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11 de agosto de 2015

Contos dos leitores - Roubo de carga (Por Doncas Murro)


Roubo de carga



Parte 1 – As peças do jogo

No monitor acima do bar, o programa de notícias anunciava a venda de Éris-4, que era da corporação Fu Lu Shou, para a Luckywinds. “Quem se importa com esse planeta minúsculo perdido depois da Colônia Humana 31”, pensava Carmanguia Batista, enquanto entornava o último gole de cerveja de tabaco e pedia uma caneca cheia para o garçon. O gosto era horrível, como quem lambe um cinzeiro, mas era a única bebida alcoólica disponível em quilômetros.

Tabaco não faltava na Colônia Humana 20 – ou CH20, como a população chamava para simplificar. O fumo era a base da economia do planeta e usado para tudo, exceto para fumar. Segundo algum maldito biometeorologista, a fumaça na atmosfera reduzia a qualidade do tabaco plantado e fazia com que perdesse competitividade nos mercados mais próximos à Terra. E isso nenhum dos governantes queria. Por isso mesmo, o fumo só era liberado em cachimbos eletrônicos, que transformavam a fumaça em um líquido viscoso que poderia ser descartado em qualquer posto de coleta de esgoto. O cheiro era péssimo, lembrava resistência queimada, mas era uma modalidade popular entre os que não conseguiam largar o vício.

Hassan era um dos adéptos do cachim eletrônico. Um albino esquelético de quase dois metros com um turbante negro sempre enrolado na cabeça, Hassan era um dos maiores contratantes de serviços ilegais da CH20. Tinha uma reputação formidável e um séquito de paramilitares bem armados. Naquele bar, sempre pedia sua cerveja de tabaco e pegava com o garçon uma chave, que dava acesso a uma pequena porta próxima ao banheiro. Era um dos muitos escritórios que ele tinha espalhados pela capital.

Carmanguia conhecia Hassan há alguns anos. Fora o albino, inclusive, quem fizera o convite para que ele fosse para a CH20. Antes, havia passado por diversas outras colônias e planetas de extração vegetal e mineral, sempre precisando sair às pressas. O trabalho de assaltante tinha essa particularidade. Quanto mais bem sucedido, mais o assaltante precisava se deslocar pela galáxia fugindo das autoridades e buscando um novo serviço. “Você já pode ir”, disse a Carmanguia o garçon, apontando para a pequena porta perto do banheiro.

“Meu amigo!”, saudou Hassan assim que viu o assaltante. Carmanguia era mais baixo que o contratante e costumava andar curvado, mas sempre estufava o peito e se esticava quando o encontrava, para não parecer intimidado. Brindaram com a cerveja intragável e sentaram-se em poltronas confortáveis de estofado puído.

“Você já ouviu falar do Expresso Luckywinds?”, perguntou o albiro. Era uma pergunta retórica. Todos conheciam o expresso, uma composição de oito módulos que fazia o transporte entre a CH20 e a CH19, ambas administradas pela Luckywinds, um dos maiores conglomerados do universo conhecido. Os mais pobres, que jamais teriam acesso àquele transporte, chamavam o Expresso Luckywinds simplesmente de “trem”. Era assim que Carmanguia e Hassan também o chamavam. “Acredito que tenha sido por ele que você chegou aqui. Pois bem, é no trem que está seu próximo trabalho.”

Hassan explicou com calma o plano. Carmanguia ia compôr uma equipe de quatro pessoas. Além dele, estariam lá para o serviço um funcionário da Luckywinds, um piloto que garantiria a fuga da composição e a líder do grupo, que apesar de não ter uma função definida seria a responsável caso “algo desse errado”, nas palavras do contratante. Seria um roubo de carga, mas o albino não explicou qual seria o objeto a ser retirado do Expresso. “Cada um sabe de uma parte do plano. A líder sabe qual é o objeto. E você saberá na hora apropriada”, e, com isso, Hassan encerrou a conversa.

Dali para o roubo em si passaram-se duas semanas. Nesse tempo, Carmanguia Batista arranjou emprego em um restaurante e uma licença para portar facas e lâminas. Era a desculpa que ele precisava para levar instrumentos a bordo para o assalto ao trem. Na entrada do Expresso, ele recebeu orientações para chegar a sua cabine, que seria dividida com outras três pessoas – provavelmente a sua equipe. Primeiro a chegar no local, o assaltante teve tempo de analisar cada um de seus companheiro, à medida em que iam aparecendo. O primeiro era um sujeito sorridente, com um bigode volumoso. Se apresentou como Didier. Usava uma jaqueta com o brasão da Agência Especial Mercante, além de uma placa com o sobrenome “McKenzy” e o seu tipo sanguíneo. Era o piloto contratado por Hassan. Tinha mãos trêmulas e carregava na jaqueta uma frasqueira. Provavelmente por isso havia aceitado um serviço ilegal em vez de estar pilotando uma nave respeitada.

O segundo a chegar à cabine foi um homem uniformizado. Perguntou se os dois estavam confortáveis e se colocou à disposição para ajudar no que precisasse. “Sou o Camareiro 32”, ele se apresentou. Em seguida, disse que, por engano, havia sido emitida uma passagem em nome dele para aquela cabine e deu uma piscadela nada discreta. Era o tal funcionário da Luckywinds que Hassan contratara. Um maldito camareiro.

Por fim, entrou na cabine uma mulher de óculos escuros. Ela acomodou sua bagagem no compartimento superior e sentou-se no lugar que seu bilhete indicava. Sem precisar emitir uma palavra, ordenou que todos se sentassem também. Era uma mulher extremamente sensual, mas não era bonita. Tinha um rosto duro, como se feito de concreto. Devia ter pouco mais de quarenta anos, mas seu corpo se passaria por o de uma jovem de menos de vinte. Nada simpática, ele foi direto ao assunto.

“Essa composição tem oito módulos. O primeiro é a máquina, onde está o passadiço e os dormitórios dos seguranças. Depois vem um módulo de cargas de alto valor, onde está nosso objeto, e dois de cargas gerais. Em seguida vem o módulo de alimentação e entretenimento e dois de passageiros. Estamos no último de passageiros. Atrás de nós, apenas o módulo com o hangar e a nave auxiliar, que usaremos para furgir. São cinquenta dias de viagem até a CH19, mas se não realizarmos o roubo ainda hoje não conseguiremos voltar para casa. A nave auxiliar tem pouca autonomia de voo e quase nenhum combustível. Sendo assim, cavalheiros, recomendo que todos usem as poucas horas que temos até a decolagem para se preparar. Hoje, mudaremos a história da astronáutica mercante para sempre”, disse a mulher, em voz baixa.

Carmanguia não conseguia parar de olhar para ela. Tinha uma atmosfera misteriosa, mas ao mesmo tempo familiar. Era claramente uma líder e parecia não medir esforços para atingir seus objetivos. O assaltante pensava se já não se conheciam de algum lugar. Talvez algum outro serviço. Ele só a reconheceu quando a mulher tirou os óculos. Ela tinha um dos olhos de um amarelo bastante vivo e o outro mais opaco, levemente alaranjado. Seu nome era Maxine Moon. E ela sozinha havia sido responsável por mais de cem assassinatos. Se Maxine Moon estava ali caso “algo desse errado”, Carmanguia tinha certeza de que aquele trabalho seria o mais perigoso de sua carreira.

Atos Finais