Novidades

1 de julho de 2015

Conventionis: Capítulo 8 - Sobre cooperação


 Cada segundo que eu gastava voltando a Gowking era mais um segundo que Sophie ficava sozinha caçando aquele orc. Cada passo que eu dava era uma lembrança que eu era um merda incapaz de cuidar das coisas sozinho. E cada pensamento meu me recordava de que já podia ser tarde demais.

 Pelos deuses, como eu corri.

 Dalan voltou ao vilarejo em apenas vinte minutos, um terço do tempo que levou para chegar à clareira onde havia se desencontrado com Sophie. Assim que se aproximou da placa cravejada de flechas, curvou o corpo e procurou não vomitar. A fumaça que vinha das casas o encontrou como um véu, e ele desabou sem ar.

 - Dalan? Dalan! - Amanda correu em sua direção, seguida de longe pelas crianças pelas quais estava responsável. Deslizou os últimos metros para se ajoelhar ao dele, virando-o para cima. - O que aconteceu? Ei! - Deu alguns tapas no rosto do companheiro para acordá-lo, alguns fortes demais.

 - Escuta. Sophie... - O rapaz se afastou das mãos dela, girando o corpo para se apoiar na grama. Tentou se levantar, mas só conseguiu tremer no mesmo lugar. - Sophie... ela encontrou um orc na floresta e... foi atrás dele.

 - Um orc? - O rosto dela ficou branco, e se virou para a estrada. - Ela foi atrás dele sozinha? E o que você está fazendo aqui? - Perguntou a garota, virando minimamente o rosto e arregalando os olhos. Dalan desviou o olhar, sentindo o estômago queimar. - Dalan...

 - Eu não... - Agora era o rosto do rapaz que queimava com a vergonha. Engoliu em seco. - Eu vim...

 - Você abandonou ela!? - A garota levantou as mãos, parecendo furiosa. - Não acredito que você fez isso, Dalan! Eu realmente não acredito! - O outro também não conseguia crer no que tinha feito. Realmente, tinha que ter acompanhado Sophie de qualquer jeito. Por que só estou pensando nisso agora?

 Ele se levantou com dificuldades, deixando Amanda bufar. - Não tenho nenhuma desculpa para o que eu fiz. - Disse com o cabelo por cima dos olhos.

 - Não tem mesmo! - Ralhou a garota, o olhar em um misto de fúria e decepção. - Como você deixou ela sozinha? Qual é o seu problema? - Não faziam contato visual, mas de alguma forma ela sabia o motivo dele ter vindo. Aprendera isso em Durandar. - Você precisa que eu te arraste pelo braço para fazer o que é certo? - Perguntou por entre os dentes, se aproximando.

 Dalan a encarou com surpresa. Imediatamente depois, seu rosto ficou ainda mais vermelho. - Não, eu...

 Amanda não esperou que ele respondesse. Ao invés disso, se virou preocupada para as crianças que a esperavam. - Eu já volto, tudo bem? Juro que volto. Avisem ao tio Garner para esperar algumas horinhas. - Com isso ela se virou para o companheiro, fechando o rosto. - O que estamos esperando, então? Vamos buscar Sophie!

 Ela agarrou o braço dele e disparou pela estrada. Dalan foi pego de surpresa e quase tropeçou, mas conseguiu controlar as pernas exaustas. Sentia algo queimar por dentro, um misto de raiva de si mesmo, vergonha e uma ligeira admiração por Amanda que o deixava mais irritado ainda. De alguma forma ela havia entendido o que ele mesmo não havia conseguido, e isso não era agradável em nenhum ponto de vista.

 Enquanto isso, Sophie se embrenhava na floresta para procurar o orc. Não era difícil se manter no rastro. Galhos caídos e grama pisoteada marcavam o caminho pelo qual a criatura havia passado, bem como por onde tinha arrastado seu refém. Sangue ocasionalmente manchava o trajeto, e Sophie sentia um peso gélido descer pelo seu esôfago cada vez que isso acontecia.

 Em uma delas ela parou para apoiar as costas em um tronco, percebendo que estava suando frio. Pra quê estou fazendo isso, se perguntou no que parecia um momento de lucidez. Estava atrás de um orc, sozinha e sem nenhuma arma. Devo ser uma idiota, pensou. O que eu esperava fazer quando o encontrasse? Não tenho nem mesmo uma arma. Estava prestes a desistir quando olhou para baixo e avistou sua manta verde. A mesma manta que havia recebido no dia em que entrara para a Guarda Reluzente. E com isso ela se lembrou do motivo de estar ali. Recuperar sua honra. E tinha que salvar o refém para isso.

 Apertou o tecido para juntar forças no momento em que um grito cortava a floresta. - GRAAH! - O susto foi tão forte que a garota quase saiu do chão no sobressalto. Se virou agitada na direção do som, seu coração querendo sair do peito. Quase que hipnotizada ela seguiu em frente, se deslocando invisível na floresta apertada até encontrar uma clareira, e a visão ali lhe tirou qualquer reação.

 Haviam dezenas de orcs na clareira, patrulhando os arredores com machados, espadas e armas de fogo. Olhavam mal-encarados para as árvores, como se esperassem que elas os atacassem. No centro, prisioneiros encarcerados se lamentavam e clamavam por ajuda. Eram homens e mulheres, humanos e elfos, todos cercados por jaulas de ferro individuais e grandes pulseiras nos pulsos. Vários sangravam. Uma elfa tinha uma lança partida enfiada no ombro, e chorava copiosamente. Ao redor das celas, diversos baús e equipamentos se espalhavam pela grama, reluzindo ante a luz do sol.

 Sophie colocou a mão na boca, aterrorizada. Aquilo era muito mais do que estava esperando enfrentar. Deu um passo inconsciente para trás e ouviu algo farfalhar entre as árvores. Virou o pescoço e quase infartou.

 Uma figura esguia se camuflava entre as sombras da floresta, sua pele azulada e gelatinosa brilhando palidamente. As pernas eram longas, o corpo, magro, e os braços compridos caíam perto dos joelhos. Ele não possuía dedos, e sim uma massa disforme que afunilava como uma única garra. Seu rosto, por sua vez, era sinônimo de pesadelo. Dezenas de dentes finos cobriam metade da cabeça, quase que eclipsando as narinas de cobra e os pequenos olhos vermelhos. Uma espécie de crina vermelha descia do topo de sua cabeça até o meio das costas, completando o visual terrível. Sophie reconheceu a criatura, direto de seus livros em Durandar. Era um Goolath, uma das doze espécies do exército de Zemopheus.

 O Goolath caminhou em um movimento incerto até parar ao lado da garota. Ele então esticou o pescoço, balançando a cabeça para os lados. Sophie não conseguiu reagir, apenas agradecendo aos deuses por estar invisível. No entanto, alguma coisa martelava sua cabeça. Tentou decifrá-la naqueles instantes tensos, mas só percebeu o que era quando a criatura se virou para ela.

 Os Goolath não precisam da visão para sentir o ambiente.

 O braço do ser se enrolou no pescoço dela como uma cobra, lhe tirando a respiração. A garota conseguiu apenas arfar antes do Goolath a arremessar de encontro à clareira, rolando violentamente na grama. Os orcs grunhiram e se agitaram enquanto ela tossia e tentava se levantar, mas um braço que mais parecia um chicote a acertou nas costas para derrubá-la novamente.

 Sophie sentiu uma das costelas estalar e arfou com a boca na grama, contorcendo o rosto perante à dor. Sentiu o medo começar a tomar conta de seu coração. Procurou mais uma vez ficar em pé mas um pé gigante esmagou suas costas. Ela gritou com o sangue na boca. Não havia como reagir.

 Uma mão grande agarrou sua cabeça e a levantou pelos curtos cabelos, a forçando a abrir os olhos e encarar o inimigo. Era um orc de meia-idade, com apenas o olho direito e uma cicatriz pequena no lugar do esquerdo. As presas possuíam lascas e um corte na testa marcava o cabelo curto, marcas de batalha que talhavam o corpo musculoso e gigante. A pele verde era escura e desbotada, exposta pelo peito nu e tatuado com faixas negras que formavam traços verticais nos ombros. Ele levou a mão até a capa de Sophie, esfregando seus dedos grandes no tecido fino. Um ar de fúria passou por seu cenho, e o coração da garota parou.

 Aquele orc já esteve em Durandar.

 Sophie sentiu a força do aperto na cabeça aumentar, provocando lágrimas que desceram por seu rosto. Estava claro que seu captor reconhecia a Guarda Reluzente, e por seu olhar ele não tinha boas lembranças. O orc a arremessou com força no chão, a força do golpe parecendo quebrar todas as costelas da garota. Ela por sua vez não procurou se levantar, mas sim engatinhar de costas para longe, tomada por um medo primordial.

 Deuses... Suas mãos estavam tremendo perante ao instinto assassino do outro. que se agigantava à sua frente. Percebeu que estava chorando através dos olhos arregalados. Ele vai me matar, pensou. Abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.

 Uma mão verde a agarrou pelo pescoço e a arrastou para longe. O susto a impediu de ter qualquer reação, e se permitiu ser levada até uma das jaulas. Foi arremessada ali sem cerimônias enquanto que alguns orcs ralhavam com o caolho que havia a atacado. No entanto, Sophie mal percebeu aquilo, ocupada hiperventilando enquanto o alívio tomava conta de seu corpo.

 Com um soluço truncado, ela desatou a chorar copiosamente. Havia posto na cabeça de que conseguiria se superar, provar seu valor para a Guarda Reluzente, mas a realidade lhe mostrou o contrário. Sentiu a familiar raiva de si mesma crescer em seu coração e apertou o chão da jaula com força, se ajoelhando para frente até a testa encostar na superfície. Tinha vontade de gritar, de explodir com tamanha decepção consigo mesma. Era uma covarde que não fazia nada direito. E recebera mais uma prova disso.

 - Ei. - Disse uma voz. Ela abriu os olhos mas não levantou a cabeça, percebendo pelo canto da visão um homem a observando. Ele tinha os cabelos loiros e encaracolados, e vestia um traje laranja e marrom. - Não se assuste com Lordred. Apenas late, mas não morde.

 - Lordred? - Perguntou a garota.

 - O orc que a atacou. - Respondeu o homem. - Ele não irá fazer nada com você agora. - O homem se ajeitou em sua cela, se aproximando das grandes. - Meu nome é Garroch. Claude Garroch.

 - Sophie Helder. - Respondeu a outra. Se sentou com o rosto vermelho e deu uma espiada ao redor. Os orcs pareciam ter se acalmado, voltando às suas posições de sentinela. Lordred estava fora de vista, mas sua presença continuava na mente da garota, que se encolheu com a lembrança. - O que vão fazer com a gente?

 - Provavelmente nos usar como reféns. - Ele sorriu, e o ato fez com que Sophie franzisse o cenho.

 - O que é tão engraçado? - Perguntou com aspereza.

 - Ah, nada. - Garroch levou a cabeça para cima, espiando a quina da cela. - Apenas prova que eles estão com medo. Medo o suficiente para procurarem uma alternativa pacífica.

 - Medo de quê? - O homem ampliou o sorriso, tão tranquilo como se estivesse em sua própria casa.

 - Do contra-ataque.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

É O SEGUINTE, SEUS PUTOS. A vida está complicada e cheia de tarefas nesse fim de período, então não consegui terminar o capítulo da semana. Sexta (dia 3 de julho) eu irei terminar a segunda parte.

Aproveito o momento para lembrá-los que CONVENTIONIS TEM PDF AGORA. Baixem os 7 capítulos até agora e se divirtam. Até sexta.

Atos Finais