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17 de julho de 2015

Conventionis: Capítulo 9 - Sobre dois exércitos




 No momento em que Sophie era atacada, Dalan e Amanda chegavam à clareira de outrora. A garota parou para recuperar o fôlego e limpar o suor da testa, exausta, mas não era nada comparado ao companheiro. Dalan apoiou as mãos nos joelhos e se concentrou em não vomitar, encharcado da cabeça aos pés. Seu corpo inteiro tremia, e os cabelos empapados estavam grudados à testa. Parecia prestes a desmaiar.

 Amanda ficou o observando por alguns segundos antes de suspirar fundo e colocar as mãos nos quadris. - Por que você é assim? - Perguntou com os olhos fechados.

 O rapaz demorou alguns segundos para responder, exaurido. - Quê? - Foi tudo o que conseguiu dizer.

 - Você sabe, assim! - A garota se aproximou, abrindo os braços. - Sempre parece afastado da gente, abandona Sophie, mas está quase se matando proteger ela! Qual é o seu problema?

 Dalan não respondeu, preferindo virar a cabeça para o outro lado. Já tinha se aberto demais com Sophie, não iria cometer o mesmo erro de novo. Não poderia ficar nutrindo laços se quisesse se separar das garotas quando fosse necessário.

 Amanda não tomou o silêncio com alegria. - Escuta. Eu não sei o que passa na sua cabeça. Quer dizer, até tenho algumas ideias, mas isso não vem ao caso. - Ela ficou ao lado do outro, esperando até que ele a encarasse. - Só sei que temos que nos ajudar se quisermos sobreviver. E tenho certeza que você sabe disso.

 O garoto a encarou em silêncio, respirando profundamente. Sabia que ela estava certa. Só que tinha que chegar a Steamunk de qualquer maneira, e se relacionar com elas só tornaria a decisão de seguir em frente mais difícil. Endureceu o queixo e puxou o ar. - Amanda, eu--

 Naquele momento um corpo voou por cima dos dois, batendo com um estrondo nas árvores. Os dois viraram a cabeça quase que hipnotizados, reparando na cena de destruição que se formara por volta de onde ele havia caído. Antes que pudessem ter outra reação, um som do outro lado os fez se virarem novamente, percebendo que um orc havia chegado à clareira. Ele segurava nas duas mãos um martelo gigante, e da cabeça da arma estouravam raios verdes. O invasor encarou os dois garotos e bufou, se preparando para atacá-los.

 - Cuidado! - Gritou Dalan, puxando Amanda para si. Os dois caíram no momento em que o orc batia com o martelo no chão, criando uma onda de choque que destroçou o lugar onde haviam estado antes.

 - Em nome de tudo que é mais sagrado, o que está acontecendo? - Berrou a garota com os olhos arregalados. A criatura se preparava para mais um ataque quando um raio de luz a acertou pelas costas, desintegrando seu coração. Ele caiu de joelhos e desabou no chão em um movimento lento e truncado, deixando os garotos enxergarem a cena de guerra atrás dele. Todas as árvores em uma linha reta haviam caído, e, à distância, humanos, elfos e orcs gritavam em uma sinfonia de clarões, tiros e o som de armas se beijando.

 - O que é isso? - Perguntou Dalan enquanto se levantava. O caos pipocava ao longe, seus sons ecoando na mata fechada. Amanda o acompanhou, seu cabelo desembaraçado tapando seu rosto.

 - Quando Sophie sumiu, ela tinha ido naquela direção? - Perguntou, se virando para o companheiro. Este se localizou e concordou com a cabeça, ainda absorto no show de luzes. - Ótimo. - E com isso ela desatou a correr, tirando o rapaz do estupor.

 - Ei, ei, ei! - Gritou ele, dando um pique para segui-la. A adrenalina havia restaurado seu corpo. - Você quer ir justamente ali? No meio de tudo aquilo? - A garota parou e virou o rosto para encará-lo de relance.

 - Você pode ficar se quiser. - E com isso voltou a disparar.

 - Amanda! Amanda! - Dalan continuou onde estava, sentindo o coração martelar seu peito. Deveria segui-la ou iria ficar parado? Tinha a chance de finalmente se separar delas e seguir seu caminho, livre de qualquer preocupação futura. Era sua maior oportunidade.

 Estava quase convencido quando viu um orc correr na direção de Amanda. A partir daí, só percebeu que havia agido no momento em que gritava. - Abaixa! - A garota nem havia conseguido se virar quando o rapaz se jogou contra suas pernas, derrubando-a no chão. A espada do orc varou o ar e acertou uma árvore próxima, onde a lâmina se fincou. - Corre! - Puxou ela pelo braço e seguiu em frente enquanto a criatura tentava soltar sua arma.

 - Então fez sua mente? - Perguntou Amanda, meio sorrindo e meio agitada demais para qualquer outro sentimento. Corriam agachados, passando por estouros e lanças arremessadas ao léu. A garota olhou para frente e segurou a cabeça do companheiro para o empurrar para fora da trilha desmatada, bem a tempo de esquivarem das flechas atiradas por um elfo.

 - Agora não! - Ele a agarrou pelos ombros e giraram ao redor do tronco, deixando o espaço para um homem e um orc que se espancavam.

 - Você que sabe! - A garota estendeu a mão e gerou uma lufada de vento que afastou uma nuvem de agulhas. - Sabe onde deve estar Sophie?

 Tenho certeza de que ela no lugar mais difícil possível, pensou Dalan enquanto saltavam para longe de uma rajada de balas. E estava certo.

 Sophie observava a batalha de sua cela, colada às barras de ferro. Pessoas voavam e tingiam o ar de sangue vermelho, parecendo se esquecer completamente dos prisioneiros. - O que é isso? - Perguntou para Garroch, que ria abertamente.

 - A prova de que a Aliança não está morta! - O homem segurou as barras com força, encostando a testa no metal frio. - Vamos chutar esses malditos até o outro lado da Fronteira de uma vez por todas!

 A garota voltou a observar a batalha, incapaz de compartilhar da certeza do outro. Pelo que observava a luta estava bem equilibrada, mas os orcs e os goolas tinham os reféns como vantagem. Se estivessem perdendo, iriam dar essa cartada para virar o jogo.

 Pensava assustada nisso até que duas pernas verdes apareceram à sua frente. Ela levantou a cabeça e conseguiu identificar Lordred a encarando com fúria velada. O coração da garota imediatamente parou de bater por alguns instantes.

 - Ei, ei, ei! - Tentou intervir Garroch, mas a cela o impediu. Lordred, por sua vez, agarrou o topo de madeira da prisão de Sophie e o arrancou com facilidade. A garota só conseguiu observá-lo, tremendo da cabeça aos pés. Não havia salvação, diziam os olhos vermelhos do orc.

 - IAAAAAH! - O grito foi tão estridente que até mesmo o ser verde se virou para saber o que estava fazendo enquanto Sophie ofegava. Dalan e Amanda haviam adentrado na clareira, tão embolados um no outro que pareciam um casal bêbado. Acabaram tropeçando e caindo um no outro.

 Amanda caiu com uma das mãos na grama e a outra na cabeça do companheiro, esmagando seu rosto na grama. Levantou a cabeça, agitada, e avistou Lordred e a cela aberta de Sophie. Seu rosto perdeu a cor. - Dalan? Dalan? Dalan?

 - O quê? - Disse ele com a voz abafada pelos esmagamento, uma situação estranhamente comum nos últimos dias. Do outro lado, Lordred arrancava uma barra de ferro com violência, girando o corpo para os outros dois. Parecia ter identificado as vestes deles.

 - DALAN! - Era a vez de Sophie gritar, mas o orc já havia arremessado o projétil. Amanda rangeu os dentes e esticou as duas mãos, conjurando uma rajada de vento que fez a barra virar em pleno ar. Ela girou e acertou a terra bem em frente aos olhos de Dalan, que encarou aquilo com horror.

 - Levanta, levanta! - Amanda o puxou pelos ombros. Lordred urrou e arrancou mais um pedaço da cela de Sophie, agora se encaminhando com passo firme para os outros garotos. Dalan, ainda aterrorizado, colocou as mãos no chão e congelou o uma rota até o orc, fincando seus pés no gelo. Ele gritou e tentou se soltar, quase tropeçando.

 O garoto tirou os olhos daquela cena e voltou suas atenções para a jaula. Não havia mais ninguém lá. Se perguntava o que havia acontecido quando Sophie se materializou à sua frente, ofegante. - O que vocês estão fazendo aqui?

 - Viemos te salvar. - Soltou Amanda, olhando para Lordred, que se libertava. - Espero que alguém tenha tido a mesma ideia do que a gente. - Naquele momento um feixe de energia surgiu da floresta para acertar a clareira, levantando poeira e pedaços de terra. Os três garotos foram derrubados pela potência, se amontoando um em cima do outro. Sophie foi a primeira a se recompor, e através da confusão avistou o vulto do orc se aproximando.

 - Ah... gente? - Tentou puxar os companheiros pelos braços, mas não tinha força. O inimigo se aproximava, ameaçador mesmo encoberto. Sophie sentiu o suor escorrer pelas têmporas e largou os outros, aceitando a morte.

 - HAAAA! - Garroch voou da poeira e pulou em cima de Lordred, desequilibrando-o. O orc tentou se livrar, mas o homem o agarrou pelo pescoço para puxá-lo para trás. - VÃO, VÃO, VÃO! - Gritou para os jovens, e antes que a garota loira pudesse fazer alguma coisa, Dalan já a estava puxando.

 - Temos que sair daqui! - Gritou através dos sons de tiros, se agachando. - Sabe por onde?

 - Eu... - Ela olhou para os lados, tentando se localizar, mas notou Amanda revirando uns baús pequenos no chão, parecendo alheia à luta que tomava conta da clareira. - Amanda!

 - Já vou, já vou! - Respondeu ela agitada, abrindo freneticamente o que encontrava. - Só estou procurando uma coisa!

 - O que é tão importante para procurar agora? - Perguntou Dalan, o rosto contorcido pelo nervosismo.

 - A esmeralda dos meus pais! - Gritou a garota, abrindo um baú de madeira escura. Sophie e Dalan se entreolharam, sabendo que nenhum dos dois conseguiria convencer a outra naquela situação.

 - Certo... - Começou a loira, batendo de mansinho no ombro do companheiro. - Vamos... vamos pegar suprimentos. Tem algumas mochilas por aí que devem estar cheias. Temos que recolher o suficiente para podermos viajar tranquilos.

  Uma bomba estourou à distância, perto o suficiente para que eles sentissem o calor. - Tranquilidade é uma palavra meio fora do meu repertório agora, mas entendo o que você quer dizer. - Respondeu o rapaz, encolhendo um dos ombros.

 - Vamos. - Os dois se separaram, correndo agachados. Sophie se aproximou de sua cela, onde algumas mochilas jaziam em uma pilha. Ela as vasculhou nervosa, jogando longe as vazias, até que se deparou com uma ensanguentada. Engoliu em seco e a puxou, sentindo o peso. Estava cheia. A garota a abriu com as mãos trêmulas, notando alguns livros bem familiares. Com horror, viu que eram livros de treinamento da Guarda Reluzente.

 Virou a cabeça na procura de Lordred, mas não conseguia mais encontrá-lo. A garota olhou de novo para a mochila, tendo a impressão de que ela havia sido saqueada durante o ataque a Durandar. Isso significava que Lordred estava lá naquele dia? Se ele havia conseguido sobreviver e fugir da cidade... haveria alguém atrás dele. Leon não deixaria o orc escapar.

 Sophie continuava absorta em pensamentos quando viu o goola se aproximar. Levantou a cabeça para encará-lo, mas já era tarde demais. A criatura balançou o braço gelatinoso tão semelhante a um chicote e a acertou de baixo para cima, diretamente no queixo. A garota voou com a mochila, caindo pesadamente alguns metros à distância.

 Cuspiu o sangue da boca meio zonza, tentando se apoiar. Abriu os olhos e avistou uma espada longa em um monte próximo, quase que sorrindo para ela. Ouviu o goola correr em sua direção e se esticou para agarrar o punho da arma, girando-a para se defender. A lâmina cortou o braço da criatura, que gritou em um som agudo.

 Sophie aproveitou para se levantar e assumir posição, com os joelhos dobrados e a espada em riste. A adrenalina tomava conta de seu corpo, diminuindo o andar do tempo. O goola se encolheu para segurar o ferimento e girou o corpo no mesmo movimento, esticando o braço que faltava. O membro veio na direção da garota tal qual um chicote, mirando sua cabeça. Ela abaixou e tentou acertá-lo com a ponta da espada, mas não alcançou.

 O goola abriu a boca e gritou, mostrando sua infinidade de dentes afiados. Usou o braço decepado para tentar acertar a garota novamente, mas ela deu um passo para frente e enfiou a espada em seu peito. Não houve sangue espirrado, mas a lâmina se enfincou na pele gelatinosa com dificuldade. A criatura não soltou nenhum som, e desabou como um trapo em cima de Sophie. Ela fez força com o ombro e jogou o corpo no chão, apoiando o pé na grama para arrancar sua arma. Deu dois passos para trás, respirando fundo e fitando seu trabalho. Nossa.

Abriu um leve sorriso, até perceber a sombra que crescia acima dela. Se virou, vendo que Lordred a encarava, coberto de sangue. Sangue que não era dele. Sophie só teve tempo de abrir a boca antes do orc socá-la no rosto, arremessando-a até a borda da clareira em um borrão.

 A garota acabou de costas na grama, segurando o rosto ensanguentado. Não teve tempo de se levantar antes de ser pisoteada no tórax, espirrando sangue para o alto. Sentiu várias costelas estalarem.

 - Sophie! - Eram Dalan e Amanda, correndo em sua direção. A garota jogou uma caixinha no orc, ato tão infrutífero quanto a cotovelada do rapaz nas costelas da criatura, que os ignorou solenemente. Seus olhos vermelhos estavam vidrados apenas na presa aos seus pés, e aumentava a pressão para ouvi-la gritar.

 Dalan rangeu os dentes, desesperado. Olhou para os lados e encontrou a espada que Sophie havia perdido. Correu para buscá-la e mais ainda para tentar atacar Lordred, mas o orc havia notado o perigo e saltou para trás. Amanda imediatamente correu em auxílio da companheira, se ajoelhando ao lado dela.

 - Corram, vocês duas! - Gritou o garoto, segurando a espada de forma trêmula. Mesmo cercados por tanto caos, a figura gigantesca do orc roubava toda a atenção. Ele estreitou os olhos, notando os uniformes incompletos de Dalan e Amanda, aparentemente reconhecendo-os. Rugiu e disparou para frente com os punhos em riste.

 O rapaz se assustou pelo movimento súbito e tentou balançar a arma na direção do adversário, mas ele a tirou de suas mãos com facilidade. - DALAN! - Gritou Sophie, ainda no chão, mas não havia como fazer mais nada.

 Foi como se o tempo tivesse desacelerado pela segunda vez naquela tarde. A mão gigante de Lordred segurou a espada roubada e a estocou para frente. A lâmina encontrou tecido, pele, músculos e órgãos antes de sair do outro lado do corpo do rapaz, enfincada entre duas costelas. Amanda gritou e Sophie apenas entreabriu a boca, o sangue do companheiro espirrando no rosto das duas. Não havia mais nenhum som, nenhuma visão além da cena à frente, nenhum sentido que funcionava.

 Exceto o cheiro da morte.


Atos Finais