nuca. - Vamos, então?

 - Vamos aonde? - Perguntou ele, voltando a olhar para os pilares. - E o que diabos são essas coisas?

 - Bom, nos concentrando nas perguntas que temos respostas... - Começou Amanda, juntando as mãos e olhando de relance para as estruturas negras. - Estamos indo para Steamunk! Surpresa!

 Dalan olhou de uma companheira para a outra, desconfiado e ao mesmo tempo animadamente surpreso. - É sério?

 - E para isso temos que passar por um território selvagem. - Completou a morena, acenando com o braço para a estrada marcada pelos pilares. - Surpresa de novo!

 A alegria no rosto do garoto imediatamente desapareceu. - O quê? - Perguntou, parando. Um peso gelado desceu por seu estômago. - Vocês estão de brincadeira, não? - Amanda apenas encolheu os ombros e se virou para seguir o caminho. Dalan arregalou os olhos, levantando a cabeça para a rota que adentrava a região montanhosa até sumir em uma curva para o norte. De todos os perigos que eu esperava passar na viagem de volta para casa, andar sozinho por um território selvagem era, de fato, um dos piores.

 - Vamos? - Perguntou Sophie, sem notar o outro tremendo. O rapaz se virou para a companheira, prestes a desabafar o quão arriscada era aquela ideia, até que viu a calma no rosto dela. Era claro que Amanda e Sophie haviam pensado bastante sobre esse trajeto, e mesmo assim haviam concordado. Tudo isso para chegarem a Steamunk, um lugar que apenas Dalan tinha interesse.

 Novamente embaraçado, o garoto mordeu o lábio antes de continuar. - Só tem uma opção, né? - Riu nervoso, e a outra sorriu de canto de boca. Os dois começaram a seguir Amanda pela estrada, e os olhos dos pilares permaneceram encarando incessantemente o leste.

 Uma hora depois, ainda estavam caminhando pela rota de terra batida que serpenteava descontroladamente. Não avançavam mais de cinquenta metros sem fazer uma curva brusca, e havia algum tempo desde que perderem a noção de onde estavam indo. Conforme se embrenhavam ainda mais, o sol poente desaparecia por trás dos paredões de rocha cinza, contribuindo para momentos em que a noite se adiantava naquela estrada.

 Dalan e Sophie andavam mais atrás, deixando Amanda seguir em frente. Havia sido uma boa opção, visto que o medo de adentrarem em um território selvagem à noite não contaminava a morena, que puxava um ritmo aceitável. O rapaz de vez em quando olhava nervosamente para os lados, como se esperasse que alguma criatura brotasse de uma falha nas montanhas. Até agora apenas o vento os acompanhava, mas não eram ingênuos o suficiente para acreditar que permaneceriam sozinhos.

 - Preciso descansar. - Pediu Dalan para Sophie, sentindo uma pontada de dor no ferimento. A garota parou para que o outro pudesse descansar, mas Amanda ficou de frente a uma curva, parecendo hipnotizada.

 - Ei, posso ver uma coisa ali na frente? - Perguntou para os companheiros com o dedo apontado para frente.

 - Não se afaste. - Respondeu Sophie, distraída, enquanto apoiava o rapaz no paredão para se sentar. A morena acenou com a cabeça e continuou a andar, sumindo por trás de um muro de rochas. Enquanto isso, Dalan fazia uma careta. Sua ferida recomeçara a sangrar, esvaindo por baixo da crosta do remédio.

 - Desculpa, você deve melhorar quando acharmos algo para comer. - Se justificou a garota, tirando o creme verde da mochila. - Não conseguimos pegar muita coisa daquele acampamento, mas... - Parou de falar de repente ao notar que estava tirando a camisa do companheiro para cuidar das feridas. Seu rosto imediatamente se preencheu de vermelho e ela o soltou por reflexo.

 O que está fazendo, se perguntou uma parte de sua cabeça. Você já cuidou das feridas dele antes.

 Sim, mas não quando ele estava acordado, retrucou a parte oposta. - Aaahn... - Soltou a garota enquanto um debate ocorria em sua mente, ao mesmo tempo em que Dalan encarava o céu cada vez mais púrpura. Alheio ao embaraçamento da companheira, ele jogou a cabeça para a esquerda e fitou o espaço onde Amanda havia sumido.

 - Onde Amanda foi? - Perguntou em grunhido, e Sophie arregalou os olhos.

 - Isso! - Gritou, e sua voz ecoou pelo vale enquanto ela punha as mãos na boca, assustada. - Digo, eu vou buscar ela. Não saia daí. - Completou baixinho quando se recuperou, ainda vermelha como uma pimenta. Praticamente arremessou a pomada no colo do garoto e se virou, andando com os passos firmes e os punhos fechados até fazer a curva e desaparecer. Dalan permaneceu parado por mais alguns segundos.

 - Certo... - Passou a pomada nos dois cortes em seu corpo, se empertigando conforme uma crosta se formava por cima deles. Sabia que, como um Yulliano, ele iria se recuperar daquilo, mas para isso precisava manter os cortes fechados. E mesmo assim, a cura não era indolor. Um vento frio desceu a encosta das montanhas enquanto ele descansava até a dor desaparecer mais uma vez.

 - Bem, agora está melhor. - Disse para si mesmo. Abriu os olhos, esperando ver as outras duas, mas não havia mais ninguém ali. Estava sozinho, à beira de um território selvagem enquanto a noite se avolumava. O pensamento o fez ficar de pé em um pulo, e nem mesmo a nova fisgada o impediu de tatear até a curva onde as duas haviam sumido. - Amanda? Sophie? - Chamou quase que sussurrando, com medo do que poderia ouvi-lo. Os pelos de sua nuca se arrepiavam conforme dava cada passo. sabendo que algo sinistro havia acontecido. - Amanda? Soophiee? - Repetiu, sem resultados mais uma vez.

 Quando virou a curva, teve uma visão que o fez se esquecer do ocorrido. Havia uma garota parada na estrada, bem no meio de um apertado espaço oval formado pelo recuo das montanhas. Ela tinha a pele morena e os cabelos encaracolados, que caiam negros por suas costas e eram amarrados no topo da cabeça por uma faixa vermelha. Usava um vestido florido para cobrir o corpo alto e tinha os braços juntos atrás das costas, curvadas minimamente para frente. A garota sorria, e aquilo, acima de todos os outros fatores, era o que mais abismava Dalan. Não se lembrava da última vez desde que tinha visto aquele sorriso, mas se recordava de cada traço dele. Conhecia aquela pessoa. Só que ela não deveria estar ali.

 - Diana? - Perguntou com a boca seca, incapaz de acreditar no que estava acontecendo. Ela deveria estar em Steamunk, mas estava ali em uma cordilheira esquecida pela Aliança. Dalan mal sentiu o corpo tremer, quanto mais notar que estava caminhando na direção da garota. Diana, era a única palavra que ressoava em sua cabeça. Depois de tanto tempo, ela estava logo ali. A garota de sua vida.

 E naquele momento ele sentiu uma fisgada mais forte no ferimento, caindo com um joelho no chão. Segurou a área machucada com uma careta, e a parte sã em seu cérebro aproveitou o momento para usar a lógica. Não tem como Diana estar aqui, disse ela. Foi o suficiente para Dalan se levantar com o rosto determinado e vermelho, encarando com raiva a figura de Diana.

 - Quem é você? - Conforme ia notando a irrealidade da situação, mais nervoso ficava. A garota continuava sorrindo sem falar nada, e o vento agitou seus cabelos encaracolados e a roupa longa de Dalan.

 Foi necessário apenas que o rapaz piscasse para que a cena se transformasse. Quando reabriu os olhos, Diana não estava mais lá, e em seu lugar haviam quatro figuras de vermelho formando uma barreira entre ele e o resto da estrada. Não possuíam rosto, e sim um pano de um dourado sujo que formava uma cabeça irregular com um grande chifre invertido saindo da nuca. Rasgos no tecido pareciam abrir espaço a olhos e enormes bocas dentadas, mas eram vazios. Para completar, trajavam robes da cor do sangue, tão longos e grossos que não revelavam a forma do corpo.

 Dalan ouviu uma movimentação atrás de si, e pelo canto do olhou notou que outra barreira de três criaturas estava bloqueando a saída. Estava cercado, acompanhado apenas pelas batidas de seu coração. Lentamente abriu as mãos, exalando uma energia gélida dos dedos, e estreitou os olhos. - O que está acontecendo aqui?

 Não houve resposta, pelo menos não de início. Os fantasmas vermelhos continuaram parados, encarando o garoto através de suas órbitas vazias. Finalmente, dois deles se entreolharam e ficaram de lado, abrindo um espaço para o rapaz seguir adiante.

 O cérebro de Dalan pipocou com sinais de alerta. Não sentia mais nenhuma hostilidade daquelas criaturas, mas ainda tinha outras preocupações. - Amanda? Sophie? - Chamou em voz alta, mas nada o respondeu. Esquadrinhou a área, passando desde os monstros até o muro acentuado nos lados da estrada. Não havia nenhum lugar para as garotas se esconderem, e ele tinha certeza de que não sairiam sozinhas.

 Por um breve instante, um pensamento tentou ser ouvido em sua cabeça. Vá sem elas. É a oportunidade que você esperava. No entanto, essa voz foi rapidamente silenciada. Do fundo de seu coração, sabia que não poderia deixá-las após terem cuidado de sua vida, após terem decidido ir a Steamunk, após o último dia. Por causa disso voltou a conjurar energia das mãos, e as criaturas se movimentaram.

 - Acho que vocês estão com duas companheiras minhas. - Grunhiu, sem saber de onde vinha aquela coragem súbita. - E não saio daqui sem elas. - Não esperou resposta para bater as palmas no chão, criando um piso de gelo que prendeu os quatro fantasmas à sua frente.

 Ouviu os outros três esvoaçarem em sua direção e se virou com os dentes cerrados, a adrenalina aliviando sua dor. O robe vermelho de uma das entidades já estava o engolindo, e, por reflexo, Dalan estendeu o braço à frente. O tecido foi rapidamente congelado, caindo no chão com um baque.

 Os dois remanescentes vieram dos lados, e o rapaz saltou para trás. Acabou deslizando minimamente no gelo que havia criado enquanto os monstros se embolavam por alguns instantes. Uma sombra o cobriu pela direita e ele levantou a cabeça, percebendo que mais três inimigos voavam para atacá-lo.

 Sem opção, Dalan rolou para o único canto livre que possuía, esquivando dos pousos das criaturas. O garoto apoiou as costas no muro de rochas, notando que a multidão vermelha já o cercava novamente. Arfou, procurando opções. Não tinha muitas.

 Quando já estava prestes a fazer um ataque desesperado, dois objetos caíram no meio dos inimigos. O rapaz apenas conseguiu notar que eram esféricos antes que explodissem, formando uma esfera de poeira e gelo quebrado. Dalan colocou os braços nos olhos para se proteger do vento e dos destroços, e quando os abaixou percebeu que estava sozinho. Os fantasmas vermelhos haviam sumido.

 Terra deslizou por cima dele, que levantou a cabeça. Havia um homem apoiado em uma irregularidade do muro, encarando triunfante o espaço abaixo. Ele vestia um casaco roxo por cima de uma camisa preta, e inúmeros bolsos se amontoavam no tecido e no cinto marrom. Seu rosto era fino e barbado, com um cachecol vermelho e esvoaçante no pescoço e uma faixa roxa na região dos olhos, que segurava duas lentes grossas e da cor do âmbar. O cabelo era espetado e lustroso, e em cada um dos seus braços havia uma das companheiras de Dalan, desmaiadas. O homem sorriu para o rapaz mais abaixo, que o encarava hipnotizado.

 - Venha comigo se quiser viver.

Atos Finais