Novidades

24 de julho de 2015

Conventionis: Capítulo 10 - Sobre feridas



Ah, não.

Deuses, não.


- DALAN! - Gritou Amanda, desesperada. O corpo do companheiro caiu sem som na grama, tingindo-a com uma poça de vermelho. A garota tentou disparar para ajudá-lo, mas foi contida por Sophie, que encarava a cena petrificada.

 Lordred fitou o corpo no chão, passando por cima dele e ficando a um metro das garotas. As duas olharam para cima, o sangue de Dalan ainda marcado em suas faces. Uma explosão ao longe lançou um brilho sobre eles, escurecendo a frente do corpo gigante do adversário. Ele puxou a espada e se preparou para finalizá-las, girando o corpo e...

 - TO'KARA! - Gritou uma voz gutural ao fundo. Lordred desviou a lâmina no último segundo, enfincando a espada na grama a centímetros de Amanda. Bufou e olhou para trás agitado, avistando um orc ensanguentado ao lado das celas, que gesticulava e gritava. - KA'DUMA LORDRED TONOHAI!

 - BUKA! - Lordred se virou com raiva para Sophie, que se encolheu. - GANDA OREO BUKA! - Amanda observou a discussão assustada, sem sequer tentar entender qual era o assunto. A companheira ao seu lado tinha algumas ideias sobre os reféns, mas a garota morena estava prestando atenção em outra coisa. Assim que o orc à frente se virou para continuar a ralhar, disparou na direção de Dalan.

 - ONEOTA! - Gritou o adversário, girando a espada na direção da garota. Sophie berrou, e o outro orc correu para derrubar Lordred no chão. Os dois se atracaram, rolando no chão entre socos e cotoveladas, ignorando as humanas. Amanda, por sua vez, já estava ao lado de Dalan.

 - Ei, ei, ei... - Conseguiu dizer trêmula, com receio de movê-lo. Sophie se ajoelhou do outro lado, seu cérebro fumegando enquanto encarava o corte que transpassava o abdômen. Dalan é um Yulliano, mas mesmo assim um ferimento desses é fatal. Tenho que fazer alguma coisa. Tentou se lembrar das aulas de primeiros socorros da Guarda, enquanto que o sangue do outro escorria entre as mudas de grama e Amanda choramingava. Extrato verde, essência de Yu'natan, água de cristal... Esses eram alguns compostos usados para tratar de feridas, mas não havia nenhum deles ali. Não é possível que não haja nenhum em algum lugar. Os patrulheiros da Guarda Reluzente sempre levam um kit médico em viagens. Não era possível que não... houvesse...

 - A MOCHILA! - Gritou, fazendo com que a companheira se sobressaltasse. Ficou imediatamente de pé e girou o corpo, identificando a mochila surrada que havia encontrado antes. Disparou pela clareira, alheia aos tiros e flechas que continuavam zunindo, e buscou o equipamento em um pique só. Voltou à Dalan já com a mão vasculhando os compartimentos internos, desesperada. - Achei, achei... - Sussurrou, puxando um estojo cilíndrico.

 - Sophie? - Perguntou a outra, mas a garota a ignorou. Abriu a cápsula metálica e retirou apressada um tubo branco. Virou delicadamente o rapaz, ofegando com a ferida aberta, e espremeu uma pasta verde no corte.

 Dalan franziu momentaneamente o rosto. - ELE ESTÁ VIVO! - Berrou Amanda, e Sophie olhou ao redor, se lembrando de que a batalha continuava e Lordred ainda estava por perto. Temos que sair daqui agora. Passou mais um punhado do extrato do outro lado do tórax do companheiro para puxá-lo pelo ombro em seguida, procurando uma saída.

 - Não é o melhor momento para o movermos, mas não temos outra opção. - Comunicou. Dalan grunhiu em seu ouvido, mas procurou ignorá-lo. - Vamos! - Jogou a mochila para Amanda e a puxou pelo braço, disparando na direção das árvores.

 - GUNTAN! - Orcs gritaram, e Sophie franziu o rosto na ânsia de correr mais rápido. Ouviu arcos se retesando ao fundo e empurrou a companheira para o lado com o ombro, desviando de uma saraivada de flechas.

 - Por aqui! - Amanda deixou que a loira passasse por ela e se virou para a batalha, estendendo a mão para bloquear mais uma nuvem de setas com seus poderes. Correu um pouco de costas antes de tropeçar para acompanhar a outra, as duas adentrando a floresta novamente.

 Mantiveram o passo por alguns minutos enquanto desviavam das árvores na mata escura, até que Sophie parou. Apoiou exausta o corpo de Dalan em um emaranhado de raízes, buscando a pasta verde na mochila para aplicá-la nas feridas novamente abertas do rapaz. Amanda estava com as mãos nos joelhos ao lado deles, mas se eriçou ao ouvir sons distantes.

 - Eles continuam nos seguindo. - Sussurrou alarmada. Sophie contorceu o rosto em uma careta, ainda arfando para recuperar o fôlego. Olhou o companheiro inconsciente à sua frente, sabendo que não conseguiriam carregá-lo para a segurança. Não do jeito que as coisas estavam.

 Precisamos de uma isca. A voz na sua cabeça era de Leon, conjurada de uma memória de muito tempo atrás, uma de suas primeiras missões na Guarda Reluzente. Ela havia se aventurado na floresta nos arredores de Durandar para resgatar uma criança perdida, acompanhada pelo futuro comandante, mas haviam sido emboscados por uma alcateia de lobos-lisos. Leon, percebendo que a criança iria atrasá-los na fuga, decidiu se separar deles para atrair as criaturas. Um membro da Guarda Reluzente fará de tudo para proteger os habitantes de Durandar, havia dito ele. E Sophie nunca se esqueceria daquelas palavras.

 Ela puxou a manta de forma nervosa, como se pedisse forças. Sabia o que tinha que fazer. - Amanda, preste atenção. - Chamou a companheira, se levantando. - Continue à oeste até encontrar um rio. Pegue Dalan e corra o mais rápido que conseguir. - Esticou a mão para apontar a direção correta, e percebeu que o braço tremia. Recolheu o membro. - Não volte por nada.

 - O que você quer dizer com isso? - Perguntou a outra, mas Sophie já estava guardando a pasta dentro da mochila. - Sophie?

 - Eu vou distraí-los. - Disse com a voz aguda. - Você não vai correr tão rápido carregando Dalan e isso aqui. - Estendeu a alça da mochila para ela, seus olhos em um misto de nervosismo e fraca resolução. - Agora, vai.

 Amanda ficou alguns segundos calada, fitando do objeto estendido até o rosto da companheira, até seu estupor se quebrar. - Você não pode fazer isso.

 - Amanda, eu...

 - Não! Nós vamos ficar juntas nessa! - Pequenas lágrimas se aglomeraram nos olhos castanhos da garota, que fechou os punhos com força. - Eu e Dalan atravessamos um inferno para vir te buscar, e você vai sair daqui com a gente!

 - Escuta... - A outra desviou o rosto e estendeu a mão, mas foi sumariamente ignorada.

 - Você não pode fazer isso. Você não pode sumir e deixar a gente no escuro. - A garota começava a falar mais rápido, algo que, junto com a voz embargada, tornava quase impossível distinguir as palavras. - Qual a dificuldade de vocês em entender que temos que ficar juntos? Tem mil coisas acontecendo lá fora, mas parece que querem seguir sozinhos, e--

 - Amanda! - Sophie segurou os ombros dela com força, encarando-a bem fundos nos olhos. - Não torne isso ainda mais difícil para mim. Por favor. - Amanda ofegou em silêncio, seu rosto marcado pelo desespero enquanto que ela procurava alguma resposta para dizer. Dalan, ainda caído no chão, resmungou grogue.

 - E-eu... - Naquele momento as duas ouviram galhos se quebrando à distância. Um alerta de que não tinham tempo a perder.

 - Continue para o oeste até encontrar o rio. - Disse Sophie, se separando para levantar Dalan e entregá-lo à companheira junto com a mochila. - Eu encontro vocês lá.

 - Você promete? - Perguntou a outra garota com os olhos grandes e chorosos. Sophie responderia que sim se tivesse a convicção para isso, mas preferiu apenas acenar positivamente com a cabeça.

 - Vai. - E com isso ela desapareceu em pleno ar, e os sons de seus passos se perderam na floresta escura. Amanda permaneceu ainda alguns segundos esperando ela voltar, segurando desajeitada o rapaz ferido, mas por fim deu meia-volta para seguir o caminho.

 Olhou para trás várias vezes.

 O sol já havia sumido quando ela chegou à beira ao rio, carregando exausta o companheiro abatido. Assim que identificou o corpo d'água através das árvores, seus joelhos desabaram e eles caíram no chão com um baque. Demorou alguns segundos para se levantar, sem conseguir arranjar forças para se mover.

 - Dalan. - Sussurrou, se lembrando do que deveria fazer. Fez um esforço monumental para levantar o tronco e voltar ao companheiro, notando que suas feridas haviam se aberto novamente em uma poça de sangue. Suando frio, Amanda tateou trêmula o interior da mochila para buscar a pasta, e espremeu uma quantidade muito maior do que esperava nas mãos.

 - Ah, não. - Soltou enquanto tentava colocar o excesso do extrato de volta, sujando o tubo inteiro. Dalan grunhiu e ela deixou o objeto cair no chão com o susto. - Desculpa! - Pediu, aplicando a pasta nos ferimentos. O rapaz grunhiu mais uma vez, mas a garota continuou o tratando. A visão dos cortes era demais para ela, que fechou os olhos com força. Manteve a pressão até sentir o extrato fazer efeito, quando se jogou para trás.

 Se apoiou com os cotovelos no chão, arfando forte. Por favor, que ele sobreviva, rezou aos deuses. Ele tem que sobreviver, e Sophie tem que voltar, e...

 Reparou que estava chorando. Quando tentou secar as lágrimas, no entanto, o sangue de Dalan em suas mãos manchou sua face. Abriu os olhos e encarou a palma, vermelha e ainda úmida.

 Se levantou como um raio e disparou para o rio, atravessando a pequena faixa de grama rebelde que separava a floresta do corpo d'água. Avançou até a água bater em suas costelas, iluminada apenas pela lua cheia acima, e desatou a esfregar as mãos até que a pele estivesse esfolada. O sangue a cercou por um instantes até ser tragado pela correnteza escura, se perdendo em seu caminho para o sul. Junto com ele, haviam as lágrimas de Amanda, que chorava copiosamente.

 O que está acontecendo, se perguntou com o rosto torcido e os dentes rangidos. Hoje mais cedo estávamos juntos, e agora Dalan está morrendo e Sophie está tentando escapar de um exército de orcs. Parece até quando... A cena de sua casa destruída voltou à sua mente, evocando o mesmo sentimento de solidão que ela compartilhou no momento. Um peso gélido desceu pelo seu corpo, apiado no peso da realidade, e Amanda mergulhou na água para gritar.

 Gritou o mais alto que conseguia, tentando afastar os pensamentos aterrorizadores que tentavam tomar sua cabeça. Eles estão vivos, eles estão vivos, ELES ESTÃO VIVOS, berrava a garota por dentro enquanto extravasava por fora. Meus pais estão vivos, Dalan vai sobreviver e Sophie vai voltar. E depois disso eu nunca mais vou deixar nos separarem. Vou ajudá-los para que não pensem em desistir. Eu juro que vou.

 Não vou ficar sozinha.

 Alguns minutos depois, Amanda saiu do rio, as roupas vermelhas tão encharcadas que, no meio da noite, pareciam marrons. Se dirigiu até onde Dalan continuava, passando as mãos no cabelo para afastar uma mecha da testa. O companheiro continuava onde ela havia o deixado, seus ferimentos cobertos por uma crosta de pasta verde. Ele dormia agora, aparentemente tranquilo.

 A garota se agachou ao lado dele, abraçando os joelhos. Ficou o encarando por um bom tempo, tentando decifrar o que aquele rosto fino escondia. Mordeu a parte interna da bochecha enquanto afundava em pensamentos, até que passos foram ouvidos do meio da mata.

 Amanda levantou a cabeça, espiando ao redor. Por alguns instantes pensou que era sua imaginação, até que ouviu o som de galhos quebrados novamente. Perto demais. Imediatamente saltou para proteger Dalan, tentando cobri-lo com todo seu corpo. Os passos se aproximaram e ela fechou os olhos, aguardando o orc vir atacá-los.

 - Amanda? - A garota abriu os olhos e se virou. A alguns metros, Sophie a encarava com o olhar cansado. Pequenos cortes decoravam sua pele pálida, alguns ainda com o sangue escorrendo. Raminhos estavam infincados em seu cabelo e em suas roupas, e a manta estava levemente rasgada na altura do ombro esquerdo. Ela ofegou um pouco, seu suor pingando de seus cabelos curtos.

 Amanda se levantou e começou a andar na direção da companheira. - Desculpa, eu tive que... - Sophie não conseguiu terminar, pois foi interrompida pelo abraço de Amanda, que a apertou com toda a força que lhe restava.

 - N-nunca mais faça isso, e-entendeu? - Pediu a garota com a voz tremida e aguda. Começou a choramingar, deixando a loira sem reação.

 - Eu... - Levou a mão lentamente até os cabelos longos e castanhos da outra, passando a mão desajeitadamente entre os filhos. Virou seus olhos para Dalan, ainda adormecido na grama. - Desculpa.

 Amanda ainda choramingou por mais um tempo antes de se separar, agarrando os ombros da companheira e fitando seu rosto profundamente com seus olhos vermelhos. - Nós não vamos mais nos separar. Está entendido?

 - S-sim. - Respondeu Sophie, desajeitada. Amanda passou o braço no rosto para enxugar as lágrimas, continuando com a voz grogue.

 - E o que vamos fazer agora? - Perguntou.

 - Eu consegui enganar os orcs, mas temos que nos afastar. Eles ainda estão por aí. - Virou o rosto para o rio, iluminado fracamente pela lua. - Temos que seguir adiante. Encontrei um barco que vai servir para a gente.

 - O quê? - Perguntou Amanda, inclinando o rosto. Sophie respirou fundo, notando a extensão do corpo d'água. Não parecia ter fim, e sua correnteza se agitava cada vez mais conforme seus olhos avançavam. Ao fundo uma cadeia de montanhas se erguia imponente, um marco de coisas ruins pela frente, mas tinham uma outra tarefa arriscada antes.

 - Vamos atravessar o rio.

Atos Finais