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22 de abril de 2015

Conventionis: Capítulo 3 - Sobre madeira e sangue


Eu me lembro até agora de quando decidi deixar que Amanda me acompanhasse. Poderia ter fugido. Corrido para longe. Fingido de morto e esperado ela sair. Volto toda hora a esse momento me perguntando: o que me impediu?

 Se eu soubesse o que iria acontecer, talvez 

 - O que é isso? - Perguntou uma voz feminina, se aproximando do escritor. Este resmungou e puxou as folhas para longe, continuando.

 talvez tivesse fugido. 

 Essa garota já tentou me matar umas cinco vezes, tudo isso em menos de seis horas. Ela já segurou um galho e o soltou no meu rosto. Me fez contornar uma árvore pelo lado errado para cair de um barranco. Saco, me acertou com o cotovelo umas três vezes quando eu estava andando perto demais. Ela disse que todos os casos foram acidentais, mas ou está mentindo e quer me matar, ou está falando a verdade e simplesmente atrai todo tipo de azar pra cima de mim.

 E tudo só com

 - Hein, o que é isso? - Amanda se inclinou para ler o que Dalan estava escrevendo, mas esse direito foi novamente negado.

 só com algumas horas. Quantas tentativas de assassinato eu vou sofrer até chegar em Steamunk? Talvez eu devesse fugir.

 E talvez eu devesse parar de escrever essas coisas quando ela está tão perto.

 Dalan suspirou e guardou os papéis, enrolando-os de forma firme no bolso. Suas roupas estavam sujas e um pouco rasgadas, e raminhos se amontoavam em seus cabelos negros. A garota ao seu lado, aparentemente impecável, continuou com a expressão animadamente obtusa enquanto o observava.

 - O que foi? - Disse o rapaz rabugento, se afastando do tronco. Estavam em uma outra clareira, um pouco menor do que a anterior. A mata havia se tornado mais fechada, dificultando o acesso do sol recém-acordado. Haviam decidido dormir depois da longa caminhada, mas isso não significava que Amanda estava cansada. Pelo contrário, ela subia e descia minimamente na ponta dos pés enquanto esperava o rapaz. Parou imediatamente quando conseguiu a atenção.

 - Você já acabou? - Perguntou com os grandes olhos piscando.

 - Já. - Soltou irritado o garoto, deitando na grama fria e úmida. Ela se posicionou ao seu lado, juntando as mãos em cima do estômago.

 - O que você estava fazendo?

 - Escrevendo no meu diário. - O rapaz se espreguiçou, movendo o corpo para longe da outra.

 - Ah. - A garota fez um muxoxo, fechando o rosto. - Pensei que era algo interessante. - Dalan estreitou as sobrancelhas e se virou para o lado. - Estou com fome. - Comentou a outra.

 Naquele momento o estômago do rapaz deu uma torcida. Franziu o rosto em resposta. - Amanhã vamos procurar algo. Por enquanto vá dormir.

 - Você que manda. - E surpreendentemente, ela apagou em segundos. Dalan por sua vez ficou se revirando. Estava novamente pensando em Diana. Seu pescoço queimava conforme as lembranças surgiam, assim como as indagações de como ela estaria naquele momento. Será que estava pensando nele? Será que já havia seguido em frente? Não haviam respostas para aquelas perguntas, dando espaço para que o pior caso se implantasse em sua mente. Será que ela já arrumou outro?

 Assim que pensou nisso, uma mão bateu com força em seu rosto. O garoto abriu os olhos, percebendo que Amanda já havia se aproximado no meio do sono e se esparramado completamente. Procurou afastar o braço dela, mas ele parecia bem disposto a continuar onde estava. Dalan acabou suspirando e revirando os olhos, de repente tão exausto que as pálpebras se fecharam imediatamente.

 Algumas horas depois, estavam os dois de volta à caminhada, acompanhados pelas canções de pássaros silvestres e pelo sol da tarde que começava a se destacar. Um raio de luz banhou o rosto de Amanda, descansado e animado. Ela avançou com um sorriso, deixando a iluminação abraçar a face tenebrosa do companheiro, seu corpo cheio de dores. Havia sido chutado e espancado durante o sono, e pequenas manchas roxas se propagavam pela pele. Seus olhos estavam fixos nos cabelos longos e castanhos da outra, pensando em diversas formas de vingança.

 Estava considerando derrubá-la de um precipício quando ela parou abruptamente, fazendo com que o rapaz batesse a boca em seu cocoruto.

 - Ai! - Recuou com a mão no maxilar. - Que diabos... - Acabou fungando, e com isso estancou. Havia um odor adocicado e enjoativo no ar, tão forte que parecia eclipsar seus outros sentidos. Levantou a cabeça, de repente temeroso.

 Estavam de frente a uma clareira colossal, com suas bordas se estendendo até onde os olhos conseguiam alcançar, perfeitas demais para serem naturais. No centro, uma fortaleza de madeira se agigantava, composta por muros de toras afiadas e pequenos casebres que se aglomeravam na vertical clamando por atenção. Só que havia algo de mais chamativo do que a enorme construção, e isso era o cemitério ao redor dela.

 Corpos de orcs estavam espalhados pela grama curta, tingida de vermelho escuro que se secava nas feridas em pele verde. Alguns estavam acompanhados de seus machados, outros de longas espadas, e uma minoria de escopetas grandes e desajeitadas. Dalan, ainda em estupor, notou que as criaturas estavam bem longe dos muros da fortaleza, mortas no espaço livre que separava a construção das árvores. Era um sinal, percebeu. Mantenham-se longe.

 Estava prestes a dizer isso a Amanda quando ela começou a andar, saindo da proteção das árvores. Imediatamente a puxou pelo colarinho. - O que pensa que está fazendo? - Sussurrou, como se conseguisse ser ouvido na cidade.

 - Precisamos de comida. - Respondeu a outra dando de ombros, como se estivesse comentando o tempo.

 - Nós... - Naquele momento o estômago de Dalan roncou audivelmente, o encabulando. Pigarreou para recuperar a compostura. - Não sei se você percebeu, mas tem meio que um sinal dizendo para nos afastarmos.

 - São orcs. - Apontou Amanda. - Quem matou eles está do nosso lado.

 - Esse é um pensamento meio simplista. - Disse o rapaz fazendo uma careta. A outra sorriu e se virou com graça, pisando com passos fortes até a fortaleza. Ele ficou tentado a deixá-la ir, mas também estava faminto.

 Os dois caminharam pelo espaço aberto, de olhos bem abertos para a situação ao redor. Evitavam os corpos e os rios de sangue, mas aquela atenção aos mortos logo se provou um erro. Dalan se deixou observar pelos olhos vazios de um orc, seu rosto emoldurado em uma expressão de horror eterno. Uma de suas grandes presas estava partida, provocando uma assimetria na boca aberta.

 O garoto balançou a cabeça e se forçou a focar na construção à frente. O muro parecia bem mais firme agora que estavam mais próximos, suas toras enroladas umas nas outras com grossas cordas de vinha. Não haviam portões à vista, mas avistou pequenos buracos cavados à mão na madeira grossa. As casas acima estavam vazias, escuras em suas janelas. Não parecia haver nenhuma alma viva ali dentro. E nem fora.

 Seus pés acabaram quebrando algo fino. Ele olhou para baixo, notando uma flecha verde partida em duas, quase que escondida pela grama da mesma cor. O que ela está fazendo aqui? E, de repente, sua mente fez o clique. Olhou ao redor, notando diversas outras flechas no chão e nos corpos dos orcs, camufladas pelas cores similares.

 E da fortaleza, ouviu o som de cordas se retesando.

 - Cuidado! - Sussurrou, puxando Amanda pelo ombro. Naquele momento uma flecha saiu da fortaleza, indo parar bem aos pés da garota. Dalan levantou a cabeça, avistando um punhado de arqueiros no topo do muro e nos buracos entre as toras. As pontas de suas flechas reluziam no sol da tarde, lhe dizendo que não havia como fugir. Haviam caído na armadilha.

 - Quem se aproxima de Durandar? - Perguntou uma voz, inidentificável àquela distância.

 Amanda deu um passo à frente. - Não digo meu nome par-- Seu companheiro se adiantou para tapar sua boca, mantendo-a sob controle.

 - Meu nome é Dalan Kault! - Gritou, ainda controlando a garota. - E esta é Amanda Vertreit! Somos apenas viajantes!

 - Com fome! - Conseguiu se soltar a garota antes de ser contida novamente. Alguns dos arqueiros se entreolharam, mas mantiveram os arcos montados.

 - As matas estão infestadas de orcs! - Gritou a voz novamente. Com mais atenção, Dalan notou que era um homem de bigode comprido no topo do muro, trajando um gorro negro com roupas almofadadas da mesma cor. - Estão me dizendo que conseguiram evitá-los? Sozinhos?

 - Tivemos um pouco de sorte. - Admitiu o garoto. - Deixamos o exército passar na nossa frente. - Uma ideia surgiu em sua mente com um estalo. - Temos informações sobre os orcs que podemos dividir! Só precisamos de abrigo e comida pela noite! - Amanda o encarou assustada, mas preferiu não retribuir. O homem ficou o observando por um tempo para em seguida ir para trás do muro, chamando um trio de companheiros para uma conversa.

 - O que você acha que eles vão decidir? - Perguntou a garota, conseguindo se livrar. Dalan a olhou preocupado.

 - Francamente? Vamos ter sorte se nos deixarem sair daqui sem uma flecha nas costas. - Ele virou o rosto em direção às árvores, tentando calcular o quanto teriam que correr para estarem em segurança, quando viu uma figura se aproximando. Deu um passo para trás antes de perceber que era uma humana. Mais precisamente, uma garota.

 Ela tinha cabelos loiros que desciam até o pescoço, bem colados ao rosto suave e de queixo fino. Possuía olhos grandes e verdes que se destacavam na pele pálida, assim como um nariz pequeno e lábios estreitos e rosados. Vestia uma capa de duas camadas da mesma cor dos olhos que cobria o tronco magro como uma manta, ambas as camadas decoradas nas pontas com linhas marcadas na textura fina. Por baixo da capa ela vestia uma camisa mais grossa e de tom mais claro, acompanhada por um short curto de uma cor mais intermediária. Botas marrons complementavam o visual, cobrindo os joelhos da garota junto com meias vermelhas.

 A recém-chegada avistou os dois outros garotos e desviou rapidamente o olhar. O arqueiro vestido de negro levantou a cabeça, notando sua presença. - SOPHIE! - Ela se encolheu ainda mais, desta vez corando.

 - Comandante Leon! - Gritou, se esforçando para levantar a cabeça e falar com voz firme. Suas mãos, no entanto, se retorciam ao lado dos quadris. - Não há mais nenhum orc na floresta, senhor!

 - E quanto ao indivíduo que saiu daqui ferido? - Perguntou Leon, se debruçando sobre a mureta afiada. - Conseguiu eliminá-lo?

 A garota corou com mais força, mordendo o lábio inferior. - Não, senhor. Não o encontrei. - Soltou, deixando a cabeça pender.

 - Que eu me lembre, Jacob acertou uma flecha no joelho daquele orc. - Começou o comandante. Suas mãos tremiam levemente sobre a amurada. - E mesmo assim você não o encontrou? Com toda a vantagem possível? E se ele voltar com reforços para atacar Durandar, o que você supõe que façamos? - Sophie não respondeu, evitando até mesmo o contato visual.

 - Eles podiam parar de brigar na nossa frente. - Comentou Amanda para Dalan, se virando para a fortaleza. - EI, VOC-- O garoto novamente colocou a mão na sua boca, a impedindo de completar sua frase. No entanto, o desconforto dos dois era aparentemente compartilhado pelo restante dos arqueiros. Uma mulher de gorro azul se destacou de sua posição e se aproximou de Leon, cochichando algo em seu ouvido. Ele ouviu com o rosto fechado, mantendo a expressão até depois da outra se afastar.

 - Você já falhou conosco vezes demais, Sophie. - Começou ele. A garota pareceu à beira das lágrimas, as unhas da mão enfiadas com força na pele. - Irei cuidar de sua punição ainda hoje. Por hora, apenas acompanhe esses dois. Serão nossos convidados pela noite. - Com isso, Leon se virou para adentrar a cidade, gesto acompanhado pela maior parte dos arqueiros.

 Sophie, do outro lado, permaneceu cabisbaixa onde estava por alguns instantes. Amanda olhou de relance para Dalan, como se esperasse ele fazer alguma coisa, mas o rapaz não tinha nenhuma ideia de como agir. Por fim, a garota loira recomeçou a andar, passando pelos dois enquanto encarava o chão.

 - Me sigam. - Pediu ela. Os dois viajantes se entreolharam, curiosos, mas a obedeceram. Caminharam na direção da fortaleza de madeira, ainda sob os olhos e arcos atentos dos arqueiros.

 Enquanto isso os orcs continuavam a apodrecer.

Atos Finais