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17 de junho de 2015

Conventionis: Capítulo 7 - Sobre casais



Segundo Sophie, estamos quase no vilarejo de Gowking, o último lugar sob influência da Guarda Reluzente antes de continuarmos a oeste. E tenho que dizer que achei que nunca chegaríamos. Foi uma viagem bem longa.

Não que tenhamos conversado muito desde o Emaranhado de Stranville. A falta de comida e o medo dos orcs nos deixou calados o dia inteiro. Talvez por isso eu tenha escrito tanto. Acho que já posso começar uma novela aqui. Talvez--

 - A gente deveria se preocupar com Dalan? - Perguntou Sophie, observando o rapaz. Estavam sentados em uma clareira circular, onde mais cedo dividiram o café da manhã. Ela e Amanda estavam no centro, próximas da fogueira ainda em brasas, mas o outro estava escrevendo solitário no outro lado. - É que... ele sempre se afasta da gente para escrever nos papéis dele. Sabe pelo menos o que ele faz? - Se virou para a companheira, deitada na grama fria.

 - É o diário chato dele. - Proclamou a garota com a cabeça apoiada nas mãos. - Sim, eu também achava que era alguma coisa mais interessante.

 - Diário? - Repetiu a loira, observando o outro de relance.

 - Quer que eu vá pegar? - Perguntou Amanda, levantando a cabeça.

 - Não, não, não! - Se adiantou Sophie, balançando as mãos. - É só que... não conhecemos muito dele. - Admitiu ela voltando ao seu lugar e encolhendo minimamente um dos ombros. - Fiquei curiosa, só.

 - Ah, não se preocupe. - Tentou acalmar a morena, voltando a encostar a cabeça na grama com um sorriso. - Eu também não te conheço direito. - Sophie abriu a boca para falar algo, mas nada saiu. Juntou os lábios, mergulhando em seus próprios pensamentos.

 Ainda estava pensativa quando se aproximavam de Gowking pela estrada estreita. Não que Dalan ou Amanda percebessem. O rapaz, cuja mente estava em polvorosa nos últimos dias, se perguntava se continuaria seguindo com suas companheiras após a estadia no vilarejo. Só a outra garota estava em seu estado natural, cantarolando conforme caminhavam pela estrada.

 - Eu acho que é logo ali, não é? - Apontou para uma placa na estrada, indicando uma saída à direita. - Mal posso esperar para dormir em uma cama de verdade. Será que eles... - Ela parou ao chegar na esquina com o queixo pendurado. Não conseguiu dizer mais nada até Dalan e Sophie se aproximarem, também estupefatos.

 Não havia mais um vilarejo em Gowking. Em seu lugar haviam casas de tijolos ardendo em chamas, carruagens tombadas em cima das estradas de terra e um cheiro podre de carne em decomposição ascendendo junto com a fumaça. Sangue manchava o que encontrava em seu caminho, fossem paredes rachadas, grama pisoteada ou até mesmo uma espada cravada na terra, cuja bainha estava rachada. A destruição se estendia pelas ruas adiante, sem parecer ter fim.

 Os três garotos observavam aquilo em silêncio, este quebrado apenas pelo crepitar do fogo. Sophie deu um passo à frente, quase que hipnotizada. Já havia estado ali antes, quando a vila ainda estava de pé. Conseguia ver pessoas humildes acenando a mão para os recém-chegados da Guarda Reluzente. Agora tudo que havia naquele lugar era morte. Seus olhos se encheram de lágrimas que se esforçou para não derramar. - O que aconteceu aqui? - Perguntou com a voz fraca, se aproximando de uma árvore tombada.

 - Eu não... - Era tudo que Dalan conseguia dizer. Tentou enxergar alguma construção de pé, mas as ruas adiante pareciam tão imersas em um pesadelo quanto a entrada do vilarejo. Sophie olhou para as raízes da árvore, identificando uma mão decepada. Levou sua própria mão à boca e se apoiou no que restava do tronco, curvando o corpo.

 - Sophie? - Perguntou Amanda, se aproximando, mas a garota estendeu o braço para afastá-la. Controle-se, pedia a loira para si mesma. As lembranças da cidade, de sua vida quando a visitou pela última vez, tudo se revirava em sua cabeça tentando derrubá-la. Não deixe. Você tem que se mostrar melhor do que isso. Tem que voltar à Guarda. Tem que... Não conseguiu conter dois filetes de lágrimas que desceram por seu rosto, e segurou com tanta força um pedaço de madeira que quase o partiu. Controle-se, por favor.

 - Tem que ter alguém ainda aqui. - Sussurrou Amanda.

 - Tem que ter alguém ainda aqui. - Repetiu Dalan, conseguindo se livrar de seu estupor. Olhou para os lados, sentindo o coração bater mais forte. - O que quer que tenha acontecido nesse lugar, não pode ter matado todos. Não é possível. - Ele começou a subir a rua, acompanhado por uma tensa Amanda. Sophie continuou onde estava, deixando-os seguir em frente. Tremia violentamente, o cabelo loiro tapando seus olhos.

 Os outros dois continuaram seu trajeto no meio das estradas de terra, contornando os destroços ainda recentes e evitando pensar no cheiro acre de morte. A garota parou para olhar um baú jogado entre tijolos desarrumados. Respirou com mais força. - Dalan... - Disse fraquinho, chamando a atenção do companheiro.

 - Nós temos que continuar. - Reafirmou o rapaz. - Não podemos desistir até revirar esse vilarejo da cabeça aos pés. Temos que-- Antes que continuasse a falar, a garota abraçou seu braço e enfiou o rosto em sua pele. Dalan estancou, olhando para baixo na tentativa de entender o que estava acontecendo. - Amanda...

 - Esse lugar me lembra minha casa. - Disse ela com a voz embargada e abafada, quase inaudível. - Todos esses... ah... - Abraçou com mais força o outro, suas lágrimas caindo copiosamente. - Diz que tem alguém vivo. Por favor.

 Dalan fitou os cabelos castanhos da companheira, percebendo que ela também tremia. Abriu a boca sem ter o que falar, sua expressão se misturando entre choque e pena. Também se lembrava da clareira em que Amanda morava e da destruição que havia encontrado. Sem jeito, afagou a cabeça da garota. - Com certeza. - Sussurrou, tentando mascarar suas dúvidas. - Só temos que encontrá-los.

 Ao dizer isso ele levantou a cabeça, deixando seu olhar se perder no meio das ruas destroçadas. Será que alguém realmente sobreviveu, se perguntou. Aquele vilarejo parecia arrasado do início ao fim, Nenhuma alma viva... espera. O garoto olhou de novo para uma parede ao lado dos resquícios de um telhado caído. Havia uma pequena criança o observando, seus cabelos negros manchados de cinzas. Ela e Dalan trocaram um olhar antes da pequena se esconder.

 - Amanda. - Disse o rapaz, tentando se separar dela. - Achei alguém. Vem.

 - O quê? - Perguntou ela, mas o outro já tinha se afastado. Ele corria obstinado, tendo a certeza de que não havia imaginado a cena. Havia uma criança ali, e tinha que ajudá-la. Contornou a parede e enxergou-a se escondendo atrás de um casebre. Correu, mas antes que virasse a esquina uma pá o acertou na testa, o derrubando em uma tempestade de estrelas.

 - Dalan! - Gritou Amanda, correndo logo atrás. O garoto colocou a mão na cabeça e fez uma careta. Acima dele, novas vozes ralhavam umas com as outras.

 - ... disse que era um orc! - Disse uma voz masculina e grossa, aparentemente irritada.

 - Me desculpa, me desculpa, me desculpa! - Essa era infantil e feminina, assustada em todos os timbres. Dalan sentiu uma mão forte o ajudando a se levantar, e quando abriu os olhos avistou um homem grande e careca com uma barba negra se revoltando abaixo do queixo. Atrás dele, um grupo de crianças se encolhia.

 - Pelos deuses, me perdoe. Achei que você era um orc. - Se desculpou a Dalan, envergonhado. Ele observou Amanda chegar mais perto e reparou nas roupas dos viajantes. - Meu nome é Garner. Vocês... são da Guarda Reluzente? - Perguntou esperançoso, chamando a atenção dos pequenos atrás de si.

 - O quê? Não... - Respondeu a garota, um pouco abalada ao ver a quantidade de crianças ali. Garner suspirou e sentou na grama, desolado. - Senhor... o que aconteceu aqui?- Perguntou ela. O homem fez um gesto com a mão para afastar as crianças, que o obedeceram sem questionar.

 - Orcs vieram. - Começou ele, seus olhos fixos na grama amassada. - Pensávamos que eles estavam além da Fronteira, mas... ontem... - O homem colocou as mãos nos olhos, apertando-os com força para segurar as lágrimas. - ... bem, estávamos errados.

 Amanda e Dalan se entreolharam, sem saber o que dizer. No entanto, não precisavam. - Senhor, meu nome é Sophie Helder. - Disse uma nova voz. Os dois olharam para trás, avistando Sophie se aproximando. Seus olhos estavam vermelhos, mas os punhos permaneciam cerrados e a pisada, firme. Ela mantinha uma expressão séria, embora transparecesse o esforço para aquilo. - Fui membro da Guarda Reluzente. Não sei se me reconhece.

 Garner a encarou e se levantou, tentando recompor a postura. - Creio que não, mas fico aliviado de ver alguém como você aqui. - Ele encarou os garotos. - São todos ex-membros da Guarda?

 - Não, apenas eu. - Se adiantou Sophie, se abalando por centésimos de segundo. - De qualquer forma, senhor, recomendo que leve os sobreviventes de Gowking para Durandar. - Aconselhou ela, colocando peso em suas palavras. - Os exércitos de Zemopheus invadiram esse lado da Fronteira, e não temos contato com a Aliança. É melhor nos unirmos.

 A garota, enquanto falava, havia dado alguns passos para frente até estar ao lado de Amanda. Esta a observou, percebendo que a companheira tremia. Não disse nada. - Concordo... - Começou o homem barbudo. - Não há formas de nos defendermos aqui. É melhor reunirmos os sobreviventes e viajarmos, mas... - Ele se virou para as crianças ainda distantes, e seus olhos se encheram de dor. - Não posso procurar com eles me acompanhando. - Disse baixinho. - Não quero... ter que desenterrar algum pai na frente de um filho.

 Amanda mordeu o lábio inferior, se adiantando. - Eu cuido deles. - Soltou, chamando a atenção dos outros três. - Eles não vão... - Sua voz falhou e ela engoliu em seco. - Nada vai acontecer com aquelas crianças.

 - Muito bem. - Disse aliviada Sophie, olhando a companheira antes de voltar à Garner. - Precisa de mais alguma ajuda? - O homem se virou para trás. Havia uma estrada saindo da cidade à oeste, mergulhando no escuro mar de árvores. Flechas pontuavam uma placa cuja ponta ardia em brasas.

 - Se não for pedir muito... - Começou ele. - Meu genro saiu ontem em perseguição aos orcs e não voltou, e minha filha está em Durandar. Eu não gostaria... - Sua voz chegou a falhar mais uma vez, mas ele engoliu em seco. - Não gostaria de encontrá-la sem nenhuma notícia.

 O rosto de Dalan naquele momento se fechou enquanto seu pescoço ardia com as memórias que surgiam em sua mente. Contudo, não era nada que Sophie percebesse. - Podemos ir atrás dele. Vem comigo? - Perguntou ao companheiro, que estancou.

 - Eu... eu... - O rapaz se viu tentado a recusar. Extremamente tentado. Contudo, olhou de relance para o rosto repleto de dor de Garner. O encarou por algum tempo antes de se virar para a loira, que o observava com ansiedade. - Eu vou. - Sabia que iria se arrepender disso. Sophie permaneceu com seus olhos nele por alguns segundos, estreitando as sobrancelhas em dúvida, mas rapidamente ignorou aquilo.

 - Certo. - Disse ela, ajeitando a postura. - Já temos o que fazer. Você vai ficar bem, Amanda? - Perguntou para a companheira, que balançou a cabeça.

 - As crianças vão ficar bem. - Foi tudo o que conseguiu dizer. Com isso, Sophie e um relutante Dalan caminharam na direção da estrada sombria enquanto que Gowking continuava ardendo ao redor deles.

 Seguiram por uma hora na mata fechada, caminhando em passo pesado por uma estrada repleta de curvas e acidentes. Os sinais de batalha iam se esvanecendo conforme avançavam, e as flechas, machados e sangue na grama eram substituídos por pedras repletas de limo, pequenos lagos e troncos caídos. Sophie caminhava na frente, o suor encharcando seu corpo por inteiro, e não parecia disposta a parar. Dalan tentava segui-la, mas uma dor repentina na perna o fez ver que estava na hora de uma pausa.

 - Sophie. - Se aproximou enquanto ela parava para passar a mão pelo pescoço suado. - Acho melhor descansarmos.

 - Não, eu... - Ela tentou falar mas faltava fôlego. Colocou as mãos no quadril enquanto se recuperava. - Não podemos parar. Temos que...

 - São só cinco minutos. - Disse o rapaz. A garota afastou uma mecha da testa, e sentiu as pernas cambalearem pelo esforço de segurarem o corpo. 

 - Certo. - Os dois se viraram para a estrada atrás deles, onde um longo tronco cheio de musgo os aguardava. Sentaram em pontas distantes e relaxaram os ombros, procurando se recuperar. Dalan começou a esfregar os olhos. Não deveria ter vindo, pensava consigo mesmo. Cada passo lembrava de Diana, e seu pescoço já ardia em chamas com as lembranças dolorosas. Não tenho condições de sequer pensar em casais, percebeu. Ainda era tudo muito recente. Só consigo lembrar dela, e...

Snif.

 O garoto levantou a cabeça. Havia alguém chorando. Ele virou o pescoço para enxergar as costas de Sophie, que estava com o rosto afundado nas mãos. Dalan ficou sem saber o que fazer, repentinamente se esquecendo de Diana. Pensou um pouco e se levantou hesitante para se sentar ao lado da companheira, que não havia demonstrado nenhuma reação. Ela continuava absorta em suas palmas, e de vez em quando um espasmo passava por seu corpo magro. O rapaz suspirou lenta e profundamente antes de começar.

 - Tudo bem? - Perguntou. A garota se assustou e levantou o queixo, seus olhos molhados bastante abertos. Passou os dedos para limpar as lágrimas, extremamente vermelha.

 - N-n-não, eu... - Falava como se tivesse acabado de terminar uma corrida. Engoliu em seco. - Estou bem. Tudo... tudo ótimo.

 - Entendi. - Dalan apoiou as mãos na grama ao seu lado, observando em silêncio o vento bagunçar as folhas das árvores mais próximas. Sophie, por sua vez, continuava vermelha, e esfregava as mãos entre as pernas.

 - Eu só... - Começou ela depois de pigarrear. - Precisamos salvar esse homem, Dalan. Você viu como Garner mudou de expressão quando pensou que vocês eram da Guarda. Eu só queria que... - Sua voz falhou enquanto as lágrimas ameaçavam cair novamente. Queria voltar, pensou, mas não conseguiu dizer isso ao companheiro.

 Ele, por sua vez, se viu sem saber o que dizer. Como normalmente acontecia quando entrava em conversas assim. - Sei como você se sente. - Foi tudo que conseguiu. Sophie o encarou, sua conversa anterior com Amanda voltando à sua mente.

 - Dalan, eu... - Imediatamente se arrependeu de ter começado. Fez uma careta, percebendo que o outro a encarava. Acho que não tem mais como voltar atrás. - E-eu não sei quanto tempo vamos continuar nessa jornada, mas não podemos continuar como estranhos. - Admitiu, se esforçando em cada palavra. Temia que o companheiro pudesse entendê-la errado de alguma forma, mas não tinha mais como parar. - Eu não te conheço, você não me conhece, e nós não conhecemos Amanda.

 - Não acho que essa última parte seja um problema. - Tentou interromper o rapaz, mas foi sumariamente ignorado.

 - A questão é que precisamos nos conhecer. - A garota mordeu o lábio inferior para olhá-los nos olhos. - Não podemos continuar nessa como um trio de desconhecidos.

 Dalan continuou a encarando de volta, soltando lentamente o ar que estava preso. Não queria se abrir. Não achava necessário tudo aquilo considerando que ainda não havia se decidido se continuaria ou não com elas. Contudo, a imagem de Sophie abalada continuava gravada em sua mente.

 Vou me arrepender disso, pensou com os olhos fechados.

 - Eu disse que entendo porque passei por algo parecido. - Confessou. - Eu tinha... eu tinha uma garota na minha cidade. O nome dela é Diana. - Sentiu os olhos começarem a se marejar. Iria ser difícil. Sophie o observava com atenção.

 - Nós namorávamos por sete anos. Até que acabou. - Dalan passou a mão nos olhos. - Passei por uma situação difícil, até que a Aliança apareceu em Steamunk. Achei que poderia me tornar um herói de guerra e que Diana iria voltar comigo. Agora parece idiota. - Parecia extremamente idiota. - É só que... ah, esquece. - O rapaz desviou o rosto, preferindo observar as árvores do outro lado.

 - Eu... - Sophie voltou às suas mãos, desconfortável. Não queria que Dalan passasse por aquilo. - Desculpa, eu só...

 - Tudo bem. - Se apressou em dizer o outro, as mãos ainda por cima dos olhos. Os dois permaneceram em um silêncio tão desconfortável que nem conseguiam olhar um para o outro.

 - Eu também passei por uns problemas. - Começou Sophie. - Passei... alguns anos apenas falhando. Tudo que eu tentava, eu errava. - Ela puxou os joelhos para perto de si e apoiou o queixo entre eles, melancólica. - Queria ter tido mais uma chance antes de estragar tudo.

 - Apenas pense em como consertar as coisas. - Recomendou Dalan, virando o rosto para ela. - É o que eu estou tentando. E quando voltar, eu vou reconquistar Diana. - Seus olhos brilharam, mas não foi por causa das lágrimas. - Tenho certeza que vou.

 Sophie sorriu. Não havia nada na voz do companheiro que indicasse tanta certeza quanto suas palavras afirmavam, mas mesmo assim ele queria as dizer. A garota abaixou a cabeça, um pouco mais tranquila. - Dalan, eu...

 Naquele momento ouviram um som. Viraram a cabeça para a floresta, identificando uma figura grande e escura caminhando entre as árvores. Dalan imediatamente puxou Sophie pela manta e os dois mergulharam atrás do tronco. A garota se tornou invisível e levantou um pouco a cabeça, tentando ver o que era aquilo.

 - É o que eu acho que é? - Sussurrou Dalan, mas ela não conseguiu responder que sim. Um orc de quase dois metros se esgueirava pelas árvores, sua pele verde-escura o camuflando. Carregava consigo uma espada gigantesca nas costas, assim como um colete de couro que cobria seu peitoral. Arrastava um humano pelos cabelos, e o som do corpo traía sua posição. Ele adentrava a floresta, prestes a sumir de vista.

 Sophie voltou a se esconder atrás do tronco, mais uma vez visível. Arfava com força. - Preciso ir atrás dele. - Disse quase que inaudível.

 - O quê? - Perguntou o rapaz, pensando ter entendido errado. A garota por sua vez se levantou, parecendo juntar a coragem necessária.

 - Aquele orc está carregando um refém. Talvez seja o nosso homem, mas de qualquer jeito não posso ignorar isso. - Respirou fundo. - Eu vou lá.

 - Sophie? Sophie! - Dalan tentou dizer, mas ela não pareceu ouvi-lo. Se dirigiu às árvores, obrigando o garoto a se colocar na frente dela com os braços abertos. - Preste atenção no que está fazendo! Talvez aquele orc esteja indo para um acampamento ou algo do tipo! Você pode morrer!

 A garota abaixou a cabeça, deixando o cabelo loiro tapar os olhos. No entanto, sorriu. - Você me disse para tentar consertar as coisas, não é? - Levantou o queixo, o encarando com um brilho nos olhos. - É o que eu vou fazer. Vou agir como uma verdadeira membro da Guarda Reluzente.

 - Vamos pensar melhor nisso. - Implorou Dalan. - Se matar não é consertar as coisas.

 - Eu não vou ser a garota medrosa de novo, Dalan. - Disse Sophie, sentindo sua confiança se abalar um pouco. - Não vou mesmo. - E com isso, desapareceu. O garoto tentou encontrá-la com os braços, mas já era tarde demais. Ouviu passos atrás de si e se virou desesperado, mas não havia como encontrá-la. Apenas se seguisse o orc.

 Deu um passo para frente, mas estancou. Sentiu algo crescer dentro de si, o ancorando ao chão. Era medo. A floresta escura o observava, lhe lembrando do que encontraria ali. Talvez aquele orc esteja indo para um acampamento, ecoavam suas próprias palavras. Sentiu o suor descer pela têmpora e rilhou os dentes. Sophie estava a cada segundo mais longe, e ele não conseguia juntar forças para segui-la.

 O que está acontecendo comigo? Havia salvado a garota antes em Durandar. Se colocado à frente dela contra um monstro gigante. Por que não conseguia fazer aquilo de novo? Por que não conseguia juntar a coragem mais uma vez? O que havia de diferente entre ele antes e agora?

 E a resposta o encontrou como uma carroça desgovernada. Havia alguém com ele antes, alguém que tinha o puxado pela mão para salvar Sophie. De alguma forma essa pessoa conseguia fazê-lo agir sem pensar, e era tudo que lhe faltava naquele momento. Virou a cabeça para a estrada de volta a Gowking, o coração batendo forte. Perceber o quanto aquela pessoa podia fazer com ele e admitir que só conseguiria impedir de Sophie com ela era quase tão ruim quanto adentrar a floresta sozinho, mas apenas quase. E cada segundo estava contando.

 Com uma breve e intensa relutância, se virou para buscar Amanda.

Atos Finais