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20 de maio de 2015

Conventionis: Capítulo 5 - Sobre esforço


 Ainda não sei como sobrevivemos. Minha mão chega a tremer quando lembro do que aconteceu naquela noite em Durandar. Havíamos sido reunidos em uma arena para uma suposta prova de Sophie. Me lembro de estar apreensivo por ela.

 Só que não foi nada comparado ao que estava por vir.

 O orc empertigou o corpo alto, iluminado por trás pelas chamas que tomavam a cidade. Seu cabelo negro estava amarrado em uma trança, caindo suado pelas costas nuas de um corpo mais magro e forte do que seus companheiros de espécie. A fumaça do lado de fora começava a adentrar o prédio, cobrindo o ser como uma manta. Ele olhou para a arquibancada assustada, sorrindo brevemente antes de balançar o machado imundo e gritar a plenos pulmões com o rosto quadrado contorcido. Uma declaração de guerra em seus costumes.

 E tal ato sempre gerava uma resposta.

 - ARQUEIROS, O QUE ESTÃO ESPERANDO? - Se levantou Leon, o vermelho tingindo sua face magra. Quatro membros da Guarda Reluzente se levantaram no meio da arquibancada e prepararam os arcos que traziam, o som das cordas retesadas enchendo o ar. No entanto, antes mesmo das flechas voarem, o invasor sorriu mais uma vez. Naquele momento as paredes que o cercavam tombaram, e de seus destroços vieram mais orcs, desta vez munidos com escopetas desajeitadas. Já atirando.

 O pânico tomou conta da pequena arena. Pessoas gritavam, fugiam e tombavam mortas, se perdendo no meio do odor de fumaça e de sangue fresco. Pólvora explodia em cada estouro das armas, seu som aterrorizando ainda mais a multidão. Os poucos arqueiros procuraram contra-atacar, mas o alvoroço só os fazia acertar os próprios companheiros. A carnificina só aumentava.

 - GUARDA, PROTEJA OS COMUNS! - Berrou mais uma vez Leon, sacando uma adaga de sua cinta. Ele correu arquibancada abaixo para enfrentar os invasores ao mesmo tempo em que outros membros da Guarda se destacavam na multidão para atacar. Dalan, ainda apavorado, se virou para Amanda. Ela já estava se levantando. 

 - Vamos nos esconder! - Exclamou ele, se encolhendo com um estouro de tiro. A garota, por sua vez serena, ficou na ponta dos pés para enxergar a arena enquanto um grupo de mulheres subia as escadas correndo.

 - Esconder? - Questionou distraída. - Uma coisa de cada vez. - E com essa frase ela disparou pela escadaria, se desviando de quem entrasse em seu caminho. Dalan se levantou desesperado e olhou para baixo. A garota loira de antes continuava na arena, sem ter como escapar. 

 - Ah, saco... - Resmungou ele, dividido entre seguir Amanda ou se esconder. Girou o corpo para um lado e para o outro, os joelhos bambos quase o derrubando. E avistou sem querer o cabelo longo e castanho da companheira na multidão. - Saco... - Grunhiu enquanto pulava para baixo.

 Sophie por sua vez estava com as costas coladas na parede da arena, virando a cabeça assustada para o caos acima. Um corpo tombou ao seu lado e ela ofegou com as mãos na boca, deixando a espada que segurava tremulamente cair. Do outro lado o iróbil ainda preso rugia e se agitava, tão assustado quanto todos ali.

 - Ei! - Gritou uma voz do alto. A garota levantou a cabeça bem a tempo de ver Amanda saltando para a arena, pousando perto do corpo. - Vamos sair daqui! - Sophie a encarou incrédula até abrir bem os olhos.

 - Você trouxe uma corda ou algo do tipo? - Perguntou assustada. A outra fez uma careta de desentendimento e balançou negativamente a cabeça. - Eles trancaram o portão. Só temos como sair daqui com a ajuda de alguém de cima. - Sussurrou, conseguindo ser ouvida mesmo através da algazarra acima delas.

 Amanda demorou alguns segundos para entender o problema, sua expressão mudando de confusa para surpresa. Virou a cabeça para a encarar o iróbil do outro lado da pequena arena, ainda bufando e tentando se soltar, balançando ameaçadoramente os chifres entrelaçados. Girou o corpo para olhar para cima, onde os orcs continuavam lutando. Após tudo isso, deixou o queixo cair.

 - Oh. - Soltou. Naquele instante Dalan se desvencilhou da confusão e saltou para a arena, caindo desajeitado no chão de areia. Ele arfou para recuperar a respiração, sem perceber que Sophie passava a mão desesperada pela cabeça. - Por que você faz isso? - Perguntou a morena, segurando a testa com os dedos.

 - Ahn? - Questionou o rapaz alguns momentos antes de um tiro de escopeta acertar o outro lado da arena. Os garotos se encolheram e o iróbil gritou com o sangue que manchava seu flanco.

 - Gente... - Começou Sophie, vendo as cordas que seguravam a besta começarem a se partir. O caos acima deles continuava, mas agora parecia ter silenciado. Só haviam eles três e a criatura, lentamente se libertando de suas amarras. Ela gritou do alto de seus três metros, dando o último tranco para se ver livre.

 E olhou para os outros com fúria selvagem.

 - CUIDADO! - Gritou Dalan, saltando para trás. Amanda agarrou Sophie e as duas pularam para longe, evitando por pouco a besta enlouquecida. Ela se chocou contra a parede de madeira, destruindo a cobertura e amassando o suporte de ferro por baixo. Se virou ensandecida para trás, sua baba se espalhando pelo ar.

 - Deuses... - Soltou Sophie, caída no chão com a outra por cima. O iróbil esquadrinhou a arena e avistou o portão ao qual estava preso antes. Disparou naquela direção com o chifre para frente, atravessando o portal como se fosse papel e adentrando o corredor escuro para sumir de vista. Os garotos ficaram calados, apenas o ouvindo o som de destruição.

 - Sophie... - Perguntou Dalan, apoiando as costas na parede para se segurar nas pernas trêmulas. - Para onde vai aquele corredor?

 - Se ele continuar destruindo o que encontrar no caminho... - Começou a garota, engolindo em seco. - ... a cidade. - Amanda arregalou os olhos por dois segundos antes de se por de pé.

 - Dalan, temos que deter aquela coisa! - O rapaz a encarou incrédulo, observando-a sem som enquanto a outra disparava decidida. Um tiro cruzou os ares e ele se encolheu, levantando a cabeça para a batalha que sangrava acima. Não estou melhor em nenhuma das situações, pensou antes de suspirar com o rosto sofrido.

 - O que vocês -- Tentou chamar Sophie, mas Dalan já estava seguindo Amanda. Ela permaneceu onde estava, uma mecha loira entre seus olhos.

 - GUARDA! - Gritou Leon, sua voz irrompendo a confusão e os pensamentos da garota. - PARA AS MURALHAS DE DURANDAR! PARA AS MURALHAS! - Ela levantou a cabeça, encarando o comandante acima. Ele esbravejava para o que restara da Guarda Reluzente, o sangue verde dos orcs o cobrindo da cabeça aos pés. - DEFENDAM ESTA CIDADE!

 - Ei, EI! - Tentou chamar Sophie, se levantando. - O iróbil está à solta! Comandante Leon! - No entanto, era impossível ouvi-la. A pequena multidão de pessoas na arena se espalhava através da fumaça agora densa, procurando em desespero sair daquele edifício. Membros da Guarda Reluzente, destacados com suas roupas chamativas, se encaminhavam para saída. Ninguém havia lembrado do motivo de estarem ali reunidos naquela noite.

 Sophie olhou para trás na direção do portão destruído. Não podia deixar aquela fera à solta, não com o caos que deveria ter tomado conta da cidade. Era seu dever. Levou a mão direita à manta, acariciando o fino tecido verde enquanto se certificava de sua decisão. Entrara naquela arena para provar seu valor como membro da Guarda. E era isso que iria fazer. Deu mais uma olhada para cima antes de pegar a espada que estava caída no chão e disparar no encalço da besta.

 Correndo pelo corredor amplo, passou por esquinas escuras e jaulas repletas de animais vociferantes. Havia uma luz no fim do túnel, algo que a deixou nervosa. O iróbil tinha conseguido sair, concluiu. Logo mais à frente obteve sua prova, um grande buraco no meio da parede de madeira. Com o nervosismo fazendo suas pernas tremerem, ela o atravessou e se viu em uma cena que jamais esqueceria.

 Estava no topo de uma pequena escadaria, seus corrimãos destroçados de lado a lado. A cidade ao redor queimava, conjurando uma fumaça negra que tapava o céu e condenava Durandar a uma noite iluminada apenas pelas chamas. Gritos ecoavam pelas ruas, às vezes de puro terror e outras de ordem. No entanto, estava sozinha, com exceção dos dois viajantes ao seu lado, tão atônitos quanto ela, e a besta mais abaixo na praça.

 - Pelos deuses... - Conseguiu dizer Sophie, se controlando para não chorar. Conseguia identificar um prédio bambo ao longe arder no fogo violento. Havia estudado ali quando criança.

 Amanda ao seu lado engoliu em seco. - Nós tentamos avisar, não tentamos? - Perguntou para Dalan, cujo rosto refletia o choque. Mais abaixo o iróbil rugiu, tirando-os do transe. A garota loira o encarou, apertando a espada com força.

 - Fiquem aqui. Eu cuido disso. - Com isso, começou a descer a escada. Dalan e Amanda se entreolharam brevemente antes de se adiantarem.

 - O quê? - Questionou o rapaz, se pondo na frente da outra com o sobretudo se agitando. - Você viu o tamanho daquela coisa?

 - Eu já iria enfrentá-lo sozinha. - Disse Sophie, tão concentrada que mal chegava a notar a presença dos viajantes. - Era e continua sendo minha oportunidade de provar meu valor na Guarda Reluzente. Farei isso por mim, por esta cidade e pela Guarda.

 - Mas aquela coisa vai te matar! Qualquer pessoa comum seria destroçada! - Soltou a outra garota, desesperada. A loira abaixou a cabeça, deixando as mechas curtas taparem os olhos.

 - Não se preocupe. Não sou uma pessoa comum. - E com isso, ela sumiu em pleno ar.

 Dalan e Amanda arregalaram os olhos. Se viraram em busca dela, subitamente sozinhos. - O que... que foi isso? - Perguntou a garota. O outro olhou para a escadaria abaixo, percebendo uma espada suspensa no ar descendo os degraus. Sua mente fez a ligação logo em seguida.

 - Invisibilidade. - Deixou escapar, guiando o olhar de Amanda. - Isso significa que...

 - Ela é um Yulliana. - O rapaz concordou com a cabeça. Yullianos eram seres capazes de controlar a Yullian, substância que possibilitava dobrar a natureza de diversas formas, além de resistência e capacidades de cura acima do normal. No entanto, eram raros os humanos que nasciam capazes disso.

 Sophie era uma dessas pessoas, andando invisível na direção do iróbil assustado. É hoje, pensou. Hoje vou orgulhar Leon. Hoje irei mostrar que mereço estar na Guarda Reluzente. Hoje, ela correu os últimos metros, a espada mirando o pescoço da fera. Irei provar meu valor! A garota estocou a arma para frente, preparada para o primeiro e derradeiro golpe.

 Contudo, a criatura estava assustada. O fogo e a fumaça eram demais para ela, que se agitava de forma desesperada. Um de seus espasmos a fez virar para o lado, e a espada acertou seu flanco ao invés do pescoço. Sangue escuro espirrou alto e o iróbil gritou, mas não era um ferimento fatal.

 E agora a figura de Sophie estava coberta de sangue, destacada no ar.

 - Ah, deuses... - Se lamentou, puxando a arma e saltando para longe. A fera conseguiu a identificar por seus pequenos olhos furiosos, mais acuada do que nunca. Ele balançou a cabeça para os lados, procurando acertar sua adversária com o chifre gigante. A garota saltou duas vezes para trás, se mantendo à distância dos ataques massivos. Preciso de uma abertura, pensou.

 Correu para os lados, desligando a invisibilidade para conservar o esforço mental. O iróbil a atacou com uma estocada, mas a garota desviou para o lado bem a tempo. Rolou no chão sujo e disparou para frente, paralela ao chifre. É agora, pensou com a adrenalina no máximo. Minha abertura!

 Ainda pensava nisso a besta saltou para o lado, jogando a parte de trás do corpo em um giro quase completo. Muito ágil. Se virou desesperada para o lado para encarar a fera de frente, e o chifre dele a acertou no queixo com um movimento ascendente.

 Ela voou no ar, caindo pesadamente no chão. Sentiu o sangue quente na garganta subir e levou as mãos à boca para contê-lo, a espada agora longe de sua vista. Ouviu o tilintar do ferro nas pedras no momento em que um porrete parecia acertá-la nas costelas, a arremessando como uma bala. Rolou e quicou várias vezes antes de acertar as paredes que contornavam a praça, rachando a madeira atrás de si.

 Sophie conseguiu soltar um grunhido antes de desabar de joelhos, vomitando sangue no chão de pedras. Tremendo, ela procurou se levantar através das dores que enchiam seu corpo. Continua, forcava a si mesma. É sua ultima chance. Não ferre isso também. O iróbil ao longe rugiu. Levanta. Por favor.

 E, de repente, a garota ouviu passos. Levantou a cabeça, avistando os dois viajantes a sua frente, posicionados entre ela e a fera. - O que estão... fazendo? - Se esforçou em dizer.

 Dalan, antes de responder, suspirou. - Não podíamos ficar parados.

 - E não adianta reclamar. Não vamos mudar de ideia. - Completou Amanda. Sophie sentiu o rosto ficar vermelho e se levantou com dificuldades.

 - Vocês não entendem! - Gritou, segurando uma costela ferida. - Sou uma Yulliana! Só eu consigo lutar contra essa coisa!

 - Quem disse que você é a única? - Perguntou Dalan. Naquele momento suas mãos se cobriram de energia azul e brilhante, cristalizando em camadas de gelo que esfriaram o ar quente ao seu redor. Ao mesmo tempo uma revoada de ar cobriu Amanda, afastando os resquícios de fumaça ao seu redor. Sophie os encarou com assombro, seu cabelo sendo agitado pelo vento. O iróbil deu um passo para trás, percebendo a ameaça. Não estava mais enfrentando uma Yulliana.

Agora eram três Yullianos.

 - Dalan, me cobre. - Pediu Amanda, correndo na direção da espada caída.

 - O quê? - Se desconcertou o rapaz, mas a outra já estava longe. O iróbil levantou a cabeça bovina e rugiu, balançando a cabeça para atacar a adversária que se aproximava. Dalan rapidamente colocou as duas mãos no chão e se concentrou, formando um rastro de gelo que se expandiu até os pés da besta. Ela escorregou e demorou alguns instantes para fincar as patas no chão, deixando que a garota recolhesse a arma em segurança.

 - O PESCOÇO DELE! - Gritou Sophie, dando um passo para frente com a mão colada ao flanco. Amanda procurou se adiantar, mas a fera agitou o chifre para garantir sua segurança. Já entendia o que aquela arma ensanguentada podia fazer. - Temos que ajudá-la! - Disse a garota, se virando para Dalan.

 Então me diga o que fazer, pensou irritado o rapaz. Sem muitas opções, ele tentou desequilibrar o iróbil mais uma vez com seus poderes de gelo, mas desta vez a fera sabia de onde aquilo vinha. Ela se virou furiosa para os dois, seus pequenos olhos vermelhos se estreitando.

 - Hm. Pode não ter sido a melhor opção. - Conseguiu dizer Dalan. O iróbil disparou na direção deles, seguindo a trilha gelada. Amanda até tentou saltar para acertá-la, mas a besta já estava longe. Vinha correndo na direção dos outros dois garotos, seu chifre abaixado como uma lança, cortando o ar.

 - Pula! - Ordenou Sophie, saltando para o lado abraçada nas costas do rapaz. Eles novamente escaparam da morte por um triz, mas a criatura conseguiu fazer a curva para se colocar atrás deles, derrapando no chão. Agitou o chifre de cima para baixo, obrigando Dalan e Sophie a se separarem e rolarem um para cada lado antes do golpe explodir no chão.

 - Não! - Gritou Amanda lá do fundo, estendendo a mão. A fumaça que se agitava por cima do iróbil se movimentou, descendo como uma manta nos olhos da fera. Ela rugiu e se contorceu, quase acertando os outros dois em sua confusão. Eles se afastaram ainda colados no chão, e como num passe de mágica o mesmo plano surgiu na mente de ambos.

 - A espada! - Gritaram para a outra garota. Ela ficou brevemente desconcertada mas lançou a arma, que tilintou no chão antes de ser agarrada pela loira. Dalan ficou de joelhos e colocou mais uma vez as mãos nas rochas, criando uma nova camada de gelo abaixo da besta. Ela, ainda desesperada pela cegueira momentânea, escorregou e caiu pesadamente no chão.

 - Agora! - Ordenou o rapaz. Sophie se adiantou, correndo o mais rápido que conseguia pelos ferimentos. Girou a espada e gritou, cravando-a no pescoço do iróbil. A criatura guinchou e tentou se debater, mas a garota imprimiu mais força, enfiando a lâmina até o punho em uma cachoeira de sangue. Permaneceu pressionando a arma enquanto a fera grunhia e tremelicava, até que ficou imóvel de uma vez por todas.

 O silêncio tomou conta da praça, sendo cortado apenas pelo crepitar distante das chamas e os gritos ocasionais que varavam a noite. Sophie respirou fundo e se jogou para trás, subitamente trêmula. Sentou no chão, fechando os olhos. - Acabou. Acabou... - Suspirou mais para si mesma. Dalan se apoiou nos joelhos, o cabelo pingando com o suor. Amanda por sua vez sorriu aliviada, deitando de costas nas pedras. Os três ficaram calados, saboreando a vitória. O corpo do iróbil esfriava, uma enorme montanha de pelos e sangue escuro.

 - O que pensa que está fazendo? - Cortou uma voz ríspida. Sophie levantou a cabeça, avistando o comandante Leon se aproximando. As chamas conjuravam uma sombra em sua face, escondendo sua expressão.

 - Comandante! - A garota imediatamente se pôs de pé, a costela ardendo em dor. Controlou o rosto, se mantendo firme.

 - Responda à minha pergunta. - Ordenou Leon, se aproximando cada vez mais. A outra olhou de relance para o iróbil morto, sem entender direito. Do outro lado, Dalan e Amanda se aproximavam.

 - Eu... - Engoliu em seco. - Eu fiz o que o senhor me pediu. Matei a--

 - Foi isso o que realmente mandei? - Interrompeu o homem, ainda envolto em sombras. - O que eu disse na arena para todos os membros da Guarda?

 - Eu... - Começou Sophie, se vendo subitamente nervosa.

 - Vou lhe dizer o que mandei. - Ele finalmente se aproximou o suficiente, revelando um rosto duro e coberto de sangue vermelho e verde. - Eu mandei que todos fossem aos portões de Durandar para nos defender da ameaça externa. Garantir que esta cidade não sofreria uma invasão completa. E quando olhei para o lado... - Leon a encarou com intensidade furiosa. - Não a vi.

 - Senhor, eu--

 - CALE-SE. - Gritou, sua face perdendo momentaneamente a compostura. - A tarefa da Guarda Reluzente é defender os portões da cidade! Sempre foi e sempre será! Depois de tantos anos, você é incapaz de entender isso?

 Sophie abaixou a cabeça, sentindo o corpo tremer. Conteve desesperada as lágrimas que queriam cair. - E o ataque aqui dentro? - Perguntou com a voz mais aguda. - Eu não podia deixar esse iróbil à solta, muito menos com os orcs queimando metade dos prédios!

 - Não foi isso que te ordenei. - Continuou o comandante. - Eu te ordenei ir para a muralha. Toda a Guarda deveria estar na muralha para nos defendermos. E na hora mais necessitada de toda esta geração da Guarda Reluzente... - Ele deu um passo para frente. - Eu virei o rosto e não te enxerguei lá.

 A garota fechou os punhos, agora incapaz de segurar as lágrimas. - Eu...

 - Senhorita Helder. - Interrompeu mais uma vez Leon. Sophie abriu os olhos, levantando a cabeça. Havia uma lei não-escrita na Guarda que dizia para todos os seus membros se dirigirem pelo primeiro nome. E Leon sempre obedecia as leis, escritas ou não. - Quando você entrou na Guarda, possuía um potencial gigantesco. A primeira Yulliana de Durandar em anos. Só que isso nunca se traduziu em sucesso. Mesmo com tantas chances para se redimir, apenas acumulou fracassos atrás de fracassos. E chegou o momento em que tenho que dar um fim nisso.

 Ele empertigou a voz, como se quisesse tornar aquilo oficial. - Hoje você teve sua última chance de provar seu valor. E não esteve do nosso lado quando mais precisávamos. Portanto, não tenho mais escolha. Sophie Helder, você está expulsa da Guarda Reluzente.

 A garota apenas o encarou, com os olhos tão arregalados e o corpo tão trêmulo que parecia à beira de um colapso. - Eu... - Tentou dizer, mas a frase se perdeu no nó em sua garganta. Tentou engolir em seco para melhorar a sensação, mas tudo o que conseguiu foram lágrimas descendo pelo rosto. - Expulsa? - Soltou sem ar. - Expulsa da Guarda?

 - Você me ouviu. - Disse Leon. Sophie abaixou a cabeça, tentando absorver o que estava acontecendo. Havia se esforçado tanto. Ficado noites em claro treinando. Tinha estudado tudo o que conseguia, mas... era... tudo em vão. Mordeu o lábio inferior para controlar o choro, tão forte que quase rasgou a pele.

 - E-eu...

 - Espera aí! - Gritou Amanda, não conseguindo mais se conter. Ela se aproximou com passos fortes, atraindo o olhar arrasado de Sophie. - Ela derrotou aquela coisa! - Apontou para o iróbil caído. - Fez o que você mandou quando colocou ela naquela arena idiota! Isso não é provar o seu valor?

 O comandante demorou alguns instantes para responder, ligeiramente chocado com a intromissão da viajante. - Provar o valor para nós não é simplesmente matar qualquer fera que se aproxime. É obedecer os ensinamentos e ordens da Guarda Reluzente.

 - E proteger as pessoas não é uma dessas coisas? - Disparou a garota morena, balançando os braços. - Você queria que ela deixasse aquela criatura destruir o que encontrasse no caminho? Ela se esforçou e quase se matou para proteger a cidade!

 - Esforço e competência não são sinônimos. - Aquilo era o suficiente para Dalan. Ele se adiantou.

 - Então acha que esforço é algo para se jogar fora? - Conseguia se lembrar de quando saíra de Steamunk para lutar pela Aliança. Tinha prometido dar o máximo de si para provar o seu valor para Diana, e não conseguia ver alguém diminuir aquele tipo de sentimento. - Excelente líder, você.

 - Não me tente, garoto. - Ameaçou Leon com a voz fria. - Isso não é uma brincadeira de crianças. Existem vidas em jogo, e devo fazer o que é certo.

 - E Sophie sabe o que é certo. - Disparou o rapaz. - Dê uma chance que ela irá provar seu valor. - Já não sabia mais de quem estava falando, da garota ou de si mesmo. Só sabia que estava furioso. E o comandante havia percebido isso.

 - Saiam da minha cidade. - Ordenou para os dois viajantes. - Agora. Já temos problemas o suficiente sem vocês por aqui.

 - Vamos, Amanda. - Disse Dalan, levantando o braço para impedir a outra de continuar argumentando. - Não adianta continuarmos aqui. - Com isso eles deram as costas, saindo silenciosamente da praça. Sophie ficou os encarando, suas lágrimas se secando.

 O corpo do iróbil esfriava.

 Alguns minutos depois, Dalan e Amanda estavam caminhando ao redor da muralha de madeira de Durandar. Haviam mais corpos de orcs do que antes, mas desta vez não pareciam incomodados. Apenas nervosos.

 - Imbecis. - Disse finalmente a garota, enchendo as bochechas.

 - Não irei discordar. - Respondeu tranquilamente Dalan. - Pelo menos nos deixaram ficar com as roupas.

 - Sim, eu-- Ouviram passos atrás de si. Quando se viraram, avistaram Sophie se aproximando. Ela arfava, e pôs as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego.

 - Pensei que tinha perdido vocês. - Disse, levantando a cabeça.

 - Você está bem? - Perguntou Amanda, preocupada.

 - Sim, sim. - Respondeu a outra enquanto recuperava o fôlego. - Quer dizer, você me entendeu, mas... eu já sei o que fazer agora. - Ela se pôs em pé, empertigando o corpo. - Quero viajar com vocês.

 - Quê? - Soltou a outra garota, contorcendo a expressão.

 - Bem, eu... primeiro que eu não me lembro de alguém me defender do jeito que vocês... sabe... - Ela abraçou o corpo e desviou o rosto, visivelmente desconfortável. - E-e eu me importei com essa sua busca, Amanda! - Acrescentou rapidamente. - Eu realmente acho uma coisa impressionante, e quero te ajudar! - Voltou a encará-la. - E assim também vou provar meu valor para a Guarda.

 - Você ainda quer voltar? - Perguntou Dalan.

 - Tudo que eu mais quero na vida é fazer parte da Guarda. - Disse Sophie, se virando para o rapaz. - Não posso desistir.

 - Ah, bem... - Começou Amanda, coçando a parte de trás da cabeça. - Por mim tudo bem, mas Dalan deve seguir até a linha de defesa que a Aliança está montando. Não sei se vamos voltar para cá.

 - Resolverei isso quando chegar a hora. - Insistiu a loira, passando os olhos de um para o outro. - Posso? - Perguntou nervosa. - Amanda olhou para Dalan, que não fez nenhuma objeção. A jornada dela é com Amanda, pensou. Não adianta me intrometer nisso. É possível que nos dividamos quando for necessário.

 - Pode vir! - Disse a garota morena, sorrindo abertamente. Sophie suspirou de alívio, a tensão sumindo de seus ombros.

 - Ah, obrigada. - Sorriu. Os outros dois a acompanharam, se virando para continuar a jornada. Durandar à direita continuava cuspindo nuvens de fumaça que se estendiam para a floresta que o cercava, cobrindo algumas formas altas e distantes no horizonte.

 No entanto, o sol logo chegaria.



Atos Finais