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31 de julho de 2015

Conventionis: Capítulo 11 - Sobre águas passadas



 Eu tinha alguns problemas em escrever no diário de Dalan, mas Amanda me convenceu que ele gostaria de ter um relato do que aconteceu enquanto estava desmaiado. Bem, aqui vou eu. Espero que não se incomode, Dalan. Juro que não li as páginas anteriores, mas... acho que Amanda leu. Digo, ah, droga. Tenho que riscar isso. Você costumar riscar em seu diário? Queria manter o seu modo de escrita, mas não quero ler suas coisas...

 Juro que não vou ler. Juro.

 Você não vai acreditar em mim, né? Ah, Amanda...

 Sophie torceu a boca e levantou a cabeça, fitando a floresta escura à sua frente. Estava de costas para o rio, sentada na grama com o diário nas pernas e Dalan, adormecido, ao seu lado. Aguardavam Amanda voltar com o barco que a loira havia achado mais cedo, de forma a zarparem antes do sol nascer.

 Um respingo d'água acertou as costas da garota, que se virou com o susto. A correnteza estava agitada naquela noite, sua fúria iluminada pela lua pálida. Sophie se acalmou e voltou seus olhos para a floresta. Pensou nos orcs que haviam a perseguido antes, e uma tremedeira passou pelo seu corpo, independente da madrugada fria.

 Espero que as coisas estejam calmas em Durandar, pensou, e aproximou os joelhos do rosto. As terras ao redor da cidade estavam tomadas de orcs, e era muita ingenuidade pensar que eles tudo iria ficar tranquilo. Vão tentar invadir de novo.

 Algo se contorceu em seu estômago, e a garota, pela primeira vez desde que começou sua viagem, pensou em voltar. Queria ter certeza de que seus companheiros estavam bem, de que a cidade não havia sido arrasada, de que ainda existia resistência ao avanço orc. Só que, naquele momento, ela se lembrou do rosto de seu ex-comandante e se encolheu. Leon não a aceitaria de volta na Guarda Reluzente ainda. E não adiantaria nada voltar se não conseguisse a readmissão. Com um deslizar dos dedos no cabelo, ela esqueceu da ideia tão rápido quanto havia surgido.

 Alguns minutos depois, um som arrastado surgiu ao norte. Amanda estava retornando com a embarcação, arfando com o esforço. Era um pequeno barco em formato de bala, suas tábuas pintadas de branco com exceção das bordas verdes. Aurora era o nome dele, escrito em belas letras curvadas na proa. Sophie franziu a testa ao ler aquilo, mas a sensação estranha que teve sumiu rapidamente.

 - Aqui está. - Soltou Amanda, largando o barco e passando a mão na testa suada. Se sentou na borda e levantou a cabeça para o céu, o vento balançando seus cabelos embaraçados. Enquanto isso, a outra garota se aproximava da embarcação.

 - Muito bom, Amanda. - Disse ela distraída enquanto averiguava o interior do Aurora. Haviam três tábuas que usariam como assentos, assim como dois remos em boas condições. Remendos pipocavam em toda a extensão de madeira, fazendo com que Sophie se sentisse um pouco nervosa. Mesmo assim, não tinham opção. Jogou a mochila ali dentro e retirou o mapa, abrindo-o por cima de uma das tábuas. Sua companheira se virou para acompanhá-la.

 - Vamos ter um problema. - Começou a loira, se inclinando e mordiscando o lábio. Se virou para o rio atrás dela, que agora conhecia como Lor, observando sua corrida agitada. - A correnteza vai acabar nos empurrando para o sul, e não temos força para impedir isso. - Disse ao se virar novamente para o mapa, traçando uma linha diagonal no desenho do corpo d'água com a unha.

 - Eu tenho a impressão de que isso é meio ruim, não é? - Perguntou a outra. Sophie passou o dedo lentamente pela rota que havia criado, Seguiu o rio com os olhos, notando que ele desembocava em um grande lago redondo. Um formigamento passou por sua coluna, e sabia que não gostariam de estar ali.

 - Se não chegarmos perto de Tukundra, estaremos seguras. - Apontou para o lago. - Pelo que eu sei, a correnteza fica mais forte nessa região, e são poucos os barcos que conseguem atravessá-la em segurança. Com certeza, o Aurora não vai ser um desses. - As duas olharam para os reparos da embarcação, concordando mentalmente.

 Amanda se jogou de costas no barco, sentando em uma das tábuas. - O que vamos fazer então?

 - Bem, acho que, se não pararmos de remar, estaremos bem. Temos que manter um ritmo forte para evitar qualquer perigo. - Sophie tentou calcular suas chances com base no diâmetro do Lor, mas não tinha como fazer aquelas contas na situação atual. Teriam que rezar. - Quando chegarmos na outra margem, vamos seguir noroeste até Steamunk. Essa é a cidade de Dalan, não é?

 - Acho que sim. Posso olhar no diário dele, se quiser... - A garota já estava se inclinando para puxar o livro, mas foi impedida por uma agitada Sophie.

 - Não, não, não! - Se apressou, corando, antes de voltar à posição de antes. - Foi uma pergunta retórica. De qualquer jeito, vamos ter um longo caminho até lá. - Voltou sua atenção para o mapa, imaginando as rotas até Steamunk. Caso continuassem seguindo o rio pelo norte, encontrariam uma barreira natural feita pela cordilheira de Alas, que cercava o oeste do Lor. Teriam que atravessá-la caso quisessem seguir adiante, e isso não era nem um pouco aconselhado.

 Território selvagem, dizia o mapa. Assim que atravessassem as montanhas de Alas, estariam por sua própria conta. Lugares como aquele eram denominados dessa forma pois a Aliança não possuía nenhuma representação ou defesa daqueles locais, principalmente depois que as guildas do passado foram extintas na Era das Vitórias. Eram terrenos abandonados à monstros e magia antiga, oriundos de épocas que datam desde a criação do mundo até a última invasão de Zemopheus. Nenhuma pessoa em sã consciência faria uma travessia dessas, mas não tinham opção.

 - Então vamos para Steamunk? - Perguntou Amanda, cortando os pensamentos da outra. - E a esmeralda dos meus pais?

 - Eu pensei sobre isso. - Começou a loira, guardando o mapa. - Não temos nenhuma pista ou direção dos orcs que assaltaram sua casa. Já Dalan tem um objetivo claro. Talvez seja melhor acompanhá-lo e ficar de olhos abertos para qualquer acampamento orc no caminho. - Sophie se apoiou na borda do barco, fitando a companheira. - Se mesmo assim nada funcionar, podemos entrar no exército da Aliança para continuar de olhos nos acampamentos e nos itens resgatados.

 Amanda torceu o rosto e se virou de costas, fitando a floresta. Ficou alguns segundos calada e voltou com o rosto vermelho, mas acabou concordando com a cabeça.

 - Vamos lá, então.

 Alguns minutos depois, navegavam pelo rio Lor madrugada adentro, já alcançando a metade do trajeto. As duas garotas remavam desajeitadamente o barco enquanto que Dalan permanecia no chão da embarcação, adormecido. Respingos d'água acertavam seu rosto de vez em quando, mas ele não fez questão de se levantar.

 Sophie remava em silêncio no lado direito, tendo a margem leste do rio à sua frente. A floresta que abandonara agora a encarava, e em sua escuridão conseguia enxergar o Emaranhado de Stranville, o vilarejo de Gowking e até mesmo Durandar. E agora não sabia se um dia voltaria a vê-los. Sentiu o aperto no coração por causa disso, mas ele ficou ainda mais forte quando o Aurora deu uma guinada para o sul.

 - Amanda? - Perguntou agitada. Amanda estava verde ao seu lado, com a boca fechada e o rosto suado. Seu remo estava mergulhado inutilmente na água, contribuindo para o giro do barco.

 - Eu não estou me sentindo bem. - Disse, e se jogou por cima da amurada para vomitar no rio. Sophie olhou para o sudoeste, calculando as chances. Se continuassem como estavam, chegariam em Tukundra muito antes da margem. O que significava a morte.

 - Tudo bem, tudo bem! - Tentou acalmar em voz alta quando Amanda retornou para dentro do barco. Precisava que a garota se distraísse urgentemente, ou estariam no fundo do rio. Dalan permanecia desmaiado, inútil naquela situação. - Vamos conversar, certo? Ignorar a correnteza! - Amanda acenou positivamente com a cabeça, nervosa.

 - Então... - Começou Sophie, ainda de olho na margem leste. - O que você fazia antes de... antes de tudo isso?

 Amanda puxou o remo e começou a refazer os movimentos, engolindo em seco. - Eu morava só com os meus pais. Não tinha muita coisa pra fazer.

 A loira suspirou, sabendo que teriam que continuar conversando se quisessem sobreviver. - Meus pais morreram quando eu era criança. - Disse, e a outra se virou para encará-la. - Desde então, fui criada em um orfanato da Guarda Reluzente até os meus dezesseis anos. Foi quando decidi retribuir eles, sabe? - A lembrança de que tinha sido expulsa voltou com força, e ela sentiu o pescoço arder enquanto o estômago se embrulhava. - São minha única família.

 O Aurora se virou perigosamente para o sul enquanto Amanda absorvia aquilo, remando lentamente. - Eu não imagino como isso deve ser. - Disse com os olhos marejados.

 - Não foi tão ruim! - Acrescentou rapidamente Sophie, tentando impedir a outra de parar. - Quer dizer... - Ela olhou para a correnteza iluminada pela lua, sabendo que, na verdade, tinha sido ruim, sim. - A gente aprende a se virar. - Amanda fechou ainda mais a cara, o que forçou a loira a continuar, mesmo não tendo o ato de conversar como uma de suas melhores habilidades. - E os seus pais? Você... sabe onde eles estão?

 A garota desviou o rosto. - Não. Eles costumavam sair para vender os artesanatos que faziam nas cidades mais próximas. Nunca cheguei a ir com eles porque sempre alguém precisava ficar para cuidar da casa, mas eles costumavam passar umas duas semanas fora.

 - E por que vocês moravam na floresta? - Perguntou a loira, remando um pouco mais lento para adequar seu ritmo ao da companheira. - Durandar era bem perto.

 - Meus pais não gostavam da cidade. Eles sempre sonharam em morar no campo, sem nenhuma preocupação ou algo do tipo. - Amanda estava pálida, mas a conversa a fazia continuar remando. - Eu cheguei a me estressar com eles quando era adolescente, mas depois me acalmei.

 - Bem, a cidade nunca me incomodou. - Continuou a outra. - Eu me acostumei ao ritmo pesado desde cedo, mas... - Suspirou. - Sei lá. Era um pouco solitário.

 - Você não disse que foi criada pela Guarda Reluzente?

 - Sim, mas ninguém tinha tempo para mim. - Respondeu Sophie, virando o rosto para a companheira. - Eu cresci fazendo tarefas pequenas para os membros da Guarda, e eles gostavam de mim, mas sempre estavam muito atarefados. - Olhou para o chão, deixando seu pensamento divagar. - Mas é como você disse. Isso me incomodava há alguns anos, mas fui me... acalmando.

  Amanda permaneceu em silêncio. - Você não tem mais que fazer isso. - Disse, olhando fundo em seus olhos. - Eu sei que... ficar sozinha é uma droga. Só que também sei o quão é legal é ficar com outras pessoas. - Arriscou um sorriso, mesmo pelo rosto cansado. - E por isso eu não vou deixar isso acontecer com a gente.

 Sophie corou, desconcertada. - Obrigada. - Respondeu com um sorriso tímido.

 - E nem com esse cara. - Acrescentou a outra, cutucando Dalan com o pé. - Mesmo ele se esforçando pra se afastar da gente.

 - Não diga isso. - Disse a loira. - Ele quase morreu para nos defender. Se colocou entre nós e aquele orc... - Sorriu pensativa para o rapaz adormecido, que balançava no chão úmido do barco.

 - Ele não é uma pessoa exatamente bem da cabeça. - Retrucou Amanda com outro sorriso. - Em vários sentidos.

 Sophie sorriu e olhou para trás, vendo que a margem oeste já estava se aproximava. - Ah, estamos chegando. - Disse, aliviada pelo perigo distante do Tukundra ter se esvaído. Uma pequena faixa de grama separava o rio da enorme barreira de montanhas que formavam a cordilheira de Alas. As elevações eram tão coladas uma nas outras que não parecia haver uma estrada entre elas, com exceção de um pequeno lugar um pouco ao norte, bem visível no dia claro que se iniciava.

 Era uma visão agourenta. Havia uma abertura de cinco metros entre duas montanhas, revelando uma estrada de terra que seguia cordilheira adentro. A entrada era marcada por oito pilares retangulares de pedra escura, dispostos em duas filas de quatro em cada lado da estrada, com o topo se afunilando em uma pirâmide na altura de quatro metros. Diversas marcas e ranhuras formavam formas geométricas no tronco dos pilares, e no topo de cada um havia um olho encarando o oeste. A grama parecia ter desistido de nascer naquela região, deixando apenas a terra morta.

 Sophie engoliu em seco enquanto manobrava o Aurora na correnteza mais fraca. Sabia que se aventurar em um território selvagem era um perigo, mas não esperava que houvesse um portal tão profético na entrada. Sentiu como se um cobertor frio se enrolasse em seu pescoço, a mesma sensação de alguém pisando em seu túmulo.

  A jornada agora começava de verdade.

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VAMOS SÓ APROVEITAR E INAUGURAR A PRIMEIRA FIGURA DE CONVENTIONIS, FEITA PELO QUERIDO AMIGO CARLOS AVENDAÑO!



SEMANA QUE VEM TEM MAIS (Conventionis, só vai ter mais desenho se vocês me mandarem. Me mandem, pfv).


Atos Finais