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3 de junho de 2015

Conventionis: Capítulo 6 - Sobre laços


Somos todos idiotas.

Tudo bem que Sophie disse que Durandar precisaria de todo o suporte possível depois do ataque dos orcs, mas não poderíamos ter pego nem um saco de pão? Um pedaço de costela? Eu e Amanda mal conseguimos comer o que haviam nos oferecido, e antes disso já estávamos famintos. Agora? Nem sei como nos definir.

Sophie está nos levando para um lugar alternativo, segundo ela. Ainda estamos longe do vilarejo mais próximo, mas há uma zona de caça que a Guarda Reluzente não deverá usar inicialmente. 

Pelos deuses, que cheguemos rápido.

 - Fooooooome... - Gemeu Amanda, jogando a cabeça para trás. Os três estavam passando por uma rota no meio da floresta, uma das vantagens de ter um ex-membro da Guarda Reluzente com eles. Sophie caminhava na frente, suas roupas verdes se destacando na parede de árvores que os cercavam. Ela olhou para trás, observando a outra garota.

 - Já estamos chegando. - Tentou tranquilizá-la, se virando para Dalan em busca de ajuda. O garoto por sua vez estava desenhando um pedaço de pernil no papel.

 - Que foi? - Levantou a cabeça, percebendo que estava sendo observado. A loira suspirou. Tinham saído de Durandar apenas algumas horas atrás, e toda a animação do início da jornada havia dado lugar ao nervosismo. Tinham que cuidar do estoque de comida, garantir que estavam pegando a rota certa, manter todos unidos... parecia muito. Só que você tem que conseguir, disse uma voz em sua cabeça. Precisa dar um jeito disso tudo funcionar. Seu retorno à Guarda Reluzente depende disso.

 Sophie levantou a cabeça e, como um milagre dos deuses, notou o destino deles através de alguns troncos finos. - Ali! - Apontou, e Dalan e Amanda olharam naquela direção. Pararam subitamente, ambos deixando o queixo cair.

 Estavam descendo um morro, e a planície à frente se estendia em um mar de copas verdes. No entanto, não era essa imensidão que chamava a atenção. Troncos gigantescos se levantavam do chão, se emaranhando em um nó caótico de madeira e folhas esparsas. Eles se dobravam com o peso da estrutura, formando uma espécie de ninho por cima das árvores. Seu comprimento era semelhante de uma vila e pontas de troncos se esticavam erraticamente para todos os lados, se afastando da montoeira central. Pássaros completavam a visão, circulando os mais de quinhentos metros daquele obelisco.

 - O Emaranhado de Stranville. - Disse Sophie, também parando para observar aquela cena impressionante. - É lá que vamos conseguir juntar comida para os próximos dias.

 - Como... como... - Dalan tentava buscar as palavras, perdidas em algum lugar da garganta. - Como aquilo existe?

 A garota loira desviou o olhar, seguindo a estrada. - É um dos acidentes de guerra espalhados pelo mundo. Foi causado por um duelo entre o mago Stranville e o demônio Ignar na época em que o exército de Zemopheus havia invadido os territórios da Aliança pela primeira vez. - Dalan e Amanda começaram a se mover, ainda hipnotizados pelo Emaranhado. - Dizem que é uma prisão para Ignar.

 - E vamos para ? - Questionou Dalan, agitado. - Não existe nenhum lugar que, sei lá, não esteja possuído por demônios?

 - A Guarda caça por lá de vez em quando, então imagino que não haja nenhum problema. - Informou Sophie. O rapaz se virou para a estrada e reparou que Amanda estava o encarando, prendendo as mãos nas axilas e balançando os cotovelos com uma expressão zombeteira. Dalan corou.

 Falaram pouco enquanto se aproximavam da estrutura de troncos. Sophie continuava concentrada na rota e Dalan ainda estava maravilhado pelo Emaranhado. Nunca havia visto nada parecido na vida, mas também nunca tinha saído de Steamunk. Se perguntou se encontraria outra coisa assim.

 Amanda, por outro lado, tinha perguntas. - Nós vamos caçar o quê, exatamente? - Perguntou para a outra garota.

 - Os únicos animais que habitam aquele lugar são pássaros. - Disse a outra, a encarando por trás do ombro. - Vamos tentar buscar os ovos deles.

 - Não tem nada um pouco maior? - Reclamou Amanda, colocando a mão na barriga. Sophie voltou a se virar para frente, ligeiramente preocupada.

 - Algumas feras costumam se aventurar por lá, mas são muitas que caem. - Começou ela. - E mesmo que sobrevivam à queda, tem um bando de animais carniceiros no nível do chão. Isso afasta a maioria deles.

 - Ah, perfeito. - Soltou Dalan baixinho. O assombro que sentia pelo Emaranhado ia se transformando lentamente em medo. A transformação foi tanta que, quando finalmente chegaram no destino, ele estava tremendo. Conseguia enxergar diversos pilares de madeira subindo verticalmente à distância, segurando o nó. À frente deles havia um tronco um pouco mais horizontal, uma espécie de caminho para o labirinto selvagem. Pássaros grasnavam, as únicas vozes que se ouviam ali.

 Amanda estava com a cabeça inclinada, observando a estrutura. De perto era ainda mais impressionante. - O que vamos fazer? - Perguntou sem mover os olhos.

 Sophie se mexeu desconfortável. Vamos, tentava dizer a si mesma. Tome as rédeas da situação. Mostre seu valor. - Podemos... - Grasnou para em seguida tossir. - Vamos nos dividir. Teremos mais chances dessa maneira. - Consertou a voz, se virando para os companheiros com a expressão séria.

 - Temos mesmo que fazer isso? - Se queixou Amanda, mas Dalan se adiantou.

 - Concordo com Sophie. - Se apressou em dizer. Um plano começava a se traçar em sua cabeça. - O que exatamente temos que fazer? - Perguntou para a garota loira.

 - Vários pássaros fazem ninhos no Emaranhado de Stranville. - Começou ela, ligeiramente aliviada por sua ideia ter o suporte do rapaz. - É só ter cuidado. Por tudo que é mais sagrado, não tentem roubar o ninho enquanto a mãe estiver por perto, entenderam? - Um murmúrio de concordância se seguiu, mas o sentimento de confiança não passou pelo grupo. Dalan fitou Amanda com reprovação, e a garota o encarou com raiva ao perceber aquilo.

 - Certo... - Continuou Sophie, sentindo o coração bater mais forte. - Nos encontramos no fim do Emaranhado ao pôr do sol.

 Algumas horas depois, Dalan estava dando alguns passos para trás, mirando o abismo entre seu tronco e o outro mais próximo. - Certo... - Disse para si mesmo, respirando fundo. - Lá vou eu. - Correu os metros finais e saltou, vendo a escuridão crescer abaixo de si. Saltei cedo demais, pensou desesperado. Vou morrer, vou morrer, vou...

  - Hnf. - Grunhiu quando rolou por cima da madeira, derrapando alguns metros. Levantou a cabeça, assustado. Tinha sobrevivido. - Ufa... - Soltou, se apoiando em um dos joelhos para ficar de pé. Fitou o restante do Emaranhado que se estendia à sua frente, um mar de troncos e folhas esparsas. Estava sozinho, e pretendia continuar assim.

 O vento soprou do norte, empurrando seus cabelos e fazendo-o se virar para trás. Em algum lugar naquele labirinto estavam Sophie e Amanda. Certamente procurariam por ele após o pôr-do-sol, talvez até mesmo voltassem a se embrenhar no Emaranhado. O pensamento quase o fez dar meia-volta, mas se impediu. Não estavam na mesma jornada. Ele tinha que voltar a sua cidade, Steamunk, e a Diana. As outras duas iriam em busca do exército orc. Uma hora teriam que se separar.

 E assim seria bem mais simples, tentou se assegurar. Amanda praticamente só havia o colocado em situações de perigo. Se sentia um pouco mal por Sophie, mas ele mal a conhecia. Assim como a outra. Eram estranhos com objetivos diferentes. Não fazia sentido permanecerem juntos.

 Fechou os olhos e suspirou, encerrando mentalmente o mesmo argumento pela décima vez. Era o mais sensato a se fazer. Com isso, se aproximou da borda do tronco para ver se conseguiria descer.

 E avistou um trio de orcs o observando de baixo.

 O contato durou menos de um segundo, o suficiente para Dalan apenas arregalar os olhos. Os orcs, vestidos com trapos arrebentados, rugiram. Estavam compartilhando uma refeição, mas algo mais humano havia lhes chamado a atenção. Começaram a perseguição, mas o rapaz já havia saltado para correr pelo caminho de onde tinha vindo.

 - AAAAAAAAAH! - Gritou a plenos pulmões, desesperado para escapar dali.

 Sophie parou o que estava fazendo e olhou ao redor. Estava equilibrada em um tronco fino e ridiculamente alto no meio do Emaranhado, cujo topo se bifurcava em duas espigas afiadas. Ela havia se agarrado à ponta mais firme para alcançar o ninho que se pendurava na outra mais bamba, e se esticava para alcançar o outro lado. Achou que tinha ouvido um grito, mas pelo visto havia sido sua imaginação. Voltou à sua tarefa.

 - Com calma... - Pediu para si mesma, estendendo a mão para o ninho. Dois ovos do tamanho de baldes a aguardavam, com manchas amarelas decorando sua superfície lisa e pálida. Ela tentou alcançar o mais próximo, mas foi o vento forte quem a alcançou. Se desequilibrou e quase caiu, conseguindo se apoiar no tronco bambo. O ninho balançou perigosamente, mas se manteve no lugar.

 Ufa. Sophie parou alguns instantes para se recompor, o cabelo loiro por cima dos olhos e apoiada desajeitadamente nas duas espigas. Suspirou profundamente e levantou a cabeça na direção dos ovos. Um deles estava ainda mais perto do que antes. Se esticou e o agarrou com relativa facilidade. Havia terminado ali.

 Desceu deslizando desajeitada até a base com o prêmio debaixo do braço. Sua manta estava a esperando, amarrada em um fiapo de tronco com sua espada repousando no chão. Perto dela, resquícios de cascas brancas e de gema laranja se esparramavam pela madeira, sobras de uma recente falha da garota em buscar os ovos do ninho mais acima. Mais uma para minha coleção de falhas, pensou ela enquanto se vestia. Se só tivesse esse ovo...

 Se permitiu um momento de descanso e sentou no chão, cuidando do ovo ao seu lado. Esticou o pescoço para trás, enxergando o tronco alto que havia escalado. Demorei muito tempo para subir, perdi o primeiro ovo e desci que nem uma criança. Suas auto-críticas infestavam sua cabeça, todas com a voz de Leon, seu ex-comandante. Contorceu o rosto ao se lembrar dele. Estava falhando novamente, e se não consertasse isso jamais voltaria à Guarda Reluzente.

 E estou agora descansando. Se censurou e voltou a se levantar, recolhendo o ovo maior que seu ante-braço. Tinha que buscar os outros e sair dali. O Emaranhado de Stranville não era um lugar para passar o dia, que dirá a noite. Só esperava que os outros tivessem conseguido suas cotas de alimentos.

 - Ai, ai... - Suspirou Amanda, chutando um toco de madeira não muito longe de sua companheira. Estava melancólica. Não sabia exatamente o motivo de sua animação ter sumido, mas sabia que não gostava nem um pouco daquilo.

 Deve ser porque não achei nenhum desses ninhos idiotas. Estava procurando por duas horas e nada. Apenas troncos e mais troncos que se estendiam até onde sua vista alcançava. Saco. Estava prestes a parar para descansar quando uma sombra a cobriu. Olhou para cima e avistou um pássaro voando em círculos. Era escuro e gigantesco, com três metros separando a ponta da longa cauda do bico afiado e quatro separando as asas esguias. Um punhado de penas pretas saía de sua testa, colorindo uma penugem praticamente unicolor.

 Amanda viu aquilo e soltou o ar irritada. Tinha visto alguns daqueles pássaros, mas não conseguia achar seus ninhos de jeito nenhum. Qual era a dificuldade? Deveriam estar por ali, em algum canto daquele lugar idiota. - Aaaaargh... - Soltou para o ar, jogando a cabeça para trás. Quando voltou a olha para frente, seu coração saltou.

 Havia um ninho do outro lado, tal qual um prato servido pelos deuses.

 Ela correu naquela direção, o sorriso preenchendo seu rosto. Haviam quatro ovos cinzas ali, cada um maior do que o anterior. Conseguiu enxergar a reação de Dalan ao vê-la com tudo aquilo e sorriu zombeteira consigo mesma, a língua de fora. Estava tão alegre e aliviada que acabou deixando um dos ovos cair enquanto tentava levantar o ninho.

 - Oh, não... - Soltou, se ajoelhando para ver se conseguia salvar alguma coisa. A clara e a gema escorriam pela superfície disforme, que se tornava cada vez mais escura. . Franziu a testa. Aquilo parecia uma... sombra?

 Algo pousou atrás dela, quase a derrubando. Conseguiu sentir uma figura se estender por cima de seu corpo, bloqueando o vento que vinha do norte. Amanda levantou a cabeça, ligeiramente trêmula. - Oh-oh.

Foi tudo o que conseguiu dizer naquele instante.

 Agora Sophie tinha certeza de que tinha ouvido um grito. Parou e esquadrinhou a área ao redor. Havia algo à distância, que parecia estar... se aproximando? A garota colocou a mão por cima dos olhos, procurando enxergar melhor. Era um pássaro, um tauboné de ponta verde, para ser mais precisa. E tinha mais alguma coisa à frente dele... ah, não.

 - SOPHIEEEEE! - Gritou Amanda, o desespero servindo como combustível para suas pernas. O pássaro gigante disparou, quase a acertando e voltando aos céus bem perto da garota loira, que deu um passo assutado para trás.

 - O que está acontecendo? - Perguntou baixinho enquanto a outra se aproximava. Avistou o tauboné dando meia-volta para atacar mais uma vez, e se virou para correr. - O QUE ESTÁ ACONTECENDO? - Gritou para Amanda.

 - FOI SEM QUERER! - Gritou de volta a outra. - JURO QUE FOI! - Sophie olhou para cima e puxou a companheira para seu lado com truculência. O pássaro atacou o espaço onde ela havia estado, furando a madeira com seu bico.

 - CORRE! - As duas dispararam na direção contrária, tropeçando nos troncos que se elevavam. Sophie jogou o ovo para Amanda, levando a mão à espada. Se tudo desse errado, teria que se defender. Só que, no momento, correr parecia ser a melhor decisão.

 Esse era o mesmo pensamento de Dalan. Os orcs gritavam atrás dele, mas tinha conseguido abrir uma relativa distância entre eles. Desconfiava que o medo havia feito isso, no entanto não havia tempo para pensar. Avistou uma parede de troncos mais à frente e se dirigiu a ela, pensando que poderia se esconder.

 Assim que virou a esquina, contudo, trombou com Amanda. Os dois caíram no chão e o ovo cinza voou no ar. Sophie o agarrou por reflexo, deixando a espada cair.

- Qual é o seu problema? - Perguntou a garota morena, segurando o nariz. Dalan a encarou, respirando fundo enquanto sua mente tentava compreender a situação.

 - Orcs! - Gritou, se levantando com um salto. - Orcs estão vindo atrás de mim!

 - Tem um pássaro gigante correndo atrás da gente também! - Berrou Amanda, também se agitando. Sophie se agachou, vendo aterrorizada que sua espada havia caído entre os troncos. Tentou encontrá-la, mas ela não estava no espaço abaixo deles.

 Espera.

 - Por aqui, agora! - Gritou ela, cortando a discussão entre os outros dois. Estava tentando puxar um pedaço de tronco mais fino do chão, que dava para uma câmara improvisada mais abaixo. Dalan e Amanda se aproximaram para tentar ajudá-la, mas todos os seus esforços não surtiam efeito.

 - Ah, como eu sou idiota. - Soltou Dalan, e um brilho saiu de suas mãos, congelando o tronco. Os três bateram na madeira até quebrá-la, revelando o espaço apertado. Se espremeram e contorceram para caberem ali, com o rapaz esmagado mais embaixo e as outras duas procurando se colar às paredes. Aguardaram, tentando manter o silêncio.

 - Não consigo ver nada. - Disse Amanda, espremida em uma lateral. - Algum de vocês dois?

 - Nnnmph. - Resmungou Dalan com um tronco em seu rosto. Se lembrou da história do demônio aprisionado no interior do Emaranhado e procurou se afastar.

 - Shhh. - Pediu Sophie, a única que conseguia enxergar o que estava acontecendo. Avistou o trio de orcs virando a esquina, rugindo um com os outros. Dalan ouviu aquilo e parou de tentar se afastar. Talvez tentasse a sorte com o demônio.

 O tauboné chegou em seguida, se esgoelando contra os orcs que gritaram em resposta. Eles tentaram acertar a fera com seus machados, mas o pássaro se mantinha afastado, tentando ameaçá-los. A cena se refletia nos olhos verdes de Sophie, as três figuras amedrontando o monstro duas vezes maior que elas. No fim, afugentaram o tauboné e começaram a persegui-lo.

 Os garotos esperaram vários minutos até se sentirem confiantes o suficiente de sair do buraco. As meninas foram as primeiras, e Amanda se esparramou no tronco mais próximo. Dalan se arrastou para acompanhá-las.

 - Foi por pouco. - Confessou Sophie, se sentando no chão com as mãos no rosto. A adrenalina ia lentamente se esvaindo do trio, deixando-os exaustos. A garota loira foi a primeira a se recuperar, ficando de pé com bastante esforço. - Temos que sair daqui. Se os orcs já estão pelas redondezas, vamos precisar ficar em um lugar mais seguro. - Ela olhou mais uma vez para o espaço onde sua espada havia caído. Mais um erro, se culpou, mas haviam coisas mais importantes para se preocupar no momento,

 Amanda a acompanhou, recolhendo o ovo que a outra havia recolhido. Para um dia inteiro de busca por comida, era um prêmio bem pobre. Enquanto ela se lamentava, percebeu que Dalan continuava no chão. - Vamos. - Chamou.

 O rapaz soltou o ar pelas narinas. Por enquanto pode não ser tão ruim seguir o mesmo caminho, refletiu. Estaria morto se não tivesse encontrado Amanda e Sophie. Por mais que a viagem com elas pudesse ser exaustiva e cheia de desvios, era necessário para que não morresse em qualquer emboscada de orcs no caminho até Steamunk. Pelo menos por enquanto.

 - Já vou. - Avisou, não tão contrariado quanto pensava que estaria, se levantando para acompanhar as outras duas.

Atos Finais